quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Caçadores de Obras Primas

Repleto de boas intenções, longa se perde em meio aos gêneros apresentados.

A vida de um homem vale mais do que uma obra de arte? Em cima desta premissa, o diretor e protagonista George Clooney resolveu levar para os cinemas a incrível história real dos “Monument Men”, um grupo de especialistas em arte que entrou na Segunda Guerra Mundial para resgatar grandes obras das mãos Nazistas. Apostando em um poderoso elenco e num visualmente belo processo de reconstrução histórica, Clooney acaba pecando pelo tom escolhido para narrar esse interessante episódio. Procurando flutuar entre os gêneros, e criar obra voltada para todos os públicos, o longa acaba não sendo tão engraçado para uma comédia, nem tão denso para um drama, e tão pouco empolgante para uma aventura. Ainda assim, Caçadores de Obras Primas se destaca como um bem intencionado trabalho, que tem como grande mérito a forma como defende a valorização da arte.


Se inspirando no livro Caçadores de Obras-primas, escrito por Robert M. Edsel, o longa narra a história do restaurador de arte Frank Stokes (George Clooney), que temendo a destruição de grande obras pelos Nazistas, decide criar um pelotão para iniciar um inusitado processo de resgate. Com o aval do presidente Roosevelt, Stokes acaba reunindo um time de amigos e especialistas no assunto. Entre eles o curador de museus James Granger (Matt Damon), o arquiteto Richard Campbell (Bill Murray), o escultor Walter Garfield (John Goodman), o entusiasta das artes Preston Savitz (Bob Balaban), o historiador inglês Donald Jeffries (Hugh Bonneville), o francês Jean Claude Clermont e o soldado tradutor Sam Epstein (Dimitri Leonidas). Já perto do final da guerra, os "Monuments Men" desembarcam na Normandia buscando encontrar o paradeiro de inestimáveis e históricas obras de arte. No entanto, eles terão que lutar contra os próprios Nazistas, que decidem se livrar das principais obras ao término da guerra, e também contra os Russos, que ao chegarem à Alemanha decidem se apropriar de obras para vender e ressarcir as famílias das vítimas da guerra. Colocando, inclusive, as suas vidas em risco.


Tomado muitas liberdades em relação aos fatos, o roteiro assinado pelo próprio Clooney ao lado de Grant Heslov consegue criar uma interessante trama sem deturpar a história desse corajoso grupo. Na verdade, os roteiristas optaram por mudar os nomes dos envolvidos, e adicionarem alguns fatos e personagens fictícios, incluindo ai o carismático francês Jean Claude. No entanto, a essência da história é mantida, principalmente no que envolve o interessante dilema com relação ao valor da vida diante aos de uma obra de arte. Defendendo de forma contundente a importância social da arte, e o seu legado para a civilização, o longa consegue atrair a empatia do público para essa inusitada missão. Muito em função, é verdade, do belo trabalho da equipe de direção de arte. Com direito a uma detalhista recriação histórica, explorando ótimos figurinos e grandes cenários, a bela fotografia assinada por Phedon Papamichael, que consegue associar a áurea das grandes obras ao clima carregado deste período, e a marcante trilha sonora de Alexandre Desplat, que embala muito bem todo o filme.


Na direção, porém, Clooney acaba cometendo uma série de pecados. O primeiro é não definir o tom de sua obra. Após um início que nos remete a 12 Homens e um Segredo, com ritmo leve e generosas doses de humor, Caçadores de Obras Primas acaba migrando para um misto de aventura e drama que não funciona. Pior ainda é o insosso interesse amoroso envolvendo Matt Damon e Cate Blanchett, dois talentos desperdiçados ao longo das quase 2 horas de projeção. Clooney até tenta dar um pouco mais de densidade a trama com quatro ou cinco momentos, a cena do acampamento envolvendo Bill Murray é um dos destaques, mas no final da projeção fica a impressão que o diretor não consegue encontrar a carga dramática condizente a este trágico período. Como se não bastasse isso, os personagens são desenvolvidos de forma superficial, ganhando mais destaque em função do carisma de seus protagonistas, do que pela ligação emocional criada com o espectador. Não é por menos que alguns personagens secundários, como os vividos pelos ótimos Bill Murray, Jean Dujardin, Bob Balaban e John Goodman, acabam se destacando mais do que os protagonistas George Clooney, que vai bem nos momentos mais dramáticos, e Matt Damon, que parece no piloto automático. Vale destacar também o desempenho de Hugh Bonneville, um dos únicos a atribuir uma verdadeira profundidade ao seu personagem. 


Ainda que seja uma obra repleta de boas intenções, Caçadores de Obras Primas é um retrocesso na carreira de diretor de George Clooney. Apostando no poderoso time de atores, e numa narrativa que oscila com pouca destreza entre os gêneros, o longa funciona como um entretenimento leve e esquecível. O grande mérito, no entanto, fica pela forma como a trama valoriza o poder da arte. Pena que o novo trabalho dirigido, roteirizado e estrelado por Clooney não esteja à altura das grandes obras apresentadas na projeção.

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