sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Pacotão Netflix - Tal Pai, Tal Filha, A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata e Para Todos os Garotos que já Amei


Buscando ampliar o seu catálogo, a Netflix tem investido pesado nas suas produções originais. Uma alternativa ao modelo tradicional de ser “vender” o cinema, o serviço de ‘streaming’ surge como um “porto-seguro” para algumas esnobadas produções, daquelas que, seja por falta de alcance, seja por falta de qualidade, foram “engolidas” pela voracidade do circuito comercial. Óbvio que, durante este errático processo, a companhia tem dado um generoso espaço a produções de gosto duvidoso. Nada que, entretanto, justifique a desvalorização deste conteúdo. Pelo contrário. Me arrisco a dizer, inclusive, que sou um entusiasta do espaço dado pelos serviços de ‘streaming’ às produções menores que, longe de serem um subproduto, tem ganhado os holofotes do grande público através desta renovada janela de exibição. Diante da falta de tempo hábil, porém, confesso ser difícil escrever uma crítica padrão sobre a maior parte títulos. O retorno nem sempre é o esperado. O interesse nem sempre é o esperado. Neste “pacotão”, portanto, resolvi compartilhar a minha opinião sobre três dos mais novos (e valorosos) lançamentos da Netflix em textos menores, mas não menos importantes. 

terça-feira, 14 de agosto de 2018

A Melhor Escolha

Uma reflexão particular sobre as sequelas de uma guerra

Vietnã, Afeganistão, Iraque. As feridas destas respectivas guerras seguem causando muita dor na sociedade norte-americana. Por mais que, de longe, seja difícil mensurar o peso destas malfadadas incursões bélicas nos EUA, o cinema, na figura de críticos cineastas, se tornou uma das ferramentas mais enfáticas na divulgação dos males impostos por conflitos deste porte. Nas últimas quatro, cinco décadas, diretores como Francis Ford Coppola (Apocalipse Now), Stanley Kubrick (Nascido para Matar), Oliver Stone (Platoon, Nascido em 4 de Julho), Michael Cimino (O Franco Atirador), Miloš Forman (Hair), Kathryn Bigelow (Guerra ao Terror), Oren Moverman (O Mensageiro), Clint Eastwood (O Sniper Americano) e mais recentemente Gavin Hood (Decisão de Risco) colocaram o dedo na ferida ao não só questionar os motivos por trás do embate em si, mas ao revelar também as sequelas das batalhas na rotina dos sobreviventes. O mais novo integrante desta lista, A Melhor Escolha envolve ao, mesmo partido de uma premissa saturada, observar a dor da perda sob uma perspectiva particular e naturalmente crítica. Sob a eloquente batuta do eclético Richard Linklater, o longa provoca um misto de sensações ao refletir sobre a banalidade da guerra a partir do drama de um veterano do Vietnã obrigado a enterrar o seu próprio filho, traçando um irônico paralelo entre o passado e o presente num agridoce ‘road movie’. Em um relato maduro, o realizador norte-americano é incisivo ao estudar o contexto que uniu estas duas gerações, indo além da (incisiva) crítica governamental ao se concentrar na dor dos seus personagens, nos seus anseios, traumas, nas suas perspectivas de futuro e no vazio que uma guerra sem motivações justas pode causar. 

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Top 10 (Filmes “Populares” Indicados ao Oscar)


Os fãs de cinema foram pegos de surpresas nos últimos dias com as mudanças propostas pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas para as próximas edições do Oscar. Na busca por audiência, que ultimamente tem caído drásticamente ano após ano, os organizadores decidiram, entre outras medidas, encurtar o tempo da premiação para três horas e anunciaram que os vencedores de algumas categorias serão divulgados somente durante os intervalos. O que, em tese, daria mais espaço para os principais prêmios. A mais “polêmica” das novidades, entretanto, ficou pelo anúncio de uma nova categoria, “Outstanding achievement in popular film", algo como Melhor Filme Popular. Embora as boas intenções sejam claras, na busca pela “democratização” a Academia, a meu ver, está criando uma espécie de “cota” que muito me incomoda. Desde 2010, com o aumento do número de indicados ao prêmio de Melhor Filme, a ideia era que o Oscar começasse a valorizar mais os bons blockbusters e os populares filmes do gênero. Uma movimentação, diga-se de passagem, motivada pela ausência do fantástico Batman: O Cavaleiro das Trevas na lista final dos indicados à categoria máxima no ano anterior. O que se viu desde então, no entanto, foi uma manutenção do antigo ‘status quo’, do pedantismo dos membros votantes em não reconhecer o valor de alguns aclamados filmes pipocas. 

Ver o extraordinário Mad Max: Estrada da Fúria, por exemplo, perder o prêmio de Melhor Filme para o protocolar Spotlight: Segredos Revelados foi de irritar. A impressão que fica, então, é que os organizadores se viram obrigados a mudar esta mentalidade na base da força, com a criação de uma categoria que dialogasse melhor com o grande público. O problema é que essa pode ser uma faca de dois gumes, principalmente se, com isso, os blockbusters começarem a perder o (já reduzido) espaço entre os indicados ao prêmio de Melhor Filme. Isso porque, mesmo diante das inúmeras barreiras impostas, os “filmões” de Hollywood sempre se fizeram presente na premiação, conquistando por méritos próprios o público, a crítica e consequentemente os votantes. Para mostrar o quão “forçada” é esta nova categoria, no Cinemaniac iremos relembrar de alguns destes filmes “populares” que, sem qualquer tipo de benefício, figuraram entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme. Como critério, decidi me concentrar da década de 1970 para cá, justamente quando o conceito de ‘blockbuster’ passou a ganhar a forma atual em Hollywood. Além disso, diante das inúmeras opções, optei também por criar alguns “pacotões”, na tentativa de dar o merecido destaque algumas das maiores pérolas do cinema pipoca. Dito isso, começamos com...

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Minha Primeira Caçada

Unidos por um veado da cauda branca

Um pequeno “respiro” na carreira de Josh Brolin, um ator versátil que, após “roer o osso” por décadas, emplacou em 2018 títulos do porte de Vingadores: Guerra Infinita, Deadpool 2 e Sicario: Dia do Soldado, Minha Primeira Caçada ri das raízes bélicas norte-americanas numa debochada sátira familiar. Sem se levar a sério por um segundo sequer, o longa dirigido por Jody Hill (O Policial Fora de Controle) cativa ao questionar a precocidade infantil, invadindo o terreno dos ‘coming of age movie’ ao se concentrar na disfuncional relação entre um popular caçador de veados brancos e o seu cosmopolita filho. Uma obra simples e genuinamente engraçada que, embora flerte com o sentimentalismo em alguns momentos, consegue contornar os seus problemas graças a capacidade de Josh Brolin, Danny McBride e do surpreendente Montana Jordan em ri de si mesmo.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Um Lugar Silencioso

Shhhh!!!!!!

Poucos gêneros se reinventaram tanto e tão bem nos últimos anos quanto o Suspense. Após flertar com a saturação e com ideias repetidas no final da última década, vide o desgastado uso do ‘found foutage’, o segmento ganhou uma reoxigenada nas mãos de diretores como James Wan, Guillermo Del Toro, J.J Abrams e M. Night Shyamalan, das visionárias produtoras A24 e Blumhouse, além óbvio da gigante Warner Bros. De 2010 para cá o que temos visto é o resgate de uma fórmula que havia dado muito certo no cinema de Horror entre os anos 1970 e 1980. Uma aposta em filmes pequenos, com premissas originais, um baixo investimento, efeitos práticos e tramas (geralmente) com um forte subtexto. O resultado é uma “safra” de grandes filmes ao redor do mundo, encabeçada por títulos do quilate de Corra! (2017), Ao Cair da Noite (2017), Fragmentado (2016), Rua Cloverfield, 10 (2016), O Homem nas Trevas (2016), Sob as Sombra (2016), A Visita (2015), O Babadook (2014), Invocação do Mal (2013) dentre outros. Nenhum dos filmes acima, entretanto, nos brindou com uma experiência cinematográfica tão singular quanto o extraordinário Um Lugar Silencioso. Magnífico ao se apropriar da liberdade artística possibilitada pelo gênero, o ator e diretor John Krasinski mostra espantosa maturidade ao entregar uma obra única, um filme capaz de explorar o dispositivo cinema em sua máxima potência. Com personagens cativantes, um argumento recheado de tensão e uma linguagem narrativa extremamente ousada, o realizador norte-americano fascina ao valorizar o senso de imersão, fazendo um extraordinário uso da vistosa fotografia e do primoroso design de som na construção de uma película enérgica, enervante e absolutamente sensorial. E isso sem esquecer de tecer um inteligente comentário envolvendo a renovação da velha estrutura familiar.

terça-feira, 31 de julho de 2018

Melanie: A Última Esperança

A revolução zumbi

Que grata surpresa eu tive ao assistir o excelente Melanie: A Última Esperança (The Girl With All The Gifts, no original), uma daquelas produções subestimadas que, diante da concorrência imposta pelo mercado blockbuster, sequer foi lançada nos cinemas brasileiros. Um filme de zumbi original, com um roteiro instigante, personagens multidimensionais e uma abordagem criativa sobre a contaminação em si. Tudo funciona muito bem. O roteiro é criativo ao explorar o viés pós-apocalíptico. Poucas vezes eu vi o elemento da consciência num "contaminado" ser tão bem explorado. Ao buscar referências nos clássicos Mortos que Matam (1964), estrelado pelo legendário Vincent Price, e O Dia dos Mortos (1985), do mestre George Romero, o promissor diretor Colm McCarthy é astuto avançar em alguns conceitos já estabelecidos dentro do segmento, transitando com surpreendente propriedade entre o Horror, o Suspense e o Drama Familiar num argumento imprevisível. Uma simples mudança de perspectiva e tudo ganha uma (corajosa) nova conotação. 

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Extinção

Surpreendente

Pegue o argumento do épico Guerra dos Mundos (2008). Misture com o suspense psicológico do excelente O Abrigo (2008). Adicione o cativante ‘background’ familiar do magnífico Um Lugar Silencioso (2018). E tempere tudo isso com um inesperado subtexto Sci-Fi. Pronto. A Netflix finalmente acertou. Embora parta de uma premissa um tanto quanto saturada, Extinção surpreende ao construir uma visão original sobre o “nosso” apocalipse. Com alma de “filme B”, mas ousadia para criar em cima de uma temática tão explorada, o longa dirigido por Ben Young (Hounds of Love) é perspicaz ao não se seduzir pela megalomania da destruição em grande escala, valorizando o aspecto micro ao se concentrar na luta pela sobrevivência de uma pacata família diante de uma feroz invasão alienígena. Sob esta vulnerável perspectiva, o realizador é astuto ao tirar do papel um ‘mise en scene’ tenso e instigante, indo além do fator humano ao gradativamente preencher a trama com questões bem mais complexas do que a película parecia sugerir. O resultado é uma obra por si só nervosa que, quando parecia não ter muito mais a oferecer, surge com um dos ‘plot twists’ mais impactantes (e espertos) que o gênero viu nos últimos anos. 

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Pantera Negra

Nobreza, tradição e representatividade

Quando o assunto é a análise de um grande blockbuster, o ‘hype’ pode ser taxado como um grande vilão para aqueles que querem manifestar uma opinião sincera sobre determinado lançamento. Tal qual um doping, a expectativa gera um sentimento de euforia involuntário, o que pode ora derrubar o seu senso crítico quando o resultado é muito positivo, ora aguçar o seu faro para as falhas quando o material decepciona. Nos últimos anos, inclusive, o que eu tenho visto são filmes perdendo “prestígio” junto a mídia especializada nas primeiras semanas pós-lançamento. Após o ‘hype’ inicial, a aclamação logo dá espaço aos questionamentos. Aos poucos os problemas começam a ser realçados, justamente quando a adrenalina da estreia parece baixar. No olho do furacão das grandes produções, o Universo Cinematográfico da Marvel tem atraído as atenções neste sentido nas últimas décadas. Para os detratores, a crítica tem sido condescendente com o nível das produções da companhia. Basta entrarmos numa sessão de comentários de um site de Cultura Pop para percebemos que a maioria das opiniões negativas está ligada ao potencial de esquecimento das obras do MCU. Ao impacto do fator ‘hype’ na equação Marvel. E confesso que este não é um argumento inválido. Eu mesmo já me peguei revendo alguns (poucos, é verdade) títulos da Marvel posteriormente e o resultado não foi o mesmo. Por isso decidi fazer algo novo. Optei por fugir do ‘hype’. Esperar o clima de euforia cair, a histeria coletiva em torno de tal projeto perder a força e só então o assistir. Com a consciência “tranquila” neste sentido, posso dizer que Pantera Negra é - indiscutivelmente - o filme mais importante da Marvel Studios. Após ficar atrás da concorrência quando o assunto foi a representatividade feminina no gênero, ponto para a DC e o empolgante Mulher-Maravilha, a empresa correu atrás do prejuízo com agilidade, fincando os dois pés na realidade ao entregar o super-herói negro que o cinema precisava. Sob a refinada batuta do talentoso Ryan Cogler, o longa exalta a nobreza da cultura negra com rara energia, respeitando o doloroso passado de uma raça numa obra que não se omite ao explorar o contexto histórico. E isso, obviamente, sem abrir mão do fator entretenimento que, por trás das sólidas discussões morais em torno da trama, guia a ação exaltando com propriedade as raízes afro. 

domingo, 22 de julho de 2018

Do Fundo do Baú (François Truffaut)


Há exatos sete dias, a França levantava o cobiçado caneco de campeã na Copa do Mundo 2018. E como um grande fã de esportes que sou, decidi prestar uma singela reverência ao país que - dentre outros feitos cinematográficos - nos brindou com o precioso movimento da Nouvelle Vague. Indo de encontro ao modelo ‘hollywoodiano’ de se pensar o cinema, os críticos da revista Cahiers du Cinema, uma das mais importantes publicações do segmento, decidiram trocar a teoria pela prática. As redações pelo set de filmagens. Influenciados pelos conceitos defendidos pelo literário André Bazin, nomes como Jean-Luc Godard (Acossados), Alain Resnain (Hiroshima Meu Amor), Eric Rohmer (Uma Noite em Casa de Maude) e (claro!) François Truffaut surfaram numa “nova onda” mais democrática. Dispostos a refletir sobre a vida nos grandes centros urbanos, este seleto grupo passou a investir em histórias pequenas, mundanas, se debruçando sobre a inquietação humana em produções baratas, com cenários reais, atores desconhecidos e um íntimo viés naturalista. A realidade passou a ser o cerne da questão. Além disso, os principais porta-vozes deste celebrado movimento saíram em defesa da renovação estética, revigorando a forma de se fazer cinema ao investir em planos engenhosos, enquadramentos modernos e numa linguagem universal. Uma proposta “faça você mesmo” que inspirou diversos outros grandes realizadores e correntes, incluindo o nosso Cinema Novo, a Nova Hollywood e o bem-sucedido mercado ‘indie’ norte-americano. Dos integrantes da ‘Nouvelle Vague’, porém, Truffaut sempre me pareceu o realizador mais “acessível”. Não que os outros não sejam. Mas o homem por trás dos clássicos Farenheint 451 (1966) e A Noite Americana (1973) foi o que, a meu ver, mais buscou o contato com o grande público. Embora tenha falecido novo, aos 52 anos, vítima de um câncer no cérebro, ele não titubeou em dialogar com as grandes plateias, buscando ir além dos pequenos nichos, do pedante “cinema de arte”. Suas produções, ainda que tecnicamente virtuosas, eram puras, francas e universais. A simplicidade narrativa era a alma do seu negócio. Mais tarde, já na década de 1970, Truffaut chegou a flertar com a (remodelada) Hollywood, ganhando um papel de destaque no clássico Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1978). Ali, o então jovem Steven Spielberg, parecia prestar uma digna homenagem a uma das suas principais influências, um dos pilares na renovação cinematográfica na segunda metade do século XX. Dito isso, neste Do Fundo do Baú, decidi falar um pouco mais sobre a carreira do mestre François Truffaut analisando três das suas mais marcantes produções. 

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Dez filmes estupidamente divertidos influenciados pelo “trintão” Duro de Matar


“Eu queria interpretar alguém que tivesse medo de morrer.” Com essa simples frase, em entrevista cedida na época do lançamento a revista Closer Weekly, Bruce Willis sintetizou o sucesso de Duro de Matar (1988), um verdadeiro divisor de águas dentro do concorrido cinema de ação. Lançado há trinta longos anos, o longa dirigido por John McTiernam revolucionou as engrenagens do gênero ao estreitar os laços entre público e protagonista, ao torna-lo um tipo humano, falível, que sofre, sangra. Um projeto ousado, principalmente por romper com o que vinha sendo produzido previamente. Influenciado pelos (anti) heróis do Western, o cinema de ação se consolidou nos anos 1970\1980 investindo nos populares “exércitos de um homem só”. Em filmes protagonizados por personagens ‘bad asses’, imponentes, tipos fortes e inabaláveis que conseguiam encarar dezenas e dezenas de vilões sem sequer fraquejar. O eterno pistoleiro sem nome, Clint Eastwood, por exemplo, se tornou um dos precursores do segmento com o feroz Harry Callahan e a franquia Dirty Harry (1971) (no Brasil, O Perseguidor Implacável).  Outro expoente do faroeste, Charles Bronson repetiu os passos do seu companheiro de geração com o frio e vingativo Paul Kersey e a longeva franquia Desejo de Matar (1974). Na transição para a década de 1980, entretanto, os heróis se tornaram cada vez maiores e mais destrutivos. Oriundo da saga Rocky Balboa, Sylvester Stallone se tornou um dos “gigantes” do gênero com títulos como Rambo: Programado para Matar (1982), Rambo II (1984), Stallone: Cobra (1986) e Rambo III (1988). No quesito tamanho, no entanto, ninguém superou o carismático Arnold Schwarzenegger. Após brilhar como o bárbaro Conan (1982 e 1984) e o robótico Exterminador, o austríaco “rivalizou” com Stallone em Comando para Matar (1985), Jogo Bruto (1986) e O Predador (1987). Por fim, após dividir a tela com o legendário Bruce Lee em O Voo do Dragão (1972) e Jogo da Morte (1978), Chuck Norris também figurou na primeira prateleira do gênero, conquistando a atenção dos fãs com as franquias Bradock (1984) e Comando Delta (1986).

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Calibre

O peso das consequências

Dois amigos saem numa caçada comemorativa. Um tiro. Uma vítima inocente morta. O estopim para uma sucessão de decisões inconsequentes. Sem a intenção de alimentar falsos mistérios, Calibre choca pela forma com que valoriza um elemento frequentemente esnobado dentro do gênero: o peso das consequências. Com a contundência necessária para questionar, o suspense escocês dirigido e roteirizado pelo promissor Matt Palmer enerva ao se concentrar nos dilemas morais da dupla de protagonistas, criando uma obra com sólidas ramificações dramáticas. Um filme que, por acreditar na força da sua história e na multidimensionalidade dos seus personagens, esbanja maturidade ao traduzir com frieza a espiral de dor e desespero causado por uma simples arma de fogo. 

sábado, 14 de julho de 2018

Cinco Filmes (Ingmar Bergman)


"Nenhuma outra forma de arte vai além da consciência ordinária como o cinema, que vai direto nas nossas emoções, fundo no crepúsculo da alma." Ingmar Bergman

Um dos realizadores mais influentes do cinema europeu, Ingmar Bergman viu a sua obra ganhar um status inacessível junto ao grande público. O que é uma pena. Nascido pouco meses antes do término da Primeira Guerra Mundial, o realizador sueco se tornou uma das vozes mais enfáticas sobre o período de turbulência que tomou conta do velho continente nas décadas seguintes. Dono de uma eclética filmografia, o legendário diretor se acostumou a transitar por temas recorrentes, entre eles a solidão, a morte, o luto, a culpa, a desilusão, a religião, realçando os conflitos mais íntimos dos seus tipos em obras plurais, universais e ainda hoje atuais. Um dos precursores no movimento de renovação da linguagem cinematográfica que se espalhou pelo mundo a partir da década de 1960, Bergman, de mãos dadas com o crescente Neorealismo Italiano, ajudou a moldar correntes como a Nouvelle Vague, a Nova Hollywood e o Cinema Novo. E a influenciar nomes do porte de François Truffaut, Andrey Tarkovski, Stanley Kubrick, Woody Allen, Martin Scorsese entre outros. Ainda na década de 1940, com longas como Crise (1945), Música na Noite (1947) e Prisão (1949), ele mostrou o seu apreço por uma temática mais mundana, fazendo um precioso uso do subtexto em filmes modernos. Com personagens e dilemas reconhecíveis. Curiosamente, entretanto, o apreço de Bergman pelos projetos mais desafiadores parece ter o transformado num “gosto adquirido”. Títulos complexos como o fantástico O Sétimo Selo (1957), o instigante Persona (1966), o chato Gritos e Sussurros (1972) e o nervoso A Hora do Lobo (1968) ajudaram, de fato, a reforçar esta impressão, mas, numa análise mais profunda, até destas próprias obras, é possível perceber o quão acessíveis e contemporâneas são essas películas. Para celebrar o centenário de Ingmar Bergman, que, se fosse vivo, completaria 100 anos neste dia 14 de Julho, no Cinemaniac uma lista com cinco dos filmes mais universais deste influente realizador. 

quarta-feira, 11 de julho de 2018

A Vida em Espera

Um marido em colapso

Howard Wakefield tinha praticamente tudo. Um emprego numa gigante do ramo da advocacia. Uma suntuosa casa no subúrbio. Carro do ano. Roupas de luxo. Um casamento duradouro. Uma vida perfeita, não? Não! Por trás das aparências existia um homem frustrado, um pai “invisível”, um marido enciumado, uma rotina sustentada pela conveniência. Pela necessidade de se manter o rótulo da família feliz. Isso, pelo menos, até Wakefield resolver “desaparecer”, largar a sua casa, sua esposa, filhas e viver como um sem teto no sótão da sua própria casa. Reflexivo e provocador, A Vida em Espera se revela uma debochada crônica sobre os dilemas do homem urbano. Com um refinado senso de humor, o longa dirigido pela diretora Robin Swicord (O Clube de Leitura de Jane Austen) é sagaz ao contestar as “responsabilidades” masculinas dentro de um matrimônio, as imposições estabelecidas pelo senso comum, se insurgindo contra os clichês do “homem provedor” ao tratar o protagonista como uma figura completamente dispensável. Ao investigar a sua parcela de culpa pela situação estabelecida acima. 

domingo, 8 de julho de 2018

Os trinta anos de Uma Cilada para Roger Rabbit, o longa que resgatou a “confiança” da Disney nas suas animações


Década de 1980. O cenário era nebuloso. O mercado de animação passava por uma crise sem precedentes, uma entressafra marcada por obras pouco inspiradas, esporádicos sucessos de público e uma crescente perda de relevância. Um dos pilares do segmento, a Disney tentava “recolher os cacos” após o fracasso chamado O Caldeirão Mágico (1985). Um projeto que, no papel, surgia como um potencial divisor de águas. Em meio ao marasmo que havia tomado conta da animação ocidental, o estúdio decidiu investir pesado na adaptação dos primeiros livros da série As Crônicas de Prydain, de Lloyd Alexander, uma estratégia que, uma década mais tarde, viria a se tornar um sinônimo de sucesso com franquias do quilate de Harry Potter, O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Narnia. Naquele momento, entretanto, o que se viu foi um fiasco. Com a intenção de revolucionar as engrenagens do gênero, os diretores Ted Berman e Richard Rich (do excelente O Cão e a Raposa) ganharam carta branca para tirar do papel uma aventura grandiosa, com traços expressivos, a pioneira utilização da computação gráfica na criação de efeitos secundários e uma atmosfera soturna poucas vezes vista na história da Disney. Um nível de excelência e ousadia que custou caro. Com orçamento previsto para US$ 25 milhões, números – por si só – elevadíssimos, os realizadores sofreram com o “estouro” do orçamento, que, especula-se, teria ultrapassado a marca dos US$ 44 milhões. Para piorar, após as tão temidas sessões testes, o produtor executivo Jeffrey Katzenberg se espantou com o viés sombrio da película, com a proposta distante dos “padrões” Disney. O que, obviamente, culminou num corte de quase doze minutos de cenas do material original e num produto final o mais infantil possível. O resultado não poderia ser outro. Apesar dos inegáveis méritos técnicos e narrativos, O Caldeirão Mágico naufragou nas bilheterias norte-americanas ao render frustrantes US$ 21 milhões, um revés pesado que causou uma série de mudanças na já combalida Walt Disney Animations, incluindo uma troca de sede, e por pouco não quebrou o estúdio como um todo.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Oeste sem Lei - Slow West

Amor impossível

Uma das correntes mais marcantes do Western, o movimento revisionista ganhou forma na década de 1950 para colocar em cheque a maniqueísta versão glamourizada do gênero. Mais conectado com a realidade e o contexto histórico da época, títulos como Matar ou Morrer (1952), Os Brutos também Amam (1953) e Johnny Guitar (1954) ajudaram estabelecer esta nova visão, popularizada nos anos 1960 e 1970 graças a obras do porte de Os Sete Magníficos (1960), Meu Ódio será sua Herança (1969) e Butch Cassidy and the Sundance Kid (1969). Os indígenas deixaram de ser os vilões e passaram a ser as vítimas. Os caubóis fora-da-lei ganharam nuances mais íntimas e humanas. Os xerifes se tornaram tipos dúbios. A violência passou a ser questionada. A barreira entre protagonistas e antagonistas se tornou quase imperceptível. Uma visão que “sobreviveu”, até mesmo, a decadência do segmento, sendo revitalizada nas últimas duas décadas nas mãos de realizadores como Clint Eastwood (Os Imperdoáveis, Gran Torino), James Mangold (Os Indomáveis), Ethan e Joel Coen (Onde os Fracos Não Tem Vez, Bravura Indômita), Quentin Tarantino (Django Livre, Os Oito Odiados), Alejandro G. Iñarritu (O Regresso), Taylor Sheridan (A Qualquer Custo, Terra Selvagem). Uma baita lista que ganha um integrante de respeito com o singular Oeste sem Lei. Um daqueles ‘hits’ inadvertidamente lançados direto no ‘streaming’, o longa dirigido e roteirizado por John Maclean esbanja sarcasmo ao revisitar o velho oeste sob a perspectiva de um jovem e apaixonado estrangeiro. Com um roteiro irônico, personagens cativantes e uma história instigante, a película é astuta ao traduzir a vulnerabilidade individual numa terra sem lei, brincando com as expectativas do idealista protagonista (e consequentemente do público) ao tirar do papel um ‘road-movie’ incisivo e inesperadamente sentimental. 

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Top 10 (Grandes filmes dos últimos dez anos)


No dia 2 de julho de 2008, há exatos dez anos, o Cinemaniac “nascia” como um projeto despretensioso de um então estudante de Jornalismo fã da Sétima Arte. Uma janela para expor as minhas opiniões cinéfilas enquanto aprimorava o meu (problemático) texto. Sim, escrever é difícil! Mesmo com a prática conquistada após mais de 430 críticas postadas, ainda hoje peno para traduzir em palavras as minhas impressões sobre um filme. As vezes as frases vêm com extrema facilidade. Em outros casos elas custam para ganhar forma. Um esforço recompensado no momento em que aperto o botão publicar. Ao longo dos últimos dez anos, aliás, fiz questão de manter esta proposta “pessoal”, em não me preocupar muito com números, com o potencial retorno financeiro. Uma “expectativa” que, verdade seja dita, se revelou cada vez mais distante com o ‘boom’ dos vlogs, do You Tube e a crise no mercado jornalístico. Seriedade, entretanto, nunca faltou. Me orgulho em dizer que, em alguns momentos, consegui acompanhar o “ritmo” dos gigantes, oferecendo uma cobertura satisfatória sobre lançamentos, premiações e as principais novidades dentro da indústria. O nosso foco, porém, sempre foi eclético. Já escrevi sobre filmes de diversos gêneros, das mais variadas regiões do mundo, procurando dar um espaço para todo e qualquer tipo de produção. Nos últimos anos, inclusive, tenho tentado fugir do ‘hype’ dos poderosos blockbusters, deste concorrido segmento, me distanciando do considerado “conteúdo fácil” em prol de uma visão mais particular sobre o Cinema. Para celebrar uma década de Cinemaniac, portanto, nada melhor do que olhar para trás numa lista com dez dos melhores filmes lançados nos últimos dez anos. Com base no meu gosto pessoal, no Top 10 traremos os longas que receberam nota máxima aqui no blog. Dito isso, começamos com... 

sábado, 30 de junho de 2018

Tau

Sobra estilo, falta inteligência

Como já escrevi outras vezes aqui no blog, é nítido o apreço da Netflix, enquanto produtora\distribuidora de conteúdo, pelo universo das ficções-científicas. Nos últimos anos, a gigante do streaming tem recheado o seu catálogo com diversos títulos do gênero, uma busca voraz que, infelizmente, tem priorizado mais a quantidade do que propriamente a qualidade. Com exceção de longas como o crítico Okja, o existencialista Aniquilação e o valoroso Órbita 9, o que se vê até o momento é uma preocupação temática, uma valorização dos filmes com premissas instigantes que, na maioria dos casos, não conseguem explorar o seu próprio potencial. Uma sensação que fica bem clara quando assistimos obras do nível de Onde está Segunda?, Anon, Mudo, The Titan, O Paradoxo Cloverfield e The Discovery, produções que, apesar dos seus inegáveis predicados, não entregam o nível de profundidade exigido por este complexo segmento. Uma lista de decepções que ganha mais um integrante de “respeito”, o sentimentalista Tau. Com um roteiro carente de inteligência, um vilão tenebroso (no mau sentido) e um terceiro ato que beira o risível, o longa dirigido pelo novato Federico D'Alessandro desperdiça uma promissora premissa num Sci-Fi sem nuances, uma obra frouxa que ofende o legado do gênero ao discutir os paradigmas da Inteligência Artificial sob uma perspectiva rasa e infantiloide. Inspirado por obras do quilate de Ex-Machina, o realizador uruguaio capricha no estilo, no uso das cores saturadas e da trilha sonora, mas tudo soa vazio (e pouco original) diante dos pífios efeitos visuais, da completa ausência de tensão e da imaturidade com que Tau trata conceitos tão complexos. 

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Em Busca de Justiça

Uma releitura esforçada do clássico Era uma Vez no Oeste

Um dos gêneros mais clássicos do cinema norte-americano, o Western aos poucos começa a ser redescoberto por Hollywood. Seja por inventivos remakes, entre eles Os Indomáveis (2007), Bravura Indômita (2010), Django Livre (2012) e Sete Homens e um Destino (2016), seja por revisões modernas, como os extraordinários Onde os Fracos Não têm Vez (2007), O Regresso (2015) A Qualquer Custo (2016) e Terra Selvagem (2017), o segmento vem ganhando vida nova, uma bem-vinda volta por cima após uma longa entressafra. Uma espécie de “primo pobre” dos títulos citados acima, Em Busca de Justiça (Jane Got a Gun, no original) arrisca ao propor uma releitura moderna e não intencional do épico Era uma Vez no Oeste (1968). Sob uma perspectiva atual, a película dirigida por Gavin O’Connor (Guerreiro) se esforça na tentativa de dar uma roupagem feminina a um dos arcos mais tradicionais do gênero. Com um super elenco em mãos e uma fotografia digna dos melhores exemplares do faroeste, o realizador realça a atmosfera de tensão ao investir no mistério em torno do trio de protagonistas, flertando com elementos genuínos ao valorizar o pano de fundo passional. O’Connor, entretanto, está longe da maestria do virtuoso Sergio Leone, o que fica bem claro quando assunto é a montagem, o desenvolvimento da trama e a decepcionante construção do promissor vilão, uma peça chave em dez entre dez sucessos do gênero. 

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