terça-feira, 13 de outubro de 2015

The Lobster

O amor é cego

Numa bizarra e naturalmente incomoda visão de futuro, The Lobster é extremamente ácido ao promover uma inusitada crítica sobre a superficialidade em torno dos relacionamentos amorosos. Conduzido com uma elevada dose de humor negro por Yorgos Lanthimos (Dente Canino), esta satírica fábula social se destaca muito mais pela excêntrica e instigante atmosfera distópica concebida, do que propriamente pelo rumo dado aos seus propositalmente vazios personagens. Estrelado pelo talentoso Colin Farrell, magnífico como um apático homem de meia idade obrigado a encontrar uma nova parceira, este alarmista relato ganha verdadeiro significado ao introduzir o romance num universo onde o amor parecia um artigo de luxo. Ainda que tardiamente, o casal se revela um bem-vindo meio termo dentro da tensa e extremista premissa proposta pelo diretor grego. Uma pena que a magnética Rachel Weisz demore tanto para entrar em cena.




Antes de mais nada, The Lobster é um longa de difícil digestão. O argumento assinado por Lanthimos, ao lado de Efthymis Filippou, exige que o público se conecte com este exótico cenário futurístico, e abrace - sem restrições - a absurda ideia de relacionamento defendida pelo roteiro. Desta forma, imagine uma estrutura social onde o indivíduo era impedido pelas leis da "cidade" de permanecer solteiro. E que para achar o seu par perfeito, era obrigado a ficar confinado por 45 dias num Hotel, tendo que correr contra o tempo para escolher formalmente a sua nova(o) companheira(o). Isso porque, em caso de falha, essa pessoa seria transformada num animal (daí vem o título The Lobster, a lagosta em português) e solto numa floresta da região. Nesta distorcida realidade conhecemos então o inerte David (Farrell), um abatido arquiteto que é "internado" após perder a sua esposa. Procurando se adaptar as imposições desta instituição, que fazia de tudo para incentivar os "hóspedes" a encontrar um novo parceiro, ele logo percebe que o seu objetivo não seria nada fácil de ser alcançado. Após experimentar uma desastrosa relação com uma desalmada figura (Angeliki Papoulia), David decide fugir para a floresta, um lugar em que a individualidade era protegida a qualquer custo pela obstinada líder (Léa Seydoux) de um grupo de resistentes. Lá, porém, ele se aproxima de uma bela "sobrevivente" (Rachel Weisz), desafiando o sistema ao cultivar sentimentos tão dispensados por esta sociedade. 


Explorando ao máximo este extravagante cenário, onde similaridades biológicas eram mais significativas na busca pelo parceiro ideal do que a própria afeição mútua, Yorgos Lanthimos destila a sua venosa dose de humor ao traduzir em cena a opressiva dinâmica do "hotel\prisão". A partir de um primeiro ato sagaz, que facilita a imersão do espectador nesta satírica sociedade, o realizador grego é irretocável ao revelar as bizarras particularidades deste local, expondo com acidez a artificialidade e o vazio por trás dos burocráticos flertes. Chega a causar aflição a apatia dos personagens diante desta urgente procura, que, apesar dos exageros, dialoga com dilemas completamente inerentes a uma sociedade cada vez mais adepta às distantes relações virtuais. Através desta distorcida visão de futuro, fotografada com elegância por Thimios Bakatakis, Lanthimos é voraz ao criticar a banalização dos relacionamentos atuais, ridicularizando a todo momento as convenções sociais, a tradicional estrutura familiar, o conceito de par perfeito e a desvalorização dos sentimentos. A forma prática encontrada pelos donos do hotel para mostrar a importância de se manter um parceiro é estupidamente engraçada, numa sequência que evidencia a perspicácia do longa ao rir das situações mais incomuns dentro deste universo distópico.


Por outro lado, ainda que a desconcertante comicidade chame a atenção, aos poucos a jornada do arquiteto começa a perder ritmo. Mesmo rendendo algumas boas risadas, principalmente pelo caminho encontrado por ele para conquista-la, a relação entre David e uma perversa residente descamba para o mau gosto, conduzindo de maneira acelerada a transição para a floresta. Neste lugar igualmente impositor, mas nitidamente menos instigante, o argumento patina ao se prender excessivamente aos dualismos ideológicos (vida a dois x individualidade), impedindo que o meio termo, neste caso a humana relação entre os personagens de Farrell e Weisz, ganhe maior espaço dentro da película. Subaproveitando a paradoxal situação de David, um homem que após fugir de uma instituição "formadora" de casais, encontra a sua parceira num lugar onde a "solteirice" era a única exigência, The Lobster só consegue recuperar a fluidez quando finalmente introduz a impecável Rachel Weisz em cena. Após narrar a trajetória de David durante boa parte da trama, numa opção ora redundante, ora intimista, a atriz adiciona um pouco mais de afeto ao endurecido longa, exibindo uma enorme química com Colin Farrell na construção de um casal reprimido pelo sistema. Potencializado pelos acordes sinistros da trilha sonora, o diretor grego adota uma aura ameaçadora ao desenvolver este latente romance, tirando um interessante proveito da evidente fragilidade do protagonista diante não só das personagens femininas, mas também deste cenário emocionalmente escasso. Em meio a soluções forçadas, no entanto, Lanthimos parece se encantar mais com o confronto ideológico liderado pela rasa e fundamentalista personagem de Léa Seydoux, do que com a exótica critica afetiva protagonizada por David, se distanciando do deliciosamente agressivo tom sarcástico do primeiro ato.


Consagrado pelo Festival de Cannes com o prêmio do Júri, The Lobster esbarra nas suas próprias pretensões, ou talvez nas expectativas elevadas acerca do projeto, ao propor uma ousada e desconfortante sátira sobre a artificialidade nos relacionamentos atuais. Levando as últimas consequências o senso comum em torno da expressão o "amor cega", este estranhíssimo longa se mantém fiel ao extremismo da trama ao entregar um desfecho impactante, tenso e bizarramente poético. Em algum lugar entre o perspicaz primeiro ato e o angustiante clímax, porém, o longa se perde ao maximizar questões menos interessantes, reduzindo o peso e a ironia envolvendo o curioso cenário distópico idealizado pelo grego Yorgos Lanthimos.


Filme assistido na 17ª Edição do Festival do Rio. 

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