sexta-feira, 3 de maio de 2019

Crítica | Prospect – Riqueza Tóxica

Uma ‘space-opera’ com o frescor do cinema indie

Um dos filmes mais originais do ano chegou na Netflix. Com uma proposta ousada, Prospect (Riqueza Tóxica no Brasil) transita por inúmeros gêneros com energia, ousadia e muito estilo. Recebido com entusiasmo no descolado festival South by Southwest (SXSW), o longa dirigido pela promissora dupla Christopher Caldwell e Zeek Earl esbanja criatividade ao misturar elementos reconhecíveis aos olhos do fã de cultura pop, revigorando o universo das ‘space-operas’ numa produção pequena em tamanho, mas gigante em sua proposta. Um filme visualmente poderoso e narrativamente denso capaz de causar um misto de tensão e fascínio ao narrar as desventuras de um ambicioso pai e a sua resiliente filha em um inóspito planeta inabitável. 

Prospect é um daqueles projetos de difícil classificação quanto ao seu gênero. O que, aqui, merece ser tratado como um grande elogio. No papel, o corajoso longa de baixíssimo orçamento se assume como uma verdadeira ‘space-opera’, com direito a uma rica mitologia, uma primorosa construção de mundo, armas a laser, dialetos peculiares, trajes espaciais e muitos gadgets curiosos. Reduzir tudo a aventura no espaço, porém, é um erro. Ao longo das dinâmicas 1 h e 35 min de projeção, Christopher Caldwell e Zeek Earl não se intimidam em “invadir” este universo sob uma perspectiva nova e bem mais dramática, extraindo o máximo deste singular cenário espacial ao trazerem para a trama elementos do Western, dos Sci-Fi Distópicos e principalmente dos Thrillers de Sobrevivência. E isso a partir de uma premissa simples e naturalmente instigante. Em Prospect seguimos os passos de Damon (Jay Duplass) e Cee (Sophie Thatcher), pai e filha escavadores (uma espécie de mineradores do futuro) que passavam os seus dias em órbita à procura de um planeta que pudesse lhes dar a mina de ouro que tanto procuravam. Numa destas perigosas incursões, no entanto, eles cruzam o caminho do ameaçador Ezra (Pedro Pascal), um homem sem muito a perder disposto a encontrar uma maneira de deixar este lugar de uma vez por todas. Unidos por um objetivo em comum, deste encontro nasce uma improvável parceria em terreno hostil, uma relação marcada pela desconfiança e pela sensação de ameaça iminente.


Adaptação de um curta-metragem homônimo escrito e dirigido pela própria dupla Christopher Caldwell e Zeek Earl, Prospect é o tipo de obra que fisga as nossas atenções quase que instantaneamente. Estamos diante de uma produção convidativa, esteticamente impressionante e que não se apressa em apresentar os seus predicados. O que fica bem claro, em especial, no primoroso primeiro ato. Tal qual um representante digno do cinema indie, o argumento inicialmente opta por estabelecer a rotina dos protagonistas, a distanciada relação entre Damon e Cee. Por mais que o design de produção espacial vintage salte aos olhos logo de cara, a cápsula suja e habitável da família remete ao clássico Alien: O Oitavo Passageiro (1979), a dupla de realizadores acerta ao prezar pela riqueza de detalhes, ao estabelecer os conflitos dos respectivos personagens, ao situá-los perante o público. Algo que faz bem mais sentido dentro de um ambiente pequeno e imersivo. Em pouco menos de quinze minutos conhecemos os seus motivos, compreendemos o que está em jogo e somos convidados a tentar entender o futuro da humanidade neste cenário distópico. Se por um lado o argumento é claro ao trabalhar os anseios de Damon e Cee, por outro insinua mais do que explica ao não perder tanto tempo com explanações óbvias acerca do contexto em que a trama está inserida. O fato é que, bastam os primeiros minutos no bucólico e inabitável planeta, um lugar que remete claramente a Terra, para percebemos que os humanos foram “expulsos” pela própria natureza e pela mudança na atmosfera.


Uma visão inquietante potencializada pela maneira apenas sugestiva com que Prospect passa pelo tema em questão. Esqueça o didatismo e a obviedade. O grande trunfo do longa está na maneira fluída e essencialmente visual com que Christopher Caldwell e Zeek Earl estabelecem essa rica mitologia. Para uma obra de pouco mais de 90 minutos, a riqueza de detalhes impressiona. Basta olharmos para a espécie de pólen que permeia todo o ambiente externo, por exemplo, para percebermos o motivo pelo qual os humanos não podem respirar. O que ajuda a explicar o filtro de ar, os trajes característicos, a flora peculiar. Neste sentido, Prospect está muito mais para Star Trek do que para Star Wars, principalmente pelo cuidado da dupla de realizadores em explorar o ‘modus operandi’ dos personagens. E isso sem nunca sacrificar o ritmo da película. Até porque outro dos predicados da trama está na construção\desenvolvimento do elo entre os protagonistas. Num primeiro momento, diante do impasse e da busca por uma mina de ouro, Caldwell e Earl elevam o nível de tensão ao buscar na imprevisibilidade do Western a inspiração para estabelecer o agente catalisador da obra. No melhor estilo Três Homens em Conflito (1966), Cee, Damon e Ezra possuem um objetivo em comum, mas estão longe de confiar uns nos outros. Um passo em falso e a frágil dinâmica pode mudar. Fiel a lógica do faroeste, urgência e ameaça caminham de mãos dadas ao longo do enervante segundo ato. Enquanto a corajosa adolescente surge como a bussola moral da equação, os escavadores se revelam tipos bem mais ambíguos. Algo que se torna decisivo dentro da metade final da trama. No momento em que eles percebem o quão caro pode ser o preço da ambição, o longa passa a ganhar ares de filme de sobrevivência. Sem querer revelar muito, o roteiro é perspicaz ao nos fazer crer numa relação até então improvável. Nada soa forçado num cenário em que algoz e vítima são separados por uma linha extremamente tênue. O que fica bem claro, em especial, na dinâmica entre Cee e Ezra e na maneira com que o argumento testa as nossas expectativas quanto ao destino da dupla num local que não parece interessado em deixá-los “escapar”.


Uma dinâmica densa e complexa valorizada pelas expressivas performances do reduzido elenco. A começar pelo carismático Pedro Pascal, que, sem grandes dificuldades, absorve o charme e a dubiedade do seu Ezra com desenvoltura. O mesmo, aliás, podemos dizer do subestimado Jay Duplass, um rosto conhecido do cinema indie que, mais uma vez, mostra a sua reconhecida introspecção ao traduzir a cegueira ambiciosa do seu Damon. Por fim, longe de ser o elo mais frágil desta equação, a novata Sophie Thatcher rouba a cena ao criar uma protagonista em posição vulnerável, mas nunca passiva. Entre a frieza e a inocência, Cee é uma sobrevivente, uma jovem preparada para agir. Melhor do que a atuação do trio, aliás, é dinâmica entre eles, muito em função da habilidade dos diretores em solidificar o clima de desconfiança que permeia a jornada de ambos na maior parte da trama. A cereja do bolo de Prospect, enfim, fica pelo vistoso senso plástico da obra. Contrariando as expectativas impostas pelas limitações orçamentárias, Christopher Caldwell e Zeek Earl entregam uma ‘space opera’ com pedigree. Como se não bastasse o esmero na composição dos objetos e trajes, a dupla nos brinda com uma produção visualmente imponente, incrementada pela magnífica fotografia em tons de sépia de Earl. Mais do que simplesmente criar um ambiente imersivo, o realizador faz questão de tornar tudo o mais belo e texturizado possível, investindo num conjunto cênico de fazer inveja a qualquer grande produção de Hollywood. Vide o agitado clímax que, embora narrativamente derivativo, compensa ao mostrar os recursos da dupla em criar competentes cenas de ação num cenário noturno.


Com uma mitologia própria e muitas virtudes estéticas\narrativas, Prospect: Riqueza Tóxica deixa no fim um sentimento de surpresa. Uma sensação não só devido a qualidade do material apresentado, mas principalmente pela ousadia do projeto. Sem temer as limitações orçamentárias que, sendo bem sincero, em momento algum soam perceptíveis, Christopher Caldwell e Zeek Earl entregam uma ‘space opera’ robusta e autoral, um daqueles filmes capazes de mudar o rumo de uma carreira.


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18 comentários:

Sergio Pinheiro disse...

Fiquei muito bem impressionado. Um filme que conseguiu fugir de quase todos os "chavões" dos filmes do gênero. O filme inova em quase tudo, enredo, direção, efeitos. Um filme maravilhosamente inovador. Um exemplo para ser seguido.

Unknown disse...

Crítica ótima, filme ótimo. Não preciso acrescentar mais nada. Deu aqui uma alegria =)

thicarvalho disse...

Assino embaixo Sergio. Uma combinação de predicados impressionante. Nem parece um filme 'indie'. Valeu pelos comentários e também pelo elogio.

Tony Pacheco disse...

O filme é bom. Em nenhum momento ele chateia o cinéfilo. Contudo, ficam algumas pontas, que os filmes indie parecem insistir em deixar: personagens que não se autoexplicam, como aquela tribo que queria Cee de qualquer jeito. Para quê, exatamente? Reproduzir? Ser imolada em alguma cerimônia religiosa? Mas, deixa pra lá. Não me enjoou, como o filme de Sandra Bullock do silêncio. Então, valeu a pena.

Unknown disse...

O filme e ótimo, se eu não tivesse lido que foi produzindo com orçamento baixo não acreditaria, pois me traz uma fotografia incrível, ambientes limpos e transmite uma realidade bem próxima do nosso mundo mas deixa um ar de alienígena isso foi o que mais me impressionou, atuações incríveis que transportaram para dentro do filme, até me fez torcer pelo "vilão inicial". Crítica adorável... parabéns.

thicarvalho disse...

Tony, sinceramente, eu prefiro assim. Acho que os filmes hoje se explicam demais. A intenção você bem disse. Algo bem primal. Eu curti tanto essa abordagem mais "intuitiva", quanto o filme como um todo. Uma das grandes surpresas do ano e, como você bem disse, bem superior ao Bird Box. Valeu pela visita e pelo comentário.

thicarvalho disse...

Realmente, não parece que estamos diante de um filme de baixo orçamento. O diretor compensa as limitações com muita criatividade e efeitos visuais pontuais que impressionam. Gosto, principalmente, como ele dilui a linha que separa os protagonistas. Valeu pelo elogio e pelo comentário.

Anônimo disse...

Corrige aí o "Alien: O Sétimo Passageiro". Esqueceu de contar o alien. :D

thicarvalho disse...

Valeu pela correção. Se bem que esse ai nem era bom contar mesmo. kkkkkk

Anônimo disse...

Filme chato e arrastado, com diálogos secos e vazios.

thicarvalho disse...

Respeito a sua opinião, mas discordo. E muito. Acho que os quatro adjetivos usados passaram bem longe da minha impressão sobre o filme. Valeu pela visita e pelo comentário.

Anônimo disse...

Como dito, houve um orçamento baixo, acho que isso prejudicou o filme. Achei um pouco cansativo, as cenas de ação não geraram empolgação e as cenas de desenvolvimento dos personagens deixaram a desejar, queria ter gostado como a maioria, mais ainda não exergo o destaque do filme.

Anônimo disse...

Filme enfadonho, lento e com lacks de informação.

Christos disse...

Acabei de assistir ao filme e confesso que fiquei intrigado... tanto que saí procurando por críticas ao mesmo.
Eu não fazia ideia do que se tratava e achei muito interessante a forma com que os fatos foram se apresentando.
Além da maneira de contar a história, a fotografia, a "música" de fundo (se é que se pode chamar assim) e certa sensibilidade contínua e subjacente me impressionaram... e até mesmo os detalhes que não foram contados: eles instigam a imaginação sobre várias coisas.
Então, sei lá... devo ter gostado mesmo! (Engraçado... essa dúvida...)

Christos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
thicarvalho disse...

Esse tipo de impressão Christos diz muito sobre o filme. Costumo dizer que quando isso acontece é que a obra teve o seu valor. Tem longas que terminam com o subir dos créditos. Outros seguem te martelando. Esses sempre merecem elogios. Valeu pela visita.

Unknown disse...

Filme apenas ok. Nota 6. Se passasse no cinema, seria um grande fracasso. Boa diversão para um catálogo da Netflix, que tem filmes horrorosos!

thicarvalho disse...

Respeito a sua opinião, mas fracasso no cinema não quer dizer muita coisa. Medir a qualidade de um filme por quanto ele arrecada é um erro. Blade Runner foi um fiasco nas bilheterias e hoje é o que é. Riqueza Tóxica é um 'indie movie' que, penso eu, funcionaria muito bem na tela grande. Valeu pela visita.