terça-feira, 26 de abril de 2016

Sr. Sherlock Holmes

Ian McKellen dita o tom desta tocante releitura envolvendo o icônico Sherlock Holmes


Lançado diretamente em DVD no Brasil, Sr. Sherlock Holmes foge do lugar comum ao nos apresentar a um Sherlock Holmes frágil e envelhecido. Mesmo fiel às características mais marcantes do personagem criado pelo escritor Athur Conan Doyle, o longa dirigido por Bill Condon (O Quinto Poder) comove ao propor uma releitura humana e sensível, um vislumbre franco sobre o destino deste icônico detetive após uma vida de devoção à racionalidade. A partir de uma premissa simples e funcional, este revigorante drama instiga ao desvendar os traumas do agora aposentado investigador, costurando passado e presente ao revelar o impacto de um caso mal resolvido durante o seu "autoexílio" em uma bucólica fazenda. Não se engane, porém, com a aparente inofensividade do argumento. Por trás de uma cativante história de amizade, Condon mostra perspicácia ao explorar a condição senil do protagonista, transformando a sua última grande empreitada numa missão intimista e naturalmente desafiadora. Méritos para o veterano Ian McKellen (O Senhor dos Anéis), soberbo ao compor um Sherlock Holmes disposto a finalmente dar voz aos seus sentimentos mais reprimidos.



Inspirado no livro “A Slight Trick of the Mind”, de Mitch Cullin, Sr. Sherlock Holmes adiciona uma nova faceta a este clássico personagem ao torna-lo mais errático e confuso. Ainda que o carisma, o humor tipicamente britânico e a ultra racionalidade continuem evidentes, o detetive surge nesta releitura abatido e amargurado, um homem acometido por fantasmas cada vez mais presentes. De volta após uma viagem para o Japão, o detetive aposentado resolve se instalar de vez em sua fazenda, sob os cuidados da fria Mrs. Munro (Laura Linney, irretocável), uma governanta viúva que vivia no local com o seu filho Roger (Milo Parker). Convivendo com as cada vez mais constantes perdas de memória, ele resolveu depositar as suas últimas fichas numa erva nipônica, acreditando que através deste medicamento natural conseguiria manter as suas lembranças intactas a tempo de esclarecer alguns episódios em torno do seu derradeiro caso. Com o apoio do esperto garoto, Holmes decide escrever um livro sobre esta nebulosa investigação, colocando as suas próprias lembranças em cheque ao tentar encontrar as respostas apagadas pelo tempo. Desta curiosa parceria, porém, nasce uma relação de amizade capaz de amolecer o coração deste lendário investigador.


Vindo de três trabalhos de gosto duvidoso, a Saga Crepúsculo: Amanhecer Parte 1 e 2 (2011-2012) e o drama O Quinto Poder (2013), Bill Condon coloca um ponto final nesta "má fase" ao fazer de Sr. Sherlock Holmes um relato singelo e adorável. Com uma premissa mais palatável em mãos, o realizador consegue investigar os dilemas por trás do icônico personagem sem descaracteriza-lo por um segundo sequer, o transformando numa figura carismática e inesperadamente humana. Em três arcos que caminham simultaneamente, Condon costura passado e presente com absoluta categoria, numa trama que se concentra tanto na intimista investigação do detetive, quanto na relação com o pequeno Roger e na sua luta contra senilidade. Ainda que o caso em questão não se mostre tão impactante, o roteiro assinado por Jeffrey Hatcher é sagaz ao explorar as limitações neurológicas do clássico protagonistas, o colocando diante do seu inimigo mais implacável: a sua própria ineficiência racional. Sem querer revelar muito, é interessante ver como o esperto garoto se integra naturalmente à última grande missão de Sherlock Holmes, numa troca de experiência que só acrescenta ritmo ao longa. Na verdade, apesar do foco no detetive, o argumento abre um generoso espaço para os problemas envolvendo mãe e filho, preenchendo as pequenas brechas de maneira precisa. 


A força de Sr. Sherlock Holmes, no entanto, reside no talentoso elenco, a começar pelo veterano Sir. Ian McKellen. Dono de um carisma natural, o ator de 76 anos absorve não só as características mais marcantes do personagem, como também a sua nova faceta mais frágil e instável, comovendo ao reproduzir os dramas do solitário detetive. Contando com uma maquiagem sutil e uma performance física invejável, McKellen nos convence ao traduzir as limitações físicas do envelhecido personagem, principalmente nos momentos de menor lucidez. A maioria deles, inclusive, reproduzidos com absoluta dignidade por Bill Condon. Surpreendendo ao entregar uma atuação igualmente preciosa, o jovem Milo Parker coloca o seu nome no radar de Hollywood ao interpretar o também racional Roger. Seguro e expressivo, o garoto não se intimida diante do seu experimentado parceiro de cena, criando uma relação de amizade sincera e repleta de química. Fecha o elenco a talentosíssima Laura Linney, impecável como a amargurada Mrs. Munro. Numa personagem que cresce dentro da segunda metade da trama, a radiante atriz entrega uma desempenho mais contido, sisudo, tornando crível a frustração da governanta.


Por mais que o argumento se renda a um último ato mais acelerado, com direito a uma forçada reviravolta e um arremate levemente condescendente, Sr. Sherlock Holmes cumpre a sua missão ao apresentar uma emotiva reinterpretação envolvendo este ícone da literatura britânica. Além de investigar as nuances mais íntimas do detetive, o longa é impecável ao universalizar os dilemas do investigador, evidenciando o impacto do tempo na rotina de um homem envelhecido atormentado pelos seus erros do passado.

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