sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Lego Batman: O Filme

A melhor produção cinematográfica da DC desde O Cavaleiro das Trevas


O que seria do Homem-Morcego se não fosse os seus arqui-inimigos? Esta é o tema central de Lego Batman: O Filme, uma aventura satírica que se debruça com irreverência sobre a persona do mais icônico herói da DC. Apesar do texto infantil e do humor naturalmente inocente, o longa dirigido por Chris McKay propõe um inesperado estudo de personagem ao desvendar os medos mais íntimos do protagonista sob um prisma original e propositalmente exagerado. Além de brincar com características mais populares do protagonista, entre elas a sua personalidade egocêntrica, o seu estilo solitário e a sua inusitada parceria com o fiel escudeiro Robin, a animação presta uma expressiva homenagem à história do cavaleiro de Gotham, nos brindando com uma série de criativas referências ao universo criado por Bob Kane e Bill Finger. Sem medo de rir dos próprios erros, a Warner oferece a McKay a liberdade que talvez tenha faltado nas últimas produções da DC do estúdio, o que fica claro quando percebemos as alfinetadas do roteiro a títulos como Batman e Robin (1997) e o recente Esquadrão Suicida (2016). Em suma, com um Coringa fantástico, um visual extraordinário, um argumento engenhoso e a coragem necessária para trazer algo novo para este concorrido gênero, Lego Batman: O Filme é uma brincadeira que acerta ao resgatar o senso de diversão esquecido nas últimas produções da DC nos cinemas.



Numa mistura de "Nolan" com "Adam West", Lego Batman se passa numa Gotham turbulenta protegida por um autoconfiante Homem-Morcego. Irritado com a personalidade do herói, o ardiloso Coringa decide reunir os principais vilões da cidade para frear o seu arqui-inimigo. Intimamente, porém, o antagonista só queria o reconhecimento do Cavaleiro das Trevas, ter a certeza que ele precisava da sua existência para seguir tendo uma função. Para sua surpresa, no entanto, o alter ego de Bruce Wayne desdenha dos planos do vilão e não encontra dificuldades para salvar Gotham mais uma vez. Com o orgulho ferido, o inteligente Coringa resolve apostar no blefe do seu rival, saindo de cena para testar o impacto da sua ausência na rotina do seu nêmeses. Inicialmente confortável, o distante paladino logo percebe o vazio que tomou conta da sua rotina, principalmente quando a nova comissária de policia, a indomável Barbara Gordon, resolve tomar as rédeas da situação e exigir que ele agisse em conjunto com o governo de Gotham. Temendo o destino do seu protegido, o fiel Alfred decide aproxima-lo de um carismático órfão, o prestativo Dick Grayson, um garoto afetuoso que só queria um pai para chamar de seu. Relutante, Bruce decide usar o garoto num plano arriscado, sem saber que o seu egoísmo poderia se tornar uma perigosa arma nas mãos do paciente Coringa. 


Impecável ao seguir a linha lúdica apresentada no divertidíssimo Uma Aventura Lego (2014), vide os criativos "barulhos de tiro", os produtores Phil Lord, Roy Lee, Dan Lin e Christopher Miller mostraram uma afiada veia comercial ao dar um filme solo para o grande ladrão de cenas desta bem sucedida produção. Um dos principais destaques do primeiro filme, o autoconfiante Batman dublado pelo comediante Will Arnett ganhou uma roupagem própria e extravagante, um viés cômico que casou perfeitamente com as características mais absurdas do Homem-Morcego. Com elementos tão promissores em mãos, os roteiristas Seth Grahame-Smith, Chris McKenna, Erik Sommers, Jared Stern e John Whittington esbanjam sagacidade ao investigar os dilemas mais íntimos do herói sob um ponto de vista leve e debochado, abraçando o teor satírico ao traduzir o 'status quo' deste icônico personagem. Sem nunca descaracteriza-lo, o argumento surpreende ao jogar uma luz sobre temas frequentemente esnobados, questões que parecem ter se perdido diante da megalomania que invadiu do gênero. Afinal de contas, o que o Batman faz nas horas vagas? Será que ele tem amigos? Qual o seu maior medo? Em busca destas e outras respostas, Chris McKay foge do lugar comum ao realçar a humanidade do protagonista neste contexto mais leve e irônico. Por mais que as brincadeiras quanto a postura mimada e o comportamento egocêntrico do herói sejam recorrentes, o realizador é sutil ao descortinar os conflitos mais presentes na trajetória do septuagenário personagem, encontrando a sinceridade necessária para aparar algumas das arestas familiares frequentemente mal resolvidas dentro do gênero. É interessante ver, por exemplo, como o longa substitui a raiva pela saudade, o isolamento pela solidão, uma abordagem mais sentimental que rende momentos genuinamente singelos. 


Com uma veia cômica ingênua, mas inegavelmente afiada, Lego Batman é certeiro ao introduzir um velho novo antagonista, o carente Coringa. Numa versão que fará Jared Leto chorar de inveja, o afetado vilão dublado por Zack Galfianaskis ganha uma faceta orgulhosa e inteligente, uma roupagem cerebral que se torna o coração desta sequência. Fiel à ideologia do personagem, uma figura anárquica que, ao longo de setenta anos, sempre buscou mostrar que o Batman não era muito diferente dele, Chris McKay é genial ao brincar com esta conexão, arrancando honestas risadas ao traduzir a desilusão do "verdinho" diante do desdém do herói. Sem querer revelar muito, a expressão que ele faz quando o Homem-Morcego revela não ter arqui-inimigos é impagável, um trabalho potencializado pelo inventivo trabalho da equipe de animação. Com enorme respeito pelo passado dos dois, o argumento mostra inspiração ao utilizar a "ausência" do rival como o estopim para os dilemas mais íntimos do Batman, expondo a sua faceta mais egoísta com irreverência ao longo dos excelentes dois primeiros atos. Indo de encontro aos dois últimos filmes da dobradinha Warner\DC, o inchado Batman Vs Superman e o fraco Esquadrão Suicida, o plot aqui é bem arquitetado, engenhoso para uma produção tão descompromissada, um argumento que sabe explorar a vasta gama de heróis e vilões em prol do excelente andamento da trama. Além disso, mesmo com figuras tão populares em mãos, McKay é cuidadoso ao estabelece tanto a cativante relação entre Bruce e Dick, quanto a superprotetora presença de Alfred, elementos que só incrementam este exótico estudo de personagem. 


Assim como em Uma Aventura Lego, aliás, Lego Batman é um espetáculo para quem curte cultura pop. Numa inestimável homenagem ao universo do Homem-Morcego, Chris McKay nos brinda com uma série de fantásticas referências, indo além das expectativas ao se voltar não só para o passado cinematográfico do personagem, como também para os mais icônicos arcos das histórias em quadrinhos. Entre trajes memoráveis, poses marcantes e inesquecíveis veículos, o realizador dialoga com o espectador mais experimentado ao resgatar alguns dos maiores símbolos da saga, elementos que só elevam o nível de entretenimento da película. Somado a isso, McKay brilha ao trazer para o centro da trama alguns dos representantes do primeiro escalão da DC Comics. Embora nem todos tenham o espaço merecido, um fato, diga-se de passagem, compreensível, nomes como a "pudinzinha" Arlequina, o corpulento Bane, o cativante Robin e o "solitário" Super-Homem rendem divertidas sequências e se tornam uma espécie de escada para as melhores gags do longa. 


O longa, porém, alcança um patamar ainda mais atraente no momento em que decide voltar a sua mira para a cultura pop como um todo. Sem querer revelar muito, o diretor explora um farto "cardápio" cinematográfico ao buscar referências em sucessos do porte de Harry Potter, Gremlins, Jurassic Park, Godzilla, O Senhor dos Anéis e King Kong. Um mérito que, logicamente, precisa ser dividido com o excepcional trabalho da equipe de animadores, magnifica ao recriar estas populares figuras respeitando os traços quadriculados do Lego. Ágeis e expressivos, os "bonequinhos" enchem a tela de carisma ao realçar a faceta mais absurda dos seus respectivos personagens. Enquanto o simpático Robin, por exemplo, surge com olhões afetuosos, o extraordinário Coringa ganha dentes amarelados e pontiagudos, pequenos detalhes que ajudam a compor a personalidade dos protagonistas. Num todo, aliás, as sequências de ação são lúdicas e empolgantes, potencializadas pela explosão de cores vibrantes e pelos contrastes criados por Chris McKay. 


Perspicaz ao utilizar os vilões dentro de um contexto mais familiar, uma lição que, infelizmente, chegou tarde demais para o Esquadrão Suicida, Lego Batman ri do gênero super-heroico ao jogar uma irreverente luz sobre o personagem mais "sombrio" e explorado do universo DC. Embora tenha alguns problemas, a maioria deles envolvendo a mediana trilha sonora e o clímax exageradamente edificante, o longa supera expectativas ao dar relevância a temas frequentemente mal explorados, conseguindo traduzir os traumas passados de Bruce Wayne sem precisar apelar para os melodramas e abdicar da sua ingênua veia cômica. Na verdade, ao resgatar o potencial de diversão perdido nas últimas produções da Warner, Lego Batman se revela o melhor longa inspirado nos personagens da DC desde o primoroso O Cavaleiros das Trevas.

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