quarta-feira, 20 de junho de 2018

O Vazio do Domingo

Tempo perdido

Possivelmente o título mais desafiador entre as produções originais Netflix, O Vazio do Domingo provoca um misto de sensações ao estudar o impacto da ausência na rotina de duas mulheres unidas pelo elo da maternidade. Sob a refinada batuta do promissor Ramón Salazar, o longa é profundo ao reconectar o elo entre mãe e filha, ao entender as suas respectivas motivações, refletindo sobre o tempo perdido numa obra densa, dramática e naturalmente instigante. Sem a intenção de se prender as respostas fáceis, o realizador espanhol mostra astúcia ao alimentar o clima de mistério, ao proteger os segredos em torno de duas complexas personagens, realçando o aspecto intimista do texto enquanto constrói uma relação marcada pela dor, pelo peso da culpa e pela esperança da redenção. Não espere, porém, um drama agridoce, daqueles bem típicos em Hollywood. Com a coragem necessária para tocar em temas espinhosos sem um pingo de condescendência, Salazar esbanja delicadeza ao realmente estreitar o vínculo entre mãe e filha, ao tornar tudo genuinamente feminino, encontrando nas poderosas atuações da dupla Bárbara Lennie e Susi Sánchez o peso necessário para tornar tudo muito real\verdadeiro aos olhos do público. 

domingo, 17 de junho de 2018

Beirut

A tensão na mediação

Logo na elucidadora sequência inicial, o roteirista Tony Gilroy (A Trilogia Bourne) é hábil ao introduzir o pano de fundo político proposto em Beirut, o complexo jogo de interesses em solo libanês diante do secular embate entre Israel e a Palestina. Uma das inúmeras peças neste espinhoso tabuleiro, o mediador da CIA Mason Skiles (Jon Hamm) vê a sua estabilidade ruir repentinamente ao sentir na pele as consequências da incessante luta por poder e território dentro desta caótica região do Oriente Médio. Com base nesta envolvente premissa, o longa dirigido por Brad Anderson (O Maquinista) esbanja inteligência ao trazer a tensão dos fatos para a ficção. Impulsionado pela maturidade do texto de Gilroy, que, assim como na saga que o consagrou, não parece interessado em perder tempo com soluções didáticas e com as explicações óbvias, o realizador é sucinto ao expor a vulnerabilidade dos seus personagens diante das nebulosas intenções dos seus superiores, transitando por um terreno extremamente verossímil ao discorrer sobre a conivência norte-americana nos bastidores de uma violenta guerra civil.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Sua Melhor História

Uma ode a sensibilidade feminina no cinema

Num ano em que Dunkirk e O Destino de Uma Nação se tornaram dois indiscutíveis sucessos de público e\ou crítica, chega a ser frustrante ver uma obra como Sua Melhor História ter passado tão despercebida. Ambientada no mesmo cenário das duas películas citadas acima, uma Inglaterra pressionada pelas tropas nazistas na primeira metade da Segunda Guerra Mundial, o longa dirigido pela talentosa Lone Scherfig (Educação) é perspicaz ao usar este contexto militarizado para debater a (ainda hoje) escassa presença feminina por trás das câmeras. Embora não seja inspirado em fatos, a película causa um inegável fascínio ao valorizar a sensibilidade feminina dentro da produção cinematográfica, enxergando um cuidadoso paralelo com a vida real ao mostrar como o conflito deu as mulheres britânicas a chance de conquistar a sua independência dentro de uma conservadora sociedade. Por mais que o roteiro derrape aqui ou ali, principalmente quando se prende demasiadamente ao pano de fundo romântico, Scherfig mostra sutileza ao estabelecer as barreiras entre a ficção e a realidade, entre a esperança e a dor, realçando a nossa vulnerabilidade em tempos de guerra sob uma perspectiva verossímil, inteligente e naturalmente feminina. 

terça-feira, 12 de junho de 2018

Top 10 (Romances Lacrimosos)


Guiados pelo ideal do amor impossível, um arco romântico\dramático que desde o clássico Romeu e Julieta tem sido reciclado dentro do universo dos romances cinematográficos, alguns realizadores resolveram pregar as suas peças e “testar” as emoções do público. E, aqui, não estou me referindo às histórias de amor que - por um motivo ou outro - simplesmente não deram certo, como As Pontes de Madison (1995), Closer: Perto Demais (2004), Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004) e o recente La La Land (2016). Não, alguns diretores\autores preferem pegar pesado, levando a sério demais o conceito do “até que a morte nos separe”. Como para bom entendedor meia palavra basta, neste Top 10 uma lista com alguns dos romances mais lacrimosos do Cinema. Eu disse lacrimosos e não desoladores, por isso não incluirei nesta seleção títulos como Namorados para Sempre (2010), Amor (2012), O Segredo de Brokeback Mountain (2005) e Meninos não Choram (1999). Dito isso, começamos com... 


domingo, 10 de junho de 2018

The Breadwinner, Em Busca do Vale Encantado e os pequenos grandes longas de animação que não merecem cair no esquecimento


Disney, Dreamworks, Pixar, Illumination, Ghibli... Competir com estas gigantes da animação não é uma missão nada fácil. Num mercado cada vez mais concorrido, algumas pequenas produções parecem se perder em meio aos grandes blockbuster. Ora e vez, entretanto, eventos como o Oscar e o Globo de Ouro nos lembram que existe vida inteligente fora deste imponente grupo. Um dos grandes destaques da última temporada de premiações, The Breadwinner (A Ganha-Pão no Brasil) é o tipo de produção que, por exemplo, de maneira alguma deveria ficar à margem do radar do grande público. Num retrato desolador sobre a realidade das mulheres em solo afegão, o longa dirigido pela irlandesa Nora Twomey provoca um misto de emoções ao expor uma rotina frequentemente esnobada pelo público ocidental, se insurgindo contra os pré-conceitos ao escancarar a política do medo estabelecida pelo regime talibã. Um filme indispensável que, após passar em branco circuito brasileiro, ganhou uma preciosa segunda chance ao entrar para o catálogo da Netflix. Assim como The Breadwinner, entretanto, outras excelentes produções do gênero não ganharam o status merecido junto ao grande público. Neste artigo, portanto, eu trago uma lista com dez pequenas grandes animações que não merecem cair no esquecimento. 

sexta-feira, 8 de junho de 2018

The Breadwinner - A Ganha-Pão

Um triste relato sobre a realidade feminina sob o regime talibã

Escrever sobre The Breadwinner é uma missão delicada. Isso porque, muito mais do que uma simples obra de ficção, o longa dirigido pela irlandesa Nora Twomey surge como um desesperado grito de ajuda, um clamor feminino numa região dominada pelo medo e pela opressão. Inspirado na obra da escritora canadense Deborah Ellis, que, na segunda metade da década de 1990, viveu no Afeganistão e experimentou a triste realidade das mulheres sob o regime talibã, a delicada animação causa um misto de empatia e indignação ao narrar as desventuras de uma esperta menina obrigada a assumir uma nova identidade para assumir o sustento da sua família. Transitando brilhantemente entre o realismo e a fantasia, a realizadora esbanja propriedade ao expor a miserável condição feminina neste contexto. Ao realçar a resiliência das mulheres afegãs e a impotência do povo afegão numa obra que acerta ao refletir sobre o nobre passado, o desolador presente e o nebuloso futuro dos habitantes desta árida região. 

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Na Selva

Nunca subestime a vida selvagem

Daniel Radcliffe é um ator interessante. Oriundo do cinema blockbuster, me refiro, obviamente a poderosa franquia Harry Potter, o versátil ator inglês optou por se afastar gradativamente do radar do grande público. Na busca por papéis mais desafiadores, ele decidiu seguir o caminho mais difícil na dura transição da juventude para a vida adulta, se reafirmando como um realizador maduro em títulos como o subestimado A Mulher de Preto (2012), o elogiado Versos de um Crime (2012), o cult Swiss Army Man (2016) e o competente Imperium (2016). Tal qual outros representantes da sua geração, como Robert Pattinson e Kristen Stewart, dois atores talentosos que, só no momento em que se distanciaram do cinema pipoca, tiveram as suas respectivas qualidades reconhecidas, Radcliffe tem se esforçado para se distanciar do rótulo do “astro teen”, o que fica bem claro no seu mais recente trabalho, o excruciante Na Selva. Responsável por elevar o nível do material apresentado, ele impressiona ao traduzir o drama do aventureiro israelense Yossi Ghinsberg, um jovem destemido que, no início da década de 1980, ficou conhecido por sobreviver durante quase vinte dias sozinho na opressiva selva amazônica. Por mais que a pesada direção de Greg Mclean reduza o impacto da obra, principalmente quando o assunto é a construção do drama entre os personagens, Radcliffe cativa ao encarar esta trágica história real, se entregando de corpo e alma a uma produção valorosa que cumpre a sua missão quando se concentra na luta pela sobrevivência. 

domingo, 3 de junho de 2018

Cinco Filmes (Gary Oldman)


Um mestre na arte do ‘overacting’, um recurso dramático que, quando bem utilizado, rende sequências espetaculares como essa, ou como essa, ou então essa, Gary Oldman completou 60 anos em 2018 alcançando o ápice da sua carreira. Reconhecido pela sua versatilidade e pela sua intensidade em cena, o requisitado ator inglês construiu uma invejável filmografia, experimentando o melhor do cinema em obras plurais e em sua maioria populares. Embora conhecido pelos seus personagens mais expansivos, com ênfase nos seus marcantes antagonistas, Oldman soube evitar a repetição de papéis, soube fugir do estigma do tipo excêntrico, se estabelecendo como um dos grandes de Hollywood ao extrair a humanidade de figuras fortes e imponentes. O que fica bem claro no seu último grande trabalho, o drama de guerra O Destino de Uma Nação. Na pele do celebre primeiro ministro Winston Churchill, ele, mesmo sob uma pesada maquiagem, conseguiu capturar a eloquência do político sem sacrificar as suas nuances mais íntimas, uma performance singular que, merecidamente, lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator. Para celebrar a carreira deste monstro da atuação, neste Cinco Filmes passearemos pela carreira de Gary Oldman ao mostrar os tipos que o ajudaram se transformar num dos realizadores mais talentosos da sua geração. 

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Ingrid vai para o Oeste

A realidade sem filtros

Numa época em que o número de seguidores praticamente define o nível de popularidade de um indivíduo, em que o número de cliques é frequentemente usado para medir a qualidade de um conteúdo, Ingrid vai para o Oeste surge como uma crônica satírica sobre a superexposta vida de um “influenciador digital”. Embora opte por tratar o tema dentro de um contexto “doentio”, sob a perspectiva de uma jovem frustrada e obsessiva disposta a tudo para experimentar o “estilo de vida” Instagram, o inteligente longa dirigido por Matt Spicer é perspicaz ao dar voz aos “influenciados”, ao mostrar as sequelas da superexposição na rotina daqueles que são capazes de transformar um anônimo numa “celebridade”. Numa análise interessante, o realizador é objetivo ao encurtar os polos, ao questionar o que leva uma pessoa ordinária a conseguir tanto seguidores, refletindo sobre um possível vazio geracional numa comédia positivamente fútil e naturalmente desconfortável. Uma sensação de incômodo potencializada pela irônica performance de Aubrey Plaza, adoravelmente dissimulada na pele de uma mulher comum em busca - por que não? - do seu lugar ao sol. 

terça-feira, 29 de maio de 2018

Punhos de Sangue

Quando a ficção oferece uma versão melhor do que a realidade

Você provavelmente não conhece o lutador Chuck Wepner. Eu também pouco conhecia. Um homem comum conhecido por sua “sorte” e por sua resistência no ringue, o pugilista construiu uma carreira consistente, mas pouco memorável, no mundo do boxe profissional. No ápice da sua carreira, após uma série de vitórias contra lutadores igualmente medianos, Wepner viu a sua vida mudar da noite para o dia. O boxeador local, que trabalhava como vendedor de bebidas nas horas vagas, viu a chance de disputar o cinturão contra nada mais, na menos do que o gigante Muhhamad Ali. O motivo: ele era o único homem branco entre os dez melhores no ranking dos pesos pesados. Tratado como um azarão, uma mera piada, Wepner surpreendeu os fãs e a mídia ao resistir durante quinze rounds. A derrota, como esperado, aconteceu. Mas o título já não era mais o assunto. Ele se tornou popular em toda a América e a sua história inspirou uma série de outros conterrâneos. Punhos de Sangue, porém, não é uma cinebiografia convencional. O foco, aqui, não está no triunfo dentro dos ringues. Numa opção inteligente, o diretor Phillipe Falardeau cativa ao tratar a trajetória de Wepner sob uma outra perspectiva, mostrando como este lutador boa praça e imaturo se tornou uma peça chave na construção de um dos maiores personagens da história moderna do cinema, o popular Rocky Balboa. 

domingo, 27 de maio de 2018

O Livro de Henry

Uma experiência pitoresca

O Livro de Henry definitivamente não é uma obra fácil. Detonado pela maioria da crítica norte-americana, o longa dirigido por Colin Trevorrow (Jurassic World) teve o seu alcance limitado por ser taxado sumariamente como um fracasso. Por aqui, por exemplo, o filme foi lançado via streaming e sem qualquer alarde. Uma produção, a princípio, fadada ao esquecimento. A questão é: quando a crítica cinematográfica se tornou o agente regulamentador do que deve ou não fazer sucesso? Ou pior, do que tem qualidade ou não tem? Nos últimos anos, na verdade, com o ‘boom’ dos influenciadores digitais e dos agregadores de conteúdo, tenho visto um movimento que muito me incomoda: o da massificação da opinião. O sucesso de sites como o Rotten Tomatoes, em especial, não me deixa mentir. O senso comum passou a ganhar uma importância gigantesca. Em alguns casos mais extremos, produtores de conteúdo são obrigados a conviver com os ataques de ‘haters’ simplesmente por defender\questionar os méritos de uma produção. Ter uma opinião diferente se tornou um “problema”. Digo isso porque, se tivesse seguido este perigoso este senso comum, teria deixado de assistir a uma obra curiosíssima. Uma produção que, desde o seu primeiro trailer me chamou a atenção, justamente por resgatar o frescor das aventuras oitentistas. Estrelado por dois dos jovens mais talentosos de Hollywood, os excelentes Jaeden Lieberher e Jacob Tremblay, O Livro de Henry simplesmente "destrói" as nossas expectativas ao nos brindar com uma exótica “aventura”, um filme capaz de transitar por temas espinhosos e gêneros contrastantes numa mistura improvável. Como se a garotada de Os Goonies (1985) tivesse assistido a uma sessão de Desejo de Matar (1974) e usado a sua distorcida\vingativa lógica para fazer justiça com as próprias mãos. O resultado é uma película falha, vide o relutante último ato, mas instigante, um filme comovente que, por trás da sua estrambólica premissa, esconde uma promissora crítica ao belicismo americano. 

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Do Fundo do Baú (O Assalto ao Trem Pagador)

Na última semana o cinema brasileiro perdeu uma das suas vozes mais singulares, o crítico cineasta Roberto Farias (Pra Frente Brasil, Os Trapalhões e o Auto da Compadecida). Numa época em que os movimentos do Cinema Novo e do Cinema Marginal surgiam como um contraponto as desgastadas chanchadas, o saudoso realizador se posicionou entre os grandes sem escolher lados, transitando das obras mais questionadoras aos títulos mais populares numa carreira recheada de títulos de sucessos. O que fica bem claro no seu primeiro grande trabalho, o poderoso O Assalto ao Trem Pagador (1962). Lançado num momento de reafirmação do cinema nacional, O Pagador de Promessas (1962), por exemplo, neste mesmo período ganhava o mundo ao levar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, o longa conquistou o público e a crítica graças a sagacidade de Farias ao entregar uma obra universal que não parecia interessada em pertencer a uma única corrente cinematográfica. Aliando o vanguardismo estético do Cinema Novo ao forte (e franco) viés social do Cinema Marginal, o realizador “esmurra” o estômago do espectador ao mostrar, a partir de uma história real, o impacto da desigualdade social sob um prisma íntimo e assustadoramente atual. Falando a “língua” do povo, Farias nos brinda com uma crônica sobre a vida dos marginalizados na década de 1960, refletindo sobre questões raciais e políticas num thriller de assalto que – infelizmente – insiste em não envelhecer. 

terça-feira, 22 de maio de 2018

Top 10 (Abraços Inesquecíveis do Cinema)


Uma das manifestações de afetos mais sinceras e fraternais, o abraço se tornou um símbolo de união dentro do cinema. Ao contrário do beijo, uma manifestação íntima frequentemente utilizada dentro do romance, o abraço ganhou uma conotação mais universal, culminando em sequências dos mais variados tipos. Entre despedidas e reencontros, entre histórias de amor e histórias de amizade, este singelo gesto embalou algumas das relações mais marcantes da Sétima Arte, o que fica bem claro na lista abaixo. Neste Dia do Abraço, no Cinemaniac uma seleção com dez dos abraços mais inesquecíveis\emblemáticos do Cinema. 

domingo, 20 de maio de 2018

Cargo

Um filme de zumbi de respeito

Desde a sua remodelada origem, nas mãos do criativo George Romero, os filmes de zumbi ofereciam um interessante pano fundo para a construção da crítica social no cinema. Indo além do choque pelo choque, títulos como o clássico A Noite dos Mortos Vivos (1968), o visceral O Despertar dos Mortos (1978), o agressivo Extermínio (2002) e mais recente o inteligente Invasão Zumbi (2016) se tornaram referências dentro do gênero, justamente por, através do horror, questionar o nosso estilo de vida em sociedade. Por mais que, nos últimos anos, a maioria dos representantes do segmento tenha se distanciado desta vertente, ora e vez surge uma obra capaz de explorar este potencial. Esse – felizmente - é o caso de Cargo. Uma das melhores produções originais recentes da Netflix, o longa dirigido pela dupla Ben Howling e Yolanda Ramke provoca um misto de emoções ao narrar a desventurada jornada de um pai contaminado em busca de um abrigo para a sua indefesa filha. Transitando com desenvoltura entre o Drama, o Suspense e o Horror, a promissora dupla de realizadores enche a tela de tensão ao traduzir o desespero de um pai à procura de um lugar para a sua filha, encontrando nesta jornada familiar o subtexto necessário para criticar a apropriação cultural e a condição de abandono dos povos aborígenes em solo australiano. Um filme inventivo e plasticamente expressivo que, impulsionado pela intensa performance de Martin Freeman, surpreende ao realçar o fator humano em meio ao caos numa película emocionante. 

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Com pequenos grandes filmes, A24 atesta a força do cinema ‘indie’ e conquista a atenção dos gigantes de Hollywood


O que Ex-Machina: InstintoArtificial, O Quarto de Jack, Moonlight: Sob a Luz do Luar e Lady Bird têm em comum? Não, não estou me referindo ao fato dos quatro terem colecionado indicações ao Oscar. Nem tão pouco de serem ótimos exemplos da renovada força do cinema ‘indie’. Na verdade, o que os une é o fato do quarteto ter ganho uma “janela para o mundo” graças ao relevante trabalho da A24 Productions, uma distribuidora que, em cinco anos, já se colocou entre as gigantes da Sétima Arte. Mesmo defendendo a inglória bandeira do cinema independente, a companhia nova-iorquina seguiu os passos de empresas do porte como a “finada” Miramax, a IFC, a Fox Searchlight e a (já analisada aqui) Blumhouse Productions, conquistando a atenção do grande público com produções originais, instigantes e geralmente esnobadas pelo radar dos poderosos estúdios de Hollywood. Fundada em 2012 pelo trio Daniel Katz, David Fenkel e John Hodges, três realizadores com experiência dentro da indústria do entretenimento, a A24 surgiu como um gesto de coragem. Numa época em que a lucratividade segue ditando as regras do que é ou não produzido\distribuído, os três decidiram usar o seu ‘know who’ numa “caça ao tesouro” no circuito autoral, revigorando a forma de se fazer o negócio cinema ao apostar no talento em detrimento do lucro fácil. Ao acreditar no potencial de novos realizadores em detrimento da experiência milionária dos medalhões. O resultado foi praticamente instantâneo. Com 24 indicações ao Oscar neste minúsculo prazo de tempo, a audaciosa empresa se tornou referência ao conseguir promover uma seleção de indiscutíveis sucessos de público e crítica, dando voz a pequenos grandes filmes que têm ajudado contornar o marasmo que tomou conta do engessado circuito comercial. 

terça-feira, 15 de maio de 2018

A Ghost Story - Sombras da Vida

Uma experiência de arrepiar!

Confesso que gostaria de escrever melhor para entregar um texto à altura desta pérola chamada Sombras da Vida (A Ghost Story, no original). Denso, melancólico e reflexivo, o longa dirigido por David Lowery é um daqueles títulos impossíveis de se traduzir em palavras. Um filme raro capaz de transitar por temas tão complexos com a leveza de um fantasma preso às suas memórias. Numa proposta imersiva e delicadamente imagética, o talentoso realizador norte-americano provoca uma mistura de sentimentos e emoções ao tecer um poético comentário sobre o luto, a efemeridade do tempo e a complexa experiência que é estar vivo. Sem medo de soar pretensioso, Lowery encanta ao investir numa silenciosa atmosfera contemplativa, encontrando na força das suas imagens e na poderosa performance de Casey Affleck a inquietação necessária para questionar a nossa imaturidade quanto ao fim, quanto a nossa finitude e quanto a difícil missão de dar adeus.

sábado, 12 de maio de 2018

Cinco Filmes (Sally Field)


Ao longo de seis décadas de carreira, Sally Field se tornou uma das atrizes mais respeitadas da sua geração. Vencedora de dois Oscars, a versátil californiana se acostumou a dar vida aos mais variados tipos de mulher, transitando entre os gêneros com carisma e intensidade. É indiscutível, porém, que, graças a sua afetuosa presença, Field ficou conhecida por viver grandes matriarca. Embora seja injusto tipifica-la, é fato que algumas das suas principais personagens foram inesquecíveis figuras maternas, um histórico que, verdade seja dita, a colocou num dos papeis maternais mais populares da cultura pop, a bondosa Tia May na “esquecida” franquia O Espetacular Homem-Aranha. No final de semana em que celebramos o Dia das Mães, portanto, nada mais justo do que homenagear esta simpática artista numa lista com Cinco Filmes em que Sally Field viveu uma memorável figura materna.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Em Pedaços

As sequelas de um atentado

Num momento em que os movimentos de ultradireita deixam as sombras ao redor do mundo, Em Pedaços surge como um relato urgente e incisivo sobre a banalização da violência contra estrangeiros em território europeu. Sob a questionadora batuta do diretor alemão Fatih Akin, o longa coloca o dedo na ferida ao refletir sobre as sequelas de um atentado terrorista num contexto íntimo e extremamente humano. Dividido em três atos bem distintos, a envolvente película é inteligente ao expor a crescente onda neonazista em solo alemão, se distanciando do viés maniqueísta ao trata-los como pessoas ordinárias. Sem aquele peso ultrapassado\vilanesco com que o tema costuma ser tratado em Hollywood. Esqueça, portanto, as suásticas, as bandeiras e o viés soturno. O tema, aqui, é escancarado sob o olhar despedaçado de uma resiliente mulher à procura de motivos para seguir vivendo após ter a sua família ceifada de maneira irracional e injustificável. O resultado é uma obra crescente e explosiva, um relato nu e cru sobre o impacto da perda na rotina de uma inocente. 
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