quinta-feira, 16 de junho de 2016

As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras

Frenético e inofensivo, longa resgata a irreverência cartunesca da popular série animada

Leve, infantil e positivamente cartunesca, As Tartarugas Ninja: Fora da Sombra é uma continuação que não se envergonha das suas origens. Na contramão do primeiro filme, que procurou dar roupagem mais atual aos protagonistas, vide o visual "bombado" dos quatro irmãos, o longa dirigido pelo novato Dave Green (Terra para Echo) mostra convicção ao abraçar o universo inofensivo e ultra-colorido da popular série animada noventista. Ainda que por vezes o argumento confunda simplicidade com superficialidade, a sequência se garante no carisma dos inocentes personagens, no visual irreverente e no inegável sentimento de nostalgia ao promover um espetáculo estético inventivo e puramente escapista. Na hora de alcançar um patamar mais elevado, no entanto, a sequência desperdiça parte do seu potencial ao investir em soluções narrativas preguiçosas e num clímax pouco ameaçador.




Impecável ao introduzir os novos personagens, o argumento assinado por Josh Appelbaum e André Nemec não desperdiça um minuto sequer ao preparar o terreno para a nova aventura do quarteto de quelônios. Com agilidade e eficiência, os roteiristas são perspicazes ao revelar as consequências dos eventos acontecidos no longa anterior, incluindo o status de herói atribuído ao "Falcão" Vernon (Will Arnett) e o destino do nefasto Destruidor (Brian Tee). Neste cenário, incomodados com o necessário ostracismo, Leonardo, Michelangelo, Donatelo e Rafael tentavam aproveitar da melhor maneira possível a vida acima do esgoto. Entre jogos do New York Knicks e calculadas aparições públicas, o grupo é obrigado a voltar à ativa quando um ganancioso cientista (Tyler Perry) resolve resgatar o temido líder do Clã do Pé. Durante a fuga, no entanto, eles são surpreendidos com a aparição do poderoso Krang (Brad Garrett), um alienígena tirano com planos ainda mais destrutivos para a cidade de Nova Iorque. Contando com a inestimável ajuda da repórter April O'Neil (Megan Fox), as quatro tartarugas terão que deixar as novas diferenças de lado e se unir ao destemido Casey Jones (Stephen Amell) para impedir a chegada desta nova ameaça. 



Apesar da simplicidade do argumento, As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras é bem melhor resolvido no que diz respeito ao aproveitamento dos seus personagens. Se no primeiro longa a repórter April O'Neal ganhou um exagerado protagonismo, nesta continuação os roteiristas são mais cuidadosos ao aproveitar a interação entre os personagens, principalmente entre os quelônios, permitindo que cada um deles tenha um lugar de destaque dentro do irretocável primeiro ato. Em pouco menos de vinte minutos, o diretor Dave Green é conciso ao apresentar não só a personalidade dos novos antagonistas, como também ao construir o dilema central por trás do quarteto de ninjas, fazendo com que a trama caminhe harmoniosamente até a metade do segundo ato. É interessante ver, aliás, a habilidade do realizador ao explorar a personalidade das tartarugas, indo além das características mais básicas ao realçar as diferenças em torno de uma descoberta que poderia mudar o destino dos quatro irmãos. Na verdade, a breve rixa entre os heróis se torna um dos pontos mais sólidos do roteiro, rendendo momentos ora divertidos, ora sentimentais. À medida que a trama se aproxima do último ato, no entanto, a inconsistência narrativa passa a ficar mais evidente, principalmente quando o assunto é o desenvolvimento da ameaça. Ainda que o embate final seja tecnicamente funcional, os antagonistas são subaproveitados em sequências nitidamente inofensivas, culminando num clímax acelerado, raso e pouco recompensador. Sem querer revelar muito, o Destruidor ganha um destino frustrante e altamente preguiçoso.


Estas falhas, porém, não conseguem apagar os inúmeros acertos estéticos de As Tartarugas Ninja 2. Num trabalho mais colorido e irreverente, Dave Green esbanja categoria ao absorver a essência cartunesca da série animada. Fazendo um excelente uso do CGI, o realizador se rende a nostalgia ao manter o visual punk oitentista dos capangas BeBop e Rocksteady, assim como a aparência robótica\alienígena do megalomaníaco Krang, os transformando num dos grandes diferenciais desta continuação. Mesmo utilizado em abundância, os efeitos visuais são orgânicos e naturalmente cativantes, principalmente quando utilizados em prol do 'fan-service' e das empolgantes sequências de luta. Por falar nelas, apesar de frenéticas, as cenas de ação são dinâmicas e na medida do possível nítidas, incrementadas pelo uso pontual da câmera lenta e dos expressivos cenários. Diferentemente do primeiro longa, aliás, a continuação não fica reduzida aos ambientes escuros do esgoto de Nova Iorque, o que dá a Green a possibilidade de construir sequências mais inventivas e iluminadas. Desta forma, enquanto os vertiginosos takes aéreos impressionam, a incrível cena aquática já vale o ingresso. Méritos para o diretor de fotografia brasileiro Lula Barreto, que mantém o padrão de qualidade seja nas coloridas sequências noturnas, seja nos momentos mais reluzentes. Além disso, longe de ser um mero caça níquel, o recurso do 3-D adiciona uma bem vinda profundidade as cenas mais agitadas, permitindo que o espectador experimente com um pouco mais clareza o trabalho em equipe do esverdeado quarteto de ninjas.


Contando ainda com as presenças do quarteto Megan Fox (melhor aproveitada), Will Arnet (um alívio cômico irregular), Laura Liney (um completo desperdício de talento) e Stephen Amell (à vontade como o determinado Casey Jones), As Tartarugas Ninjas: Fora da Sombra se revela uma aventura descompromissada capaz de agradar tantos os fãs mais experientes, quanto a garotada interessada num passatempo estupidamente divertido. Mesmo limitado pelos evidentes problemas narrativos, a maioria deles envolvendo o humor oscilante, a construção do esquecível último ato e as evidentes intenções comerciais, o diretor Dave Green cumpre as expectativas ao investir num design de produção mais versátil e criativo. Na verdade, geralmente um problema quando utilizado em excesso, o CGI se torna um elemento decisivo para as pretensões desta sequência, permitindo que o realizador abrace sem qualquer tipo de culpa os absurdos da popular série animada.

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