terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Kubo e as Cordas Mágicas

Uma fábula mágica para adultos e crianças

Do visionário estúdio Laika, o mesmo dos excepcionais A Noiva Cadáver (2005), Coraline e o Mundo Secreto (2009) e Paranorman (2012), Kubo e as Cordas Mágicas é uma fábula comovente e esteticamente exuberante que fascina por sua inesperada densidade. Por trás da típica jornada do herói, o longa dirigido por Travis Knight esconde uma poderosa mensagem de amadurecimento, um argumento capaz de lidar com temas como a morte, a dor da perda, a fé e a responsabilidade precoce sob um ponto de vista lúdico e universal. Sem nunca subestimar a inteligência do espectador, o longa faz um excelente uso da rica cultura japonesa ao investir numa trama aventureira, mas recheada de simbolismos, permitindo que adultos e crianças possam criar uma sincera conexão com o pequeno Kubo. E como se isso não fosse o bastante, Knight nos presenteia com uma das animações mais belas e engenhosas deste respeitado estúdio, um trabalho mágico e imponente que faz jus às mais elogiadas produções do aclamado e nipônico Hayao Miyazaki. 



Bebendo da fonte de algumas das mais icônicas produções do estúdio Ghibli, entre elas o magnífico A Viagem de Chihiro (2001), Kubo e as Cordas Mágicas presta uma espécie de homenagem ao clássico de Miyazaki. Assim como na animação japonesa, o argumento assinado por Marc Haimes, Chris Butler e Shannon Tindle esbanja sutileza ao se apropriar do tom fabulesco, dando contornos mais profundos a uma premissa aparentemente inofensiva. Numa comparação livre, enquanto A Viagem fala sobre a chegada da vida adulta sob o curioso prisma de uma garotinha mimada, Kubo se volta para questões mais íntimas e dolorosas, temas espinhosos desenvolvidos com substância ao longo da imaginativa jornada do protagonista. Na trama conhecemos o pequeno Kubo, um cativante menino que utilizava a sua criatividade para sustentar a sua depressiva mãe. Ainda abalada pela morte do marido, um lendário samurai, ela encontrava forças somente para narrar os feitos do seu grande amor, abastecendo o jovem com altruístas histórias envolvendo batalhas contra criaturas espirituais e gestos de bravura. Obrigado a voltar para casa sempre antes do anoitecer, a rotina do pequeno Kubo é abalada quando ele descobre que as histórias da sua mãe eram reais e que forças maléficas estavam dispostas a leva-lo para um mundo de sombras e desesperança. Despreparado e sozinho, ele se une a uma protetora macaca e a um desastrado besouro na busca pelas peças da antiga armadura do seu pai, um artefato poderoso que poderia significar a sua vitória contra estas implacáveis criaturas.


Se analisado a grosso modo, Kubo e as Cordas Mágicas parece uma daquelas singelas histórias envolvendo o mito da jornada do herói. Apesar da capacidade do protagonista em manipular o papel, o que, diga-se de passagem, se revela uma inspirada homenagem ao lado mais artesanal por trás da técnica stop-motion, temos um garoto comum, com uma rotina pacata que repentinamente se vê no centro de uma trama com criaturas espirituais, artefatos mágicos e oponentes superpoderosos. Uma fórmula tradicional que, quando bem utilizada, costuma render grandes histórias, vide o sucesso de franquias do porte de Star Wars, O Senhor dos Anéis e Harry Potter. O que, de fato, acontece aqui. Com o ímpeto necessário para traduzir as consequências deste embate, Travis Knight se esquiva do teor condescendente ao criar uma aventura mágica, mas realística, um longa corajoso e visualmente primoroso que se sustentaria facilmente nas desventuras deste pequeno guerreiro.


Impulsionado pelo virtuoso trabalho da equipe de animadores, o realizador esbanja categoria ao compor tanto as cenas em menor escala, como as lúdicas apresentações em origami do pequeno Kubo, quanto às sequências em grande escala, como a espetacular luta no navio de papel ou o embate do trio contra um gigantesco esqueleto. Indo da ação aos momentos mais densos com extremo domínio narrativo, Knight constrói uma série de sequências memoráveis, momentos capazes de gerar um misto de emoção, empolgação e fascínio até no espectador mais experimentado. O diretor, aliás, é igualmente inventivo ao explorar os vastos e coloridos cenários, uma ambientação engenhosa e genuinamente nipônica que se torna facilmente um dos pontos altos do longa. Além disso, como se não bastasse a expressiva modelagem dos personagens, um predicado que se torna evidente nas cenas em que o ar debochado do protagonista se aflora, Travis Knight alcança um patamar poucas vezes visto no gênero no que diz respeito a mobilidade dos protagonistas e a relação deles com as detalhistas paisagens. Por diversas vezes, inclusive, me peguei pensando que estava diante de uma animação da Dreamworks, tamanha a fluidez e o ritmo ágil dos confrontos físicos nos momentos mais grandiosos.


O que diferencia Kubo e as Cordas Mágicas dos demais títulos do gênero, no entanto, é o teor metafórico desta fábula. Por mais que o arco envolvendo o amadurecimento do personagem seja óbvio, nas entrelinhas o argumento é sutil ao transitar por temas mais delicados. Numa interpretação profunda, é possível perceber que o longa fala com propriedade sobre temas como a morte, a perda da infância e a dor do luto. Ao estabelecer o pequeno Kubo como uma figura imaginativa, Travis Knight adiciona uma bem vinda ambiguidade ao filme, permitindo que o público enxergue a jornada do garoto como uma espécie de alegoria, a luta de uma criança amedrontada que tenta encontrar neste mundo de magia as forças para superar este momento turbulento. Através de diálogos preciosos e sequências intimistas, o realizador é habilidoso ao estabelecer os dilemas do protagonista, entre eles a sua sensível relação com a mãe, escondendo neste universo de samurais lendários e criaturas espirituais uma série de questões complexas. Sem querer revelar muito, o último ato culmina num clímax extremamente humano, um desfecho capaz de satisfazer tanto àqueles que abraçaram o viés mágico da premissa, quanto àqueles que captaram os simbolismos por trás da trajetória do menino. Na hora de tirar um dez, porém, o roteiro peca pela precipitação. Com nítidos problemas de acabamento, o argumento falha ao subaproveitar as interessantes reviravoltas, reduzindo inexplicavelmente o peso de algumas das mais incisivas cenas dramáticas. Somado a isso, o atrapalhado besouro se mostra um genérico alívio cômico, uma figura carismática desenvolvida de forma preguiçosa ao longo da película.


Em suma, apesar destes pequenos deslizes, Kubo e as Cordas Mágicas é o trabalho mais artisticamente inventivo do estúdio Laika desde o estupendo Coraline. Ainda que as referências aos principais trabalhos do estúdio Ghibli sejam evidentes, vide o visual inexpressivo das assustadoras tias (foto acima), que, quase que instantaneamente, me fizeram recordar do fantasma sem face de A Viagem de Chihiro, Travis Knight consegue construir uma obra com personalidade própria. Um longa intenso, com um subtexto realístico, que encanta não só pelo seu impressionante virtuosismo estético, como também pela delicadeza com que transita por temas tão densos e universais.

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