terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Corações de Ferro

Longa mostra a brutalidade da Segunda Guerra sob o sufocante ponto de vista de cinco soldados e o seu "furioso" tanque 

Sujo, brutal, avassalador. Mostrando o horror da Segunda Guerra Mundial de forma extremamente fria, o diretor e roteirista David Ayer (Dia de Treinamento, Marcados para Morrer) faz de Corações de Ferro um relato contundente sobre a jornada de um pelotão e o seu tanque blindado, sugestivamente chamado de Fúria. Recheado de aniquiladoras sequências de ação, daquelas que deixam a sensação de que estamos no campo de batalha, o longa acha neste original e claustrofóbico ponto de vista uma maneira interessante para reciclar a velha premissa envolvendo o impacto do conflito na rotina dos soldados. Sem a intenção de criar heróis ou de "glamourizar" o confronto, Ayer opta por se aprofundar nos traumas destes de cinco militares, encontrando no talento de Brad Pitt o peso necessário para construir um líder devastado tanto fisicamente, quanto emocionalmente.


Questionando a moral em torno deste conflito, David Ayer transforma este relato fictício numa avassaladora história de degradação. Apesar de Brad Pitt ser a grande estrela do competente elenco, o longa é equilibrado ao desenvolver as nuances de todo o pelotão, mostrando o impacto da guerra nas atitudes destes cinco soldados. Liderados pelo opressor Sargento Don (Brad Pitt), o tanque blindado norte-americano se tornou uma das principais armas do exército Aliado, vencendo batalhas da África à Alemanha. O pesado poderio ofensivo nazista, no entanto, fez com que o grupo composto pelo religioso Boyd (Shia LaBeouf), pelo carismático Gordo (Michael Peña), e pelo instável Travis (Jon Bernthal) perdesse um dos seus homens durante o conflito. Abalados com a morte, o quarteto acaba surpreendido quando o inocente Norman (Logan Lerman) é o escolhido para ser o novo quinto elemento dentro do "Fúria". Sem qualquer experiência em batalha, o jovem logo se torna alvo de Don, que resolve prepara-lo para suportar a crueldade deste conflito. Tomado pelo medo, Norman então passa a se esforçar não só para manter a sua humanidade diante do caos, mas também para ajudar Don e o seu pelotão na luta contra um desesperado e persistente exército nazista.


Apesar do argumento se concentrar na relação entre Don e Norman, David Ayer faz questão de destacar as nuances em torno do comportamento dos cinco soldados. Optando por ambientar a trama durante o final da Segunda Guerra, num período onde o idealismo já parecia substituído pela brutalidade, o roteiro é eficiente ao compor os seus personagens, repletos de traumas e instabilidades. Fugindo dos estereótipos, o que fica nítido numa corajosa solução dentro do clímax, Ayer é cuidadoso ao tentar justificar as motivações destes soldados, evidenciando os reflexos da degradação emocional em suas respectivas atitudes. Desta forma, da mesma maneira que Boyd encontra na religião um aliado poderoso para se manter são, Don e Travis se apoiam na violência para extravasar a tensão deste conflito. Em meio a atos tão desumanos, no entanto, o realizador transforma a inocência de Norman no catalisador da trama. Propondo uma aparente inversão de realidades, enquanto o jovem vai se dilacerando emocionalmente diante dos horrores da guerra, tal como um cordeiro em um covil, o impiedoso pelotão passa a flertar com a humanidade perdida ao longo deste sanguinário confronto. Sem dúvidas, uma sacada extremamente interessante, que rende momentos de rara intensidade, como no encontro envolvendo Don, Norman e duas alemãs refugiadas.


Embalado pela tenebrosa trilha-sonora de Steven Price (Gravidade), que potencializa a tensão em torno do longa, David Ayer mostra inspiração ao desenvolver este ambiente claustrofóbico. Habilidoso ao rodar as cenas dentro do sufocante tanque, o realizador é também competente ao construir as avassaladoras sequências de ação, ressaltando a iminente sensação de perigo. Através de um primoroso desenho de som, tiroteios e explosões chegam a assustar, Ayer não economiza na brutalidade, destacando a opressão do blindado sobre os seus adversários. A qualidade técnica, no entanto, fica em segundo plano diante das excelentes atuações do elenco. Ainda que Brad Pitt impressione ao construir o líder atormentado, que flutua entre o cruel e o humano de maneira ímpar, e que Logan Lerman roube a cena ao explorar a inocência de seu personagem, Ayer não dispensa o talento do restante do "pelotão". Procurando evidenciar os dilemas envolvendo a convivência dentro do tanque, o diretor se aproveita da intensidade de Shia LaBeouf, do carisma de Michael Peña e do ar insano de Jon Bernthal (The Walking Dead) para se aprofundar na interação do grupo em meio a este violento cenário.


Por mais que David Ayer se renda a alguns clichês no último ato, Corações de Ferro constrói sob um "furioso" ponto de vista um relato feroz sobre os momentos finais da Segunda Guerra Mundial. Optando por mostrar a crueldade deste confronto a partir do virtuoso olhar de um jovem soldado, o longa questiona os reflexos deste trágico período ao deixar claro que a guerra - definitivamente - não é o lugar para um coração inocente.

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