terça-feira, 20 de agosto de 2013

Cinemaniac Indica (A Separação)

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2012, o iraniano A Separação é um dos dramas mais densos realizados nos últimos anos. Como se não bastasse isso, o longa dirigido por Asghar Farhadi tem um outro grande mérito: o de mostrar um Irã diferente do que nós ocidentais estamos acostumados a ver. Apesar de ainda abordar as questões religiosas, tão presentes no modo de vida local, o longa não se prende ao fundamentalismo e vai mais a fundo, mostrando as demais "caras" da atual sociedade iraniana.

Tudo isso graças ao excelente roteiro assinado pelo próprio Asghar Farhadi, que aborda o complicado tema da separação matrimonial sob a perspectiva do tradicionalista povo iraniano. Disposto a aproveitar ao máximo não só a complexabilidade do assunto em questão, mas também dos personagens envolvidos na trama, o longa é extremamente intimista e ao mesmo tempo realista. Esqueça então aquela visão unidimensional dos personagens. Aqui eles não são apenas algozes ou vítimas, mas sim humanos, com todos os seus erros e as suas personalidades. A trama narra a história de Nader (Peyman Moadi) e Simin (Leila Hatami), uma casal que resolve optar pela separação no momento em que ela decide deixar o país em buscar de uma nova vida no exterior. Convivendo com o alzheimer do pai, Nader não parece disposto a abrir mão da guarda da filha Temeh (Sarina Farhadi), uma menina de 11 anos que também é contra o divórcio. Ainda sim, Simin resolve sair de casa e, em função disso, Nader acaba contratando Razieh (Sareh Bayat) uma profissional para cuidar do seu enfermo pai. Após um grande descuido da profissional, no entanto, ele resolve demiti-la, desencadeando uma série de situações que mudariam de vez a rotina destas duas famílias.


Com base nesta  envolvente premissa, A Separação é preciso ao explorar as diferentes personalidades dos seus personagens. Enquanto Simin é uma mulher moderna, pragmática, com pensamentos independentes, Razieh é a tradicional mulher iraniana, temente à Alá, ao Islamismo e também ao marido Hodjat (Shabab Hosseini). Seguindo esta abordagem, é interessante como o roteiro explora bem essas dualidades, principalmente no que diz respeito a postura dos dois casais centrais do filme. Neste embate de ideologias, após um jogo de causa e consequência que preenche bem o andamento da trama, o diretor Asghar Farhadi tem como grande mérito o fato de não pesar a mão para um desses lados. Com isso a trama ganha em densidade e consegue levantar diversos temas importantes dentro da sociedade iraniana, sob várias perspectivas. Fato que para nós ocidentais, em diversos momentos, pode assumir até um tom documental, tamanho o naturalismo impresso nas cenas. 

Drama de altíssima qualidade, A Separação surpreende não só pela forma como a trama é levada para as telas, com excelente ritmo e qualidade impressionante, mas principalmente por mostrar um Irã que nós não conhecemos. Sem se apegar a pré-conceitos - no mais pleno sentido da palavra - e conseguindo promover momentos de reflexão no espectador, o longa mostra que o nosso conhecimento sobre essas sociedades precisa ir muito além do que nos é apresentado no Jornal Nacional. Fica a dica.

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