domingo, 4 de julho de 2021

Especial | Os 50 anos de A Fantástica Fábrica de Chocolate: um filme doce com um sabor amargo


Há 50 anos chegava aos cinemas o filme da minha infância. Há 50 anos chegava aos cinemas um filme ousado que nunca deixou o imaginário dos fãs. Há 50 anos chegava aos cinemas um fracasso de crítica que foi adotado pelo público. A Fantástica Fábrica de Chocolate usa o elemento lúdico para propor uma inquietante alegoria moral. Eu tenho duas leituras bem distintas sobre a imersiva pérola do diretor Mel Stuart: a do Thiago criança e a do Thiago adulto. Duas visões sobre um mesmo filme que, pasmem, coexistem maravilhosamente.


A primeira sensação que me vem à cabeça quando o assunto é A Fantástica Fábrica de Chocolate é o fascínio. Eu queria ter sido o pequeno Charlie. Eu queria ter invadido aquele mundo doces de múltiplas possibilidades. Quando o garoto humilde encontra o bilhete dourado, a felicidade dele se torna a minha. As descobertas também. As valiosas lições idem. Pouco importa se Roald Dahl, o autor do livro homônimo que inspirou o filme, nunca aprovou o resultado final da adaptação cinematográfica. Mel Stuart teve coragem de enxergar além do vigor visual\cênico. O cineasta em momento algum subestima a inteligência do público infanto-juvenil. A Fantástica Fábrica de Chocolate é uma obra revigorante e ao mesmo tempo sombria. Imaginativa e ao mesmo tempo punitiva. Uma mistura encantadora para qualquer criança que nasceu entre os anos 1970 e 1990. Não à toa, ao lado de A Lagoa Azul, o longa ganhou um status de “filme evento” das sessões vespertinas (Sessão da Tarde e principalmente Cinema em Casa) neste período.


Com o passar dos anos, contudo, o Thiago adulto enxergou o amargor por trás da doçura. Uma combinação que incrementa o "paladar" do longa. O olhar psicótico de Willy Wonka (interpretado com maestria por Gene Wilder) diz muito. As incorreções das crianças também. Stuart é genial ao usar o consumismo para atacar o consumismo. A Fantástica Fábrica de Chocolate é menos sobre a gula, o egoísmo e a alienação e mais sobre a formação de uma sociedade desvirtuada. Um símbolo máximo do capitalismo, Wonka pune quem descumpre as regras. Quem se apossa sem ter "direito". Quem experimenta sem ter o aval. Ele é um ícone consumido. A lisergia insana embutida no texto reflete a degradação de um sistema viciante. Wonka quer se livrar do seu fardo. Wonka quer abrir mão de uma magia que isola, segrega, "escraviza" (os Oompa Loompas são o quê?) e corrompe. Ele só queria ser substituído. Se libertar de uma condição criada pela ambição. De uma estrutura opressiva que exalta o ter\possuir em detrimento do compartilha\dividir.


Numa sociedade consumista, a magia tem um preço, a alegria tem um preço, o amor tem um preço. A Fantástica Fábrica de Chocolate, a partir da perspectiva de Willy Wonka, escancara o outro lado deste "sonho". A farsa escondida na “O vazio que nem o mais doce, rico e colorido dos mundos é capaz de preencher.

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