sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Bem Vindo a Marly-Gomont

Tom excessivamente familiar reduz o peso desta bem intencionada película

Lançado diretamente em VOD (entenda-se Netflix) no Brasil, Bem Vindo a Marly-Gomont levanta uma preciosa bandeira em prol da igualdade racial ao narrar as desventuras de um médico africano em solo francês. Inspirado numa excelente história real, a comédia dramática dirigida por Julien Rambaldi é habilidosa ao descortinar a ignorância por trás do preconceito em uma conservadora cidade europeia, passeando por temas naturalmente espinhosos com leveza e bom humor. Na ânsia de adotar uma abordagem mais universal, porém, o argumento se rende à um formato excessivamente familiar, por vezes esquemático, reduzindo o peso de algumas interessantes questões ao apostar em soluções rasas e previsíveis. Nada que, de fato, atrapalhe a bem vinda mensagem defendida pelo longa, um discurso que ganha um sensível eco na voz do carismático elenco. 



Com argumento assinado pelo próprio Julien Rambaldi, ao lado de Benoît Graffin e Kamini Zantoko, o longa narra a jornada do recém-formado Seyolo Zantoko (Marc Zinga), um médico do Zaire que se graduou em uma das principais universidades francesas. Com a intenção de não retornar ao seu país, na época "presidido" pelo contestado General Mobutu, ele resolve aceitar um incerto convite para conseguir a naturalização francesa. Para isso, porém, Seyolo teria que se mudar para uma pequena vila francesa, a conservadora Marly-Gomont, e se tornar o único médico da cidade. Após "convencer" a sua expansiva esposa, a iludida Anne Zantoko (Aïssa Maïga), o doutor reúne a sua família e parte para esta gélida região. Inicialmente esperançoso, Seyolo não demora muito para perceber que a presença de um médico negro não seria bem aceita pelos moradores do local. Disposto a romper as barreiras culturais, ele decide se integras aos costumes da região, sem saber que com isso poderia estar se distanciando das pessoas mais importantes da sua vida.


Inspirado nos relatos do filho de Seyolo, o hoje comediante Kamini, Bem Vindo a Marly-Gomont é sutil ao traduzir os obstáculos raciais enfrentados pelo médico. Sob um ponto de vista singelo e relevante, o argumento se esquiva do teor unidimensional ao mostrar as barreiras culturais por trás do preconceito, realçando a ignorância dos moradores ao investigar a origem da intolerância dentro desta pacata cidade do interior. Ainda que de maneira velada, o diretor Julien Rambaldi mostra sensibilidade ao reproduzir o desconforto dos moradores, a desconfiança profissional e o receio quanto às diferenças étnicas, sentimentos retrógrados que são naturalmente derrubados à medida que eles passam a conviver com a simpática família Zantoko. Na verdade, ao ressaltar o quão esdrúxulo e raso eram os motivos da população local, o argumento permite que o espectador enxergue a estupidez por trás do discurso racista, culminando numa mensagem igualitária leve e bem sucedida.


Quando se volta para os dilemas pessoais de Seyolo, porém, o argumento não mostra a mesma inspiração. Apesar das excelentes intenções, Julien Rambaldi decide apostar num tom extremamente familiar, limitando o impacto em torno do doloroso processo de adaptação da família Zantoko. Por mais que as discussões entre o médico e a sua esposa sejam interessantes, principalmente quando se voltam para o aspecto cultural, o realizador evita se aprofundar nas nuances dos personagens, no sofrimento enfrentado por eles, esvaziando os momentos mais dramáticos em prol desta aura 'feel good'. Além disso, o esquemático roteiro revela uma dose de conveniência incompatível com uma história inspirada em fatos. Seguindo uma cartilha bem convencional, bonança e tempestade se intercalam sistematicamente ao longo da trajetória do médico, evidenciando a intenção do roteiro em tornar a história de Seyolo o mais comercial possível. Até em cima disso, aliás, na ânsia de manter a temática racial em alta até o açucarado clímax, Rambald tenta criar um dispensável antagonista, uma figura rasa e previsível que em nenhum momento encontra o seu lugar na trama.


Por outro lado, os carismáticos protagonistas cumprem a sua função e mostram categoria ao absorver o estado de espírito dos seus respectivos personagens. A começar pelo interessante Marc Zinga (007 Contra Spectre), um ator forte e expressivo que não encontra dificuldades em encarnar o sábio Dr. Seyolo Zantoko. Porta voz do igualitário discurso defendido pelo longa, o protagonista se revela uma figura culta e inteligente, um médico obstinado que recusa aceitar uma tentadora oferta do general Mobutu. Se saindo bem não só nos momentos dramáticos, como também nas sequências mais cômicas, Zinga transita entre os gêneros com extrema perícia, criando uma figura afável e compreensiva que merece destaque. Indo de encontro ao desempenho mais contido do seu parceiro de set, a bela Aïssa Maïga ostenta uma energia fora do comum na pele da independente Annie. Com um afiado tempo de comédia, a atriz senegalesa captura a irritação da sua extrovertida personagem com enorme vigor, sem parecer estereotipada em cena. O mesmo, porém, não podemos dizer do restante do núcleo africano, que ganha uma roupagem barulhenta e extravagante que me soou um tanto quanto caricata.


Mesmo diante de soluções inegavelmente frágeis, entre elas a forçada reviravolta futebolística do último ato, Bem Vindo a Marly-Gomont merece um crédito por levantar uma discussão tão urgente sob um prisma leve e universal. Conduzido de maneira convencional por Julien Rambaldi, o longa é preciso ao abordar a questão do preconceito racial em solo francês, utilizando uma comovente história real como inspiração para uma preciosa e necessária mensagem de integração. Um tema que precisa estar sempre em evidência, principalmente dentro de um país que ainda hoje convive com uma crescente onda de xenofobia. 

5 comentários:

Anônimo disse...

O filme na Netflix escutei o rap feito pelo filho do do médico muito bom excelente qualidade um drama com uma pitada de humor e superação, muito legal

Alves Tour disse...

Amei esse filme, gostaria de saber se alguns acontecimento (que achei fantásticos demais)foram verdadeiros. Como o teatro das crianças e o dia da votação.

thicarvalho disse...

Isso que mais me incomodou Alves. Existe uma clara dramatização em torno de alguns episódios. Um fato que reduz o impacto do filme. Valeu pela visita.

Marciano disse...

Na parte final do Filme mostra várias fotos. Entre elas, a foto do teatro das crianças. Provavelmente o teatro aconteceu realmente.

thicarvalho disse...

Sim Marciano, ao que parece nada foi inventado. Mas existe uma dose de dramatização que reduz o impacto do último ato. Valeu pela visita.

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