quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Caminhos da Floresta

Inocência dos contos de fadas é colocada em cheque num oscilante musical

Questionado a inocência por trás do "Felizes para sempre", Caminhos da Floresta se escora em lúdicos números musicais para - mais uma vez - subverter alguns dos mais celebrados contos de fadas. Repetindo de maneira bem menos inspirada algumas das fórmulas já exploradas em longas como Shrek (2001), Deu a Louca na Chapeuzinho (2005) e o recente Malévola (2014), a adaptação do musical da Broadway dirigida por Rob Marshall (Chicago) tenta promover uma interessante critica envolvendo os perigos do maniqueísmo escondido nos clássicos infantis. Através de uma trama que mais parece uma confusa colcha de retalhos, no entanto, esta oportuna premissa se esvai em meio aos números musicais oscilantes, aos nítidos problemas de tom, ao clímax exageradamente sombrio e ao falso moralismo presente nesta releitura. Ao menos o competente elenco, capitaneado pelas inspiradas Meryl Streep e Emilly Blunt, consegue fazer com que esta superficial nova investida da Disney não se perca dentro da floresta.

Procurando ressaltar de maneira suave a obscura realidade a cerca dos famosos contos de fadas, as versões originais de Cinderela e João e o Pé de Feijão são altamente soturnas, o argumento assinado por James Lapine se esforça para mostrar as perigosas consequências em torno do tão idealizado final feliz. Utilizando a floresta como o cenário ideal para aproximar estes populares personagens infantis, o roteiro é ágil ao interligar estas subtramas, que se cruzam organicamente no envolvente primeiro número musical. Nele conhecemos o padeiro (James Corden) e a sua esposa (Emily Blunt), um afetuoso casal que vê a sua rotina mudar quando descobre que foi amaldiçoado por uma bruxa (Meryl Streep). Impedidos de terem o tão sonhado primeiro filho, os dois resolvem fazer um trato com a feiticeira. Tentando reparar um erro do passado, que motivou esta maldição, o casal terá que conseguir quatro objetos para que a bruxa volte a ser bela. Correndo contra o tempo para finalmente terem o primeiro herdeiro, os dois então precisarão achar em três dias a vaca branca do sonhador João (Daniel Huttlestone), o sapatinho dourado da sofredora Cinderela (Anna Kendrick), os cabelos amarelos da reclusa Rapunzel (MacKenzie Mauzy) e a capa vermelha da gulosa Chapeuzinho (Lilla Crawford).


Ainda que no papel esta premissa se mostre interessante, pouco a pouco os personagens lineares e o confuso desenvolvimento reduzem o impacto em torno das aventuras deste casal. Utilizando nas entrelinhas a ausência dos pais como um elo entre os personagens, já que todos parecem imaturos diante dos perigos do mundo real refletidos metaforicamente na floresta, as discussões morais ao longo da trama vão se revelando simplórias e amargas, não acompanhando as boas intenções do roteiro. Temas mais complexos como a vaidade, a traição e a ganância acabam conduzidos de maneira tímida pelo argumento, que parece se contentar em ressaltar o lado mais tenebroso dos contos de fadas. Em meio aos rasos questionamentos sobre o sentimento de culpa dos protagonistas, apenas a humana bruxa concebida por Meryl Streep e o carismático padeiro vivido por James Corden (Apenas uma Vez) ganham uma construção realmente densa, à altura da pertinente tentativa de se criticar a obsessiva busca pelo final feliz. Por outro lado, chega a ser vergonhoso o moralismo barato envolvendo o desfecho da esposa do padeiro, de longe uma das personagens mais espirituosas do longa. Na verdade, nem a brilhante interpretação de Emily Blunt (No Limite do Amanhã) é capaz de amenizar esta exagerada opção, que se torna irreparável num musical que, justamente, se propõe a julgar a imoralidade em torno dos clássicos infantis. Um grande pecado, já que até então a trama seguia um rumo surpreendente para uma produção Disney, flertando com uma atmosfera sombria e levemente irônica.


No mesmo ritmo do roteiro, os números musicais também são extremamente oscilantes. Por mais que a categoria de Rob Marshall seja nítida, e que a caprichada direção de arte conceba um lúdico cenário, as sequências não chegam a apresentar algo verdadeiramente inovador ou memorável. Pecando pela falta de ousadia na atualização dos clássicos infantis, já que a trama se esforça para seguir à risca as versões originais, são nos momentos mais "subversivos" que os musicais empolgam. Com destaque para a expressiva sequência final da bruxa, em que Meryl Streep desfila o seu reconhecido talento, e para os hilários números musicais liderados pelo afetado príncipe Chris Pine (Star Trek), num dos raros alívios cômicos do longa. Ainda sobre o afinado elenco, vale destacar as carismáticas performances dos jovens Daniel Huttlestone (Os Miseráveis) e Lilla Crawford, dois baitas ladrões de cena, e também da bela Anna Kendrick (A Escolha Perfeita), levemente irônica como a sofrida Cinderela. A sequência em que ela divaga sobre perder o sapatinho, aliás, é uma das funcionais releituras apresentadas por Marshall. Por outro lado, a presença de Johnny Depp chega a ser frustrante, rendendo um número musical bem mais ou menos, uma caracterização pobre e só. 

Procurando desmistificar alguns dos estereótipos presentes nos clássicos infantis, Caminhos da Floresta se arrisca ao questionar de maneira rasa os limites na busca pelo tão sonhado final feliz. Revisitando alguns dos mais celebrados contos da literatura, Rob Marshall e o competente elenco até se esforçam para tentar dar alguma profundidade a este inusitado musical. Ao se levar excessivamente a sério, no entanto, o longa acaba pecando por não encontrar o tom ideal, se tornando demasiadamente dark para a criançada e ligeiramente tolo para os adultos dispostos a refletir sobre a humanidade através de populares contos de fadas.

2 comentários:

Kahlil Appel disse...

Achei extremamente fraco. Musicas chatas e um terceiro ato desnecessário e chato.

http://filme-do-dia.blogspot.com.br/

thicarvalho disse...

Não sei se considero fraco. Acho que o elenco dá uma segurada legal. Mas, como um todo, o resultado é extremamente decepcionante. Concordo plenamente com relação ao clímax. Abs Kahlil.

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