sábado, 15 de junho de 2019

Diretor de Romeu e Julieta e O Campeão, Franco Zeffirelli morre aos 96 anos


O mundo da arte perdeu hoje um dos seus mais expressivos realizadores. Reconhecido por grandes trabalhos no teatro e no cinema, o diretor Franco Zeffirelli faleceu neste sábado (15), aos 96 anos, de causas naturais. Em declaração a Associated Press, Luciano, filho do cineasta, afirmou que o pai morreu na sua própria casa e que se foi de forma "pacífica". Dono de uma filmografia enxuta, mas memorável, Zeffirelli foi um realizador reconhecido pela sua sensibilidade narrativa e pelo seu apreço ao clássico. Um apaixonado por William Shakeaspeare e pelo mundo da Ópera, ele ganhou o mundo com as elogiadas adaptações de A Megera Domada (1967), Romeu e Julieta (1968), La Traviata (1982), Otello (1986) e Hamlet (1990). Filmes grandiosos e glamourosos fieis à imponência do material fonte. Por trás da sua latente veia artística, entretanto, existia um religioso convicto e conservador, um homem de opiniões fortes e um tanto quanto questionadas. Um dos maiores críticos de A Última Tentação de Cristo (1988), Zeffirelli tentou impedir que o clássico de Martin Scorsese fosse exibido na Itália, algo impensável para um produtor cultural. Com uma visão muito mais tradicionalista sobre o dogma religioso, o diretor italiano entregou dois dos mais assistidos filmes do gênero da sua geração, os populares Irmão Sol, Irmã Lua (1972) e Jesus de Nazaré (1977). Durante muito tempo, aliás, a versão da Paixão de Cristo estrelada por Robert Powell foi amplamente exibida em solo brasileiro, em especial nos feriados cristãos. 


Responsável por um dos filmes mais tristes da história recente do cinema, Franco Zeffirelli tirou do papel a sua versão do 'hit' Rocky: O Lutador (1976) no marcante O Campeão (1979). Com Jon Voight na pele de um pugilista decadente e viciado em jogos, o realizador italiano construiu um poderoso drama familiar sobre um homem em busca de redenção aos olhos do seu querido filho T.J. Impulsionado pela monumental performance do jovem Ricky Schroder, o longa não conquistou o sucesso esperando na época do seu lançamento, mas triunfou nos anos seguintes no mercado doméstico e até hoje é lembrado pelo seu impiedoso clímax. O mesmo, porém, não podemos dizer do fiasco Amor sem Fim (1981). Estrelado pela jovem Brooke Shields, o romance brega foi detonado pela crítica, mas, ao menos, presenteou o público com o hit musical Endless Love, interpretado por Lionel Richie e Diana Ross. Seus últimos longas foram os sensíveis Chá com Mussolini (1999) e Callas Forever (2002), duas produções genuinamente femininas protagonizadas por nomes do quilate de Maggie Smith, Cher, Judi Dench, Lily Tomlin, Joan Plowright e Fanny Ardant. Dono de uma assinatura ímpar, oriunda da sua formação artística e do seu apreço pelos palcos das Óperas\Teatros, Franco Zeffirelli deixa um legado de filmes classudos, mas acessíveis, produções de alguém que sempre quis levar para o grande público as tradicionais peças\obras daqueles que ajudaram a formar a sua visão cinematográfica. 

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Doutor Sono, sequência do clássico O Iluminado (1980), ganha o seu soturno primeiro trailer


Foi divulgado agora a pouco o primeiro trailer de Doutor Sono, adaptação do livro de Stephen King e continuação direta do clássico O Iluminado. Sem medo de se associar à cultuada versão de Stanley Kubrick, a prévia traz Ewan McGregor (Moulin Rouge) como o adulto Danny, um homem aparentemente recuperado dos traumas da sua infância obrigado a encará-los mais uma vez quando encontra uma jovem em situação semelhante. Recheado de referências ao 'hit' setentista, o longa dirigido pelo talentoso Mike Flanagan (A Maldição da Residência Hill, Hush, Ouija: A Origem do Mal) promete buscar no antecessor a inspiração para expandir este universo, algo que fica bem claro no soturno teaser. Trazendo no elenco nomes como os de Rebecca Fergusson (Missão: Impossível - Nação Secreta), Jacob Trambley (O Quarto de Jack) e Bruce Greenwood (The Post: Guerra Secreta), 
Doutor Sono tem previsão de estreia para o dia 7 de Novembro no Brasil.


quarta-feira, 12 de junho de 2019

Do Fundo do Baú | A Cegonha Não Pode Esperar (1988)


Dirigido pelo talentoso John G. Avildsen, dos clássicos modernos Rocky: Um Lutador (1976) e Karate Kid (1984), A Cegonha não pode Esperar (1988) é uma daquelas pérolas oitentistas totalmente subestimadas. Além de marcar o último grande papel da estrela dos anos 1980 Molly Ringwald dentro do universo dos filmes 'high-school', o longa foge do lugar comum ao trazer a maturidade para este popular subgênero, refletindo sobre a maternidade na adolescência numa comédia romântica leve, engraçada, mas consciente das suas responsabilidades. 

Embora, na transição para o último ato, o roteiro assinado por Tim Kazurinsky e Denise DeCluese agarre nos melodramas sentimentais típicos do segmento sem grande pudor, John G. Avildsen é cuidadoso ao traduzir o impacto de uma gravidez inesperada na rotina de dos Annie (Molly Ringwald) e Stan (Randal Batinkoff), uma dupla cheia de sonhos e metas a alcançar. Impulsionado pela radiante presença da estrela de Gatinhas e Gatões e Clube dos Cinco, que, infelizmente, não conseguiu repetir na sua fase adulta o sucesso conseguido na "adolescência", o realizador esbanja sinceridade ao mostrar a realidade dos fatos, ao explorar temas espinhosos como a possibilidade do aborto, a adoção, os conflitos familiares, o casamento precoce, as repentinas mudanças de perspectivas de vida e (logicamente) a árdua rotina materna\paterna. 

terça-feira, 11 de junho de 2019

Crítica | Thelma

Empoderamento e liberdade

Herdeiro natural do clássico Carrie: A Estranha (1976), Thelma é uma obra inquietante, um 'coming of age movie' travestido de filme de Terror sobre o impacto da repressão na construção da identidade de uma jovem. Conduzido com elegância e uma desconfortável rigidez pelo promissor diretor Joachim Trier, o longa norueguês é perspicaz ao usar o viés fantástico na construção de uma alegoria sobre os conflitos sentimentais\sexuais de uma religiosa universitária. Embora não chegue a oferecer uma visão nova sobre o tema, um assunto, diga-se de passagem, bem recorrente dentro do gênero, o realizador é cuidadoso ao se concentrar no suspense psicológico, usando o elemento paranormal apenas como o ponto de partida para uma crítica envolvendo os perigos da repressão. 

domingo, 9 de junho de 2019

Top 10 (Black Mirror)


Confesso que resisti a assistir Black Mirror. Apesar dos elogios, a sensação era de já vi isso antes. Embora goste muito do formato, fugi do ‘hype’ até onde deu. Com o lançamento iminente da quinta temporada, porém, resolvi dar uma chance. E não me arrependi. Criada por Charlie Brooker, a série de antologia faz jus ao gênero Sci-Fi ao refletir sobre o nosso estilo de vida em sociedade com episódios (em sua maioria) instigantes e provocadores. Mais do que simplesmente atrair grandes nomes da TV e do Cinema, o realizador tratou de construir uma mitologia própria, criando um discreto elo entre os capítulos ao trabalhar com uma visão tecnológica extremamente reconhecível. Por mais absurdos que possam parecer alguns dos dispositivos “criados” pela série, os conceitos por trás deles são críveis, atuais e tem muito a dizer sobre a nossa dúbia relação com a tecnologia. Me impressionou bastante, por exemplo, a sagacidade de Brooker em trabalhar no aperfeiçoamento dos seus gadgets ao longo dos cinco anos, permitindo que o público pudesse entender o modo de funcionamento deles, as possibilidades, os problemas e a sua influência na rotina dos personagens. Por mais que alguns episódios prometam bem mais do que cumpram, Black Mirror como um todo consegue entregar o que se esperava de uma proposta tão ousada, culminando em alguns ‘insights’ realmente geniais. Com a estreia da 5ª temporada na Netflix, neste Top 10 decidi preparar uma lista com dez dos meus episódios favoritos desta questionadora produção. Muitos deles, diga-se de passagem, com um acabamento verdadeiramente cinematográfico, tamanho o grau da qualidade envolvida. Dito isso, começamos com...

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Crítica | I Am Mother

Alerta de descontaminação


Se tem algo que me enche os olhos na Netflix é o seu entusiasmo com o gênero Sci-Fi. Já escrevi isso neste espaço outras vezes, mas volto a frisar o quão importante é ver uma popular marca defender com unhas e dentes um segmento com essência tão reflexiva. Independentemente do nível das produções, o recente The Prospect, por exemplo, está entre os meus favoritos do ano até o momento, o fato é que a gigante do streaming já merece ser conhecida como a grande “janela” do gênero na atualidade. O que fica bem claro com os dois grandes lançamentos desta semana. No rastro da estreia da quinta temporada da aclamada produção original Black Mirror, I Am Mother faz jus ao viés crítico\alarmista da ficção-científica ao levantar instigantes questões acerca do rumo da humanidade. Embora sacrifique um pouco da complexidade do tema proposto ao se preocupar demais com a construção do suspense em torno do futuro distópico aqui apresentado, o imersivo longa dirigido pelo promissor Grant Sputore provoca ao nos levar para uma realidade em que robôs se tornaram os responsáveis pela reconstrução da raça humana, testando as nossas expectativas ao refletir sobre os motivos que nos colocaram nesta situação. Um destino inquietante que, mesmo diante das “palatáveis” intenções da película, culmina numa discussão filosófica inteligente envolvendo criador, criatura e o viés autodestrutivo do ser-humano. 

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Marilyn Monroe, Walt Disney... Conheça as celebridades do cinema mais populares da história segundo o MIT


O MIT (Massachusetts Institute of Technology) divulgou nesta quarta-feira (05) um complexo mapeamento da produção cultural na nossa história. No estudo, sustentado por algoritmos e uma engenhosa pesquisa científica, o respeitado instituto norte-americano decidiu listar quais seriam os homens e mulheres mais populares da história moderna. Intitulado Pantheon, o programa levou em consideração uma série de informações e dados, criando uma vasta 'database' a partir de dados como alcance dos nomes ao redor do mundo, extensão da obra, menções na Internet, popularidade nas plataformas digitais. Por exemplo, em quantas línguas tal autor foi citado, em quantos países tal realizador foi citado. Isso num período de 4000 AC até 2010. Com base nestes dados, o filósofo Aristóteles liderou a lista do MIT, seguido por Platão, Jesus Cristo, Sócrates e Alexandre, O Grande. Quando o assunto é o cinema, aliás, 37 nomes apareceram entre os 1000 mais populares. Um número até expressivo, principalmente quando paramos para pensar que a Sétima Arte existe há pouco mais de um século. Um período ínfimo se comparado com os 6 mil anos englobados pela pesquisa. Uma das figuras mais icônicas da sua geração, Marilyn Monroe é a estrela de cinema mais bem posicionada na lista. Nº 143 do ranking, a estrela de filmes como O Pecado Mora ao Lado e Quanto Mais Quente Melhor comprovou o poder da sua influência, ficando à frente de nomes como o cineasta Walt Disney (143 da lista), Bruce Lee (233) e Charlie Chaplin (243). No Top 1000 aparecem ainda nomes de realizadores que estão em plena atividade, entre eles Al Pacino (389 da lista), Clint Eastwood (442 da lista), Robert De Niro (495 da lista), Jack Nicholson (500 da lista), Arnold Schwarzenegger (508 da lista), Chucky Norris (578 da lista), Steven Spielberg (619 da lista), Sylvester Stallone (672 da lista) e Harrison Ford (920 da lista). Confira abaixo a seleção com as 16 celebridades do cinema mais populares segundo o MIT e clique aqui para mergulhar na vasta pesquisa do Pantheon. 


1º Marilyn Monroe (Nº 143)
2º Walt Disney (Nº 170)
3º Bruce Lee (Nº 233)
4º Charlie Chaplin (Nº 243)
5º Stanley Kubrick (Nº 300)
6º Marlon Brando (Nº 322)
7º Ingmar Bergman (Nº 372)
8º Al Pacino (Nº 389)


9º Marlene Dietrich (Nº 393)
10º Woody Allen (Nº 416)
11º Alfred Hitchcock (Nº 417)
12º Frank Sinatra (Nº 419)
13º Audrey Hepburn (Nº 424)
14º Clint Eastwood (Nº 442)
15º Robert De Niro (Nº 495)
16º Jack Nicholson (Nº 500)

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Crítica | Blue Jay

Um reencontro doloroso

Sobram adjetivos para definir esta pequena pérola chamada Blue Jay. Apaixonante, verdadeiro, complexo, revigorante, maduro. Um filme cada vez mais raro dentro do megalomaníaco mercado Hollywoodiano. Uma das vozes mais autorais do cinema 'indie' norte-americano, Mark Duplass (e a sua produtora Duplass Brothers) nos presenteia com um exercício cinematográfico inspiradíssimo, um relato nostálgico e naturalista sobre um inesperado reencontro. Sob a refinada batuta de Alex Lehmann, Blue Jay envolve ao acompanhar o reencontro de Jim (Mark Duplass) e Amanda (Sarah Paulson), um casal da juventude que, duas décadas depois, numa coincidência do destino, se "esbarra" novamente em sua pequena cidade natal.

domingo, 2 de junho de 2019

Fugindo do Hype | Como Treinar o Seu Dragão 3

Hora de voar sozinho

Lançado sem grande alarde, Como Treinar o Seu Dragão (2010) surpreendeu o público, a crítica e muito provavelmente os executivos da própria Dreamworks ao se revelar um triunfo inquestionável. Estávamos diante de uma pérola moderna da animação, uma obra visualmente magnífica, narrativamente empolgante e acima de tudo com coragem para ir muito além dos clichês que se acostumaram a tomar conta das aventuras do gênero. O diretor Dean Deblois conseguiu extrair a essência lúdica\emotiva da série de livros da escritora Cressida Cowell e entregar um blockbuster com um grande coração. Um misto de pureza e ousadia que ajudou a definir o audacioso Como Treinar o Seu Dragão 2 (2014). Com algumas das soluções narrativas mais corajosas vistas dento do segmento nos últimos anos, Deblois nos brindou com uma continuação memorável e superior ao original, avançando em alguns temas importantes ao refletir sobre o valor da amizade numa sociedade vil e gananciosa. Mais do que simplesmente estreitar os laços entre o futuro Rei Soluço e o seu simpático dragão Banguela, o realizador nos presenteou com um denso ‘coming of age movie’, um relato comovente sobre o amadurecimento precoce e a tão temida chegada da vida adulta. Um tema rico que segue ditando o rumo da jornada de Soluço no adorável Como Treinar o Seu Dragão 3 (2019), o tão esperado e competente desfecho para uma das melhores trilogias da história da Sétima Arte. Com um revigorante senso de conclusão, Deblois entrega um capítulo final mais maduro e singelo, uma sequência consciente que o seu diferencial não estaria em grandes batalhas, ou na construção de um novo e temido vilão, mas essencialmente na força dos seus queridos personagens.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Dez filmes recentes que não ganharam o devido crédito junto ao público brasileiro

Entre eles A Mula, Oitava Série e Você Nunca Esteve realmente aqui.


Numa era em que blockbusters como Vingadores: Ultimato “dominam” (compreensivamente) as salas de cinema ao redor do mundo, alguns (muitos) outros filmes não tem a mesma sorte. A competição é grande, a sede pelo lucro também, o que impede tantos títulos de não conquistarem o mesmo espaço\atenção. Em muitos casos, inclusive, verdadeiras pérolas passam completamente despercebidas simplesmente pela falta de uma “janela” de exibição. Embora hoje, com o fortalecimento dos serviços de ‘streaming’, parte destas obras encontrem rapidamente o seu público, é inegável que inúmeras delas acabam por cair no esquecimento e passam longe de adquirir o status que mereciam. Aqui no Cinemaniac, aliás, eu sempre tento dar espaço para estas subestimadas (ou então esnobadas) produções. Longas que, sabe-se lá porque, se perdem em meio ao emaranhado de lançamentos e a um (ainda hoje) falho sistema de distribuição em solo brasileiro. Neste artigo, portanto, decidi preparar uma lista com dez filmes recentes que não ganharam o devido crédito junto ao público. E, melhor. Todos já disponíveis nos principais serviços de streaming. 

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Crítica | Stan e Ollie

Uma dupla em perfeita sintonia

Stanley Laurel e Oliver Hardy estão, ao lado de Charles Chaplin, dos Irmãos Marx e de Buster Keaton, entre as grandes entidades da história da comédia moderna. Com o seu inacreditável ‘timing’ cômico e uma inocente visão de humor, a dupla fez de O Gordo e o Magro uma verdadeira marca do gênero, arrancando risadas de plateias ao redor do mundo e influenciando uma geração de comediantes que viria a nascer entre os anos 1930 e 1960. O que seria, por exemplo, de nomes como Os Três Patetas, Abbott e Costello, Jerry Lewis, Roberto Bollaños e tantos outros sem a “fórmula” popularizada por esta icônica parceria. Infelizmente, entretanto, Laurel e Hardy não tiveram a mesma “sorte” de alguns dos seus parceiros de geração. Embora nunca tenham perdido o apreço do grande público, seus curtas e filmes não o transformaram em milionários. Suas produções nunca foram tratadas com o mesmo prestígio dos longas de Chaplin, Keaton e dos Marx. Prova disso é que só agora, em 2019, mais de cinco décadas depois da morte da dupla, o Gordo e o Magro ganham uma cinebiografia de respeito com o comovente Stan & Ollie. Sob a delicada batuta de Jon S. Baird (Filth), o longa invade os bastidores da complicada última turnê destes verdadeiros astros da comédia sem renegar o humor pueril que os consagrou, reverenciando a genialidade da dupla mesmo na sua fase mais vulnerável e decadente. Uma visão amistosa e contida sobre os fatos potencializada pelas soberbas performances de John C. Reilly e Steve Coogan, que, tal qual os biografados, exibem em cena uma sintonia perfeita.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Crítica | Robin Williams: Entre Na Minha Mente

As agruras de um gênio indomável

No último final de semana chegou aos cinemas de todo o mundo a versão ‘live-action’ de Aladdin, uma aguardada produção que desde a sua “gênese” causou um misto de comoção e expectativa por parte dos fãs deste clássico Disney. Com o lançamento da obra, entretanto, veio um sabor ligeiramente amargo. Robin Williams não está entre nós para encarar um dos personagens mais marcante da sua inesquecível filmografia. Por melhor que seja o igualmente radiante e talentoso Will Smith, a nova versão de Aladdin estreia “desfalcada” daquele que conferiu a identidade que transformou a animação dirigida por Ron Clements e John Musker numa peça chave na retomada dos estúdios Walt Disney após um desértico período de entressafra criativa. Na pele do expansivo e histriônico Gênio, Williams encontrou a liberdade que talvez o mundo real nunca lhe permitiu ter. Acostumado a arrancar risadas basicamente com seus trejeitos e a sua incrível versatilidade vocal, o astro de Bom Dia Vietnã e Uma Babá Quase Perfeita se viu capaz de exprimir toda a sua verve criativa através deste co-protagonista, criando assim um dos tipos mais queridos do vasto panteão da Disney e um dos personagens mais marcantes da minha infância. Foi com a tristeza do menino que cresceu vendo Robin Williams arrancando risadas por onde passava que, em 2014, tive que publicar o artigo sobre a repentina morte deste magnético ator. Como aquela força da natureza, aquele comediante indomável, aquele ser humano imparável, pôs fim a sua própria vida¿ Essa era a pergunta que ficou martelando a minha cabeça durante algum tempo. Um questionamento que, de certa forma, dita o tom do precioso documentário Robin Williams: Entre na Minha Mente, produção original HBO que com um misto de reverência e humanidade invade a intimidade do homem por trás do riso fácil, escondido sob o holofote do sucesso.

domingo, 26 de maio de 2019

Crítica | The Perfection

A hora do contra-ataque

Buscar a perfeição em algo tão subjetivo quanto a arte é algo praticamente impossível. Ao longo de quase onze anos de Cinemaniac, na verdade, eu não me lembro de sequer ter usado este poderoso adjetivo para definir um filme. Até os mais talentosos erram. Consciente disso, The Perfection testa as nossas expectativas ao desvendar o quão tortuoso (e torturante) pode ser a obsessiva busca por algo tão inatingível. Produção original Netflix, o vistoso longa dirigido por Richard Shepard surpreende ao, mesmo transitando por assuntos tão reconhecíveis, não se prender tanto a um contexto verossímil, se equilibrando entre o suspense psicológico e o horror alegórico numa obra que não se envergonha das suas imperfeições. Mesmo com alguns nítidos problemas de acabamento, o imprevisível longa impacta ao permitir que o real e o absurdo caminhem de mãos dadas ao longo de toda a película, elevando gradativamente o nível de tensão ao revelar até onde duas virtuosas da música clássica estavam dispostas a ir para recuperarem algo tão precioso. 

sábado, 25 de maio de 2019

Crítica | Fim do Mundo – Rim of The World

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No papel, Fim do Mundo tinha todos os ingredientes necessários para funcionar. Um ‘plot’ do tipo “crianças vs mundo” que tem feito muito sucesso em títulos recentes como Super 8 (2011), Ataque ao Prédio (2011), It: A Coisa (2017) e (claro!) Stranger Things. Um elenco diversificado e carismático. Uma janela de exibição do porte da Netflix. O resultado, porém, é uma verdadeira bagunça visual e narrativa que se escora basicamente no humor carregado de referências pop e na genuína energia juvenil impressa pelos protagonistas. Sob a confusa batuta do diretor McG (As Panteras), num dos piores trabalhos da sua irregular filmografia, Rim of The World (no original) se revela uma aventura com seríssimos problemas de tom, efeitos digitais dolorosamente artificiais e um argumento incapaz de sustentar as pretensões narrativas do diretor. Nunca pensei que fosse escrever isso, mas os incontáveis clichês e as conveniências narrativas são o menor dos problemas aqui. 

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Linda Hamilton 'is back' no impactante primeiro trailer de O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio


Ao que tudo indica - finalmente - a franquia Terminator (no original) voltará aos trilhos. Após o problemático A Salvação (2009) e o desastroso Gênesis (2015), o criador da saga James Cameron decidiu reassumir o controle criativo da sua estimada obra no já promissor O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio. Disposto a apagar a má impressão deixada pelos últimos dois longas, a continuação dirigida por Tim Miller (Deadpool) promete dar sequência ao antológico segundo filme ao colocar Sarah Connor (com Linda Hamilton de volta a personagem) e a destemida Grace (Mackenzie Davis) contra uma sombria e destruidora ameaça. Pelo teaser é incerto entender em qual contexto a trama estará situada. Se no presente, se no futuro, se numa linha alternativa? A grande novidade, aqui, parece ficar pela personagem de Grace, uma "soldada assassina" incapaz de se enxergar como uma máquina. Trazendo ainda Arnold Schwarzenegger de volta como um envelhecido T-800, O Exterminador do Futuro: Dark Fate (no original) tem previsão de estreia para o dia 31 de Outubro no Brasil. Confira abaixo o instigante e empolgante primeiro preview.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Crítica | Euphoria

Entre a tristeza e a solidão

Já no seu título, Euphoria não faz questão de esconder a sua face mais provocadora. Estamos diante de uma obra pesada, melancólica, com muito a dizer sobre males reconhecíveis, daqueles que permeiam o nosso estilo de vida urbano. Muito mais do que um drama de redenção e reconexão entre duas afastadas irmãs, o longa dirigido por Lisa Langseth se arrisca ao ir além da superfície, ao encontrar nas agruras delas o material para tecer uma crônica pessoal sobre duas mulheres vítimas das suas próprias escolhas. Sob a perspectiva do fim iminente, a realizadora toca em questões naturalmente complexas ao refletir sobre o vazio que nos cerca, sobre as nossas contradições na busca por algo pelo que viver. Uma discussão por si só densa, mas que ganha contornos mais inquietantes quando nos deparamos com o contexto proposto pelo longa e as poderosas performances de Alicia Vikander e Eva Green. 

terça-feira, 21 de maio de 2019

Leonardo DiCaprio e Brad Pitt encaram o fervor de Hollywood no enérgico novo trailer de Era uma Vez em Hollywood


Foi divulgado agora a pouco o vigoroso novo trailer de Era Uma Vez em Hollywood, o nono trabalho do cultuado diretor Quentin Tarantino. Com um elenco fenomenal, a prévia promete invadir um período efervescente da cultura norte-americana sob a perspectiva de um astro decadente e o seu estimado dublê. Com Leonardo DiCaprio e Brad Pitt, respectivamente, nos papeis de Rick Dalton e Cliff Both, a prévia prepara o terreno para abordar a morte da promissora atriz Sharon Tate (interpretada por Margot Robbie) e a relação dela com o infame Charles Mason (vivido por Damon Herriman). Trazendo no elenco nomes como os de Al Pacino, Damian Lewis (que será o ator Steve McQueen), Kurt Russel, Dakota Fanning e Bruce Dern, Era uma Vez em Hollywood tem previsão de estreia para o dia 15 de Agosto no Brasil. Confira abaixo o enérgico trailer.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Fugindo Hype | Vidro

Uma ode ao fantástico

M. Night Shyamalan detesta o lugar comum. Seus projetos, gostem ou não, trazem sempre mensagens significativas para o autor. Óbvio que nem sempre ele acerta. Mas, mesmo nos seus piores filmes, é inquestionável que estamos diante de um diretor com algo de novo a oferecer sobre temas\gêneros tão saturados. O que fica mais uma vez bem claro em Vidro, o corajoso desfecho de uma trilogia que nasceu da despretensão. No vácuo do estrondoso O Sexto Sentido (1999), o Corpo Fechado (2000) não causou o mesmo impacto do que o seu antecessor na época do seu lançamento. Num momento em que o segmento andava totalmente enfraquecido, Shyamalan tirou do papel um filme de super-herói “pés no chão”, com uma original abordagem mundana que, embora não tenha emplacado num primeiro momento, ganharia um status cult nos anos seguintes. Uma visão singular que, para a surpresa de muitos, voltou a ser explorada mais de uma década depois com o enervante Fragmentado (2016). Um verdadeiro fã da nona arte, em especial dos quadrinhos de super-heróis, colocou um ponto final na sua entressafra criativa num filme instigante, tenso e provocador. Outra vez Shyamalan colocou as nossas expectativas em cheque, encontrando na simples mudança de gênero o seu ‘plot twist’. Boom! De uma hora para outra nascia um expressivo novo Universo Cinematográfico. 

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Crítica | A Gente se Vê Ontem (See You Yesterday)

De volta para a realidade

Os filmes de viagem do tempo são tão populares por provocarem o imaginário do público. E se realmente tivéssemos este poder? Usaríamos para unir os nossos pais como em De Volta para o Futuro (1985)? Para livrar o mundo de uma epidemia como em Os Doze Macacos (1995)? Para caçar um perigoso assassino como em Alta Frequência (2000)? Para evitar um ataque terrorista como em Contra o Tempo (2011)? Ou então para conquistar a mulher que amamos como em Questão de Tempo (2013)? As possibilidades seriam tantas... Mas as consequências também. O que fica bem claro no mais novo e instigante título do gênero, o corajoso A Gente se Vê Ontem. Produzido pelo ícone do cinema afro-americano Spike Lee, o longa dirigido por Stefan Bristol revigora este particular subgênero ao trazê-lo para um contexto bem mais atual e realístico. Inspirado por títulos como Faça a Coisa Certa (1989), Os Donos da Rua (1991) e o recente Dope (2013), a surpreendente produção original Netflix compensa os seus evidentes problemas de tom ao refletir sobre a vulnerável posição de um jovem negro dentro da sociedade norte-americana, escondendo na roupagem aventuresca uma pesada crítica  política envolvendo a violência policial e as imutáveis feridas causadas por esta rotineira mazela social. 

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Crítica | Cafarnaum

O manifesto dos esquecidos

Escrever sobre Cafarnaum é algo muito difícil. Estamos diante de uma obra que fala por si só. Um filme enfático. Corajoso. Com um viés crítico implacável. Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o longa dirigido por Nadine Labaki invade a realidade dos marginalizados ao escancarar as mais profundas feridas causadas pela desigualdade social. Consciente da sua responsabilidade enquanto porta-voz das mais inocentes vítimas da marginalização, as crianças, a realizadora libanesa desconcerta ao imprimir em tela uma realidade universal, desoladora, um retrato doloroso sobre um jovem astuto disposto a processar os seus país na justiça por negligência parental. Com a propriedade necessária para questionar o círculo vicioso por trás da situação do protagonista, Labaki se insurge contra o abandono familiar\estatal sem um pingo de condescendência, provocando reações conflitantes ao expor sob a desprotegida perspectiva infantil o quão perversa pode ser a vida. 

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