segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Decisão de Risco

O peso de uma vida

Muito mais do que um thriller de espionagem, Decisão de Risco joga uma luz sobre os dilemas morais por trás da guerra tecnológica. Com personagens multidimensionais e uma premissa naturalmente espinhosa em mãos, o diretor Gavin Hood (Infância Roubada) eleva o nível de tensão ao reproduzir os bastidores de um complexo ataque a uma célula terrorista. Disposto a questionar a frieza dos números quando o assunto são as vítimas inocentes, o realizador sul-africano é inteligente ao valorizar o fator humano por trás desta missão, colocando o espectador no centro de um 'mise en scene' político humano e totalmente realístico. 




Inserido num contexto bélico bem atual, o argumento assinado por Guy Hibbert transita por temas delicados ao narrar a investida liderada pela Coronel Katherine Powell (Helen Mirren). Após seis anos de muita investigação, a militar britânica finalmente encontra a brecha necessária para capturar a terrorista Susan Danford (Lex King), uma cidadã inglesa que comandava uma célula terrorista de um grupo extremista em Nairobi. Em parceria com os governos do Quênia e dos EUA, Powell contava com o apoio do alto escalão do parlamento e do exército inglês, incluindo o aval do General Frank Benson (Alan Rickman). Tudo muda, porém, quando um drone não tripulado descobre a existência de uma pesada carga de explosivos no local da extração. Sem tempo a perder, Powell decide lançar um ataque nas instalações terrorista, mas a situação ganha contornos ainda mais complexos no momento em que o responsável pelo tiro, o especialista Steve Watts (Aaron Paul), percebe a presença de inocentes na região do ataque.


Impecável ao se apropriar das novas tecnologias bélicas, incluindo microcâmeras, drones e naves não tripuladas, Gavin Hood esbanja categoria ao explorar as questões morais em torno deste novo modelo de combate. Sem nunca soar unidimensional, o realizador avalia com plenitude as inúmeras possibilidades em torno deste ataque, permitindo que o espectador enxergue com clareza as diferenças políticas, os dilemas midiáticos e o fator humano em torno de uma decisão deste nível. Numa sacada de mestre, Hood opta por reduzir a escala da missão ao colocar uma criança no meio do caos, adotando uma abordagem simbólica e intimista ao revelar as consequências de um bombardeio em meio à inocentes. Através de diálogos profundos e personagens multifacetados, o roteiro levanta as questões certas, na hora certa, dando aos envolvidos a missão de expor as racionais opiniões por trás do processo de decisão. Nas entrelinhas, inclusive, Hood é igualmente perspicaz ao estabelecer os distintos 'modus operandis' dos governos britânicos e norte-americanos, um tema importante que pontua a trama com sutileza ao longo do instigante segundo ato.


E como se não bastasse isso, o talentoso elenco absorve com elegância e rara inspiração os conflitos éticos dos seus personagens. Como de costume em sua carreira, Helen Mirren mostra o seu reconhecido vigor ao capturar o pragmatismo da Coronel Powell, uma militar obstinada e fria que não parece incomodada em lidar com os riscos. Já o saudoso Alan Rickman dá uma verdadeira aula interpretar o comedido General Benson. Responsável por intermediar as questões mais diplomáticas por trás desta missão, o talentoso ator adiciona uma faceta extremamente humana ao militar, se esquivando dos clichês ao criar uma figura densa e sensível às possibilidades em trono deste ataque. Sem querer revelar muito, as duas cenas finais são estupendas, um desfecho coerente com a proposta crítica da película. Assim como Rickman, Aaron Paul também se destaca ao reproduzir o turbilhão de emoções enfrentado pelo seu personagem, o último homem entre as ordens dos seus superiores e o gatilho da nave não tripulada. Num todo, aliás, o restante do elenco cumpre a sua missão ao nos fazer enxergar o desconforto em torno da situação, vide as realísticas atuações de Barkhad Abdi (Capitão Philips), de Monica Dolan (Orgulho e Esperança) e da pequena Aisha Takow.


Conduzido com intensidade por Gavin Hood, Decisão de Risco é, ainda, um filme muitíssimo bem dirigido. Com um excelente senso de simultaneidade e uma câmera sempre posicionada no centro da ação, o diretor sul-africano é habilidoso ao realçar o clima de tensão em torno deste episódio, uma atmosfera potencializada pela afiada montagem e pelos intimistas enquadramentos e pela pulsante trilha sonora. Por fim, mesmo diante de alguns pequenos equívocos, a maioria deles envolvendo a conveniente utilização dos pouco factíveis gadgets espiões, Decisão de Risco se revela um relato denso sobre a ascensão da guerra tecnológica e as consequências deste confronto "silencioso" na rotina dos inocentes. Um longa reflexivo capaz de questionar e envolver sem nunca abdicar da sua vocação realística.

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