quarta-feira, 8 de março de 2017

Doze Grandes Filmes Dirigidos por Mulheres


Na última semana, às vésperas de mais uma edição do Oscar, escrevi uma matéria sobre as novas vozes de Hollywood. Uma lista sobre a nova safra de diretores e o caminho que eles percorreram até chegar ao 'mainstream'. Numa preocupante constatação, porém, percebi que havia escalado apenas uma diretora nesta reportagem. Confesso que dei outra pesquisada, tentei buscar na memória as melhores produções conduzidas por novas realizadoras, mas os nomes que surgiram ou já estavam um degrau acima dos demais integrantes da lista (Sofia Coppola) ou em busca deste status (Ana Lily Amirpour e Sarah Polley). Só então percebi que o problema não estava na minha apuração. Infelizmente, a falta de oportunidades é um obstáculo imponente para a nova geração de diretoras. Na torcida para que este cenário se torne ainda mais igualitário, no Dia Internacional da Mulher resolvi preparar uma lista com doze grandes filmes assinados por mulheres. E que seleção! Dito isso, começamos com...

- Filhos da Guerra (1990)


Inspirado na incrível história real do judeu Solomon Perel, Filhos da Guerra é um daqueles relatos impressionantes que de tão improváveis podem até parecer mentirosos. Mas não são. Conduzido com um extraordinário senso de plenitude pela polonesa Agnieszka Holland (O Jardim Secreto), o longa estrelado pelo carismático Marco Hofschneider (Minha Amada Imortal) investiga as nuances de um confronto como a Segunda Guerra Mundial sob um ponto de vista completo e original. Na trama, seguimos os passos de um jovem judeu alemão que, após ser salvo e educado num campo de órfãos soviéticos, se vê obrigado a omitir as suas origens no momento em que é capturado pelo exército nazista. Acuado, Solomon utiliza o seu alemão para convencer os militares que é um ariano e se torna um herói de guerra ao desvendar o esconderijo de um grupo de soviéticos. Com uma premissa naturalmente envolvente em mãos, Holland é sutil ao mostrar a influência dos dois exércitos sobre os mais jovens e a lavagem cerebral imposta por socialistas e nazistas.


Além disso, a realizadora flerta com o cinismo ao expor a ignorância por trás do discurso ariano, um tema explorado com inteligência no momento em que o judeu é escolhido para integrar a escola da Juventude Alemã, uma espécie de berço para a nova geração de nazistas. Embora o argumento se renda ao teor ficcional no clímax, uma ligeira pesada de mão que nem sequer arranha a imagem da película, Filhos da Guerra se revela uma narrativa multidimensional e carregada de simbolismo sobre um tema devastador. Num dos melhores trabalhos da sua expressiva carreira, Agnieszka Holland flerta com elementos lúdicos ao desvendar a jornada de sobrevivência de Solomon Perel, expondo a dor de um conflito sob um prisma ingênuo e memorável. Vide a fantástica sequência subjetiva em que Hitler e Stalin bailam amistosamente durante o sonho deste amedrontado judeu.

- Encontros e Desencontros (2003)


Um romance recheado de personalidade, Encontros e Desencontros redefiniu a carreira da talentosa Sofia Coppola (As Virgens Suicidas, Maria Antonieta). Intimista, vibrante e inquestionavelmente original, o longa fascina ao propor uma história de amor potencializada pela falta de comunicação. Isolados em pleno solo japonês, Coppolla esbanja o seu virtuosismo estético ao tornar Tóquio parte da sua história, uma espécie de agente catalisador da relação entre o astro decadente Bob Harris (Bill Murray) e a jovem solitária Charlotte (Scarlett Johansson). Com um casal naturalmente magnético em mãos, a realizadora investe num texto ágil e reflexivo, discorrendo sobre os conflitos dos seus personagens com intimidade e energia. Murray e Johansson, aliás, exibem uma extraordinária química em cena, realçando o aspecto mais inusitado por trás desta carismática história de amor.

- Guerra ao Terror (2009)


Vencedor de seis Oscars, entre eles os de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro, Guerra ao Terror é uma obra crítica e envolvente. Sob a batuta da talentosa Kathryn Bigelow (Caçadores de Emoções), o longa estrelado por Jeremy Renner atraiu a atenção do público e da crítica ao revelar a devastadora rotina do líder de um esquadrão antibombas no Afeganistão. Num relato tenso e tecnicamente primoroso, Bigelow é brilhante ao reproduzir a insegurança em campo de batalha, o instável 'modus operandi' dos militares e o impacto de tamanha pressão na personalidade dos envolvidos. Sem querer revelar muito, o processo de deterioração emocional do protagonista é traduzido com vigor pelas lentes desta importante realizadora, culminando num último ato questionador e absolutamente incisivo.

- A Hora mais Escura (2013)


De longe o filme mais difícil da lista, A Hora Mais Escura se revela um relato detalhista sobre a caçada da CIA ao temido Osama Bin Laden. Esqueça, porém, as patriotadas norte-americanas que Hollywood adora produzir. Conduzido com propriedade por Kathryn Bigelow, o longa acompanha a busca pelo paradeiro do líder da Al Qaeda durante quase uma década, transitando com naturalismo por temas como a tortura dos terroristas capturados, os equívocos da agência de inteligência, o impacto das mudanças políticas e a pressão imposta aos analistas da CIA. Impulsionada pela poderosa atuação de Jessica Chastain, magnífica ao absorver as nuances emocionais enfrentadas pela obstinada agente que descortinou o esconderijo de OBL, Bigelow nos brinda com uma obra realística e recheada de tensão. Sem querer revelar muito, a engenhosa sequência da invasão é tecnicamente primorosa, uma verdadeira aula de cinema. Além disso, a realizadora aponta a sua mira para o jogo político por trás desta desgastante busca, permitindo que o espectador compreenda o quão complexo foi todo o processo. Envolvente ao longo das ritmadas duas horas de quarenta de projeção, A Hora mais Escura é uma obra corajosa e carregada de predicados. Contando ainda com um talentoso elenco de apoio, capitaneado pelas excelentes atuações de Kyle Chandler, Jason Clarke e Chris Pratt, Katheryn Bigelow constrói uma película crítica e reveladora, um filme capaz de expor os meandros por trás dos novos conflitos bélicos.

- Educação (2009)


Sob um ponto de vista aparentemente inocente, Educação se inspira numa história real ao narrar um relacionamento movido pela paixão e pela promessa de uma nova vida. Sob a batuta da diretora Lone Scherfig, o longa volta aos anos 60 para narrar a jornada de uma jovem ingênua encantada por um homem mais velho e culto. Escancarando as incoerências por trás da conservadora sociedade local, representada nos pais da adolescente, o argumento é cuidadoso ao realçar os perigos em torno deste perigoso caso de amor, principalmente na mudança de comportamento da protagonista interpretada brilhantemente pela apaixonante Carey Mulligan. Embora o último ato seja um tanto quanto indulgente, Educação é um romance dramático envolvente e extremamente atual.

- Entre o Amor e a Paixão (2011)


Recheado de momentos singulares, Entre o Amor e a Paixão cativa ao discutir sob um revigorante ponto de vista alguns dos mais enraizados dilemas afetivos na vida de um casal. Conduzido com virtuosismo pela diretora Sarah Polley, este agridoce romance absorve a essência imatura dos seus personagens ao passear com proposital infantilidade por questões como a infidelidade, o companheirismo e a incessante luta contra a rotina matrimonial. Impulsionado pela soberba performance da talentosa Michelle Williams, a realizadora esbanja delicadeza ao narrar as desventuras amorosas de Margot, uma mulher casada dividida entre a certeza de um amor esfriado pelo tempo ou a ilusão de uma paixão avassaladora. Sem apelar para tipo vilanescos e indulgentes, o argumento investiga os dilemas da protagonista de maneira singela, intimista e absurdamente humana, traduzindo a sua rotina com espantosa sinceridade.

- Inverno da Alma (2010)


Responsável por apresentar a então jovem Jennifer Lawrence para o grande público, Inverno da Alma é um drama com pedigree. Sob a batuta acinzentada da diretora Debra Granik, o longa se revela um drama nebuloso sobre a natureza humana, sobre a falta de sensibilidade num cenário árido e desesperançoso. Com uma premissa instigante e um visual naturalmente frio, potencializado pela fotografia de Michael McDonough. Inverno da Alma acompanha os passos da precoce Ree (Lawrence), uma jovem responsável que se vê obrigada a assumir as rédeas de sua família no momento em que o seu pai, um traficante procurado, simplesmente desaparece. Prestes a perder a sua casa, ela resolve iniciar uma perigosa busca pelo paradeiro dele, tentando encontrar algum indício que poderia evitar a penhora da sua residência. Disposta a mostrar uma face da América frequentemente esnobada em Hollywood, Granick entrega uma película forte e envolvente, um suspense dramático intimista que surpreendeu a todos ao conquistar quatro indicações ao Oscar, entre elas a de melhor filme.

- Que Horas ela Volta? (2015)


Aclamado nos Festivais de Sundance e Berlim, Que Horas ela Volta? vem comprovando ao redor do mundo o verdadeiro potencial do cinema brasileiro. Engraçado, critico e extremamente universal, o longa dirigido por Anna Muylaert (Durval Discos) cativa ao promover de maneira natural um poderoso relato sobre a atual organização social brasileira. Utilizando como pano de fundo a típica relação entre patrão e empregado, o afiado argumento é brilhante ao mostrar o impacto da desigualdade socioeconômica na rotina de duas mulheres ligadas pelo sangue, mas separadas pelas diferentes formas com que encaravam os seus papeis dentro da sociedade. Revelando os contrastes e a hipocrisia por trás da estrutura de classes do nosso país, Muyalert encontra nas vibrantes atuações de Regina Casé e Camila Márdila a força necessária para pintar, através da agitada relação entre uma resignada mãe e a sua independente filha, um moderno e espirituoso retrato social.

- Rio Congelado (2008)


Forte e envolvente, Rio Congelado é um drama áspero que não merece cair no esquecimento. Com uma atmosfera gélida e propositalmente desconfortável, o longa dirigido por Courtney Hunt (Os Dois Lados da Justiça) instiga ao narrar a jornada da amoral Ray, uma mãe solteira com problemas financeiros que encontra o seu "pote de ouro" ao se tornar uma espécie de "coiote" na fronteira dos EUA com o Canadá. Impulsionada pela estupenda performance de Melissa Leo, impecável ao dar vida a uma mulher audaciosa engolida por um perigoso "esquema”, Hunt é habilidosa ao explorar o ar preconceituoso da personagem, um elemento potencializado com o surgimento da nativa Lila (Misty Upham). A partir desta conturbada relação, a realizadora brilha ao realçar o fator humano na crescente interação entre as protagonistas, duas mulheres de origem distinta, mas com dilemas muito semelhantes. Além disso, na transição do segundo para o último ato, o argumento ganha uma generosa dose de tensão ao trazer as questões morais para o centro da trama, culminando num clímax denso e desconcertante. Em suma, com diálogos intensos, uma fotografia gélida nebulosa e marcantes personagens, Rio Congelado instiga ao valorizar as nuances e a frieza em torno da espinhosa jornada das suas protagonistas.

- Garçonete (2007)


No longa mais subestimado desta lista, Jenna é na minha modesta opinião uma das personagens que melhor compreende as noções atuais do feminismo. Em Garçonete, a atriz Keri Russel dá vida a uma que resolve colocar um ponto final na relação com o seu abrupto namorado. Reconhecida por fabricar deliciosas tortas, Jenne encontra na culinária uma forma de esquecer os problemas do dia a dia. Sozinha e grávida, a jovem decide então tomar as rédeas de sua vida, nem que para isso tenha que abrir mão do namoro com um atencioso médico. Em meio a filmes que colocam as mulheres cada vez mais dependentes dos homens, Garçonete foge do lugar comum neste sentido com um singelo e impecável desfecho. Além disso, a direção estilosa da saudosa Adrienne Shelly transita por temas espinhosos com doçura e um charme todo o especial, culminando numa sequência final emblemática e naturalmente libertadora.

- Selma: Uma Luta pela Igualdade (2015)


Pivô de uma das principais polêmicas do Oscar 2015, quando foi completamente esnobado nas principais categorias individuais, Selma é um daqueles relatos preciosos sobre uma decisiva batalha na luta pela igualdade racial em solo norte-americano. Indicado ao Oscar nas categorias Melhor Filme e Melhor Canção Original, com a vencedora 'Glory', o longa dirigido por Ava DuVernay é contundente ao mostrar a marcha liderada por Martin Luther King Jr. da cidade de Selma a Montgomery. Se esforçando para destacar todos os detalhes em torno deste episódio marcante, a realizadora britânica aposta numa estética "nua e crua" ao evidenciar a violência e o preconceito racial imposto pelo Sul dos EUA. Por mais que o argumento peque em alguns momentos, principalmente por não encontrar o equilíbrio ideal entre as questões políticas e as mais humanas, DuVernay é habilidosa ao pintar um retrato intimista sobre um reticente Dr. King.

- Longe Dela (2006)


Humano e comedido, Longe Dela é um relato comovente sobre a perda iminente. Conduzido com sutleza por Sarah Polley, o longa encanta ao acompanhar os devotados passos de um marido prestes a perder o seu grande amor para uma devastadora doença. Com um texto intimista e recheado de sentimento, a realizadora canadense é habilidosa ao revelar os conflitos dos seus personagens, o impacto do alzheimer num casamento de quase cinquenta anos, utilizando a doença como o ponto de partida para uma análise bem mais reflexiva e profunda. Através de um envolvente recorte não linear, Polley se debruça sobre a identidade do casal, expondo a proximidade, as falhas e a devoção mútua sob um ponto vista sincero e particular. Além disso, a diretora e roteirista é madura ao desvendar as nuances dos humanos personagens, permitindo que o público crie uma honesta identificação com eles. Fazendo um excelente uso da iluminada fotografia fria de Luc Montpellier, Polley captura a beleza física dos seus personagens com enorme requinte, utilizando a expressão dos seus comandados para realçar a pureza e a conexão entre os dois veteranos.


E que elenco! Soberba em cena, Julie Christie absorve o misto de sentimentos da sua Fiona com enorme elegância, se esquivando das lágrimas fáceis ao traduzir a deterioração emocional da adoentada. Sem querer revelar muito, a sequência em que ela diz "estou desaparecendo" é de cortar o coração. Já Gordon Pinsent esbanja sensibilidade ao interiorizar os conflitos do seu Grant, um homem altruísta e devoto a sua esposa que passa a refletir sobre esta longínqua relação no momento em que se afasta dela. Introspectivo e silencioso, o magnético personagem divide espaço com alguns interessantes coadjuvantes, entre eles a sincera enfermeira interpretada por Kristen Thomson, a adolescente de cabelos coloridos vivida por Nina Dobrev e a prática mulher interpretada por Olympia Dukakis. Em suma, Longe Dela é uma história de amor em sua mais pura essência. Uma obra original sobre um casal experiente disposto a encarar as consequências de uma desoladora doença.

E se você gostou do tema, confira a nossa matéria sobre as personagens femininas mais marcantes do cinema atual e a nossa lista com dez grandes realizadoras que escreveram o seu nome na história de Hollywood. Não esqueça de curtir a nossa página no Facebook e a nossa conta do Twitter

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