domingo, 12 de junho de 2016

O Dia dos Namorados e os romances mais realistas do Cinema


Esqueça os clássicos Uma Linda Mulher (1990), O Casamento do Meu Melhor Amigo (1997), O Diário de Bridget Jones (2001) e Bonequinha de Luxo (1961). Neste especial sobre o Dia dos Namorados iremos lembrar dos romances menos Hollywoodianos, àqueles que conquistaram o público ao apresentar dilemas mais atuais e recorrentes dentro de um relacionamento. Logicamente que, para não estragar o clima, irei deixar de fora os longas mais pessimistas e nebulosos, entre eles os desoladores Alabama Monroe (2012), Namorados para Sempre (2010) e o recente 45 Anos (2015).

- Educação (2009)


Sob um ponto de vista aparentemente inocente, Educação se inspira numa história real ao narrar um relacionamento movido pela paixão e pela promessa de uma nova vida. Sob a batuta da diretora Lone Scherfig, o longa volta aos anos 60 para narrar a jornada de uma jovem ingênua encantada por um homem mais velho e culto. Escancarando as incoerências por trás da conservadora sociedade local, representada nos pais da adolescente, o argumento é cuidadoso ao realçar os perigos em torno deste perigoso caso de amor, principalmente na mudança de comportamento da protagonista interpretada brilhantemente pela apaixonante Carey Mulligan. Ainda que o último ato seja um tanto quanto indulgente, Educação é um romance dramático envolvente e extremamente atual. 

- Entre o Amor e a Paixão (2011)


Recheado de momentos singulares, Entre o Amor e a Paixão cativa ao discutir sob um revigorante ponto de vista alguns dos mais enraizados dilemas afetivos na vida de um casal. Conduzido com virtuosismo pela diretora Sarah Polley (Longe Dela), este agridoce romance absorve a essência imatura dos seus personagens ao passear com proposital infantilidade por questões como a infidelidade, o companheirismo e a incessante luta contra a rotina matrimonial. Impulsionado pela soberba performance da talentosa Michelle Williams, a realizadora esbanja delicadeza ao narrar as desventuras amorosas de Margot, uma mulher casada dividida entre a certeza de um amor esfriado pelo tempo ou a ilusão de uma paixão avassaladora. Sem apelar para tipo vilanescos e indulgentes, o argumento investiga os dilemas da protagonista de maneira singela, intimista e absurdamente humana, traduzindo a sua rotina com espantosa sinceridade.

- (500) Dias com Ela (2009)


Elogiado por público e crítica, fato raro para filmes do gênero, 500 Dias com ela é um daqueles trabalhos que merece aplausos de pé. Dirigido pelo jovem Marc Webb, o longa não só consegue fugir dos clichês da cada vez mais batida comédia-romântica, como adiciona novos elementos ao gênero, que ganha uma roupagem leve, criativa, sútil e extremamente atual. Explorando uma linguagem pop, uma edição brilhante, um roteiro inovador e um casal que exala química, 500 Dias com ela é uma daquelas raras obras deliciosa de se assistir. Um filme sobre os altos e baixos de um relacionamento marcado pelas excelentes atuações de Joseph Gordon-Levitt e Zooey Deschanel.  

- Carol (2015)


Inspirado no romance The Price of Salt, de Patricia Highsmith, Carol volta ao passado para mostrar uma história de amor e intolerância que ainda hoje se revela extremamente pertinente. Conduzido com enorme categoria pelo talentoso Todd Haynes, este elegante romance de época abdica dos melodramas ao narrar com absoluta sutileza a relação entre duas mulheres dispostas a enfrentar as conseqüências de uma paixão proibida. Através de uma abordagem discreta e intimista, o longa passeia com inspiração por temas naturalmente espinhosos, encontrando nas estupendas performances Cate Blanchett e Rooney Mara o misto de elegância e latência que acaba por ditar o ritmo do envolvente argumento.

- Dois Lados do Amor (2013)


Uma tragédia familiar. Um casamento rompido. Duas vidas aparentemente despedaçadas. Demonstrando uma impressionante maturidade ao ressaltar as curvas que só a vida é capaz de promover, Dois Lados do Amor é um daqueles trabalhos que impressionam pela arte de dominar sentimentos contrastantes. Dirigido com sobriedade pelo estreante em longas-metragens Ned Benson, o longa opta pelo caminho mais complicado ao narrar as desventuras de um cativante casal, vivido com intensidade pelo sempre competente James McAvoy e por uma apaixonante Jessica Chastain. Deixando de fora os clichês e os típicos melodramas do gênero, Benson alimenta uma dose de melancolia ao revelar as idas e vindas desse par, evitando entregar facilmente as verdadeiras emoções por trás dos personagens.

- Um Fim de Semana em Paris (2013)


Uma daquelas raras e sutis pequenas produções britânicas, Um Fim de Semana em Paris é extremamente sincero ao promover uma discussão de relacionamento sob o ponto de vista de um experimentado casal. Embalado pelo belo cenário da Cidade Luz, local que já serviu de palco para algumas das principais historias de amor do cinema, o diretor Roger Michell (Uma Manhã Gloriosa) é perspicaz ao utilizar esta atmosfera romântica como um improvável pano de fundo para a troca de farpas de um casal frustrado com o seu destino. Levantando uma série de questões inerentes a vida de casado, este romance com toques de humor encontra nos poderosos diálogos e na impressionante química dos experientes Jim Broadbent (Moulin Rouge) e Lindsey Duncan (Questão de Tempo) a maturidade necessária para discutir com intensidade os percalços de uma relação.

- Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)


Uma das obras primas do diretor Woody Allen, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa é um retrato ácido sobre os altos e baixos de um relacionamento. Irônico e repleto de inventivas soluções narrativas, o longa é uma espécie de falso documentário sobre a instável relação entre um paranóico comediante nova iorquino e uma charmosa cantora, um caso de amor marcado por discussões existencialistas, por crises de intimidade e por uma série de dilemas extremamente recorrentes. Um ágil, incisivo e bem humorado relato sobre as idas e vindas de um cativante casal. 

- Ferrugem e Osso (2012)


Pra quem gosta de um romance mais seco e intimista, Ferrugem e Osso pode ser uma baita pedida. Cinemão francês da melhor qualidade, o longa dirigido por Jacques Audiard (O Profeta) envolve ao narrar uma improvável história de amizade, companheirismo. Estrelado pela magnética Marion Cottilard (Piaf) e pelo intenso Matthias Schoenaerts (A Garota Dinamarquesa), o longa acompanha a rotina do instável Ali, um pai solteiro que retorna a casa da irmã após perder o emprego. Vivendo de bicos como segurança, o agressivo homem conhece a bela Stéphanie, uma mulher independente que se envolve em uma briga numa casa noturna. Construindo dois personagens absolutamente naturais, que se aproximam na tentativa de cicatrizar algumas das feridas da vida, Audiard nos conduz por uma trama envolvente e imprevisível, que se distancia completamente dos melodramas ao narrar uma história de amor nua e crua.

- Antes do Amanhecer (1995)


Primeiro filme de uma aclamada trilogia, Antes do Amanhecer cativa ao acompanhar a construção de uma complexa história de amor. Dirigido por Richard Linklater (Boyhood), o longa é primoroso ao introduzir este carismático casal, acompanhando esta efêmera relação sob um ponto de vista natural e absolutamente intimista. Fazendo um excelente uso do cenário francês, o romance estrelado por Ethan Hawke e Julie Delpy constrói um relato precioso ao narrar o encontro entre um jovem americano e uma estudante francesa. Um casal que, apesar da paixão quase instantânea, sabe que terá de se separar em pouco mais de 24 horas. Seguido por Antes do Por do Sol (2004) e Antes da Meia Noite (2013).

- Apenas uma Vez (2006)



Uma espécie de conto de fadas urbano, Apenas uma Vez se revela uma daquelas preciosas pérolas do cinema independente. Dirigido e roteirizado por John Carney, este romântico musical encanta pela naturalidade com que reproduz o misto de afeto e cumplicidade por trás da relação entre um talentoso cantor de rua e uma vendedora ambulante de origem tcheca. Rodado sempre com a câmera na mão, na maioria das vezes em locais públicos e nas ruas da Irlanda, Carney opta por uma singela abordagem intimista ao contar esta história de amor pela música, criando uma atmosfera mágica e otimista através dos fantásticos números musicais e da magnética química entre os protagonistas. Apesar da simplicidade da trama, que, em alguns momentos, mais parece ligada por pequenos videoclipes, chama a atenção a maneira cuidadosa como Carney conduz esta relação, se distanciando de maneira inspirada dos clichês ao respeitar as prioridades individuais dos seus personagens.

- Closer: Perto Demais (2004)



Charmoso e instigante, Closer: Perto Demais constrói uma complexa relação ao acompanhar uma história de amor, paixão e infidelidade. Conduzido com absoluta elegância por Mike Nichols, o longa adota uma abordagem intimista ao escancaras as idas e vindas amorosas em torno de quatro personagens. Estrelado pelos talentosos Clive Owen, Julia Roberts, Jude Law e Natalie Portman, essa última numa atuação magnífica, o realizador mostra a partir de diálogos profundos o quão mutável pode ser um relacionamento. Em suma, um relato maduro e incisivo sobre as reviravoltas em torno de um caso de amor.

- Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004)



Apesar do absurdo ponto de partida, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças transforma uma história de amor numa espécie de círculo virtuoso. Da mente do criativo roteirista Charlie Kaufman, o longa dirigido pelo talentoso Michel Gondry investiga a complexidade de um relacionamento ao acompanhar as idas e vindas de um instável casal interpretado por Jim Carrey e Kate Winslet. Um filmaço que merece ter os seus segredos protegidos.

- Ponte Aérea (2015)



Seguindo um caminho aberto por longas como Encontros e Desencontros (2003), 500 Dias com Ela (2009) e o recente Os Dois Lados do Amor (2014), Ponte Aérea exala personalidade ao ressaltar a disfuncionalidade de uma relação nada convencional. Recorrendo a reconhecida rivalidade cultural entre RJ e SP, a habilidosa Júlia Rezende é extremamente eficaz ao construir um romance com cara de filme pipoca, mas com alma de cinema autoral. Um oásis de vigor em meio ao deserto de qualidade presente em boa parte dos blockbusters nacionais.

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