sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

A Grande Aposta

Uma aposta de mestre

Escancarando os absurdos por trás da gigantesca crise imobiliária norte-americana em 2008, A Grande Aposta esbanja estilo ao narrar os bastidores de uma incrível e alarmante historia real. Reconhecido por suas comédias mais satíricas, como os elogiados O Âncora e Ricky Bobby: A Toda Velocidade, o diretor Adam McKay aposta numa abordagem mais critica ao dissecar com o seu reconhecido bom humor os motivos que colocaram a economia mundial à beira de um colapso. Sem subestimar a inteligência do público por um segundo sequer, o realizador passeia pelos mais truncados jargões financeiros com impressionante espontaneidade, promovendo através do instigante argumento uma perspicaz, inteligente e narrativamente inventiva aula de economia. Em meio a temas tão complexos, no entanto, McKay brilha ao criar uma conexão acessível entre espectador e protagonistas, permitindo que o talentoso elenco, capitaneado pelas fantásticas atuações de Steve Carell, Christian Bale e Ryan Gosling, consiga dar uma irreverente voz a este escandaloso relato.



Inspirado no livro homônimo do escritor Michael Lewis, o mesmo dos celebrados Moneyball e The Blind Side, A Grande Aposta coloca o espectador para pensar ao investigar com absoluta propriedade uma das maiores crises recentes da economia mundial. A partir de uma abordagem universal e extremamente sarcástica, o roteiro assinado por Adam McKay e Charles Randolph é didaticamente sagaz ao traduzir alguns dos mais truncados termos técnicos, injetando inesperada leveza a uma trama movida por questões envolvendo o 'modus operandi' de algumas das mais importantes instituições financeiras dos EUA. Esqueça então a aparência maçante do tema. Adotando uma série de soluções inventivas, tanto no aspecto visual, quanto no narrativo, McKay faz de tudo para valorizar o inusitado por trás dos fatos, carregando na acidez e no humor afiado ao narrar a jornada de um pequeno grupo de investidores que, prevendo a crise imobiliária, resolveram apostar contra a economia do seu próprio país.


Guiado com esperteza pela figura do narrador, o ambicioso comerciante de ações Jared Vennett (Gosling), A Grande Aposta se inicia com a descoberta do excêntrico Michael Burry (Bale), o administrador de um poderoso fundo de investimentos que encontra uma falha no sistema de hipotecas dos bancos norte-americanos. Prevendo o estouro da bolha imobiliária, Burry resolve apostar numa espécie de seguro contra a iminente crise, virando uma piada não só entre os seus desconfiados sócios, mas também entre os incrédulos bancários. Em meio a tamanha descrença, no entanto, a informação chega aos ouvidos do problemático Mark Baum (Carell), um investidor traumatizado que parece ter perdido completamente a confiança na honestidade de Wall Street. Revoltado com a conduta dos bancos e a profusão dos seus inadvertidos empréstimos, Baum e os parceiros Danny (Rafe Spall), Porter (Hamish Linklater) e Vinnie (Jeremy Strong) resolvem investigar esta informação, sendo surpreendidos ao perceberem que o cenário não era tão positivo quanto parecia ser. Paralelamente a eles, os jovens e otimistas Charlie (John Magaro) e Jamie (Finn Wittrock) enxergam nesta possibilidade a chance de obter o tão sonhado reconhecimento, buscando num complexado ex-corretor (Brad Pitt) a ajuda necessária para entrar neste arriscado negócio. 


Cultivando um invejável senso de urgência, valorizado pela inquieta câmera de Adam McKay e pela acelerada montagem, A Grande Aposta ri dos absurdos ao encontrar nas atitudes deste grupo de investidores o caminho para construir uma espirituosa crítica ao sistema bancário dos EUA. Em meio ao jogo de descobertas e especulações liderado pelos exóticos protagonistas, o argumento não foge da raia ao revelar a responsabilidade das instituições financeiras neste cenário de crise, direcionando a sua mira voraz tanto para os banqueiros e especuladores, quanto para as agências de classificação de risco, o governo e até mesmo para a imprensa. E isso, pasmem vocês, sem desrespeitar a profundidade do assunto ou a inteligência do espectador. Apesar da complexidade do tema em questão, desenvolvido com maturidade pelo envolvente argumento, o realizador aposta num repertório de soluções narrativas totalmente criativas, recorrendo, inclusive, a elementos da cultura pop para tornar o pano de fundo econômico mais acessível aos olhos do público. Nesse sentido, McKay quebra a quarta parede ao permitir que não só os seus personagens, mas também alguns convidados especiais dialoguem com o público, dissecando os jargões técnicos de maneira completamente sagaz. Na verdade, as discussões sobre CDO'S, subprimes e tranches são melhores digeridas quando explicadas por nomes como os de Margot Robbie e Selena Gomez. Além disso, pontuando os ritmados diálogos, McKay ilustra a narrativa com imagens aleatórias, recorrendo à memes da internet, à trechos de videoclipe e à fotos de redes sociais para evidenciar, dentre outras coisas, a nossa ignorância perante a crise iminente.


Em meio a estas inventivas soluções estéticas, no entanto, o maior trunfo de A Grande Aposta reside na afiada veia cômica dos seus protagonistas. Valorizando a excentricidade dos personagens, McKay captura com precisão a expressão dos seus comandados, ressaltando o misto de emoções experimentadas por eles durante este período de incertezas. A começar pelo gênio das finanças Michael Burry, que ganha uma interpretação surtada nas mãos de Christian Bale. Antissocial e genioso, o responsável pela tal aposta absorve praticamente sozinho as consequências da sua descoberta, dando ao talentoso ator a possibilidade de brilhar num tipo naturalmente complexo. Enquanto Bale abraça com intensidade a esquisitice do seu personagem, Steve Carell e Ryan Gosling roubam completamente a cena em duas performances totalmente hilárias. Dando vida ao amargurado investidor Mark Baum, Carell vai do desequilibrado ao contido com maestria, arrancando inúmeras risadas com o seu estilo indomável e o seu obstinado senso de justiça. Já Gosling nos guia pela trama com absoluta convicção, transformando o acionista Jared Vennett na persona mais engraçada da película. Com discursos enfáticos e um instigante ar persuasivo, o ator dá completa validez ao recurso da narração, incrementando os seus diálogos com uma atuação convincente e propositalmente exagerada. O elenco como um todo, aliás, se mostra extremamente entrosado em cena, com destaque para o complexado Brad Pitt, para o explosivo Jeremy Strong e para os carismáticos John Magaro e Finn Wittrock.


Não se engane, porém, com a aparência irreverente de A Grande Aposta. Quando necessário Adam McKay fala sério, investigando de maneira sutil e tensa o impacto do colapso financeiro na rotina daqueles que não visavam única e exclusivamente o lucro. Evitando glamourizar as escolhas deste pequeno grupo de investidores, o argumento evidencia seja com o pessimismo de Mark Baum, seja com uma breve subtrama envolvendo um dos "hipotecados", seja com imagens do pós-crise as consequências desta catástrofe financeira na vida dos cidadãos norte-americanos. Contando ainda com uma eclética trilha sonora, que vai do Rock ao Hip-Hop de maneira criteriosa, A Grande Aposta é uma comédia corajosa que, assim como este improvável grupo de investidores, não esmorece diante de um cenário complexo e naturalmente adverso. Abordando um tema naturalmente dramático com acidez e estilo, McKay contorna os complicados jargões econômicos ao construir um espirituoso entretenimento que não esquece do seu elevado teor crítico.

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