domingo, 19 de junho de 2016

Os filmes que me fizeram enxergar o potencial do Cinema Nacional


Neste domingo, dia 19 de junho, celebramos mais um Dia do Cinema Brasileiro. Mesmo distante do patamar alcançado por alguns dos mais importantes mercados cinematográficos, entre eles os nossos "hermanos" argentinos, o Cinema Nacional vêm conseguindo solidificar uma linguagem forte, vibrante e cada vez mais antenada com que acontece ao redor do mundo. Uma retomada inegavelmente dura, complicada, limitada pela falta de investimentos e pela ausência de espaço diante dos gigantescos blockbusters. Este cenário, no entanto, já foi bem pior. Dono de uma história riquíssima, como não lembrar das populares Chanchadas da Atlântida ou das contestadores clássicos do Cinema Novo, o Cinema Nacional perdeu o rumo durante parte das décadas de 1980\1990, se tornando alvo de críticas para uma geração (a qual me incluo) que cresceu assistindo aos filmes dos Trapalhões e a uma profusão de comédias completamente genéricas. Neste caso, porém, a primeira impressão não foi a que ficou. Aproveitando a chegada desta importante data, confira uma lista (estritamente pessoal) com dez das produções que me fizeram enxergar o potencial do Cinema Nacional.


- Central do Brasil (1997)


Talvez o primeiro grande filme brasileiro que tive a oportunidade de assistir, Central do Brasil atraiu a atenção do grande público ao conquistas uma inesperada indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Estrelado pela fantástica Fernanda Montenegro, também indicada ao prêmio de Melhor Atriz, o longa dirigido por Walter Salles nos apresentou a um drama social marcado pelas grandes atuações e pela excelente premissa. Uma história de amizade e ternura entre uma mulher de moral duvidosa e um jovem órfão atormentado por uma dolorosa perda. Uma pena que, na luta por esta importante estatueta, Central do Brasil teve que enfrentar o incrível A Vida Bela, um drama sobre o holocausto que se tornou o grande vencedor na categoria. 

- O Auto da Compadecida (2000)


Inspirado na clássica peça de Ariano Suassuna, O Auto da Compadecida sintetiza a irreverência do cinema nacional. Sob a batuta do criativo Guel Arraes, o longa brinca com a miséria e o sincretismo religioso no sertão ao narrar as desventuras dos trapaceiros João Grillo (Matheus Nachtergale) e o seu ingenuo parceiro Chicó (Selton Melo). Lúdico, alegórico e absolutamente bem humorado, O Auto da Compadecida alcançou o grande público devido a sua linguagem simples, aos carismáticos personagens e a expressiva direção de arte. Isso, obviamente, sem falar do talentosíssimo elenco, capitaneado por nomes do porte de Marco Nanini, Denise Fraga, Diogo Vilela, Lima Duarte e Rogério Cardoso. 

- Redentor (2004)


Irônico, crítico e altamente contextualizado, Redentor é uma comédia de humor negro com a cara do cinema brasileiro. Dirigido por Cláudio Torres, o subestimado longa colocou o dedo na ferida ao questionar com irreverência a corrupção por trás do sistema político brasileiro. Estrelado pela dupla Pedro Cardoso e Miguel Falabela, o longa acompanha os passos de um jornalista em crise que se depara com a chance da sua vida quando é escalado para entrevistar um ex-amigo de infância que se tornou um empreiteiro de moral duvidosa. O que era para ser um "tiro de misericórdia" no empresário corrupto, no entanto, se transforma numa jornada espiritual quando o jornalista ouve um chamado divino e resolve colocar em prática um plano envolvendo uma das maiores falcatruas do empreiteiro. Recheado de momentos hilários, Redentor mistura política e religião numa comédia irreverente, sarcástica e tecnicamente inventiva.

- E o Bicho Não Deu (1958)


Representante das Chanchadas da Atlântida, E o Bicho não Deu (1958) é uma daquelas comédias gostosas de se assistir. Protagonizada por três grandes nomes do humor nacional, Ankito, Grande Othelo e Costinha, o inofensivo longa dirigido por J.B Tanko me chamou a atenção por sua criativa premissa e pelas excelentes piadas. No auge da contravenção, o longa acompanha as desventuras de um idealista policial (Ankito) que, após um acidente, passa a assumir a personalidade de um apontador do jogo do bicho. Bastava o soar de um apito, no entanto, para que ele retornasse a sua real personalidade, criando uma série de hilárias situações envolvendo um esperto contraventor (Grande Othelo). Apesar do tom naturalmente inocente, E o Bicho Não Deu envelheceu muito bem e ainda hoje arranca sinceras risadas graças ao talento do seu carismático elenco. Ainda entre as chanchadas, vale destacar os igualmente hilários Candinho (1954), Matar ou Correr (1954) e O Homem do Sputnik (1959). 

- Cidade de Deus (2002)


Um dos grandes responsáveis pela ascensão do cinema nacional em solo estrangeiro, Cidade de Deus é um triunfo da sétima arte. Vibrante, intenso e absolutamente instigante, o longa dirigido por Fernando Meirelles inaugurou o sub-gênero "favela movie" ao acompanhar a construção e o crescimento de uma das maiores comunidades da cidade do Rio de Janeiro. Escancarando as mazelas sociais enfrentadas dentro de uma grande metrópole, Meirelles traduziu com absoluto realismo a violência em torno deste cenário devastador, conseguindo quatro indicações ao Oscar nas categorias Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Edição. Além disso, com 8,7 no IMDB, o longa está entre os 30 melhores filmes de todos os tempos segundo a opinião dos internautas que participam do site. 

- Tropa de Elite (2007)


No rastro do aclamado Cidade de Deus, José Padilha se apresentou para o mundo do cinema com o brutal Tropa de Elite. Inspirado em relatos reais, o longa estrelado por Wagner Moura conquistou o Urso de Ouro no Festival de Berlim ao apresentar a violência carioca sob o ponto de vista de um pressionado capitão do Batalhão de Operações Especiais. Questionador, incisivo e tecnicamente primoroso, o longa se tornou um estrondoso sucesso antes mesmo de chegar aos cinemas, principalmente com o vazamento da película no mercado pirata. Ainda assim, segundo o Box Office Mojo, Tropa de Elite somou expressivos US$ 11,2 milhões em solo brasileiro. Além disso, contrariando as expectativas, o thriller de ação ganhou uma continuação à altura com Tropa de Elite 2: O Inimigo agora é Outro (2010). 

- O Pagador de Promessas (1962)


Ao revirar o "fundo do baú", no entanto, me deparei com uma das maiores pérolas do cinema nacional: o magnífico O Pagador de Promessas. Considerado por muitos especialistas como um dos precursores do Cinema Novo, o longa dirigido por Anselmo Duarte pintou um relato inestimável e ainda hoje atual sobre a sociedade brasileira. A partir de uma situação aparentemente ingenua, a promessa de um homem simples agradecido pela recuperação do seu querido burro, o realizador utiliza a pluralidade do povo brasileiro ao propor uma poderosa crítica envolvendo instituições como a Igreja, a Imprensa, a Política e a própria Família. Além disso, apesar das limitações tecnológicas da época, Duarte desfilou uma série de takes esteticamente inventivos, ampliando o caos e a inferioridade do protagonista ao apostar ora em planos abertos, ora em expressivos movimentos de câmera. Impulsionado pela soberba atuação de Leonardo Villar, que torna crível a desconstrução emocional do pacato Zé do Burro, O Pagador de Promessas conquistou a Palma de Ouro do Festival de Cannes e uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Do Cinema Novo, aliás, nasceu outros clássicos nacionais, entre eles o realista Vidas Secas (1962) e o contestador Terra em Transe (1967). 

- 2 Coelhos (2012)


Com uma cara bem mais Hollywoodiana, 2 Coelhos nos apresentou virtuoso Afonso Poyart. Responsável pelo recém lançado Mais Forte que o Mundo: A História de José Aldo, o realizador deu corpo a um instigante thriller de ação recheado de reviravoltas e inventivos recursos visuais. Carregando consigo um interessante crítica envolvendo a corrupção judicial, o longa estrelado por Fernando Alves Pinto, Caco Ciocler e Alessandra Negrini narra o plano de um misterioso homem atormentado por um erro do passado. Mesmo com um orçamento limitado em mãos, Poyart conquistou a atenção do público ao exibir um vasto repertório de soluções estéticas, fazendo um excelente uso de elementos como a computação gráfica, o recurso da câmera lenta e os explosivos efeitos sonoros. E isso, obviamente, sem esquecer da narrativa, bem arquitetada ao longo das evolventes 1 h e 50 min de duração. 

- Que Horas ela Volta? (2015)


Aclamado nos Festivais de Sundance e Berlim, Que Horas ela Volta? comprovou ao redor do mundo o verdadeiro potencial do cinema brasileiro. Engraçado, critico e extremamente universal, o longa dirigido por Anna Muylaert (Durval Discos) cativa ao promover de maneira natural um poderoso relato sobre a atual organização social brasileira. Utilizando como pano de fundo a típica relação entre patrão e empregado, o afiado argumento é brilhante ao mostrar o impacto da desigualdade socioeconômica na rotina de duas mulheres ligadas pelo sangue, mas separadas pelas diferentes formas com que encaram os seus respectivos papeis dentro da sociedade. Revelando os contrastes e a hipocrisia por trás da estrutura de classes do nosso país, Muyalert encontra nas vibrantes atuações de Regina Casé e Camila Márdila a força necessária para pintar  - através da agitada relação entre uma resignada mãe e a sua independente filha - um moderno e espirituoso retrato social. 

- O Menino e o Mundo (2015)


Eis que numa daquelas bem vindas surpresas, O Menino e o Mundo abalou as estruturar ao conquistar uma justíssima indicação ao Osar de Melhor Animação. Visualmente lúdico, o longa dirigido por Alê Abreu esbanjou delicadeza ao pintar (essa é a palavra) um retrato universal sobre a voracidade do modo de vida urbano. Apesar do cenário colorido e do singelo ponto de vista, a animação não poupa o espectador ao investigar sob um prisma infantil as incoerências da nossa sociedade. Embalado por uma apaixonante trilha sonora, Alê Abreu construiu um mundo de cores e formas com traços infantis e absolutamente criativos. O resultado é uma produção única, uma animação vibrante, levemente melancólica e essencialmente tupiniquim. Uma produção que me encheu de orgulho. 

Novas produções que merecem destaque: Entre Abelhas (2015), Trinta (2014), Hoje eu Quero Voltar Sozinho (2014), Mundo Cão (2016), O Lobo Atrás da Porta (2013), O Som ao Redor (2013), O Palhaço (2011), Entre Nós (2013), A Estrada 47 (2013). 

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