sexta-feira, 18 de junho de 2021

Crítica | Um Fascinante Novo Mundo

As memórias que libertam

Um Fascinante Novo Mundo parte de uma abordagem já explorada. O imersivo drama de Mona Fastvold usa as estações do ano para refletir o estado de espírito dos personagens. O primeiro ato é o inverno na vida de Abigail (Katherine Waterson). Nos EUA do século XIX, a jovem mulher vivia a angústia silenciosa de um casamento congelado. O seu marido, o indiferente Dyer (Casey Affleck), só cobrava que ela cumprisse o seu “dever” de mulher. Ela tinha que cuidar da casa, dos animais, das refeições. Ela tinha que zelar pela prisão que era o seu “lar”. A repressão, neste cenário, é tão visível quanto o branco de uma nevasca. Fastvold trata o inverno como um símbolo de solidão.

A abordagem gélida (e morosa) da trama, porém, é interrompida quando Abigail encontra Tallie (Vanessa Kirby). Do cárcere, a protagonista vislumbra o sol. A troca de olhares entre elas marca o início da primavera. A aridez interrompida pelo afeto. Tudo ganha cor, ritmo e vida. Impulsionada pela latente química entre Waterson e Kirby, Fastvold é sutil ao nunca banalizar a natureza sexual da relação. O diário de Abigail confidencia aquilo que nós não necessariamente assistimos. A cineasta “protege” a intimidade das duas ao trocar a exposição pelo sentimento. Ela usa a história de amor entre as vizinhas para propor uma reflexão maior sobre o prazer tomado pela maternidade, pelo casamento e pelo machismo legitimado. A igualdade é o elixir desta relação. Mais do que se apaixonarem, Abigail e Tallie se ouvem, se apoiam, se tocam. Sem medo, culpa e submissão.

O verão é sedutor. Mona Fastvold filma o êxtase com um misto de paixão e delicadeza revigorante. O inverno, contudo, está à espreita. Sempre que olha para o todo, Fastvold revela a limitação destas mulheres na presença do masculino. A beleza da emancipação é tomada pela realidade que oprime. Os bruscos lapsos temporais sugerem o que não vemos. Aquilo que Abigail não teve coragem ou estômago para narrar. O amor entre elas é um oásis. Uma miragem do tal novo mundo que insiste em não chegar. Novos invernos virão... Eles chegam causando raiva, tristeza e impotência. O que foi construído, porém, é imagético. Não são palavras presas num papel. São memórias numa mente livre.


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sexta-feira, 11 de junho de 2021

Crítica | Ammonite

Amor silenciado, prazer silencioso

Em Ammonite, o silêncio diz muito. Ele é um hábito, um sintoma, uma conveniência. Logo na cena de abertura, a diretora Frances Lee manipula o senso de continuidade para expor uma rotina repressora. Ela sugere uma correlação entre duas mulheres trabalhadoras para revelar a posição de submissão feminina no contexto proposto. Uma era a faxineira de um museu. A outra a arqueóloga que descobriu uma importante peça exibida nele. Silenciosamente, a cineasta estabelece a frustração de Mary (Kate Winslet, pura volúpia). Ammonite impacta enquanto estudo da repressão feminina numa sociedade patriarcal. A descoberta de Mary é sem precedentes. A sua rotina, porém, seguia inglória. A rispidez da protagonista indica aquilo que ela não é capaz de falar.

A solidão que isola, contudo, também é capaz de unir. Quando Charlotte (Saoirse Ronan) surge em cena, o silêncio, outra vez, se torna revelador. A angústia desta jovem aristocrata é expressa através do olhar, da palavra não dita, da vontade sumariamente tomada. Longe do seu habitat para se recuperar de uma doença pulmonar, ela encontra em Mary um rosto reconhecível, mas não amistoso. Elas se identificam na apatia. As duas são forçadas a se aproximar. O que, de certa forma, explica a natureza introspectiva da obra. Elas não são silenciosas. Elas são silenciadas. O elo nasce da empatia. O romance da repressão. Lee respeita o temor das suas personagens. Mesmo num microcosmo tão isolado, Mary e Charlotte não podem dialogar. Não verbalmente. A matriarca vivida por Gemma Jones surge como uma lembrança do mundo em que elas viviam.

Ammonite é uma história de amor construída em meio a pedras. O silêncio reprime risadas, palavras afetuosas e até o êxtase. As duas se expressam através do toque, do beijo, do sexo. Lee filma o prazer feminino com um senso de intimidade cru que fascina. Não existe espaço para grandes descobertas aqui. O vínculo entre elas é instintivo, efêmero e passional. Escondida na casca grossa de Mary, vivida com um misto de volúpia e resignação por Kate Winslet, existe uma mulher consciente do seu destino. Escondida na beleza frágil de Charlotte, interpretada com energia e curiosidade por Saoirse Ronan, existe uma jovem com a coragem para enfrentar tabus.

O longa, no entanto, se seduz demais pelo silêncio. O roteiro assinado pela própria diretora terceiriza responsabilidades ao nunca mergulhar na complexidade desta relação. Na diferença de idade, de perspectivas e (claro!) de classes. Uma falta de diálogo que, até de forma coerente, se revela um problema na relação entre as duas. O silenciamento enfrentado por elas não justifica a aura lacônica do texto. Lee enxerga a beleza num cenário dessaturado, o amor num ambiente inóspito, a poesia visual no silêncio, mas nunca o futuro. Nem sequer repercute ele. A emblemática cena final não é o bastante. Não para o grande filme que Ammonite poderia ser. Uma joia bruta que se contenta em ser um fóssil raro.

segunda-feira, 7 de junho de 2021

Crítica | Freaky: No Corpo de um Assassino

O catfish nos slasher movies

O ‘slashers movies’ não existiriam sem as suas ‘final girls’. Por trás de todo assassino serial mascarado que se preze sempre vai haver uma resiliente mulher. Millie (Kathryn Newton) seria uma ‘final girl’ de respeito. Ela tinha poucos amigos. Sofria bullying. Não namorava. A heroína modelo. E se, num golpe do destino, a ‘final girl’ se tornasse a ‘first girl’? Freaky brinca com as convenções dos slashers ao propor uma inusitada troca de arquétipos. O longa dirigido por Christopher Landon é original ao romper com a estrutura clássica do segmento. A morte, aqui, ganha outro sentido. Bem conhecido no mundo tecnológico. A morte é uma apropriação. É o roubo da identidade.

Atacada precocemente, a ‘final girl’ se torna o ‘serial killer’. A partir de um plot rocambolesco, o cineasta fisga ao imprimir a maldade num rosto tão “familiar”. Presa no corpo do assassino (Vince Vaughn), Millie tem que se expor para reverter a maldição. Ela tinha a força. Ele tinha a proteção do único arquétipo indestrutível do segmento. É curioso assistir a um slasher sob a óptica daquele que deveria causar o terror. Christopher Landon usa a troca de corpos para construir o perigo. O conceito de catfish é reinterpretado. Escondida na persona mais zoada do colégio estava um vilão com sede de sangue. A máscara dele era a face corada de uma jovem de 17 anos. O flerte com a incorreção fica claro na estereotipificação dos que oprimem Millie. Tipos descartáveis que sugerem o viés revanchista do texto. O potencial ambíguo da trama era evidente.

A execução, porém, é frouxa. Freaky até brutaliza sem pudor. O gore é de primeira. Newton veste a carapuça psycho com convicção. Quando invade o terreno da comédia, porém, Landon torna tudo leve demais. Apesar da impagável presença de Vince Vaughn (a afetação teen  na sua performance é divertidíssima), o longa não empolga ao seguir os passos dele(a) na luta pelo velho corpo. O dispersivo roteiro sacrifica a tensão (e a criatividade) ao investir em personagens de apoio sem sal, no sentimentalismo familiar e em piadas fracas. Isso explica a grosseira queda de ritmo dentro da metade final. Freaky tenta, mas não subverte o arquétipo da ‘final girl’. Landon perde oportunidades ao nunca focar na remodelada relação entre vilão e heroína.

Texto originalmente postado no perfil do Instagram. Me siga por lá @blog_cinemaniac. 

sábado, 9 de janeiro de 2021

Crítica | Pacarrete

O amargor dos desvalorizados

Em sua essência mais pura, Pacarrete é uma verdadeira ode à arte, à verdade do artista e principalmente à resiliência daqueles que nunca deixam a chama apagar. No seu longa de estreia, o promissor cineasta Allan Deberton provoca um misto de sensações ao usar uma personagem da sua infância como o ponto de partida para um dilacerante estudo sobre a desvalorização artística no nosso país. Uma obra de natureza íntima, mas com uma crítica abordagem abrangente. Moradora da pequena Russas, Pacarrete (Marcélia Cartaxo) sonhava em levar o balé para os seus vizinhos de cidade. Reconhecida pelo seu temperamento ácido, ela se viu obrigada a conviver com a fama de louca. A sua dedicação à dança, porém, era maior do que qualquer obstáculo. Quando a prefeitura de Russas decide fazer uma festa para comemorar os 200 anos da fundação do município, Pacarrete resolve convencer os responsáveis pelo evento a investirem numa apresentação sua. Uma jornada excruciante marcada pela resistência geral, pela insensibilidade e pela falta de suporte a uma idosa que só queria defender a riqueza da arte. 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Crítica | Tenet

Pense menos, se divirta mais

Tenet é uma ideia. Um conceito intrigante sustentado num roteiro cafona e sentimentalista cujo elemento mais plausível é a fantasiosa "reversão temporal". O diretor Christopher Nolan "sequestra" a atenção do espectador com um plot raso e cheio de furos incapaz de desenvolver minimamente os seus protagonistas. É inaceitável ver como o longa sacrifica tudo em prol de uma mera trucagem visual. Não existe espaço para a construção de personagem aqui. Nem tão pouco para a preparação de um arco dramático. Os protagonistas são rasos. As suas motivações tolas. A ação é construída na base da força. Faltam ideias convincentes para abastecer a trama. Nolan arquiteta a sua pretensamente genial ideia subestimando a inteligência do espectador a todo momento. Antes o problema fosse o didatismo. Um desvio narrativo que indica alguma lógica. Tenet não consegue explicar o inexplicável. Vários porquês ficam sem respostas. Qual a justificativa, por exemplo, para um agente da CIA colocar em risco uma missão que evitaria o fim do mundo para salvar uma mulher que ele conheceu há poucos dias? A resposta é até óbvia. O filme precisava acontecer! 

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Crítica | Soul

As lições que tiramos do fim

Escrever um texto racional sobre Soul é algo praticamente impossível. É o tipo de obra que transcende a análise fílmica. Uma revigorante dose de vida num momento em que somos tomados pela incerteza e pela desesperança. O mundo precisava de um filme como esse em 2020. Nós, na verdade, sempre precisamos de produções como essas. Profundas o bastante para nos fazer refletir. Densas o bastante para nos colocar em dúvidas sobre as nossas reais prioridades. Imaginativas o bastante para nos reconectar com o eu infantil muitas vezes soterrado pelas preocupações, pelos medos e pelas imposições da vida adulta. Após tratar a nossa finitude com parte da “aventura” em Up (2009) e enxergar a angústia emocional causada pelo recomeço em Divertida Mente (2015), o genial (à essa altura ele já merece esse adjetivo) diretor Pete Docter leva a discussão existencial para um novo patamar ao discutir o nosso propósito enquanto ser vivo. Para isso, o cineasta foge do lugar comum dentro do Universo Pixar ao focar na desordem de um homem de meia-idade. 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Crítica | Alguém Avisa?

O pesadelo da família conservadora

Troque o racismo pelo conservadorismo e você verá que Alguém Avisa? é uma espécie de Corra! versão 'family friend'. A atriz e diretora Clea DuVall é sagaz ao usar o filtro natalino para expor a toxicidade no seio familiar e o estrago causado por exigências realmente perversas. É interessante ver como o filme foge do adocicado lugar comum ao se sustentar no humor de desconforto e a partir dele arquitetar o drama das suas reprimidas protagonistas. No papel está tudo lá. O clima festivo. As decorações. A reunião familiar. Um cenário reconhecível explorado sob uma amarga nova perspectiva. DuVall é inteligente ao subverter discretamente as convenções do gênero. Ao trazer a realidade para o centro da trama. O contexto não poderia ser mais atual. Num momento em que perigosos discursos retrógrados são normatizados, a cineasta é enfática ao apontar o dedo para os vícios de mentalidade conservadora. O deboche, porém, não é sua arma preferida. Ela parece entender que a ridicularização não é o melhor caminho para tratar o tema. Uma abordagem sóbria que dialoga com o melodrama familiar proposto pelo texto. 

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Crítica | A Voz Suprema do Blues

Mais Blues impossível!

Tão corajoso e destemido quanto a sua protagonista, a influente cantora Ma Rainey, A Voz Suprema do Blues é o tipo de obra que testa as expectativas do público. Nunca se rende aquilo que esperávamos ver de um drama musical. Com base no texto do dramaturgo August Wilson, o elétrico longa dirigido por George C. Wolfe usa a música como o combustível para um estudo profundo sobre o racismo enraizado num país regido por leis segregacionistas, a ambição daqueles dispostos a desafiar o sistema e a fragilidade do artista num meio movido pelo lucro. O foco, aqui, não está no talento. Um elemento quase secundário diante da veia realística do longa. O cineasta usa a linguagem teatral para mergulhar na intimidade de um grupo de artistas negros obrigados a entrar em sintonia durante uma caótica sessão de gravação. Não espere, portanto, um drama biográfico de cartilha. Você pode se decepcionar. O frisson nasce menos dos acordes e mais dos conflitos entre os personagens. 

sábado, 19 de dezembro de 2020

Crítica | A Festa de Formatura

Faltou Zazz!

Nem só de boas intenções deve viver uma obra de arte. Muito pelo contrário. Mais importante do que a mensagem impressa num filme é a maneira com que ela é defendida. Embora com graves problemas narrativos, A Festa de Formatura decepciona verdadeiramente quando reluta em passar o seu recado. Estamos diante de um musical que se esforça para parecer afirmativo. Por trás das cores, da estética flamboyant, das canções didáticas e da agenda diversificada, porém, existe uma obra incapaz de se debruçar com mínima seriedade sobre os temas propostos. Inebriado pela face pueril do gênero, o diretor Ryan Murphy esvazia o potencial dramático da trama ao assumir os pecados dos seus protagonistas como parte da construção narrativa. O realizador confunde ingenuidade com tolice. Troca a verdade de uma jovem impedida de exercer a sua liberdade sexual num baile de formatura pela artificialidade de um grupo de estrelas decadentes da Broadway dispostas a ajudá-la para recuperar o prestígio midiático.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Crítica | Emicida: AmarElo - É Tudo Para Ontem

As raízes de uma obra

Não é preciso ser crítico musical para tratar AmarElo como um dos álbuns mais importantes produzidos pelo mercado fonográfico brasileiro em algum tempo. Emicida transcendeu a barreira do seu gênero (e da própria música em si) numa produção pensada para tocar em feridas raciais profundas. Uma resposta enfática e virtuosa a um momento de retrocesso. Faço essa introdução porque, diante de tamanho êxito criativo, Emicida: AmarElo - É Tudo Para Ontem tinha tudo para ser mais um doc sobre a realização de um álbum de sucesso. Esse era o caminho mais fácil. Os próprios bastidores da obra já eram atraentes o bastante para sustentar a produção Netflix. Emicida, porém, nos surpreende mais uma vez. Num gesto de grandeza artística comovente, o longa dirigido por Fred Ouro Preto coloca a produção do álbum em segundo plano para estudar aquilo e aqueles que possibilitaram a sua existência. As magníficas composições do rapper paulista surgem como uma espécie de linha invisível capaz de amarrar a história que o nosso país durante muito tempo se esforçou para apagar da memória cultural da população. 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Crítica | Nunca, Raramente, Ás Vezes, Sempre

Uma dor que não pode ser silenciada

Um filme delicado sobre um assunto delicado, Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre é uma obra consciente da sua responsabilidade. Se engana quem pensa que se trata de mais um drama sobre um tema tabu como o aborto. O longa escrito e dirigido por Eliza Hittman renega por completo a discussão moral em torno do procedimento ao focar naquilo que realmente importa: o elemento humano. Mais precisamente na posição de uma jovem mulher às avessas com uma gravidez indesejada. Interessada em usar a ficção para documentar a realidade, a cineasta adota uma revigorante (e contundente) estética naturalista para traduzir as sequelas de um processo tão dilacerante. Autumn (Sidney Flanigan) é uma adolescente. Logo na sequência de abertura, uma apresentação musical em que ela é ofendida gratuitamente por um jovem, Hittman estabelece a natureza da sua película. Ali está uma garota culpada por anseios tão comuns. Ali está uma pessoa obrigada a conviver com rótulos absolutamente machistas. Ali está uma vítima que recusa se assumir como tal. A gravidez precoce e o aborto são a ponte que a realizadora encontra para discutir a desproteção feminina neste ambiente insensível e moralista. 

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Crítica | Mank

O outro lado de um clássico

O tipo de projeto que só os mestres ousariam tirar do papel, Mank é a resistência do cinema em tempos de tamanha turbulência. Poucos se arriscariam a emular uma obra do quilate de Cidadão Kane (1941) nos dias de hoje. Poucos iriam além ao se apropriar de um filme deste porte de forma tão pessoal. David Fincher o fez. E com genialidade. Numa análise estrutural e estética, é impossível não traçar um paralelo entre as duas produções. Por mais absurdo que isso possa soar. O cultuado cineasta não se sente intimidado em replicar convenções narrativas, em tratar o hit de Orson Welles como uma bússola artística, nem tão pouco em arquitetar inspiradas rimas visuais entre as duas obras. Fincher sabe que Mank (o filme) não existiria sem Cidadão Kane. Um elo evidente gradativamente quebrado à medida que o roteiro assinado por Jack Fincher (o saudoso pai do cineasta e grande idealizador da produção) troca a reverência pela subversão do formalismo clássico. Em Citizen Kane (no original), Welles usou a grandiloquência e a opulência visual para investigar a amargura de um poderoso magnata da comunicação desafiado pela impotência repentina. Numa abordagem diametralmente oposta, Fincher usa vulnerabilidade e o intimismo para reescrever a história de um subestimado roteirista tentado a (finalmente) assumir a sua grandeza numa Hollywood impiedosa. 

domingo, 6 de dezembro de 2020

Crítica | Sound of Metal

 O ruidoso efeito do silêncio

Cinema em sua máxima potência, The Sound of Metal é intenso e virtuoso como um solo de bateria do saudoso Keith Moon. Estamos diante de um drama musical devassado pelo silêncio. Poucas vezes a ausência de som ganhou um sentido tão amplo e complexo. Um elemento narrativo que, graças a expressividade do diretor e roteirista Darius Marder, ajuda a catalisar a experiência. No seu trabalho de estreia na ficção, o promissor cineasta não se contenta em mergulhar na rotina do seu personagem, um baterista em reabilitação química às avessas com a deficiência auditiva. Ele se esforça para nos colocar na perspectiva de Ruben (Riz Ahmed). Uma abordagem subjetiva que, por si só, redimensiona a construção fílmica. A sonoridade, aqui, é tão protagonista quanto o baterista. A fúria incontrolável (e musical) que toma conta da cena de abertura surge como um sintoma. 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Crítica | Tio Frank

A morte da homofobia

A homofobia, no cinema, costuma ser frequentemente associada a violência física. Um reducionismo facilmente explicável. Estamos diante de um tema tabu muitas vezes estudado sob a perspectiva (ora bem-intencionada, ora apenas oportunista) de quem nunca sentiu na pele esta pesada mazela social. Uma visão simplista que dialoga com a falta de voz de homens e mulheres capazes de realmente investigar o assunto em sua máxima complexidade. Numa comparação nem tão direta, mas pertinente, basta ver a diferença de um filme condescendente como Green Book, para uma obra feroz como Infiltrado na Klan. Ambos dramas raciais baseados em fatos. Ambos frutos de um mesmo contexto. Um dirigido por um cineasta branco, o outro por um realizador negro. Os contrastes gritam em tela. Nem preciso me aprofundar neles. Representatividade importa. O que fica claro quando nos deparamos com um título como o sensível Tio Frank. Escrito e dirigido por Alan Ball, uma voz ativa dentro da comunidade LGBT norte-americana, o longa estrelado por um magnífico Paul Bettany impacta ao revelar o outro lado da homofobia. O preconceito que cala, que causa feridas íntimas, que afasta e traumatiza. 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Crítica | Vozes (Voces)

 Já vi isso antes... E melhor!

Alguns filmes simplesmente não se esforçam. Se contentam em replicar o que já foi feito sem qualquer compromisso com a originalidade. Vozes é mais um título a entrar nesta ingrata lista. Distribuído pela Netflix, o thriller de horror espanhol dirigido por Ángel Gómez Hernandez bebe de todos os clichês do gênero possíveis para assustar. É preciso ser um absoluto novato no segmento para não identificar a grosseira falta de ideias estéticas\narrativas. O longa, para começar, praticamente surrupia a premissa da excelente série A Maldição da Residência Hill. Uma família compra uma mansão isolada com a intenção de reformá-la e revendê-la por um preço superior. Lá eles se deparam com uma série de “reconhecíveis” fenômenos. Esta é apenas a primeira das produções emuladas pelo plot. 


quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Crítica | Antebellum

O passado nunca foi tão presente

Fazendo da falta de sutileza uma grande virtude, Antebellum causa um misto de choque e surpresa ao escancarar o racismo explícito do nosso dia a dia. Alguns temas pedem uma abordagem mais radical. Num momento de tamanha polarização social nos EUA, o impactante longa escrito e dirigido por Gerard Bush e Christopher Renz testa as expectativas do público ao traçar um dilacerante paralelo entre o passado e o presente do país. Tudo para notar as sequelas da escravidão na identidade\realidade do afro americano. Uma ponte drástica, é fato, desenvolvida com extrema perspicácia pela dupla de realizadores. Dividido em duas linhas temporais distintas, o longa enxerga além dos óbvios contrastes visuais\temáticos ao notar o processo de “sofisticação” do racismo estrutural ao longo dos tempos. O ódio puro e impositivo exposto na fantástica cena de abertura, um plano sequência engenhoso que acompanha o rastro de sangue deixado por um destacamento do exército Confederado, dá lugar ao preconceito velado e sutil. Os cineastas são inteligentes ao usar o explícito para combater o implícito. Mais do que isso. Os dois são enfáticos ao expor as feridas nunca cicatrizadas. 

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Crítica | Rosa e Momo

Uma realidade envelhecida


Um dos mais influentes movimentos de vanguarda cinematográfico, o Neorrealismo Italiano ajudou a levar o drama das ruas da Europa dos anos 1940 para a tela grande. Com uma abordagem focada no elemento humano, esta corrente entendeu o poder da Sétima Arte enquanto instrumento de denúncia. Usou o micro para desnudar o macro. Deu voz aos mais vulneráveis para atacar os repressores, para escancarar as sequelas geradas por um sistema cruel e desigual. Não à toa o protagonismo infantil era tão importante. A realidade, aos olhos de uma criança, ganha um contexto mais trágico. Títulos como O Ladrão de Bicicletas (1948), Alemanha, Ano Zero (1948), Roma, Cidade Aberta (1945) e Vítimas da Tormenta (1946) não me deixam mentir. Um pacote de grandes clássicos do cinema que, mais de meio século depois, seguem servindo como inspiração para longas como Indomável Sonhadora, Cafarnaum, Assunto de Família e o recente Rosa e Momo. É impossível colocar a mais nova produção original Netflix no mesmo patamar de qualidade das obras citadas acima. Um claro exagero da minha parte. Ainda assim, é impossível não reconhecer o viés neorrealista no tocante drama italiano dirigido por Edoardo Ponti. 

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Crítica | The 40 Years Old Version

Representatividade importa

O que significa a representatividade para você? Luta por espaço? Por mais oportunidades? Por igualdade? Por reconhecimento? Eis uma palavra muito falada, mas pouco discutida nos últimos anos dentro do showbiz. Eu não posso sequer sonhar em responder essa pergunta. Nem o mais empático dos indivíduos é capaz de se colocar na pele daqueles que foram esquecidos e\ou depreciados por anos na mídia. Daqueles que, para triunfar nas suas respectivas carreiras artísticas, se acostumaram a abrir mão. A vestir a roupa que se adequava no momento. É duro perceber que, em pleno 2020, um filme como The 40 Years Old Version seja tão urgente. Um estudo sobre o que verdadeiramente representa a representatividade, o longa escrito, dirigido e atuado por Radha Blank soa como o grito de uma artista cansada de ser podada. O tipo de obra em que realidade e ficção se fundem numa explosão de intimidade e honestidade. 

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Crítica | Brinquedo Assassino (2019)

Brincadeira atualizada

O que une os personagens Freddy Krueger, Jason e Michael Myers? Além de serem ícones do cinema de horror moderno, o trio sofreu com desastrosas refilmagens. Daquelas que subestimam a inteligência do público. Que, ao invés de tentarem trazer algo minimamente novo, só querem capitalizar com “marcas” populares. Não podemos, porém, vilanizar o conceito de remake. Ora e vez somos surpreendidos com obras corajosas o bastante para pensar fora da caixinha. Sem medo de soar exagerado, Brinquedo Assassino sobra na turma dos reboots dos ‘slashers movies’ oitentistas ao levar o conceito de atualização a sério. Numa sacada de mestre, todo o background paranormal envolvendo um espírito maligno encarnado num brinquedo é substituído por uma crítica premissa tecnológica. O que o diretor Lars Klevberg não é tão simples assim. Ele consegue criar sem descaracterizar a essência do original. 

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Crítica | On The Rocks

Inseguranças metropolitanas 

O cinema de Sofia Coppola é recheado de virtudes. Uma realizadora com voz e assinatura própria. Capaz de imprimir a sua visão de mundo em tela. O que mais me encanta nas suas obras, porém, é o seu revigorante senso de intimidade. Não importa se a sua protagonista é uma adolescente com tendências suicidas, uma recém-casada frustrada num país estrangeiro ou uma rainha extravagante desconectada da realidade. Impressiona como sempre ela consegue enxergar a alma das suas personagens. Criar tipos humanos, profundos e reconhecíveis. Em On The Rocks, mais uma vez, a cineasta causa um fascínio natural ao mergulhar na rotina de uma mulher com anseios identificáveis. Uma esposa solitária às avessas com a possível infidelidade do marido. 

sábado, 31 de outubro de 2020

Luto | Estrela de 007 e Highlander, Sean Connery morre aos 90 anos


O cinema perdeu hoje um ícone. Um símbolo de elegância e imponência masculina. Um astro inigualável. Responsável por dar vida ao primeiro 007 do cinema, Sean Connery faleceu na manhã de hoje, aos 90 anos, enquanto dormia. Segundo a BBC, o ator, que estava nas Bahamas, havia sido submetido recentemente a um cirurgia de extração de um tumor no rim. Vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por Os Intocáveis (1987), Connery ficou conhecido por viver personagens fortes e charmosos. Um status, claro, construído por OSatânico Dr No (1962). Na pele do sedutor agente James Bond, o ator escocês ajudou a criar um símbolo da cultura pop. Mais do que dizer a celebre frase "Bond, James Bond" pela primeira vez, Connery estabeleceu o tom que viria a definir o intrépido herói. Ao longo da sua carreira, ele interpretou o herói britânico por mais seis vezes, estrelando títulos clássicos como Moscou contra 007 (1963) e 007 contra Goldfinger (1964).

Resumir a carreira de Sean Connery ao icônico James Bond, porém, é um erro. Ao longo de seis décadas, o ator nos presenteou com atuações memoráveis em grandes filmes. Em 1962 fez parte do gigantesco elenco do drama de guerra O Mais Longo dos Dias. Em 1964 trabalhou com Alfred Hitchcock em Marnie, Confissões de uma Ladra. Em 1963 foi comandado por Sidney Lumet em Até os Deuses Erram. Em 1975 trabalhou com John Huston em O Homem que Queria ser Rei. Nos anos seguintes vieram títulos como Uma Ponte Longe Demais (1977), Os Bandidos do Tempo (1981), #Highlander (1986) e o fantástico O Nome da Rosa (1986). Connery foi também o pai de Indiana Jones em A Última Cruzada (1989). Nos últimos anos de carreira, estrelou hits pop como A Rocha (1996), A Armadilha (1999) e A Liga Extraordinária (2003). Desgostoso com o resultado deste último, o ator, zelando pela própria imagem, decidiu se aposentar. Sean Connery se tornou grande demais para a indústria do cinema. RIP

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Crítica | Fita de Cinema Seguinte de Borat

A câmera escondida perdeu utilidade

Desconhecido do grande público, Sacha Baron Cohen devassou um lado racista, misógino e violento da América com o mordaz Borat (2006). Travestido de repórter do “glorioso” Cazaquistão, o comediante colocou o dedo em enraizadas feridas ao testar os limites do gênero documental. Com uma câmera na mão, muito improviso e um senso de humor inclemente, Cohen escancarou o absurdo do nosso dia a dia. Usou a comédia para enxergar a raiz de um discurso distorcido que, alguns anos depois, chegou ao topo do poder nos EUA. O polêmico filme, um sucesso estrondoso, transformou a carreira deste ousado ator. Uma possível continuação parecia então algo inimaginável. O mundo, porém, nunca precisou tanto deste anárquico repórter. Nem todo herói usa capa. As vezes ele só precisa de um terninho batido, um bigode safado e um “tantinho” de coragem. Num momento de ebulição social e política nos EUA, Fita de Cinema Seguinte de Borat chega para demolir convicções (felizmente) cada vez mais frágeis. 

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Crítica | Rebecca: A Mulher Inesquecível

Fiquem com o clássico!

O que Ben-Hur (1959), Scarface (1983) e Os Infiltrados (2009) têm em comum? Ambos são remakes. Ambos também são obras excepcionais. Assim como essa trinca existe uma vasta gama de refilmagens tão (ou até mais) impactantes que os originais. Portanto não sou do time que costuma defenestrar o segmento. Cabe ao público filtrar o joio do trigo. Quer saber como enxergar a linha invisível que separam os remakes que possuem um motivo para existir (como recente O Homem Invisível) dos que não possuem (como o pífio Os Órfãos)? Basta assistir a nova versão de Rebecca: A Mulher Inesquecível. Ao contrário do inesgotável clássico homônimo dirigido por Alfred Hitchcock, a produção original Netflix estrelada pela carismática Lily James se revela o tipo de obra que nasceu datada. 

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Crítica | Os 7 de Chicago

O mundo segue olhando!

É tentador se empolgar com filmes como Os 7 de Chicago. O tipo de obra com um ‘timing’ perfeito. Um drama de tribunal sobre a violência policial no fatídico ano de 1968 lançada justamente num momento em que a história se repete nos EUA. Com o seu dinamismo usual, o diretor e roteirista Aaron Sorkin (A Rede Social) bate nas pessoas e nas instituições certas. É implacável ao notar a repetição de velhos “hábitos” do governo americano. O preconceito enraizado no Estado. A seletividade judicial. A mentalidade repressora de um sistema com tendências antidemocráticas. Um título progressista por natureza. O que está em análise aqui, porém, não é a mensagem. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Crítica | Evil Eye (Mau-Olhado)

Representatividade e decepção

A violência doméstica é um tema urgente que precisa ser debatido em todos os setores da nossa sociedade. No cinema, recentemente, a releitura do clássico O Homem Invisível trouxe uma abordagem singular sobre este reconhecível mal. Nem todo longa que se dispõe a tocar em um tema necessário, porém, merece o crédito por isso. Produzido pela mesma Blumhouse do hit acima, Evil Eye espanta (negativamente) ao se aproveitar de um contexto trágico para construir um pseudo thriller deslocado da realidade. Com base no audiobook do também roteirista Madhuri Shekar, o longa dirigido por Elan e Rajeev Dassani é do tipo que dedica tudo a sua mensagem.