terça-feira, 2 de outubro de 2018

O centenário de Vida de Cachorro e outros grandes filmes sobre a amizade entre cães e humanos


“O cão é o melhor amigo do homem”. Poucos dos considerados ditos populares fazem tanto sentido para mim quanto a frase que abre esse artigo. Quem já teve um cachorro em sua vida sabe do que estou falando. Um elo de fidelidade poderoso que, desde os primórdios do cinema, já era consagrado na tela grande. Para celebrar o centenário de um dos primeiros grandes filmes sobre este vínculo, o clássico do cinema mudo Vida de Cachorro (1918), eu trago uma lista com doze grandes filmes sobre a relação entre cães e os seus donos humanos. E como o foco estará nesta cativante interação, deixarei de fora alguns (ótimos) filmes em que os animais são basicamente os protagonistas, entre eles títulos como Lassie e a Força do Coração (1943), Benji (1974), (o extraordinário) O Cão e a Raposa (1981) e A Grande Jornada (1993). Dito isso, começamos com... 

- Vida de Cachorro (1918)


Talvez o primeiro grande ‘hit’ popular a capturar o vínculo entre um homem e o seu cão, Vida de Cachorro completou cem anos em 2018 escancarando a atemporalidade da obra de Charles Chaplin. Antes de se tornar um dos maiores gênios da Sétima Arte, o aclamado realizador inglês conquistou a atenção do público com uma comédia singela e despretensiosa. Uma pequena pérola do cinema mudo. Reconhecido pela sua habilidade em extrair a crítica social do humor, Chaplin desfila a sua sagacidade ao encontrar um parceiro ideal para o seu Vagabundo, um destemido Vira-Lata, criando um engraçadíssimo paralelo entre a realidade destas duas criaturas. Vivendo à margem das suas respectivas sociedades, os dois se unem quando o animal de quatro patas é cercado por “rivais” mais fortes e opressivos. Percebendo a vulnerabilidade do jovem cão, o Vagabundo decide intervir, sem saber que com este ato estaria conquistando um raro ombro amigo. Criativo ao colocar os dois num mesmo patamar, Chaplin arranca genuínas gargalhadas ao se encantar pela face mais destemida e resiliente deles, construindo as suas inspiradas gags a partir das peripécias da dupla na busca por comida e uma condição de vida mais digna. Ao longo de pouco mais de meia hora, o diretor brilha ao estreitar os laços entre cão e dono, ao pintar em tela as suas respectivas virtudes com leveza e bom humor, potencializando esta relação de companheirismo ao mostrar que os dois se tornam mais fortes juntos. É incrível ver como em 1918, na fase final da dolorosa Primeira Guerra Mundial, Chaplin usou a conexão entre um maltrapilho e o seu cão como uma fonte de inspiração, de esperança em meio à crise na Europa, valorizando o poder da amizade de maneira realmente única. O que fica claro, em especial, com o desfecho otimista, um fato raro em sua filmografia. O momento, entretanto, pedia isso. Além disso, é interessante ver como Vida de Cachorro se tornou um símbolo quando o assunto são os filmes “estrelados” por animais, servindo como base para a construção deste subgênero. Na verdade, o cachorro, aqui, é um verdadeiro protagonista, dividindo os holofotes com Chaplin e Edna Purviance com uma enorme presença cênica.

- Umberto D (1952)


Da critica otimista do cinema mudo para a realidade nua e crua do neorrealismo italiano. Umberto D é um daqueles “socos no estômago” que só essa influente corrente cinematográfica sabia dar. Sob a batuta do legendário Vittorio De Sicca, o desconcertante drama comove e entristece ao expor as injustiças impostas pela desigualdade social dentro de um contexto incisivo e desoladoramente atual. Logo na fantástica primeira cena, uma manifestação de um grupo de idosos clamando por uma reforma na aposentadoria e por salários mais justos, percebemos que a realidade do trabalhador pouco mudou nos últimos sessenta anos. No meio deste ruidoso grupo estava Umberto (Carlo Battisti, numa performance de rara sensibilidade), um aposentado que, após quase trinta anos de muito trabalho, se via em dificuldades para manter o aluguel do seu humilde quarto. Na mira da insensível dona da “pensão”, ele tinha como único amigo o esperto Flike, um cãozinho afetuoso que não se separava do seu dono. Em busca do dinheiro para quitar a sua dívida, Umberto decide buscar ajuda nos seus poucos conhecidos, tendo que colocar a sua dignidade em cheque diante de uma sociedade amarga e individualista. Fazendo jus aos maiores clássicos do neorrealismo italiano, De Sicca é impiedoso ao pintar um retrato devastador da realidade que cercava o simpático protagonista. Sem um pingo de condescendência, o realizador é categórico ao revelar o desdém do Estado para com os seus cidadãos, mostrando o impacto da falta de recursos de maneira ora irônica e afiada, ora dura e revoltante. Na verdade, De Sicca nos brinda aqui com um intimista estudo de personagem, refletindo sobre a deterioração física, emocional e principalmente moral de um homem trabalhado abandonado pelo Estado no momento de maior vulnerabilidade na sua vida. O espectador consegue sentir o desespero de Umberto, a sua vergonha em pedir, a sua desilusão diante da falta de oportunidades. Um arco denso que alcança o seu ápice na relação entre o protagonista e o seu fiel amigo Flike. É através do pequeno animal que enxergamos as maiores virtudes de Umberto. Como ele, um dono altruísta e bondoso, era uma peça rara naquela engrenagem social. À medida que a trama avança, De Sicca comove ao tornar o pequeno vira-lata o seu “sopro” de dignidade, aquele capaz de o impedir de tomar decisões mais drásticas. Uma relação singela e genuinamente emotiva que resulta num clímax poderoso, um desfecho agridoce comandado com um pulso narrativo\dramático cada vez mais raro nos dias de hoje. Embora acerte ao fazer do pequeno Flike um resiliente símbolo de esperança, Umberto D comove ao mostrar a realidade de muitos sob uma perspectiva densa e naturalista, realçando o peso da indiferença na relação entre um desgostoso idoso e o seu leal companheiro de quatro patas. Que filme. Uma verdadeira obra prima.

- O Meu Melhor Companheiro (1957)


Por falar em filmes realísticos, O Meu Melhor Companheiro mostra um resquício da velha Disney. Aquela que, com filmes como Pinóquio, Dumbo e Bambi, apresentou os perigos do mundo real para a garotada sem um pingo de condescendência. Num retrato emocionante sobre a dura missão que é amadurecer, o diretor Robert Stevenson nos brinda com um ‘coming of age movie’ de respeito, um drama sólido e corajoso sobre um garoto obrigado a se tornar o chefe da casa precocemente. Com o intenso Tommy Kirk na pele do protagonista, o proativo Travis Coates, o realizador é honesto ao mostrar que com a responsabilidade vem a necessidade de se tomar decisões difíceis. É interessante ver como, aqui, a chegada de um intrépido cão, o corajoso Old Yeller, ajuda a expor a face mais despreparada do jovem. Convencido pelo pequeno irmão a mantê-lo na sua fazenda, Travis inicialmente reluta, vê o seu trabalho atrapalhado pelo “imparável” animal, mas pouco a pouco desenvolve com ele uma relação de companheirismo e fidelidade. Através deste elo enxergamos não só o lado mais imaturo e infantil de Travis, mas também o seu processo de amadurecimento. Um arco denso capaz de deixar claro que a vida não é feita somente de finais felizes. Com sequências extremamente críveis, o cão desafia um urso, luta com lobos e persegue coelhos, Stevenson enche a tela de sentimento ao estreitar o elo entre Travis e Old Yeller, preparando o terreno para uma decisão totalmente coerente com o processo de maturação do jovem personagem. No momento em que o longa o obriga a romper de vez com o seu “eu” infantil, o diretor o faz com indescritível sutileza, se distanciando do sentimentalismo barato ao defender o amor de um homem pelo seu animal dentro do contexto mais duro possível. Quem já teve um cachorro\gato de estimação, e já se deparou com uma situação dessas, sabe como é lidar com o misto de dor e sofrimento em torno do tema em questão. Em suma, um drama sincero e agridoce, O Meu Querido Companheiro é inteligente ao conectar o ciclo da vida de um cão a jornada de amadurecimento de um jovem, mostrando de maneira objetiva as consequências impostas pelo mundo real.


- Todos os Cães Merecem o Céu (1989)


Um daqueles títulos subestimados, Todos os Cães Merecem o Céu é o típico de animação corajosa. Antes da Pixar trazer temas “adultos” para o centro dos seus filmes, o talentoso diretor Don Bluth (da incrível franquia Em Busca do Vale Encantado) flertou com temas pouco usuais dentro do segmento ao tirar do papel um improvável filme de máfia. Com o saudoso Burt Reynolds dando voz ao malandro protagonista, o longa narra a jornada de Charlie, um cão com um pé na picaretagem que, após “romper” com o seu sócio, o perigoso Cicatriz, é morto e vai para o céu dos cachorros. Chegando lá, com a ajuda de uma anja, ele ganha uma segunda chance para se redimir e evitar um lugar bem pior. De volta à terra, Charlie salva a pequena Ana Maria, uma órfã que, por se comunicar com os animais, era mantida em cativeiro por Cicatriz. Com interesses questionáveis, mas boas intenções, Charlie passa a se afeiçoar cada vez mais pela garotinha, criando um vínculo de amizade que viria a mudar a sua vida de uma vez por todas. Impulsionado por esta inteligente premissa, Bluth encanta ao capturar a disfuncional relação entre Charlie e Ana Maria, dois personagens diferentes que, pouco a pouco, criam laços forte e naturalmente comoventes. Por mais que visualmente o filme fique um degrau abaixo dos populares ‘hits’ da Disney nos anos 1990, Bluth compensa ao investir num argumento mundano, com personagens falhos, um consistente senso de ameaça e protagonistas indiscutivelmente cativantes. A alma da película, entretanto, está interação entre cão e humana. Ao contrário da maioria títulos do segmento, aqui é o humano que modifica o animal. Enquanto Ana Maria é bondosa e ingênua, Charlie é astuto e ardiloso, um choque de identidades que eleva o nível de originalidade da obra. Além disso, Bluth não poupa o espectador dentro do emotivo clímax, defendendo o senso de realidade da obra com tenacidade e delicadeza. Embora tenha ficado na sombra de outros ‘hits’ caninos, entre eles Os 101 Dálmatas, O Cão e a Raposa, Bolt: O Supercão e Frankenweenie, Todos os Cães Merecem o Céu é um exemplar raro, uma produção original, com traços vibrantes, divertidos números musicais e uma adorável relação de fidelidade entre um cão e a sua nova amiga.

- Caninos Brancos (1991)


Dentre a profusão de filmes “estrelados” por animais nos anos 1990, Caninos Brancos, indiscutivelmente, está entre os melhores e mais comoventes. Impulsionado pelo radiante carisma de um então jovem Ethan Hawke, o longa dirigido por Randal Kleiser nos leva para o período da corrida por ouro nos EUA ao narrar a jornada de dois órfãos obrigados a sobreviver num meio “selvagem” sem renegar as suas respectivas raízes. Ao contrário de alguns títulos desta lista, Caninos Brancos é astuto ao criar\solidificar o elo entre humano e animal sem necessariamente uni-los em cena. Na verdade, ao distancia-los, Kleiser consegue desenvolver um inspirado paralelo entre os dois, estabelecendo assim os motivos que iriam os aproximar num futuro bem próximo. De um lado temos a jornada do jovem Jack que, determinado a seguir os passos do seu saudoso pai, um resiliente minerador, decide assumir as suas terras no Alasca na tentativa de encontrar ouro. Do outro temos o meio cão, meio lobo White Fang, um animal mestiço que, após perder a sua mãe tão cedo, se vê com a necessidade de encarar a natureza selvagem e a crueldade dos seres humanos. Com pulso narrativo e sequências dotadas de rara beleza, Kleiser mostra inteligência ao realçar as semelhanças entre o jovem e o animal. Os dois não estão preparados para sobreviver naquele ambiente, convivem com a descrença\preconceito daqueles que os cercam e sequer desconfiam dos perigos que estão por enfrentar. A diferença é que enquanto Jack “cai” em mãos certas, do zeloso minerador Alex (Klaus Maria Brandauer), White Fang é exposto a covardia e a violência. É interessante como, a partir destes dois arcos, Kleiser estabelece o processo de adaptação dos dois. Como a natureza de ambos, apesar da aridez do cenário em que estão inseridos, nunca muda. Uma abordagem encantadora que atinge o seu ápice quando os dois finalmente se unem. Com sutileza, o realizador mostra propriedade ao traduzir o período de “ressocialização” do castigado cão, extraindo o máximo desta crescente relação de confiança e fidelidade. Além disso, é legal ver um longa levantar a bandeira contra a crueldade com os animais, o que fica bem claro não só na maneira com que o argumento questiona as rinhas entre cães, mas principalmente na preocupação com o processo de filmagens. Um belo filme sobre a natureza dócil dos animais e sobre os estreitos laços construídos com aqueles que os tratam como semelhantes.


- Beethoven (1992)


Se até o início dos anos 1990 Lassie e Ri-Tin-Tin eram os grandes nomes caninos da cultura pop, Beethoven: O Magnífico chegou “causando” ao se tornar um dos mais populares filmes família da década de 1990. Indo de encontro ao viés geralmente heroico, o longa dirigido por Brian Levant se encantou pela disfuncionalidade familiar ao tornar um desastrado São Bernardo num improvável\engraçadíssimo ‘pet’. Impulsionado pela hilária performance de um ranzinza Charles Grodin, o realizador cativa ao revelar o impacto deste estabanado cão na rotina de uma família comum, investindo em divertidas ‘gags’ ao traduzir o processo de adaptação do mascote no seu novo lar. Entre a fofura e a comédia, o longa acertou ao se concentrar na relação entre o cão e o seu sisudo dono, tornando o crescente elo entre os dois a alma do negócio aqui. Além disso, é legal ver como o longa levanta uma importante bandeira contra a crueldade contra os animais, tirando do papel um antagonista detestável que marcou uma geração. Para uma criança, no auge de uma Sessão da Tarde, era difícil não ir as lágrimas quanto o simpático cachorro era raptado e tinha a sua vida colocada em risco. O típico blockbuster noventista, Beethoven: O Magnífico se revelou um estrondoso sucesso de público, rendendo US$ 147 milhões ao redor do mundo. Além disso, o longa se tornou um dos exemplares mais bem-sucedidos entre os filmes de comédia com cachorro, se destacando entre títulos como o popular K9: Um Policial Bom para Cachorro, Uma Dupla Quase Perfeita e Bud: O Cão Amigo. Um dos filmes da minha infância.

- Lassie (1994)


Entre os anos 1940 e 1960, Lassie foi um dos personagens caninos mais populares do cinema da época. A elegante collie permaneceu no imaginário dos fãs dos filmes do gênero em obras como Lassie, a força do Coração (1943), A Coragem de Lassie (1946) e O Desafio de Lassie (1949). O seu sucesso era tanto que com o ‘boom’ da TV, óbvio, ela ganhou uma duradoura série própria, roubando a cena entre os anos de 1954 e 1974. A minha geração, porém, conheceu realmente esse corajoso animal no singelo remake Lassie (1994), um ‘hit’ recorrente nas sessões da tarde nos anos 1990. No embalo de títulos como Caninos Brancos e Beethoven, o longa dirigido por Daniel Petrie seguiu uma fórmula bem familiar ao mostrar o impacto da chegada desta dedicada cadela na rotina de uma família da cidade grande obrigada a se adaptar numa pequena cidade do interior. Fazendo jus ao status da “marca” Lassie, Petrie constrói uma comovente história de amizade e companheirismo, se concentrando na relação de fidelidade entre a esperta animal e o seu deslocado “dono”, o urbano Mathew (Tom Guiry). Embora não traga de realmente novo ao segmento, o realizador é habilidoso ao solidificar o elo entre cão e humano, realçando o aspecto altruísta de Lassie sempre que possível. Além disso, por mais que a rixa familiar proposta pelo filme seja um tanto quanto tola, deste arco nasce o tenso clímax, um daqueles desfechos memoráveis que faz tudo muito certo na tentativa de arrancar lágrimas do espectador. Menos mal que, aqui, o sentimentalismo fica em segundo plano. A emoção vem da imponente figura de Lassie e da sua revigorante parceria com Matthew.


- Meu Cachorro Skip (2000)


Seguindo uma linha mais genuinamente dramática, Meu Cachorro Skip encanta ao revelar o impacto da chegada de um empático cãozinho na rotina de um deslocado jovem. Com o então pequeno Frankie Muniz na pele do introspectivo Willie, o longa dirigido por Jay Russel (do subestimado Meu Monstro de Estimação) é cuidadoso ao revelar a crescente conexão entre o garoto e o seu pequeno cão, refletindo sobre os efeitos terapêuticos deste elo. Com cuidado para não invadir o terreno do sentimentalismo, o realizador constrói uma daquelas inspiradoras histórias de amizade, abraçando o universo dos ‘coming of age movies’ ao traduzir as mudanças em torno da jornada de amadurecimento de Willie. É legal ver como o longa tira proveito dos competentes personagens de apoio, indo além do núcleo familiar ao mostrar o complicado processo de adaptação do jovem, ao valorizar as suas referências e ao expor as suas desilusões com o avançar do tempo. Impulsionado pelo talentoso elenco, Kevin Bacon, Diane Lane e Luke Wilson reforçam o viés dramático da obra, Meu Cachorro Skip é inteligente ao, sem se distanciar mais do que o necessário da lúdica relação entre um menino e o seu cachorro, revelar, sob a perspectiva de um narrador já adulto, a magia da infância e quão complexo pode ser a chegada da maturidade. Embora flerte aqui ou ali com soluções mais convencionais, Meu Cachorro Skip atinge o seu ápice na fantástica sequência final, quando ali, num belíssimo uso do ‘voice over’, percebemos o quão inabalável pode ser o elo entre um cão e o seu estimado dono.

- Resgate Abaixo de Zero (2006)


Com o padrão Disney de qualidade, Resgate Abaixo de Zero celebra o senso de lealdade dos cães em sua mais intrépida potência. Inspirado vagamente numa história real, o longa dirigido pelo experiente Frank Marshall nos leva aos confins gélidos do planeta Terra para narrar as desventuras de um piloto de trenó que, após uma tempestade obriga-lo a deixar a sua base às pressas, se vê numa crise moral ao ter que deixar os seus cães para trás. Indignado, ele decide se esforçar ao máximo para conseguir retornar e resgata-los, mas, à medida que o tempo avança, a chance de encontra-los vivos diminui drasticamente. Impulsionado pela carismática performance do saudoso Paul Walker, Marshall esbanja categoria ao tirar do papel um empolgante e angustiante drama de sobrevivência. Ao contrário, por exemplo, do já citado Caninos Brancos, aqui o diretor dedica o ótimo primeiro ato para solidificar o elo entre o protagonista e os seus oito husky siberianos, traduzindo o misto de fidelidade e companheirismo com enorme sinceridade. É legal ver como o longa valoriza os serviços prestados pelos animais, mostrando a troca de confiança mútua entre eles e o piloto. Um vínculo praticamente inabalável que sustenta com um impressionante dinamismo o restante da trama. Isso porque, a partir do segundo ato, Marshall é cuidadoso ao estabelecer o doloroso rompimento. De um lado vemos a impotência do destruído piloto diante da inércia dos seus superiores. Do outro a luta pela vida dos oitos cães num ambiente inóspito castigado pela chegada do inverno. Por mais que as conveniências narrativas sejam óbvias, afinal de contas estamos falando do padrão “filme família” da Disney, Marshall é cuidadoso ao respeitar o estado de espírito dos seus personagens. Enquanto os cães surgem como os verdadeiros protagonistas, Walker carrega no olhar uma tristeza comovente, um trabalho muito verdadeiro. O grande trunfo da película, entretanto, está na maneira verossímil com que Marshall trata a jornada de sobrevivência dos cães. A dinâmica entre eles é muito bem construída. As fragilidades são brilhantemente expostas. É possível sentir o crescente elo entre eles, experimentar a sua dor, a sua ponta de esperança, o seu processo de amadurecimento em terreno selvagem. Com pouquíssimas exceções, tudo soa muito crível aos olhos do público. Além disso, Frank Marshall extrai o máximo das frias paisagens em enquadramentos expansivos e dotados de rara beleza, o que torna a obra ainda mais atraente aos olhos do público. Fazendo um emotivo uso do elemento humano presente na trama, Resgate Abaixo de Zero encanta ao exaltar os sólidos laços entre um resiliente grupo de cães e àqueles que sempre dependeram deles para se locomover nas congelantes planícies da Antártida. Uma relação singular capturada com extrema delicadeza pelas lentes de Frank Marshall.


- Marley e Eu (2008)


De longe o filme mais popular na atualidade desta lista, Marley e Eu reaqueceu a “fama” dos filmes de cachorro numa obra leve e cativante. Dirigido por David Frankel, o longa estrelado por Owen Wilson e Jennifer Aniston foi além das expectativas ao usar a relação entre um casal e o seu atrapalhado cão como o ponto de partida para uma ‘dramédia’ familiar honesta e emocionante. Num retrato universal e delicado, o realizador conquistou plateias ao redor do mundo ao mostrar o impacto da chegada do simpático labrador na rotina dos protagonistas, refletindo sobre o processo de formação deste núcleo familiar enquanto constrói o crescente elo de companheirismo entre cão e os seus donos. Indo da comédia ao drama com rara espontaneidade, Frankel se encanta pela disfuncionalidade das renovadas famílias, mostrando os sonhos, a felicidade, as desilusões e o amadurecimento dos dois sob a perspectiva deste transformador animal. É interessante ver como, aqui, o diretor trata Marley como membro de uma família, criando uma conexão praticamente instantânea com o público ao mostrar o quão recompensador pode ser a presença de um animal em nossas vidas. Sem medo de soar piegas, o que, verdade seja dita, está longe de ser um problema nesta película, Frankel é astuto ao mostrar o melhor e o “pior” em torno da adoção de um ser canino, ora rindo do caos, ora vibrando com a adorável interação, ora comovendo com a dor do fim. E isso sem soar melancólico e\ou triste. A emoção, na verdade, vem acompanhada de uma ponta de alegria, ocasionada pela experiência que foi ter convivido com um amigo tão fiel durante uma parte (pequena ou não) das nossas vidas. Algo brilhantemente capturado pelas lentes de David Frankel.

- Sempre ao Seu Lado (2009)


Quando o assunto é o potencial lacrimoso, porém, nenhum filme desta lista supera Sempre ao Seu Lado. Inspirado numa inspiradora história real japonesa, o longa dirigido por Lasse Hallstrom arrancou soluços ao redor do mundo ao narrar a mais icônica e simbólica história de fidelidade entre um cão e o seu dono. Com Richard Gere na pele de um professor que, durante as suas idas e vindas, adota um afetuoso cão Akita, este emotivo drama brilha ao se concentrar na construção do inabalável elo entre os dois. Recheado de sequências comoventes, Hallstrom mostra a sua reconhecida habilidade em conquistar a atenção do grande público, extraindo o potencial dramático desta amizade ao valorizar a dinâmica desta relação, ao realçar o aspecto mais íntimo da história. Tudo soa muito sincero aos olhos do público. A química entre o personagem de Gere e o cativante Hachi é estabelecida com sutileza ao longo da primeira metade da película. É no seu terço final, porém, que Sempre ao Seu Lado leva a trama a um novo patamar ao capturar o desconcertante gesto de lealdade do cão diante de um fato inesperado. Ao contrário de alguns dos seus títulos mais sentimentalistas, Hallstrom esbanja delicadeza ao traduzir as emoções do animal, ao valorizar a força e a face mais incrível\inspiradora desta história real, presenteando o espectador com uma obra genuinamente agridoce, um filme extremamente popular por defender o quão forte podem ser os laços entre um cachorro e o seu “humano”. É difícil não se emocionar.

- Deus Branco (2014)


Por fim, da comoção de Sempre ao seu Lado para a ferocidade de Deus Branco. Um dos filmes mais geniais e subestimados dos últimos anos, este metafórico drama húngaro se antecipa aos fatos ao usar a relação entre uma solitária adolescente e o seu gentil vira-lata como o ponto de partida para uma poderosa crítica social. Antes da crise dos imigrantes explodir em plena Hungria, o diretor Kornél Mundruczó é incisivo ao debater o desdém da sociedade europeia junto àqueles que viviam à margem nos centros urbanos, encontrando no protagonista canino o agente catalisador para a construção de um inteligentíssimo duelo de classes. Ao contrário da maioria dos filmes citados nesta lista, Deus Branco não se concentra no elo entre a jovem e o seu cão. Na verdade, ao longo do primeiro ato, o diretor é astuto ao estreitar os laços entre os dois, mostrando como o cachorro surge não só como um amigo, como um companheiro nas horas difíceis, mas como uma lembrança da sua realidade pré-divórcio. No momento em que ela é obrigada a viver com o seu pai, porém, esta conexão é repentinamente quebrada. O que temos então e a luta dos dois para superar a ausência e (quem sabe) retomar este estreito vínculo. Ao separá-los, Mundruczó é sagaz ao refletir sobre o impacto do abandono na identidade dos dois. Enquanto ela começa a se expor precocemente aos perigos da vida adulta, ele é obrigado a enxergar o pior do ser humano. É interessante ver como, à medida que a trama avança, o longa passa a flertar com o viés fabulesco. Sem querer revelar muito, da opressão nasce a revolta e consequentemente a reação, culminando num emblemático último ato e num memorável desfecho. Um filme que, ao ir além da conexão entre uma menina e o seu cachorro, reflete sobre a igualdade em tempos de crise com enorme profundidade.

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