quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Um Espião e Meio

Dwayne Johnson e Kevin Hart mostram excelente química nesta divertida comédia de espionagem

Recentemente eleito pela Forbes o ator mais bem pago do mundo em 2016, Dwayne Johnson mostra em Um Espião e Meio os motivos que o transformaram numa das maiores (literalmente) e mais carismáticas estrelas de Hollywood da atualidade. Dividindo a tela com o verborrágico Kevin Hart (Policial em Apuros), o simpático grandalhão mostra categoria ao rir de si mesmo e "joga para escanteio" o rótulo de astro do cinema de ação ao viver um agente secreto cafona e afetuoso. Numa daquelas improváveis histórias de amizade, Hart e Johnson esbanjam química ao exibir um excepcional 'timing' cômico em cena, se tornando facilmente a alma desta divertida comédia de espionagem. Até porque, nos momentos em que o longa poderia arriscar mais, o competente diretor Rawson Marshall Thurber (Com a Bola Toda) opta por esvaziar algumas maduras questões em prol de soluções mais familiares e\ou escapistas, reduzindo o peso deste descompromissado blockbuster.



Tendo como ponto de partida o bullying na adolescência, o argumento assinado por Ike Barinholtz, David Stassen e pelo próprio Marshall Thurber é habilidoso ao introduzir os dilemas dos dois protagonistas. Logo na sequência de abertura conhecemos Calvin (Kevin Hart), um jovem atlético e popular que foi eleito o aluno do ano na classe de 1996. Do outro lado desta moeda estava o bonachão Robbie (Dwayne Johnson), um adolescente obeso e inocente que frequentemente sofria com os ataques dos seus "colegas" de classe. No mais traumático deles, após ser pego desprevenido enquanto cantava no banho, Robbie é arremessado completamente nu em plena quadra de basquete, justamente quando Calvin fazia o seu discurso de agradecimento. Incomodado com as risadas da plateia, o promissor estudante cede a sua jaqueta ao humilhado garoto, numa das raras demonstrações de carinho experimentadas por Robbie durante o período escolar. O tempo passa e, vinte anos depois, Calvin já não era mais o adolescente brilhante do Ensino Médio. Mesmo casado com o amor da sua juventude, a bela Maggie (Danielle Nicolet), ele se tornou um contador frustrado com uma rotina pouco agitada. Incomodado com o seu destino, Calvin é pego de surpresa ao reencontrar o agora bombado Robbie, quer dizer, Bob Stone, um ex-agente de passado misterioso que resolve visitar o seu único "amigo" do 'high school'. Inicialmente reticente, o contador decide ir para um bar com este carismático homem, sem saber que estaria se envolvendo numa grande conspiração envolvendo a CIA, ogivas nucleares e um terrorista chamado Texugo Negro.


Num primeiro momento, Um Espião e Meio parece disposto a equilibrar os conflitos mais íntimos dos seus personagens com as bem humoradas gags. Com temas tão promissores em mãos, Rawson Marshall Thurber até ensaia se aprofundar na inversão de realidade dos dois protagonistas e na frustração de Calvin ao perceber que o aluno brilhante se transformou num homem comum. Hilária e irreverente, a sequência do reencontro, por exemplo, transita com inesperada maturidade pelo passado da dupla, por suas frustrações, traumas e anseios, permitindo que o espectador crie um vínculo mais sincero com este inusitado par. À medida que o longa embarca na ação propriamente dita, no entanto, o argumento praticamente abdica deste pano de fundo mais pessoal. Por mais que o bullying sofrido por Bob e os dilemas matrimonias de Calvin ora e vez brotem na trama, o realizador norte-americano opta por utiliza-los sempre à serviço do humor, impedindo que estas questões ganhem uma abordagem mais profunda ao longo dos dois últimos atos. Menos mal que, impulsionado pelo entrosamento dos atores e pelo afiado texto, Marshall Thurber consegue realçar o lado cômico por trás destes dilemas, criando uma série de momentos genuinamente engraçados. Sem querer revelar muito, a cena envolvendo a consulta a um psicólogo é divertidíssima e muito bem montada, um dos pontos altos da película. Num todo, aliás, as piadas são ágeis e eficazes, principalmente quando adentram o terreno do 'bromance' e tiram sarro da incompatibilidade entre os dois protagonistas. 


Melhor ainda, aliás, é o cuidado do argumento ao proteger os segredos por trás da nebulosa conspiração. Impulsionado pelo talentoso elenco de apoio, vide a impagável presença da atriz Amy Ryan (Birdman), Rawson Marshall Thurber é perspicaz ao flertar com elementos do cinema de espionagem, nos instigando ao levantar dúvidas sobre a existência do misterioso Texugo Negro e as verdadeiras intenções do simpático Bob. Além disso, apesar de breves, as sequências de ação são eficientes e realmente divertidas, a maioria delas incrementadas pela aptidão física dos protagonistas. Uma pena que, na ânsia de defender uma proposta mais familiar, o diretor não só subaproveite a letalidade do agente, como também reduza o senso de ameaça\tensão em torno da trama, enfraquecendo algumas das promissoras reviravoltas em prol de um clímax previsível e sem sal. Nada que abrevie o potencial de entretenimento da película, elevado graças as excelentes performances de Dwayne Johnson e Kevin Hart. Sem se levar a sério por um segundo sequer, o popular "The Rock" subverte o gênero que o consagrou ao criar um herói de ação estúpido e bonachão. Reconhecido pelo seu carisma e bom humor, Johnson transita da comédia para a ação com rara espontaneidade, absorvendo a irreverência do seu Bob Stone sem soar caricato e\ou forçado. Por outro lado, nos momentos mais sentimentais, o astro da franquia Velozes e Furiosos encontra dificuldades para reproduzir os traumas do personagem, refletindo a ineficiência do roteiro ao abordar tais questões. No mesmo nível do seu parceiro de cena, Kevin Hart exibe o seu reconhecido histerismo ao dar corpo ao frustrado Calvin, criando um personagem atrapalhado e positivamente verborrágico.


Contando ainda com uma série de espertas referências à cultura pop, a exceção fica para destoante citação ao cult Matador de Aluguel (1989), Um Espião e Meio arranca generosas risadas ao acompanhar a desastrada amizade entre um carente agente da CIA e um frustrado contador. Indo de encontro ao seus trabalhos mais politicamente incorretos, entre eles o recente Família do Bagulho (2013), Rawson Marshall Thurber pode até pecar pela falta de ousadia, mas (novamente) entrega uma comédia capaz de cumprir o seu pré-requisito mais básico: ser engraçada.

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