sexta-feira, 3 de julho de 2020

Crítica | Ninguém Sabe Que Estou Aqui

Voz roubada

Para um artista, poucas coisas devem ser tão dolorosas quanto perder o direito sobre a sua arte. Ali está a essência do criador. Ali está o seu coração. Ali está a sua voz. No mundo da música, até bem pouco tempo, era comum ver grupos musicais formados com base na estética. O dom era (e ainda é) engolido pela beleza. Uma farsa que arruinou a vida de muita gente. Alguns nunca se recuperaram. Com base neste tema, Ninguém Sabe Que Estou Aqui envolve ao mostrar o destino daqueles que tiveram a sua voz “roubada” por interesses comerciais. Distribuído pela Netflix, o longa dirigido por Gaspar Antillo renega os clichês das histórias de redenção ao traduzir o dilacerante impacto deste processo na identidade de um artista. 

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Artigo | Os 104 anos de Olivia de Havilland, a atriz que desafiou a indústria do cinema (e ganhou!)


Muitos não sabem a importância de Olivia de Havilland para o mundo do cinema. A ícone da Era de Ouro que completou 104 anos hoje, foi pioneira na luta pela independência dos atores em Hollywood. Até os anos 1940, as estrelas da Sétima Arte praticamente "pertenciam" aos grandes estúdios. Eles ditavam as regras do jogo, o rumo das suas carreiras e por consequência o destino artístico dos seus contratados. Com o contrato assinado, atores e atrizes perdiam qualquer controle sobre os seus futuros projetos. Na sua juventude, Olivia de Hallivand construiu o seu nome dentro da indústria em filmes como As Aventuras de Robin Hood (1938), ...E o Vento Levou (1939) e A Porta de Ouro (1941). Consagrada como o par do astro do gênero capa e espada Errol Flynn, Olivia de Havilland queria mais. Queria novos desafios. 

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Crítica | Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars

Os elfos foram longe demais

Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars é uma bobagem inacreditável. E talvez por isso seja tão divertido nos seus melhores momentos. Embora previsível, clichê e particularmente tolo, o longa dirigido por David Dobkin (O Juiz) arranca honestas risadas ao debochar da pasteurização da música pop atual. Sem um pingo de vergonha alheia, os talentosos Will Ferrell e Rachel McAdams abraçam a galhofa com gosto numa obra capaz de extrair a ironia da breguice.  

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Cinco Filmes | Paul Thomas Anderson

É fácil entender porque Paul Thomas Anderson se tornou referência de qualidade no cinema americano. Não estamos diante somente de um cineasta autoral, mas de um artista autoral. Alguém que sempre se manteve fiel às suas convicções. O que dialoga com a sua trajetória enquanto realizador. PTA nunca escolheu o caminho mais fácil. O diretor refinado que completa 50 anos hoje começou a sua carreira como assistente de produção na televisão, em alguns filmes, em clipes musicais e até mesmo em game shows. Apaixonado pela Sétima Arte, ele sempre soube o que queria. 


quinta-feira, 25 de junho de 2020

Crítica | 7500

O (anti) herói

Um piloto americano se torna a última linha de defesa do seu avião quando um grupo de terroristas invade um voo internacional. Você provavelmente já viu esse plot em alguma outra produção. Nunca desta forma. Uma experiência sensorial única, 7500 trata a realidade como o seu grande objetivo. Esqueça o clichê do herói ‘yankee’ que salva o dia no melhor estilo John McClane. O diretor Patrick Vollrath renega qualquer flerte com o escapismo ao fazer do naturalismo o grande diferencial. Aqui, assim como o protagonista, nós somos reféns da realidade. 

terça-feira, 23 de junho de 2020

Crítica | Wasp Network

Lição de casa mal feita

Existem claramente dois filmes em Wasp Network. O primeiro é uma bomba inacreditável. Um recorte distorcido sobre a realidade de Cuba no regime Fidel Castro que sacrifica o complexo contexto histórico (e outras cositas mais) em prol de uma tola tentativa de criar um twist narrativo. O que nos leva ao segundo filme. No momento em que decide se aproximar da realidade dos fatos, o respeitado diretor Olivier Assayas eleva o nível do material ao mostrar a miserável posição social do povo cubano diante de um cenário político recheado de nuances. O estrago fílmico, porém, já estava feito. Estamos diante de uma obra rasa e ao mesmo tempo inchada que subaproveita as suas claras virtudes ao trocar o drama humano pela frieza dos thrillers de espionagens. Uma solução bem pouco latina. 

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Luto | Diretor de Os Garotos Perdidos e Batman Eternamente, Joel Schumacher morre aos 80 anos


Diretor de Os Garotos Perdidos (1987) e Batman Eternamente (1995), Joel Schumacher faleceu hoje aos 80 anos. A informação foi dada pela Variety. O realizador vinha lutando contra o câncer nos últimos anos. Eclético e autoral, Schumacher triunfou com títulos como O Primeiro Ano do Resto das Nossas Vidas (1985), Linha Mortal (1990), Um Dia de Fúria (1993), O Cliente (1994), Tempo de Matar (1996), Ninguém é Perfeito (1999), Por um Fio (2002) e O Custo da Coragem (2003). Basta olhar para esta lista para termos a noção da singularidade do cineasta. Ele se acostumou a transitar da comédia ao drama. Do terror ao universo dos super-heróis. Até no gênero musical ele se adaptou, com a popular adaptação de O Fantasma da Ópera (2004). 

domingo, 21 de junho de 2020

Artigo | Os 40 anos de A Lagoa Azul, o filme evento das sessões da tarde nos anos 1990


Como pode um filme com cenas de nudez, morte, violência, sexo e insinuação de incesto ter feito tanto sucesso nas sessões da tarde dos anos 1990? Parando para pensar, talvez tenha sido justamente por conter estes ingredientes... Só quem era vivo na época do Cinema em Casa e da Sessão da Tarde sabe qual era o verdadeiro ‘status’ de A Lagoa Azul. Era o filme evento da TV aberta. O Vingadores: Ultimato do papo na escola. Na época em que o streaming nem sonhava em existir, nós dependíamos da TV aberta para ver filmes no dia a dia. Perdeu, já era. O que no caso de A Lagoa Azul nem era um problema tão grande assim. Não era difícil conhecer algum tio, amigo ou parente com uma cópia VHS do filme em casa. Na pior das hipóteses, dentro de alguns meses o título era exibido novamente. Só na Globo, segundo dados da própria emissora, A Lagoa Azul foi ao ar 20 vezes na faixa de horário vespertina desde a sua primeira exibição em 1987. Talvez por isso o filme tenha permanecido tão vivo no imaginário do público brasileiro.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Lista | Vinte Filmes Indispensáveis para Conhecer o Cinema Nacional


Nunca foi tão importante escrever sobre o cinema brasileiro. Desde os anos 1990, com o fatídico fim da Embrafilme, o cenário não se revelava tão sombrio para as produções nacionais. Hoje temos no poder alguém que enxerga a classe artística como um inimigo. O Ministério da Cultura foi literalmente rebaixado. Os representantes do governo parecem mais interessados em destruir do que em produzir. O coronavírus paralisou produções, fechou exibidores e limitou investimentos do setor privado. Está cada vez mais claro que o cinema precisará enfrentar um novo processo de reconstrução no Brasil. E o público (como de costume) será peça chave neste período. Exaltado por poucos, estigmatizado por muitos, o cinema brasileiro é (gostem ou não) uma potência mundial. Mesmo com inúmeros períodos de desaceleração no investimento, as produções nacionais sobreviveram na base da resistência. Muitas foram aclamadas ao redor do mundo. Nós, me incluo nesta, precisamos conhecer o real cinema nacional. Notar a pluralidade, a veia crítica, a riquíssima história. Neste Dia do Cinema Brasileiro, portanto, preparei uma lista com vinte filmes indispensáveis para conhecermos um pouco da grandeza das nossas produções. Muitos destes disponíveis em ótima qualidade em players como o Canal Brasil, o Telecine e no próprio Youtube.

terça-feira, 16 de junho de 2020

Por Onde Anda? | Christopher Atkins


Há quarenta anos, mais precisamente no dia 19 de junho de 1980, A Lagoa Azul estreava nos cinemas norte-americanos. Um projeto ambicioso, com natureza polêmica, que para a surpresa de muitos se tornou um estrondoso sucesso de público. Dirigido por Randal Kleiser, o longa fechou o ano com a décima maior bilheteria nos EUA. Além disso, anos mais tarde, o romance dramático se tornou um fenômeno pop no mercado ‘home-vídeo’. Aqui no Brasil, qualquer um com mais de 25 anos sabe como eram aguardadas (e comentadas) as reexibições de A Lagoa Azul na TV aberta. O sucesso do longa, no entanto, ecoou de maneira diferente nas carreiras dos jovens protagonistas. Enquanto a bela Brooke Shields construiu uma carreira sólida no Cinema e na TV, o seu parceiro de set Christopher Atkins não demorou muito para sumir dos holofotes. 

sábado, 13 de junho de 2020

Crítica | Destacamento Blood

Lágrimas de Sangue

Poucos realizadores têm tanta propriedade para falar sobre o racismo enraizado nos EUA quanto Spike Lee. Suas obras escancaram a verdade nua e crua. Ele se acostumou a dar voz ao que sempre foram silenciados. A expor a realidade das ruas. As feridas de um ambiente desigual. A guerra urbana do nosso dia a dia que segue ceifando vidas negras. Em Destacamento Blood, Spike Lee discute a formação da identidade do afro-americano nos EUA num microcosmo complexo e raivoso. Ao contrário do empoderador Infiltrado na Klan (2018), o cultuado cineasta “corta na própria carne” ao traduzir o efeito insano da natureza bélica neste dilacerante processo. Os pecados de “guerra”, aqui, são chagas humanas que podem até manchar as virtudes dos seus personagens, mas nunca as apagam. Os pecados são parte de um círculo vicioso que Lee ataca com inigualável veemência numa obra talvez menos sofisticada que o seu último grande projeto, mas não menos contundente. 

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Doze cativantes romances dos anos 1980 para embalar este Dia dos Namorados


Estamos precisando nos divertir. Revigorar o clima. Nos últimos meses nos deparamos com uma sucessão de fatos tristes. A quarentena mudou a nossa rotina. Este, sem sombra de dúvida, será um Dia dos Namorados diferentes para muitos. Mais caseiro. Mais intimista. O que torna o cinema (em casa) uma ótima alternativa de entretenimento. E se é para melhorar o astral, nada melhor do que voltar para os anos 1980. Neste singelo artigo preparei uma lista com doze dos mais cativantes romances\comédia-romântica da década de oitenta. Nós precisamos nos embebedar do fator nostalgia.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Crítica | A Grande Mentira

Um golpe perigoso

O típico jogo de gato e rato cinematográfico que sempre funciona, A Grande Mentira contorna a aparente previsibilidade da premissa com um ‘plot’ bem mais complexo do que parecia sugerir. Sob a elegante batuta de Bill Condon, o longa reúne dois dos mais talentosos astros do cinema britânico, Helen Mirren e Ian McKellen, numa trama repleta de desdobramentos instigantes, dilemas profundos e uma forte carga passional capaz de tornar qualquer golpe perigoso. O resultado, apesar das indiscutíveis conveniências narrativas, é uma obra tensa, crescente e impactante. 

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Os 70 anos de Sônia Braga, o expressivo rosto do cinema brasileiro no mundo


"Antes de ser atriz, sou trabalhadora. As pessoas não compreendem a arte como uma profissão". Não é exagero constatar que Sônia Braga ajudou a construir a identidade do cinema nacional. Sua presença exuberante, combinada com o talento e a personalidade forte, fizeram dela um ícone. Um status que, ao contrário do que acontece com muitos, nunca a limitou. Sua beleza singular abriu portas. E ela soube o que fazer com isso. Soube defender através das suas personagens a libertação feminina, o empoderamento, a espontaneidade. Ela se acostumou a quebrar tabus. Poucas vezes uma subida ao telhado para pegar uma pipa foi tão emblemática quanto a inesquecível sequência de Gabriela (1975). Poucas vezes um protesto num tapete vermelho de um festival como o de Cannes foi tão enfático como o realizado na estreia mundial de Aquarius (2016). Ao longo de sete décadas de vidas, Sônia Braga escreveu (e ainda escreve) uma página ímpar na arte brasileira com grandes filmes, grandes atuações e uma dose de ousadia que poucas (bem poucas) tiveram a coragem de experimentar. 

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Crítica | The Last Days of American Crime

Uma experiência cansativa

Vou ser o mais direto possível na abertura desta crítica. The Last Days of American Crime é um dos piores filmes de ação que tive a oportunidade de assistir em anos. É inaceitável pensar que a mesma Netflix que nos brindou há algumas semanas com o enérgico Resgate, abriu a sua plataforma para esta cansativa bomba cinematográfica. Duas horas e meia de personagens pessimamente desenvolvidos, sequências de ação genéricas, violência inverossímil e uma explosão de conveniências narrativas. Uma metralhadora giratória de clichês comandada por um diretor que, para piorar, trata tudo com uma dose de seriedade incompatível com a maneira simplória com que aborda o realista elemento distópico. 


quinta-feira, 4 de junho de 2020

Crítica | Don't Let Go

Deja vu competente

Com uma abordagem intensa para um ‘plot’ reconhecidamente requentado, Don’t Let Go se apropria do conceito de viagem no tempo com autenticidade num thriller policial denso e instigante. Produção do selo independente da Blumhouse, a BH Tilt, o longa dirigido por Jacob Estes contorna a sensação de “já vi isso antes” ao abraçar o fantástico dentro de um contexto urbano e realista. Por mais evidentes que sejam as conveniências narrativas, o realizador faz jus aos melhores títulos do gênero ao transitar entre o passado e o futuro com dinamismo, alimentando o senso de perigo (e por consequência de imprevisibilidade) à medida que escancara o misto de desespero e vulnerabilidade dos protagonistas. Na verdade, ao invés de se concentrar na simples relação entre causa e consequência (o popular efeito borboleta), Estes é astuto ao focar na tênue (e perigosa) linha que separava o destino dos dois personagens, indo além da sobrevivência pela sobrevivência ao usar o Sci-Fi em prol da construção de um suspense tenso e adrenalizado.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Lista | Quinze Grandes Filmes sobre o Horror do Fascismo

Não basta não ser racista, precisamos ser antirracistas. Não basta não ser fascista, precisamos ser antifascistas. É dever de qualquer um que preze pela liberdade e pela democracia reagir a ascensão de alguns perigosos discursos. Sou da tese que precisamos instruir, coibir a repressão na base do diálogo. Alguns, infelizmente, simplesmente estão seguindo os seus distorcidos princípios. Vejo muita gente, porém, endossando "falsas verdades" na base da ignorância, sem sequer desconfiar da raiz de tudo isso. A história, como sabido, se dá em ciclos e nós temos que nos posicionar contra qualquer resquício de totalitarismo. Não podemos nos cegar. O cinema, por sinal, está ai para nos mostrar a verdade. Neste dia de tamanha mobilização preparei uma lista com quinze filmes indispensáveis para enxergarmos o horror do fascismo. É o mínimo num momento tão confuso e indignante. Sentiu falta de algum título? Conhece outro filme que poderia acrescentar ao post? Deixe nos comentários.


domingo, 31 de maio de 2020

Artigo | Os 90 anos de Clint Eastwood, o Estranho Sem Nome que o Mundo do Cinema Aprendeu a Amar

“Eu Amo o que eu faço”. Com base nesta afirmação, em entrevista recente ao USA Today, fica fácil entender a origem do vigor de Clint Eastwood. Por mais que o peso da idade seja um obstáculo, o legendário realizador completa 90 anos no auge da sua forma. Seus filmes são vistos. Seu público segue fiel. A sua assinatura crítica segue implacável. Basta olhar os seus últimos trabalhos, o subestimado A Mula (2017) e o ótimo Richard Jewell (2019), para percebermos que estamos diante de um cineasta destemido, com um olhar aguçado para a realidade. Alguém capaz de se apropriar de símbolos americanos tão caros para questionar. Tudo com muita personalidade. Ao contrário dos seus mais icônicos personagens, homens embrutecidos e moralmente ambíguos dispostos a resolver tudo na base da bala, Eastwood se revelou com o passar dos anos um diretor sensível e extremamente humano. Um autor encantado pela bravura do indivíduo comum, seja um caubói traumatizado, uma pugilista obstinada, um idoso racista ou uma mãe desesperada. Eastwood, talvez pela sua própria experiência de vida, se acostumou a valorizar as pequenas histórias. Antes de se tornar um ícone, ele conviveu rotineiramente com o não, com o descrédito e com a rejeição. Durante muito tempo ele foi literalmente um estranho sem nome dentro da sua indústria. 


sexta-feira, 29 de maio de 2020

Crítica | A Vastidão da Noite (The Vast of Night)

A Bruxa de Blair do Sci-Fi

Em 1938, o então jovem Orson Welles, numa peça de rádio, causou um frisson coletivo nos EUA ao adaptar o clássico da literatura Sci-Fi A Guerra dos Mundos. Durante a transmissão, os relatos foram de caos e pânico. Muitos ouvintes compraram a ficção como realidade. Acreditaram que o planeta Terra estava realmente sendo invadido por alienígenas. No dia seguinte ao programa, o jornal Daily News noticiou “Guerra falsa no rádio espalha terror pelos Estados Unidos". Uma história, quando bem contada, não precisa ser gráfica para impactar. Basta saber explorar\estimular a curiosidade\medo do público. Dotado deste espírito, A Vastidão da Noite surpreende ao alimentar o sentimento de angústia no espectador sem apelar para a banalização das imagens. Distribuído pela Amazon Studios, o imaginativo longa de estreia do diretor Andrew Patterson faz um brilhante uso da atmosfera na construção de uma ficção científica raiz. O tipo de obra imersiva que convida o público a experimentar o crescente mistério, a criar imagens a partir dos diálogos, a se deixar levar pelas impactantes descobertas de dois jovens dos anos 1950 unidos por uma misteriosa transmissão.


quarta-feira, 27 de maio de 2020

Crítica | A Vida Invisível

Unidas pelo gênero

Uma verdadeira pedrada em forma de drama, A Vida Invisível escancara a trágica rotina enfrentada por muitas mulheres numa obra real, potente e dilacerante. Mesmo com alguns problemas no que diz respeito a transição temporal, as lacunas no primeiro ato, em especial, incomodam, o profundo longa dirigido por Karim Ainouz é enfático ao unir as suas protagonistas através da dor, do sofrimento e do desamparo. Enquanto estudo da dura realidade feminina num Rio de Janeiro retrógrado dos anos 1950, o filme estrelado por Julia Stockler e Carol Duarte emplaca verdadeiramente ao mergulhar na intimidade de Guida e Euridice. Embora peque pela unidimensionalidade no trato do masculino, o cineasta é contundente ao expor o abuso legitimado pelo patriarcado. 

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Cinco Filmes | Fritz Lang

Em dias de quarentena, de falta de lançamentos, nada melhor do que pagar algumas dívidas cinematográficas. Ao longo dos últimos meses de confinamento decidi mergulhar no passado. Decidi correr atrás do tempo perdido quando o assunto são alguns cineastas. Eu tinha que me aprofundar na filmografia de Fritz Lang. Um dos maiores gênios da Sétima Arte, o cineasta austríaco é um mestre da atemporalidade. Suas principais obras sobrevivem ao teste do tempo graças ao faro apurado do realizador (e dos seus colaboradores) para a ambiguidade moral do ser humano. Como se não bastasse o virtuosismo estético, Lang sempre procurou falar a linguagem dos grandes centros urbanos. Seus filmes são mundanos. São reais. São tensos. São empolgantes. Neste artigo, portanto, após algumas semanas dedicadas ao trabalho deste grande diretor, no Cinemaniac preparei um Cinco Filmes sobre (claro!) Fritz Lang. Cinco não. Desta vez irei analisar brevemente oito dos seus longas.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Crítica | Um Crime Para Dois (The Lovebirds)

O talento que sustenta os clichês

O tipo de filme que não tem tido grande sorte no circuito comercial, Um Crime Para Dois encontrou na Netflix a “janela” perfeita de lançamento. Uma das primeiras grandes vítimas da quarentena, The Lovebirds (no original) foi produzido pela Paramount e negociado com a gigante do streaming após a explosão da pandemia do COVID-19, o divertido longa dirigido por Michael Showalter chega no momento certo. Não estamos diante de um grande representante da comédia moderna. Longe disso. Diante de um cenário tão pesado e turbulento, no entanto, a produção estrelada pelos ótimos Kumail Nanjiani e Issa Rae oferece tudo aquilo que precisamos. Uma trama maluca, engraçada e recheada de clichês sustentada pelo talento de dois expoentes do humor americano. Comédia descompromissada para tempos difíceis. 


quarta-feira, 20 de maio de 2020

Do Fundo do Baú | Sonhos (1990)

Ter uma pérola como Sonhos (1990) disponível no Youtube me faz querer agradecer o autor da postagem. No auge da sua maturidade, o legendário diretor Akira Kurosawa reflete sobre as múltiplas facetas do ser humano com misto de peso e poesia. Um filme cujo a mensagem crítica e pessoal não envelheceu um segundo sequer nas últimas duas décadas. Com uma visão subjetiva sobre a existência humana, o realizador nipônico transforma os seus sonhos (e também pesadelos) em contos densos, imaginativos e provocantes. 

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Artigo | Referência na comédia americana, Tina Fey completa 50 anos com disposição para seguir quebrando paradigmas

A comédia sempre foi um ambiente desafiador para as mulheres. A falta de oportunidades, a estereotipização e a desigualdade foi durante algum tempo um problema sentido. O protagonismo feminino dentro do segmento sempre foi conseguido por elas na base da marra. Lucille Ball, por exemplo, para se livrar das amarras dos produtores\estúdios, criou a sua própria companhia e revolucionou a forma de se pensar a comédia na televisão. No Brasil, Dercy Gonçalves conviveu com o preconceito e a desvalorização. E foi assim como Betty White, com Whoopi Goldberg, com Carol Burnett, com Gilda Radner. Com todas aquelas que ousaram brigar por protagonismo. Uma comediante, porém, tem ajudado a mudar este cenário. Uma comediante resolveu escrever a sua própria história. Literalmente. O nome dela é Tina Fey. Mais do que uma referência absoluta no gênero, a atriz e roteirista quebrou paradigmas ao longo da sua trajetória. No Cinema e na TV, ela se posicionou na vanguarda simplesmente por disputar o seu espaço, por criar, por liderar, por inspirar. No dia em que Tina Fey completa 50 anos, nada mais justo do que reverenciar esta realizadora. Uma peça fundamental no processo de empoderamento feminino dentro da comédia americana. 

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Dez belos filmes que passaram despercebido pelo público brasileiro em 2019


A ausência de grandes lançamentos neste período de quarentena faz qualquer fã de cinema sair à caça de filmes. Qualquer novidade é bem-vinda. É o tempo ideal para pagar velhas dívidas, ver aquele clássico que sempre ficou para depois. Ou então aquela pérola cult escondida nos catálogos do streaming. É um período legal também para assistir aquele tipo de produção que não ganhou a devida atenção. Quantos grandes filmes lançados em 2019 passaram despercebidos aos olhos do público? Muitos! Dos premiados aos mais despretensiosos, dos subestimados aos incompreendidos. Neste artigo, portanto, resolvi preparar uma lista algumas destas ótimas produções já disponíveis no streaming.