domingo, 27 de maio de 2018

O Livro de Henry

Uma experiência pitoresca

O Livro de Henry definitivamente não é uma obra fácil. Detonado pela maioria da crítica norte-americana, o longa dirigido por Colin Trevorrow (Jurassic World) teve o seu alcance limitado por ser taxado sumariamente como um fracasso. Por aqui, por exemplo, o filme foi lançado via streaming e sem qualquer alarde. Uma produção, a princípio, fadada ao esquecimento. A questão é: quando a crítica cinematográfica se tornou o agente regulamentador do que deve ou não fazer sucesso? Ou pior, do que tem qualidade ou não tem? Nos últimos anos, na verdade, com o ‘boom’ dos influenciadores digitais e dos agregadores de conteúdo, tenho visto um movimento que muito me incomoda: o da massificação da opinião. O sucesso de sites como o Rotten Tomatoes, em especial, não me deixa mentir. O senso comum passou a ganhar uma importância gigantesca. Em alguns casos mais extremos, produtores de conteúdo são obrigados a conviver com os ataques de ‘haters’ simplesmente por defender\questionar os méritos de uma produção. Ter uma opinião diferente se tornou um “problema”. Digo isso porque, se tivesse seguido este perigoso este senso comum, teria deixado de assistir a uma obra curiosíssima. Uma produção que, desde o seu primeiro trailer me chamou a atenção, justamente por resgatar o frescor das aventuras oitentistas. Estrelado por dois dos jovens mais talentosos de Hollywood, os excelentes Jaeden Lieberher e Jacob Tremblay, O Livro de Henry simplesmente "destrói" as nossas expectativas ao nos brindar com uma exótica “aventura”, um filme capaz de transitar por temas espinhosos e gêneros contrastantes numa mistura improvável. Como se a garotada de Os Goonies (1985) tivesse assistido a uma sessão de Desejo de Matar (1974) e usado a sua distorcida lógica para fazer justiça com as próprias mãos. O resultado é uma película falha, vide o relutante último ato, mas instigante, um filme comovente que, por trás da sua estrambólica premissa, esconde uma promissora crítica ao belicismo americano. 

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Do Fundo do Baú (O Assalto ao Trem Pagador)

Na última semana o cinema brasileiro perdeu uma das suas vozes mais singulares, o crítico cineasta Roberto Farias (Pra Frente Brasil, Os Trapalhões e o Auto da Compadecida). Numa época em que os movimentos do Cinema Novo e do Cinema Marginal surgiam como um contraponto as desgastadas chanchadas, o saudoso realizador se posicionou entre os grandes sem escolher lados, transitando das obras mais questionadoras aos títulos mais populares numa carreira recheada de títulos de sucessos. O que fica bem claro no seu primeiro grande trabalho, o poderoso O Assalto ao Trem Pagador (1962). Lançado num momento de reafirmação do cinema nacional, O Pagador de Promessas (1962), por exemplo, neste mesmo período ganhava o mundo ao levar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, o longa conquistou o público e a crítica graças a sagacidade de Farias ao entregar uma obra universal que não parecia interessada em pertencer a uma única corrente cinematográfica. Aliando o vanguardismo estético do Cinema Novo ao forte (e franco) viés social do Cinema Marginal, o realizador “esmurra” o estômago do espectador ao mostrar, a partir de uma história real, o impacto da desigualdade social sob um prisma íntimo e assustadoramente atual. Falando a “língua” do povo, Farias nos brinda com uma crônica sobre a vida dos marginalizados na década de 1960, refletindo sobre questões raciais e políticas num thriller de assalto que – infelizmente – insiste em não envelhecer. 

terça-feira, 22 de maio de 2018

Top 10 (Abraços Inesquecíveis do Cinema)


Uma das manifestações de afetos mais sinceras e fraternais, o abraço se tornou um símbolo de união dentro do cinema. Ao contrário do beijo, uma manifestação íntima frequentemente utilizada dentro do romance, o abraço ganhou uma conotação mais universal, culminando em sequências dos mais variados tipos. Entre despedidas e reencontros, entre histórias de amor e histórias de amizade, este singelo gesto embalou algumas das relações mais marcantes da Sétima Arte, o que fica bem claro na lista abaixo. Neste Dia do Abraço, no Cinemaniac uma seleção com dez dos abraços mais inesquecíveis\emblemáticos do Cinema. 

domingo, 20 de maio de 2018

Cargo

Um filme de zumbi de respeito

Desde a sua remodelada origem, nas mãos do criativo George Romero, os filmes de zumbi ofereciam um interessante pano fundo para a construção da crítica social no cinema. Indo além do choque pelo choque, títulos como o clássico A Noite dos Mortos Vivos (1968), o visceral O Despertar dos Mortos (1978), o agressivo Extermínio (2002) e mais recente o inteligente Invasão Zumbi (2016) se tornaram referências dentro do gênero, justamente por, através do horror, questionar o nosso estilo de vida em sociedade. Por mais que, nos últimos anos, a maioria dos representantes do segmento tenha se distanciado desta vertente, ora e vez surge uma obra capaz de explorar este potencial. Esse – felizmente - é o caso de Cargo. Uma das melhores produções originais recentes da Netflix, o longa dirigido pela dupla Ben Howling e Yolanda Ramke provoca um misto de emoções ao narrar a desventurada jornada de um pai contaminado em busca de um abrigo para a sua indefesa filha. Transitando com desenvoltura entre o Drama, o Suspense e o Horror, a promissora dupla de realizadores enche a tela de tensão ao traduzir o desespero de um pai à procura de um lugar para a sua filha, encontrando nesta jornada familiar o subtexto necessário para criticar a apropriação cultural e a condição de abandono dos povos aborígenes em solo australiano. Um filme inventivo e plasticamente expressivo que, impulsionado pela intensa performance de Martin Freeman, surpreende ao realçar o fator humano em meio ao caos numa película emocionante. 

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Com pequenos grandes filmes, A24 atesta a força do cinema ‘indie’ e conquista a atenção dos gigantes de Hollywood


O que Ex-Machina: InstintoArtificial, O Quarto de Jack, Moonlight: Sob a Luz do Luar e Lady Bird têm em comum? Não, não estou me referindo ao fato dos quatro terem colecionado indicações ao Oscar. Nem tão pouco de serem ótimos exemplos da renovada força do cinema ‘indie’. Na verdade, o que os une é o fato do quarteto ter ganho uma “janela para o mundo” graças ao relevante trabalho da A24 Productions, uma distribuidora que, em cinco anos, já se colocou entre as gigantes da Sétima Arte. Mesmo defendendo a inglória bandeira do cinema independente, a companhia nova-iorquina seguiu os passos de empresas do porte como a “finada” Miramax, a IFC, a Fox Searchlight e a (já analisada aqui) Blumhouse Productions, conquistando a atenção do grande público com produções originais, instigantes e geralmente esnobadas pelo radar dos poderosos estúdios de Hollywood. Fundada em 2012 pelo trio Daniel Katz, David Fenkel e John Hodges, três realizadores com experiência dentro da indústria do entretenimento, a A24 surgiu como um gesto de coragem. Numa época em que a lucratividade segue ditando as regras do que é ou não produzido\distribuído, os três decidiram usar o seu ‘know who’ numa “caça ao tesouro” no circuito autoral, revigorando a forma de se fazer o negócio cinema ao apostar no talento em detrimento do lucro fácil. Ao acreditar no potencial de novos realizadores em detrimento da experiência milionária dos medalhões. O resultado foi praticamente instantâneo. Com 24 indicações ao Oscar neste minúsculo prazo de tempo, a audaciosa empresa se tornou referência ao conseguir promover uma seleção de indiscutíveis sucessos de público e crítica, dando voz a pequenos grandes filmes que têm ajudado contornar o marasmo que tomou conta do engessado circuito comercial. 

terça-feira, 15 de maio de 2018

A Ghost Story - Sombras da Vida

Uma experiência de arrepiar!

Confesso que gostaria de escrever melhor para entregar um texto à altura desta pérola chamada Sombras da Vida (A Ghost Story, no original). Denso, melancólico e reflexivo, o longa dirigido por David Lowery é um daqueles títulos impossíveis de se traduzir em palavras. Um filme raro capaz de transitar por temas tão complexos com a leveza de um fantasma preso às suas memórias. Numa proposta imersiva e delicadamente imagética, o talentoso realizador norte-americano provoca uma mistura de sentimentos e emoções ao tecer um poético comentário sobre o luto, a efemeridade do tempo e a complexa experiência que é estar vivo. Sem medo de soar pretensioso, Lowery encanta ao investir numa silenciosa atmosfera contemplativa, encontrando na força das suas imagens e na poderosa performance de Casey Affleck a inquietação necessária para questionar a nossa imaturidade quanto ao fim, quanto a nossa finitude e quanto a difícil missão de dar adeus.

sábado, 12 de maio de 2018

Cinco Filmes (Sally Field)


Ao longo de seis décadas de carreira, Sally Field se tornou uma das atrizes mais respeitadas da sua geração. Vencedora de dois Oscars, a versátil californiana se acostumou a dar vida aos mais variados tipos de mulher, transitando entre os gêneros com carisma e intensidade. É indiscutível, porém, que, graças a sua afetuosa presença, Field ficou conhecida por viver grandes matriarca. Embora seja injusto tipifica-la, é fato que algumas das suas principais personagens foram inesquecíveis figuras maternas, um histórico que, verdade seja dita, a colocou num dos papeis maternais mais populares da cultura pop, a bondosa Tia May na “esquecida” franquia O Espetacular Homem-Aranha. No final de semana em que celebramos o Dia das Mães, portanto, nada mais justo do que homenagear esta simpática artista numa lista com Cinco Filmes em que Sally Field viveu uma memorável figura materna.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Em Pedaços

As sequelas de um atentado

Num momento em que os movimentos de ultradireita deixam as sombras ao redor do mundo, Em Pedaços surge como um relato urgente e incisivo sobre a banalização da violência contra estrangeiros em território europeu. Sob a questionadora batuta do diretor alemão Fatih Akin, o longa coloca o dedo na ferida ao refletir sobre as sequelas de um atentado terrorista num contexto íntimo e extremamente humano. Dividido em três atos bem distintos, a envolvente película é inteligente ao expor a crescente onda neonazista em solo alemão, se distanciando do viés maniqueísta ao trata-los como pessoas ordinárias. Sem aquele peso ultrapassado\vilanesco com que o tema costuma ser tratado em Hollywood. Esqueça, portanto, as suásticas, as bandeiras e o viés soturno. O tema, aqui, é escancarado sob o olhar despedaçado de uma resiliente mulher à procura de motivos para seguir vivendo após ter a sua família ceifada de maneira irracional e injustificável. O resultado é uma obra crescente e explosiva, um relato nu e cru sobre o impacto da perda na rotina de uma inocente. 

terça-feira, 8 de maio de 2018

Doentes de Amor

Em defesa dos clichês

Não entendo porque os clichês são tão vilanizados dentro da Sétima Arte. Óbvio que, em muitos casos, a falta de originalidade incomoda. Concordo. A falta de boas ideias também. Mas não consigo condenar uma obra pelo simples fato de se sustentar em clichês. A vida é cheia de clichês. Por que as histórias não podem ser? Em alguns casos, vou além, o clichê é a alma do negócio. O que fica bem claro no adorável Doentes de Amor, uma envolvente comédia romântica que, embora não traga nada de realmente novo, comprova que até as mais requentadas conveniências narrativas podem funcionar quando exploradas com inteligência, ironia e uma comovente dose de sinceridade. Inspirado nas experiências sentimentais de uma estrela em ascensão da comédia nos EUA, o sarcástico Kumail Nanjiani (Silicon Valley), o longa cativa ao expor a realidade de um paquistanês dividido entre os elos familiares e o modo de vida ocidental, indo além do humor de estereótipos ao não confundir despretensão com deboche. Mesmo sem se levar a sério por um segundo sequer, Nanjiani é habilidoso ao “florear” a sua história de vida sem prejudicar a força da sua mensagem, encontrando um perspicaz (eu diria cinematográfico) meio termo entre a realidade e a ficção numa obra que não se envergonha em abraçar os clichês da vida real. 

domingo, 6 de maio de 2018

Terra Selvagem

Só existe um leão na selva

Os EUA de Taylor Sheridan não é um lugar colorido. Roteirista de mão cheia, o realizador tem se firmado como uma das vozes mais críticas do cinema norte-americano. Seus filmes, embora estruturalmente voltados para o grande público, não se omitem na hora de colocar o “dedo na ferida”. Sem a intenção de contar histórias, com o perdão da redundância, já contadas, ele ambienta os seus projetos numa América esquecida, interiorana, um cenário frequentemente esquecido por Hollywood. Foi assim no nervoso Sicario: Terra de Ninguém (2015), um thriller de ação sobre a presença dos cartéis mexicanos em território ‘yankee’, no extraordinário A Qualquer Custo (2016), um faroeste revisionista sobre dois irmãos dispostos a tudo para salvar o seu rancho de um leilão, e no seu mais novo projeto, o devastador Terra Selvagem (2017). Na obra mais dramática da sua enxuta, mas memorável carreira atrás das câmeras, Sheridan (que também é ator) nos coloca num cenário desesperançoso ao narrar a jornada de um agente inexperiente obrigada a assumir a investigação de um violento crime em terras indígenas. Após expor o desamparo dos velhos “caubóis” no seu último trabalho, o diretor dá um giro de 180º ao questionar agora a triste situação dos povos indígenas em território norte-americano, buscando inspiração em fatos ao tirar do papel um suspense maduro, denso e brutal. Uma obra silenciosa recheada de símbolos que não foge da raia ao revelar uma incômoda realidade. 

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Muito além da Fórmula Marvel! Os fatores que ajudam a explicar o triunfo do Universo Vingadores no concorrido mercado dos super-heróis


As expectativas se concretizaram. Tratado como um daqueles – cada vez mais raros – épicos eventos cinematográficos, Vingadores: Guerra Infinita chegou fazendo jus ao termo ‘blockbuster’ e arrasou quarteirões no seu primeiro final de semana em cartaz. Em apenas sete dias, o longa dirigido pelos irmãos Russo faturou absurdos US$ 857 milhões ao redor do mundo, batendo a arrecadação total da principal aposta da “concorrência”, o igualmente aguardado Liga da Justiça (2017), que, contrariando as elevadas expectativas, faturou modestos US$ 657 milhões mundialmente. Neste primeiro momento, porém, não vou me aprofundar nos predicados individuais de Guerra Infinita. Na verdade, para ser bem sincero, decidi fugir do ‘hype’ e vou deixar a minha opinião para depois. O assunto, aqui, será o triunfo do Universo Vingadores no concorrido mercado cinematográfico dos super-heróis. Isso porque, na minha humilde opinião, reduzir o êxito desta poderosa franquia exclusivamente à eficácia da “fórmula Marvel” me parece uma explicação muito óbvia e simplista. Embora reconheça a genialidade por trás da estrutura pensada pelo produtor Kevin Feige no fantástico (e já longínquo) Homem de Ferro (2008), uma abordagem familiar, bem-humorada e escapista que deu sustentação a iniciativa Vingadores, entendo que a gradativa ascensão do Universo Marvel se deve a inúmeros outros fatores. Neste artigo meramente opinativo, portanto, tentarei analisar os motivos que ajudam a explicar o gigantesco sucesso do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU em inglês) dentro da indústria do entretenimento.

domingo, 29 de abril de 2018

Dez ótimos (e recentes) Filmes Brasileiros que não merecem passar despercebidos


O cinema nacional passa por uma fase curiosa. Com apetite para o lucro “fácil”, o universo blockbuster tupiniquim segue preso ao lugar comum, ao marasmo das descartáveis comédias da “família brasileira”. Diante das falhas lei de incentivo e da ausência de um ‘modus operandi’ mais “industrial”, realizadores, distribuidores e exibidores cultivaram um “apetite” voraz pelo humor pastelão tipicamente televisivo, um formato datado que, com raríssimas exceções, segue nivelando as nossas produções por baixo. Em contrapartida, uma nova “safra” de diretores tem investido pesado na qualidade, no conteúdo, mostrando que é possível valorizar o entretenimento sem necessariamente subestimar a inteligência (e o bom gosto) do espectador. Infelizmente, porém, a maioria destes “pequenos grandes” filmes não tem conseguido o alcance merecido. Um dos últimos memoráveis produtos do nosso cinema, o fantástico Bingo: O Rei das Manhãs (2017), por exemplo, não passou despercebido, mas, mesmo com o selo de representante brasileiro no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, levou “apenas” cerca de 238 mil pessoas às salas ao redor do país. Outro título que não ganhou a atenção devida por aqui foi o esnobado Gabriel e a Montanha (2017). Inspirado numa comovente história real, o refinado longa estrelado por João Pedro Zappa levou pouco menos de 40 mil pessoas aos cinemas, mesmo com uma premissa extremamente agradável aos olhos do público. “Escondido” no claustrofóbico circuito artístico, a produção com padrão hollywoodiano passou praticamente despercebida pelos olhos do grande público, um pecado que, a meu ver, parece explicar o porquê de muitos espectadores tratarem as obras nacionais como um subproduto, como algo inferior e\ou de má qualidade. Neste artigo, portanto, tentarei realçar os predicados do cinema nacional numa lista com dez “novos” filmes brasileiros que não mereciam passar em branco. Dito isso, começamos com... 

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Gabriel e a Montanha

Visualmente memorável, longa celebra a vida de um homem falho, idealista e aventureiro

Íntimo e revelador, Gabriel e a Montanha convida o espectador para uma reveladora viagem ao narrar os últimos meses de vida do economista carioca Gabriel Buchman, um jovem idealista que foi encontrado morto, em 2009, durante uma viagem pelo continente africano. Sob a batuta de Felipe Barbosa (do irregular Casa Grande), amigo pessoal do biografado, o longa causa um misto de sensações ao tentar mostrar a face mais humana e contraditória deste idealista jovem, se distanciando das “lágrimas fáceis” ao respeitar o espírito alegre e extrovertido do biografado. Ao trocar o luto da tragédia pelo entusiasmo das transformadoras experiências vividas. 

terça-feira, 24 de abril de 2018

Amador

Um relato corajoso sobre um sistema falho

Reconhecido como um modelo de integração entre o esporte e a educação, o sistema de Draft, uma espécie de recrutamento usado nas principais ligas esportivas nos EUA, é frequentemente reverenciado em produções sobre o mundo do esporte. Uma abordagem, de fato, justificada, principalmente pelos inúmeros exemplos de atletas de sucesso que conseguiram ascender esportivamente sem necessariamente sacrificar a rotina de estudos. Nos últimos anos, porém, cresceram os casos de jogadores “aliciados” por empresários que, para aproximar um talento da escola\universidade da sua região, oferecem “benefícios” para os pais dos menores em prol de um acerto futuro. Na década passada, aliás, o adocicado Um Sonho Possível (2009) chegou a “arranhar a casca”, mostrando o cuidado dos órgãos reguladores durante este - cada vez mais - popular processo de triagem. Poucos títulos, entretanto, tiveram a coragem de jogar uma reveladora luz sobre este tema como o recente Amador. Produção original Netflix, o longa dirigido e roteirizado pelo jovem Ryan Koo é incisivo ao mostrar a vulnerável posição de um promissor jogador de basquete diante de um sistema falho. Sem a intenção de criar vilões, o realizador é cuidadoso ao se debruçar sobre este espinhoso assunto sob uma perspectiva densa e atual, indo além dos clichês dos dramas esportivos ao refletir com propriedade sobre a jornada de um jogador que, já na adolescência, entendeu que o bem-estar financeiro da sua família dependia do seu triunfo no concorrido mundo do basquete. 

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Órbita 9

Ciência e romance se misturam num Sci-Fi que não subestima a inteligência do público

Pegue uma pitada da visão de futuro idealizada pelo icônico Blade Runner (1982), tempere com uma generosa dose do imersivo debate ético proposto pelo ‘cult’ Ex-Machina (2014) e misture com o palatável molho “pipoca” do divertido A Ilha (2005). Desta “sopa Sci-Fi” nasce o intrigante Órbita 9, um projeto pequeno e valoroso que, apesar da sua premissa requentada, consegue equilibrar razão e emoção sem subestimar a inteligência do espectador. Sem sacrificar as regras básicas do gênero, o longa espanhol dirigido por Hatem Khraiche transita entre a ficção científica e o romance com satisfatória propriedade, se distanciando das soluções fáceis ao explorar os conflitos morais e afetivos por trás de uma relação proibida. Embora não tenha a profundidade do mais recente sucesso do gênero, o inquietante Aniquilação (2018), a mais nova produção original Netflix é sucinta ao jogar uma nova luz sobre temas recorrentes dentro do segmento, indo além dos seus espertos ‘plot twists’ e do competente argumento ao questionar – dentre outras coisas – a nossa pretensa superioridade diante dos experimentos científicos. 

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Dez Ótimos Filmes sobre o Drama dos Imigrantes ao Redor do Mundo


Sírios, venezuelanos, africanos, latinos, o drama dos imigrantes ao redor do mundo tem tomado conta dos principais telejornais nos últimos anos e causado uma justa comoção social. Para fugir da guerra, de governos totalitários, da desigualdade social e\ou da miséria, muitos decidiram se arriscar em uma degradante jornada, buscando melhores condições em países que nem sempre estão aberto a presença estrangeira. O resultado são imagens chocantes, notícias desoladoras, uma enxurrada de fatos que, logicamente, não passou despercebido pelo faro de alguns grandes realizadores. Lá em 1917, por exemplo, o genial Charles Chaplin resolveu expor as mazelas enfrentadas pelos resilientes viajantes com o seu afiado senso de humor no extraordinário O Imigrante. Anos mais tarde, os expoentes da Nova Hollywood Frances Ford Coppola e Brian de Palma usaram os clássicos O Poderoso Chefão – Parte II (1974) e Scarface (1983) para refletir sobre a falta de oportunidades dos imigrantes em solo norte-americano em duas verdadeiras pérolas sobre a consolidação do crime organizado. Já o veterano Martin Scorsese voltou no tempo para defender a importância estrangeira na construção da identidade norte-americana no agressivo Gangues de Nova Iorque (2002). Nos últimos anos, porém, alguns filmes decidiram abordar a crise da imigração sob um prisma mais contemporâneo. Recentemente, em especial, o extraordinário O Outro Lado da Esperança (2017) conseguiu colocar o dedo na ferida ao tratar o desdém governamental para com a figura do refugiado, nos brindando com uma obra densa, irônica e genuinamente humanitária. Diante deste tema tão urgente, neste artigo confira uma lista com dez ótimos filmes sobre a dramática situação dos imigrantes em território estrangeiro. 

sábado, 14 de abril de 2018

Diretor de Um Estranho no Ninho e Amadeus, Milos Forman morre aos 86 anos


O mundo do cinema perdeu uma das suas mais imponentes vozes. Faleceu na noite da última sexta-feira (13), aos 86 anos, o talentoso (quiçá genial) diretor Milos Forman. De acordo com a esposa do realizador, Martina Zborilova, "sua partida foi calma, e ele estava rodeado por toda sua família e seus amigos mais próximos". Nascido na República Checa, Forman construiu uma filmografia marcante. Embora valorizasse a grandiosidade cênica nos seus projetos, o cineasta era um mestre na arte de realçar o elemento humano, a força motora dos seus singulares personagens. Órfão da Segunda Guerra Mundial, a sua mãe morreu em Auschwitz em 1943, o seu pai em Bunchenwald em 1944, o cineasta desenvolveu um olhar inquieto e realístico, uma visão geralmente irônica sobre a loucura que nos cerca. Roteirista formado na Prague Film Academy, Formam ganhou os holofotes ainda na antiga Tchecoslováquia com as comédias Os Amores de uma Loira (1965) e O Baile dos Bombeiros (1967). Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com os dois projetos, Formam ganhou status em Hollywood, o que lhe rendeu o convite para dirigir Os Amores de uma Adolescente (1971). Recebido de maneira morna nos EUA, o longa teve sorte melhor no Reino Unido, conquistando seis indicações ao Bafta, o Oscar do cinema inglês.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O Outro Lado da Esperança

Um irônico soco no estômago

A crise dos refugiados nunca esteve tão em “alta” nos noticiários e nas redes sociais brasileiras. Enquanto os desesperados venezuelanos lutam por condições melhores na região Norte do nosso país, no Big Brother Brasil (pasmem vocês) um simpático sírio tem mostrado a importância de um “ombro amigo” em tempos de crise. Sejam os motivos certos ou não, é importante ver um tema tão delicado sendo realmente discutido por aqui, já que, ao redor do mundo, este assunto se tornou uma pauta urgente e recorrente. No cinema, aliás, ainda que timidamente, a desoladora situação dos imigrantes tem sido ora e vez explorada, culminando em filmes à sua maneira críticos e reveladores. De Hollywood, por exemplo, veio o empoderador Brooklyn, um relato verossímil sobre a dura situação de uma jovem irlandesa dividida entre o amor à sua Terra e a perspectiva de futuro. Já da Hungria veio a poderosa fábula Deus Branco, um relato questionador sobre o descaso social local diante da fragilidade dos refugiados em solo estrangeiro. Numa proposta bem diferente, da Argentina veio a excelente comédia Um Conto Chinês, um retrato íntimo sobre a problemática interação entre um estrangeiro e um local. O mais novo representante desta lista, porém, veio da Finlândia. E se trata de um grande filme. Denso, envolvente e humanitário, O Outro Lado da Esperança vai do fascínio ao desconforto ao mostrar as desventuras de um introspectivo refugiado sírio num frio solo finlandês. Escrito e roteirizado pelo elogiado diretor Aki Kaurismäki (do aclamado O Porto), o longa testa as nossas expectativas ao narrar a jornada de dois homens separados por uma nacionalidade, misturando comédia e drama com rara sagacidade numa obra singular. Um filme improvável que, por trás do seu particular senso de humor, esconde uma incisiva crítica a inércia dos governantes diante de um cenário tão devastador. 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...