sexta-feira, 20 de julho de 2018

Dez filmes estupidamente divertidos influenciados pelo “trintão” Duro de Matar


“Eu queria interpretar alguém que tivesse medo de morrer.” Com essa simples frase, em entrevista cedida na época do lançamento a revista Closer Weekly, Bruce Willis sintetizou o sucesso de Duro de Matar (1988), um verdadeiro divisor de águas dentro do concorrido cinema de ação. Lançado há trinta longos anos, o longa dirigido por John McTiernam revolucionou as engrenagens do gênero ao estreitar os laços entre público e protagonista, ao torna-lo um tipo humano, falível, que sofre, sangra. Um projeto ousado, principalmente por romper com o que vinha sendo produzido previamente. Influenciado pelos (anti) heróis do Western, o cinema de ação se consolidou nos anos 1970\1980 investindo nos populares “exércitos de um homem só”. Em filmes protagonizados por personagens ‘bad asses’, imponentes, tipos fortes e inabaláveis que conseguiam encarar dezenas e dezenas de vilões sem sequer fraquejar. O eterno pistoleiro sem nome, Clint Eastwood, por exemplo, se tornou um dos precursores do segmento com o feroz Harry Callahan e a franquia Dirty Harry (1971) (no Brasil, O Perseguidor Implacável).  Outro expoente do faroeste, Charles Bronson repetiu os passos do seu companheiro de geração com o frio e vingativo Paul Kersey e a longeva franquia Desejo de Matar (1974). Na transição para a década de 1980, entretanto, os heróis se tornaram cada vez maiores e mais destrutivos. Oriundo da saga Rocky Balboa, Sylvester Stallone se tornou um dos “gigantes” do gênero com títulos como Rambo: Programado para Matar (1982), Rambo II (1984), Stallone: Cobra (1986) e Rambo III (1988). No quesito tamanho, no entanto, ninguém superou o carismático Arnold Schwarzenegger. Após brilhar como o bárbaro Conan (1982 e 1984) e o robótico Exterminador, o austríaco “rivalizou” com Stallone em Comando para Matar (1985), Jogo Bruto (1986) e O Predador (1987). Por fim, após dividir a tela com o legendário Bruce Lee em O Voo do Dragão (1972) e Jogo da Morte (1978), Chuck Norris também figurou na primeira prateleira do gênero, conquistando a atenção dos fãs com as franquias Bradock (1984) e Comando Delta (1986).

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Calibre

O peso das consequências

Dois amigos saem numa caçada comemorativa. Um tiro. Uma vítima inocente morta. O estopim para uma sucessão de decisões inconsequentes. Sem a intenção de alimentar falsos mistérios, Calibre choca pela forma com que valoriza um elemento frequentemente esnobado dentro do gênero: o peso das consequências. Com a contundência necessária para questionar, o suspense escocês dirigido e roteirizado pelo promissor Matt Palmer enerva ao se concentrar nos dilemas morais da dupla de protagonistas, criando uma obra com sólidas ramificações dramáticas. Um filme que, por acreditar na força da sua história e na multidimensionalidade dos seus personagens, esbanja maturidade ao traduzir com frieza a espiral de dor e desespero causado por uma simples arma de fogo. 

sábado, 14 de julho de 2018

Cinco Filmes (Ingmar Bergman)


"Nenhuma outra forma de arte vai além da consciência ordinária como o cinema, que vai direto nas nossas emoções, fundo no crepúsculo da alma." Ingmar Bergman

Um dos realizadores mais influentes do cinema europeu, Ingmar Bergman viu a sua obra ganhar um status inacessível junto ao grande público. O que é uma pena. Nascido pouco meses antes do término da Primeira Guerra Mundial, o realizador sueco se tornou uma das vozes mais enfáticas sobre o período de turbulência que tomou conta do velho continente nas décadas seguintes. Dono de uma eclética filmografia, o legendário diretor se acostumou a transitar por temas recorrentes, entre eles a solidão, a morte, o luto, a culpa, a desilusão, a religião, realçando os conflitos mais íntimos dos seus tipos em obras plurais, universais e ainda hoje atuais. Um dos precursores no movimento de renovação da linguagem cinematográfica que se espalhou pelo mundo a partir da década de 1960, Bergman, de mãos dadas com o crescente Neorealismo Italiano, ajudou a moldar correntes como a Nouvelle Vague, a Nova Hollywood e o Cinema Novo. E a influenciar nomes do porte de François Truffaut, Andrey Tarkovski, Stanley Kubrick, Woody Allen, Martin Scorsese entre outros. Ainda na década de 1940, com longas como Crise (1945), Música na Noite (1947) e Prisão (1949), ele mostrou o seu apreço por uma temática mais mundana, fazendo um precioso uso do subtexto em filmes modernos. Com personagens e dilemas reconhecíveis. Curiosamente, entretanto, o apreço de Bergman pelos projetos mais desafiadores parece ter o transformado num “gosto adquirido”. Títulos complexos como o fantástico O Sétimo Selo (1957), o instigante Persona (1966), o chato Gritos e Sussurros (1972) e o nervoso A Hora do Lobo (1968) ajudaram, de fato, a reforçar esta impressão, mas, numa análise mais profunda, até destas próprias obras, é possível perceber o quão acessíveis e contemporâneas são essas películas. Para celebrar o centenário de Ingmar Bergman, que, se fosse vivo, completaria 100 anos neste dia 14 de Julho, no Cinemaniac uma lista com cinco dos filmes mais universais deste influente realizador. 

quarta-feira, 11 de julho de 2018

A Vida em Espera

Um marido em colapso

Howard Wakefield tinha praticamente tudo. Um emprego numa gigante do ramo da advocacia. Uma suntuosa casa no subúrbio. Carro do ano. Roupas de luxo. Um casamento duradouro. Uma vida perfeita, não? Não! Por trás das aparências existia um homem frustrado, um pai “invisível”, um marido enciumado, uma rotina sustentada pela conveniência. Pela necessidade de se manter o rótulo da família feliz. Isso, pelo menos, até Wakefield resolver “desaparecer”, largar a sua casa, sua esposa, filhas e viver como um sem teto no sótão da sua própria casa. Reflexivo e provocador, A Vida em Espera se revela uma debochada crônica sobre os dilemas do homem urbano. Com um refinado senso de humor, o longa dirigido pela diretora Robin Swicord (O Clube de Leitura de Jane Austen) é sagaz ao contestar as “responsabilidades” masculinas dentro de um matrimônio, as imposições estabelecidas pelo senso comum, se insurgindo contra os clichês do “homem provedor” ao tratar o protagonista como uma figura completamente dispensável. Ao investigar a sua parcela de culpa pela situação estabelecida acima. 

domingo, 8 de julho de 2018

Os trinta anos de Uma Cilada para Roger Rabbit, o longa que resgatou a “confiança” da Disney nas suas animações


Década de 1980. O cenário era nebuloso. O mercado de animação passava por uma crise sem precedentes, uma entressafra marcada por obras pouco inspiradas, esporádicos sucessos de público e uma crescente perda de relevância. Um dos pilares do segmento, a Disney tentava “recolher os cacos” após o fracasso chamado O Caldeirão Mágico (1985). Um projeto que, no papel, surgia como um potencial divisor de águas. Em meio ao marasmo que havia tomado conta da animação ocidental, o estúdio decidiu investir pesado na adaptação dos primeiros livros da série As Crônicas de Prydain, de Lloyd Alexander, uma estratégia que, uma década mais tarde, viria a se tornar um sinônimo de sucesso com franquias do quilate de Harry Potter, O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Narnia. Naquele momento, entretanto, o que se viu foi um fiasco. Com a intenção de revolucionar as engrenagens do gênero, os diretores Ted Berman e Richard Rich (do excelente O Cão e a Raposa) ganharam carta branca para tirar do papel uma aventura grandiosa, com traços expressivos, a pioneira utilização da computação gráfica na criação de efeitos secundários e uma atmosfera soturna poucas vezes vista na história da Disney. Um nível de excelência e ousadia que custou caro. Com orçamento previsto para US$ 25 milhões, números – por si só – elevadíssimos, os realizadores sofreram com o “estouro” do orçamento, que, especula-se, teria ultrapassado a marca dos US$ 44 milhões. Para piorar, após as tão temidas sessões testes, o produtor executivo Jeffrey Katzenberg se espantou com o viés sombrio da película, com a proposta distante dos “padrões” Disney. O que, obviamente, culminou num corte de quase doze minutos de cenas do material original e num produto final o mais infantil possível. O resultado não poderia ser outro. Apesar dos inegáveis méritos técnicos e narrativos, O Caldeirão Mágico naufragou nas bilheterias norte-americanas ao render frustrantes US$ 21 milhões, um revés pesado que causou uma série de mudanças na já combalida Walt Disney Animations, incluindo uma troca de sede, e por pouco não quebrou o estúdio como um todo.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Oeste sem Lei - Slow West

Amor impossível

Uma das correntes mais marcantes do Western, o movimento revisionista ganhou forma na década de 1950 para colocar em cheque a maniqueísta versão glamourizada do gênero. Mais conectado com a realidade e o contexto histórico da época, títulos como Matar ou Morrer (1952), Os Brutos também Amam (1953) e Johnny Guitar (1954) ajudaram estabelecer esta nova visão, popularizada nos anos 1960 e 1970 graças a obras do porte de Os Sete Magníficos (1960), Meu Ódio será sua Herança (1969) e Butch Cassidy and the Sundance Kid (1969). Os indígenas deixaram de ser os vilões e passaram a ser as vítimas. Os caubóis fora-da-lei ganharam nuances mais íntimas e humanas. Os xerifes se tornaram tipos dúbios. A violência passou a ser questionada. A barreira entre protagonistas e antagonistas se tornou quase imperceptível. Uma visão que “sobreviveu”, até mesmo, a decadência do segmento, sendo revitalizada nas últimas duas décadas nas mãos de realizadores como Clint Eastwood (Os Imperdoáveis, Gran Torino), James Mangold (Os Indomáveis), Ethan e Joel Coen (Onde os Fracos Não Tem Vez, Bravura Indômita), Quentin Tarantino (Django Livre, Os Oito Odiados), Alejandro G. Iñarritu (O Regresso), Taylor Sheridan (A Qualquer Custo, Terra Selvagem). Uma baita lista que ganha um integrante de respeito com o singular Oeste sem Lei. Um daqueles ‘hits’ inadvertidamente lançados direto no ‘streaming’, o longa dirigido e roteirizado por John Maclean esbanja sarcasmo ao revisitar o velho oeste sob a perspectiva de um jovem e apaixonado estrangeiro. Com um roteiro irônico, personagens cativantes e uma história instigante, a película é astuta ao traduzir a vulnerabilidade individual numa terra sem lei, brincando com as expectativas do idealista protagonista (e consequentemente do público) ao tirar do papel um ‘road-movie’ incisivo e inesperadamente sentimental. 

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Top 10 (Grandes filmes dos últimos dez anos)


No dia 2 de julho de 2008, há exatos dez anos, o Cinemaniac “nascia” como um projeto despretensioso de um então estudante de Jornalismo fã da Sétima Arte. Uma janela para expor as minhas opiniões cinéfilas enquanto aprimorava o meu (problemático) texto. Sim, escrever é difícil! Mesmo com a prática conquistada após mais de 430 críticas postadas, ainda hoje peno para traduzir em palavras as minhas impressões sobre um filme. As vezes as frases vêm com extrema facilidade. Em outros casos elas custam para ganhar forma. Um esforço recompensado no momento em que aperto o botão publicar. Ao longo dos últimos dez anos, aliás, fiz questão de manter esta proposta “pessoal”, em não me preocupar muito com números, com o potencial retorno financeiro. Uma “expectativa” que, verdade seja dita, se revelou cada vez mais distante com o ‘boom’ dos vlogs, do You Tube e a crise no mercado jornalístico. Seriedade, entretanto, nunca faltou. Me orgulho em dizer que, em alguns momentos, consegui acompanhar o “ritmo” dos gigantes, oferecendo uma cobertura satisfatória sobre lançamentos, premiações e as principais novidades dentro da indústria. O nosso foco, porém, sempre foi eclético. Já escrevi sobre filmes de diversos gêneros, das mais variadas regiões do mundo, procurando dar um espaço para todo e qualquer tipo de produção. Nos últimos anos, inclusive, tenho tentado fugir do ‘hype’ dos poderosos blockbusters, deste concorrido segmento, me distanciando do considerado “conteúdo fácil” em prol de uma visão mais particular sobre o Cinema. Para celebrar uma década de Cinemaniac, portanto, nada melhor do que olhar para trás numa lista com dez dos melhores filmes lançados nos últimos dez anos. Com base no meu gosto pessoal, no Top 10 traremos os longas que receberam nota máxima aqui no blog. Dito isso, começamos com... 

sábado, 30 de junho de 2018

Tau

Sobra estilo, falta inteligência

Como já escrevi outras vezes aqui no blog, é nítido o apreço da Netflix, enquanto produtora\distribuidora de conteúdo, pelo universo das ficções-científicas. Nos últimos anos, a gigante do streaming tem recheado o seu catálogo com diversos títulos do gênero, uma busca voraz que, infelizmente, tem priorizado mais a quantidade do que propriamente a qualidade. Com exceção de longas como o crítico Okja, o existencialista Aniquilação e o valoroso Órbita 9, o que se vê até o momento é uma preocupação temática, uma valorização dos filmes com premissas instigantes que, na maioria dos casos, não conseguem explorar o seu próprio potencial. Uma sensação que fica bem clara quando assistimos obras do nível de Onde está Segunda?, Anon, Mudo, The Titan, O Paradoxo Cloverfield e The Discovery, produções que, apesar dos seus inegáveis predicados, não entregam o nível de profundidade exigido por este complexo segmento. Uma lista de decepções que ganha mais um integrante de “respeito”, o sentimentalista Tau. Com um roteiro carente de inteligência, um vilão tenebroso (no mau sentido) e um terceiro ato que beira o risível, o longa dirigido pelo novato Federico D'Alessandro desperdiça uma promissora premissa num Sci-Fi sem nuances, uma obra frouxa que ofende o legado do gênero ao discutir os paradigmas da Inteligência Artificial sob uma perspectiva rasa e infantiloide. Inspirado por obras do quilate de Ex-Machina, o realizador uruguaio capricha no estilo, no uso das cores saturadas e da trilha sonora, mas tudo soa vazio (e pouco original) diante dos pífios efeitos visuais, da completa ausência de tensão e da imaturidade com que Tau trata conceitos tão complexos. 

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Em Busca de Justiça

Uma releitura esforçada do clássico Era uma Vez no Oeste

Um dos gêneros mais clássicos do cinema norte-americano, o Western aos poucos começa a ser redescoberto por Hollywood. Seja por inventivos remakes, entre eles Os Indomáveis (2007), Bravura Indômita (2010), Django Livre (2012) e Sete Homens e um Destino (2016), seja por revisões modernas, como os extraordinários Onde os Fracos Não têm Vez (2007), O Regresso (2015) A Qualquer Custo (2016) e Terra Selvagem (2017), o segmento vem ganhando vida nova, uma bem-vinda volta por cima após uma longa entressafra. Uma espécie de “primo pobre” dos títulos citados acima, Em Busca de Justiça (Jane Got a Gun, no original) arrisca ao propor uma releitura moderna e não intencional do épico Era uma Vez no Oeste (1968). Sob uma perspectiva atual, a película dirigida por Gavin O’Connor (Guerreiro) se esforça na tentativa de dar uma roupagem feminina a um dos arcos mais tradicionais do gênero. Com um super elenco em mãos e uma fotografia digna dos melhores exemplares do faroeste, o realizador realça a atmosfera de tensão ao investir no mistério em torno do trio de protagonistas, flertando com elementos genuínos ao valorizar o pano de fundo passional. O’Connor, entretanto, está longe da maestria do virtuoso Sergio Leone, o que fica bem claro quando assunto é a montagem, o desenvolvimento da trama e a decepcionante construção do promissor vilão, uma peça chave em dez entre dez sucessos do gênero. 

sábado, 23 de junho de 2018

Dez filmes originais Netflix dignos de nota


Frequentemente questionada pelos cinéfilos mais puristas, a Netflix tem investido cada vez mais pesado na realização de conteúdo original. Na ânsia de atrair os holofotes do público, entretanto, a companhia segue devendo quando o assunto são os filmes inteiramente produzidos sob a sua marca. Boas intenções a parte, é nítido que obras como Bright, Mudo, Dívida Perigosa e o recente Lá Vem os Pais não conseguiram corresponder as expectativas criadas lá atrás, quando a empresa “invadiu” o mercado com o elogiado Beasts of No Nation (2015). Curiosamente, porém, o trabalho da Netflix enquanto uma espécie de distribuidora de conteúdo começa a saltar os olhos. Dando voz a jovens e diversificados realizadores, a gigante do streaming tem recheado o seu catálogo com obras variadas, daquelas que, em sua maioria, passariam longe do alcance do grande público. Um destes títulos é o magnífico O Vazio do Domingo (leia a nossa opinião aqui), um denso drama espanhol sobre os conflitos de duas mulheres unidas pelo laço da maternidade. Sob a batuta do promissor Ramón Salazar, o longa, sem qualquer tipo de exagero, está entre as melhores películas lançadas em solo brasileiro neste ano, principalmente pela elegância e intensidade com que investiga as desavenças entre mãe e filha num contexto tenso e instigante. Neste artigo especial, portanto, preparamos uma lista com dez filmes originais Netflix dignos de nota. Tomando como base a nossa opinião, começamos com... 

quarta-feira, 20 de junho de 2018

O Vazio do Domingo

Tempo perdido

Possivelmente o título mais desafiador entre as produções originais Netflix, O Vazio do Domingo provoca um misto de sensações ao estudar o impacto da ausência na rotina de duas mulheres unidas pelo elo da maternidade. Sob a refinada batuta do promissor Ramón Salazar, o longa é profundo ao reconectar o elo entre mãe e filha, ao entender as suas respectivas motivações, refletindo sobre o tempo perdido numa obra densa, dramática e naturalmente instigante. Sem a intenção de se prender as respostas fáceis, o realizador espanhol mostra astúcia ao alimentar o clima de mistério, ao proteger os segredos em torno de duas complexas personagens, realçando o aspecto intimista do texto enquanto constrói uma relação marcada pela dor, pelo peso da culpa e pela esperança da redenção. Não espere, porém, um drama agridoce, daqueles bem típicos em Hollywood. Com a coragem necessária para tocar em temas espinhosos sem um pingo de condescendência, Salazar esbanja delicadeza ao realmente estreitar o vínculo entre mãe e filha, ao torna-lo genuinamente feminino, encontrando nas poderosas atuações da dupla Bárbara Lennie e Susi Sánchez o peso necessário para tornar tudo muito real\verdadeiro aos olhos do público. 

domingo, 17 de junho de 2018

Beirut

A tensão na mediação

Logo na elucidadora sequência inicial, o roteirista Tony Gilroy (A Trilogia Bourne) é hábil ao introduzir o pano de fundo político proposto em Beirut, o complexo jogo de interesses em solo libanês diante do secular embate entre Israel e a Palestina. Uma das inúmeras peças neste espinhoso tabuleiro, o mediador da CIA Mason Skiles (Jon Hamm) vê a sua estabilidade ruir repentinamente ao sentir na pele as consequências da incessante luta por poder e território dentro desta caótica região do Oriente Médio. Com base nesta envolvente premissa, o longa dirigido por Brad Anderson (O Maquinista) esbanja inteligência ao trazer a tensão dos fatos para a ficção. Impulsionado pela maturidade do texto de Gilroy, que, assim como na saga que o consagrou, não parece interessado em perder tempo com soluções didáticas e com as explicações óbvias, o realizador é sucinto ao expor a vulnerabilidade dos seus personagens diante das nebulosas intenções dos seus superiores, transitando por um terreno extremamente verossímil ao discorrer sobre a conivência norte-americana nos bastidores de uma violenta guerra civil.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Sua Melhor História

Uma ode a sensibilidade feminina no cinema

Num ano em que Dunkirk e O Destino de Uma Nação se tornaram dois indiscutíveis sucessos de público e\ou crítica, chega a ser frustrante ver uma obra como Sua Melhor História ter passado tão despercebida. Ambientada no mesmo cenário das duas películas citadas acima, uma Inglaterra pressionada pelas tropas nazistas na primeira metade da Segunda Guerra Mundial, o longa dirigido pela talentosa Lone Scherfig (Educação) é perspicaz ao usar este contexto militarizado para debater a (ainda hoje) escassa presença feminina por trás das câmeras. Embora não seja inspirado em fatos, a película causa um inegável fascínio ao valorizar a sensibilidade feminina dentro da produção cinematográfica, enxergando um cuidadoso paralelo com a vida real ao mostrar como o conflito deu as mulheres britânicas a chance de conquistar a sua independência dentro de uma conservadora sociedade. Por mais que o roteiro derrape aqui ou ali, principalmente quando se prende demasiadamente ao pano de fundo romântico, Scherfig mostra sutileza ao estabelecer as barreiras entre a ficção e a realidade, entre a esperança e a dor, realçando a nossa vulnerabilidade em tempos de guerra sob uma perspectiva verossímil, inteligente e naturalmente feminina. 

terça-feira, 12 de junho de 2018

Top 10 (Romances Lacrimosos)


Guiados pelo ideal do amor impossível, um arco romântico\dramático que desde o clássico Romeu e Julieta tem sido reciclado dentro do universo dos romances cinematográficos, alguns realizadores resolveram pregar as suas peças e “testar” as emoções do público. E, aqui, não estou me referindo às histórias de amor que - por um motivo ou outro - simplesmente não deram certo, como As Pontes de Madison (1995), Closer: Perto Demais (2004), Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004) e o recente La La Land (2016). Não, alguns diretores\autores preferem pegar pesado, levando a sério demais o conceito do “até que a morte nos separe”. Como para bom entendedor meia palavra basta, neste Top 10 uma lista com alguns dos romances mais lacrimosos do Cinema. Eu disse lacrimosos e não desoladores, por isso não incluirei nesta seleção títulos como Namorados para Sempre (2010), Amor (2012), O Segredo de Brokeback Mountain (2005) e Meninos não Choram (1999). Dito isso, começamos com... 


domingo, 10 de junho de 2018

The Breadwinner, Em Busca do Vale Encantado e os pequenos grandes longas de animação que não merecem cair no esquecimento


Disney, Dreamworks, Pixar, Illumination, Ghibli... Competir com estas gigantes da animação não é uma missão nada fácil. Num mercado cada vez mais concorrido, algumas pequenas produções parecem se perder em meio aos grandes blockbuster. Ora e vez, entretanto, eventos como o Oscar e o Globo de Ouro nos lembram que existe vida inteligente fora deste imponente grupo. Um dos grandes destaques da última temporada de premiações, The Breadwinner (A Ganha-Pão no Brasil) é o tipo de produção que, por exemplo, de maneira alguma deveria ficar à margem do radar do grande público. Num retrato desolador sobre a realidade das mulheres em solo afegão, o longa dirigido pela irlandesa Nora Twomey provoca um misto de emoções ao expor uma rotina frequentemente esnobada pelo público ocidental, se insurgindo contra os pré-conceitos ao escancarar a política do medo estabelecida pelo regime talibã. Um filme indispensável que, após passar em branco circuito brasileiro, ganhou uma preciosa segunda chance ao entrar para o catálogo da Netflix. Assim como The Breadwinner, entretanto, outras excelentes produções do gênero não ganharam o status merecido junto ao grande público. Neste artigo, portanto, eu trago uma lista com dez pequenas grandes animações que não merecem cair no esquecimento. 

sexta-feira, 8 de junho de 2018

The Breadwinner - A Ganha-Pão

Um triste relato sobre a realidade feminina sob o regime talibã

Escrever sobre The Breadwinner é uma missão delicada. Isso porque, muito mais do que uma simples obra de ficção, o longa dirigido pela irlandesa Nora Twomey surge como um desesperado grito de ajuda, um clamor feminino numa região dominada pelo medo e pela opressão. Inspirado na obra da escritora canadense Deborah Ellis, que, na segunda metade da década de 1990, viveu no Afeganistão e experimentou a triste realidade das mulheres sob o regime talibã, a delicada animação causa um misto de empatia e indignação ao narrar as desventuras de uma esperta menina obrigada a assumir uma nova identidade para assumir o sustento da sua família. Transitando brilhantemente entre o realismo e a fantasia, a realizadora esbanja propriedade ao expor a miserável condição feminina neste contexto. Ao realçar a resiliência das mulheres afegãs e a impotência do povo afegão numa obra que acerta ao refletir sobre o nobre passado, o desolador presente e o nebuloso futuro dos habitantes desta árida região. 

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Na Selva

Nunca subestime a vida selvagem

Daniel Radcliffe é um ator interessante. Oriundo do cinema blockbuster, me refiro, obviamente a poderosa franquia Harry Potter, o versátil ator inglês optou por se afastar gradativamente do radar do grande público. Na busca por papéis mais desafiadores, ele decidiu seguir o caminho mais difícil na dura transição da juventude para a vida adulta, se reafirmando como um realizador maduro em títulos como o subestimado A Mulher de Preto (2012), o elogiado Versos de um Crime (2012), o cult Swiss Army Man (2016) e o competente Imperium (2016). Tal qual outros representantes da sua geração, como Robert Pattinson e Kristen Stewart, dois atores talentosos que, só no momento em que se distanciaram do cinema pipoca, tiveram as suas respectivas qualidades reconhecidas, Radcliffe tem se esforçado para se distanciar do rótulo do “astro teen”, o que fica bem claro no seu mais recente trabalho, o excruciante Na Selva. Responsável por elevar o nível do material apresentado, ele impressiona ao traduzir o drama do aventureiro israelense Yossi Ghinsberg, um jovem destemido que, no início da década de 1980, ficou conhecido por sobreviver durante quase vinte dias sozinho na opressiva selva amazônica. Por mais que a pesada direção de Greg Mclean reduza o impacto da obra, principalmente quando o assunto é a construção do drama entre os personagens, Radcliffe cativa ao encarar esta trágica história real, se entregando de corpo e alma a uma produção valorosa que cumpre a sua missão quando se concentra na luta pela sobrevivência. 

domingo, 3 de junho de 2018

Cinco Filmes (Gary Oldman)


Um mestre na arte do ‘overacting’, um recurso dramático que, quando bem utilizado, rende sequências espetaculares como essa, ou como essa, ou então essa, Gary Oldman completou 60 anos em 2018 alcançando o ápice da sua carreira. Reconhecido pela sua versatilidade e pela sua intensidade em cena, o requisitado ator inglês construiu uma invejável filmografia, experimentando o melhor do cinema em obras plurais e em sua maioria populares. Embora conhecido pelos seus personagens mais expansivos, com ênfase nos seus marcantes antagonistas, Oldman soube evitar a repetição de papéis, soube fugir do estigma do tipo excêntrico, se estabelecendo como um dos grandes de Hollywood ao extrair a humanidade de figuras fortes e imponentes. O que fica bem claro no seu último grande trabalho, o drama de guerra O Destino de Uma Nação. Na pele do celebre primeiro ministro Winston Churchill, ele, mesmo sob uma pesada maquiagem, conseguiu capturar a eloquência do político sem sacrificar as suas nuances mais íntimas, uma performance singular que, merecidamente, lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator. Para celebrar a carreira deste monstro da atuação, neste Cinco Filmes passearemos pela carreira de Gary Oldman ao mostrar os tipos que o ajudaram se transformar num dos realizadores mais talentosos da sua geração. 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...