quarta-feira, 20 de junho de 2018

O Vazio do Domingo

Tempo perdido

Possivelmente o título mais desafiador entre as produções originais Netflix, O Vazio do Domingo provoca um misto de sensações ao estudar o impacto da ausência na rotina de duas mulheres unidas pelo elo da maternidade. Sob a refinada batuta do promissor Ramón Salazar, o longa é profundo ao reconectar o elo entre mãe e filha, ao entender as suas respectivas motivações, refletindo sobre o tempo perdido numa obra densa, dramática e naturalmente instigante. Sem a intenção de se prender as respostas fáceis, o realizador espanhol mostra astúcia ao alimentar o clima de mistério, ao proteger os segredos em torno de duas complexas personagens, realçando o aspecto intimista do texto enquanto constrói uma relação marcada pela dor, pelo peso da culpa e pela esperança da redenção. Não espere, porém, um drama agridoce, daqueles bem típicos em Hollywood. Com a coragem necessária para tocar em temas espinhosos sem um pingo de condescendência, Salazar esbanja delicadeza ao realmente estreitar o vínculo entre mãe e filha, ao torna-lo genuinamente feminino, encontrando nas poderosas atuações da dupla Bárbara Lennie e Susi Sánchez o peso necessário para tornar tudo muito real\verdadeiro aos olhos do público. 



Árvores ressecadas. Clima frio. Raízes profundas cercadas por pedras. Logo nas suas primeiras imagens, Ramon Salázar faz um brilhante uso dos símbolos ao estabelecer o clima da película. Ao situar o espectador quanto ao real estado desta relação. O mesmo acontece nas cenas seguintes. Só que, aqui, ele parece interessado em estabelecer os contrastes entre filha e mãe. O abismo que as separava. Vestida com um agasalho rústico e galochas contra o frio, Chiara (Bárbara Lennie) caminha com passos firmes, desbravando o cenário citado acima com ímpeto e poder de decisão. Guardem isso. Este pequeno trecho tem muito a dizer sobre as motivações da protagonista. No take seguinte surge a elegante Anabel (Susi Sánchez). Num cenário opulento, a sua refinada casa, ela caminha solitária vestida uma roupa de gala. Um repentino tropicão, entretanto, parece desarmar a sua pose, expondo que estamos diante de uma figura frágil. Ao longo do magnífico primeiro ato, Salazar envolve ao arquitetar o repentino reencontro entre duas figuras propositalmente nebulosas. Sem a intenção de dar respostas fáceis, o argumento assinado pelo próprio diretor é sagaz ao - num primeiro momento - tratar a reaproximação sob uma perspectiva silenciosa. Uma troca de olhares, uma reação de espanto, uma reunião desconfortável, Salazar revela o mínimo possível, flertando com elementos do suspense psicológico ao tentar entender os motivos que levaram uma filha a, 35 anos após um duro abandono, buscar o contato com a sua mãe e pedir que as duas passassem dez dias juntas numa remota casa no interior. Com um requintado design de produção, o realizador enche a tela de estilo ao capturar o misto de surpresa e insegurança de Anabel, explorando o impacto desta descoberta na rotina da sua “nova” família. O plot ideal para que comecemos a entender o seu lado da história, a verdade por trás da grande protagonista da história.


Na verdade, enquanto Chiara surge como o agente catalisador da trama, Anabel se revela a personagem a ser estudada. As perguntas em torno dela são inúmeras. Por que ela tomou a decisão de aceitar este convite? Qual a sua história? Como ela se tornou uma mulher tão bem-sucedida? E a principal delas. O que a levou a abandonar a sua pequena filha? Após o contextualizador primeiro ato, Ramón Salazar mostra maturidade ao investigar esta complexa relação. Ao isola-las numa bucólica casa de campo, o realizador encontra o cenário perfeito para demolir pouco a pouco o muro que as separava. Com diálogos incisivos, uma sutil troca de farpas e um clima naturalmente desconfortável, o argumento é cuidadoso ao expor não só a distância entre elas, como também as semelhanças e o nascer de um relutante elo. Pouco a pouco as conhecemos melhor, enxergamos a imatura tentativa de Chiara de chamar a atenção, a boa vontade de Anabel em ao menos buscar um diálogo honesto. Através de sequências intimistas, o espanhol nos convida para um passeio por uma montanha russa sentimental, desvendando os segredos em torno das duas com profundidade e parcimônia. Numa sacada inteligente, Salazar não foge das respostas, mas opta por distribui-las harmoniosamente ao longo da história, fisgando a nossa atenção até o desconcertante desfecho. O foco, entretanto, não está no fim, mas na jornada. E, ao contrário das expectativas, o roteiro foge do lugar comum ao não se concentrar nos traumas das personagens. As feridas, aqui, já parecem cicatrizadas. Elas são o que são. Os fatos, aparentemente, não as modificaram. É interessante ver como o argumento mira naquilo que não aconteceu, nas oportunidades desperdiçadas, no tempo perdido. Após um recomeço turbulento, Salazar é sutil ao solidificar o elo mãe\filha, ao dar corpo a situações que as duas não puderam viver juntas em função do afastamento. As lembranças surgem como um assombroso fantasma, escancarando as frustrações de uma mãe que “queria mais” e de uma filha que não teve a coragem para seguir os seus passos. Acreditando na intensidade do seu precioso texto, Salazar é igualmente habilidoso ao cruzar o arco das personagens com naturalidade, reestabelecendo o vínculo entre elas à medida que as duas passam a assumir as suas reais funções dentro desta relação. O resultado é um segundo ato imersivo, uma sucessão de cenas comoventes e um clímax extremamente corajoso.


Ao contrário das expectativas, porém, O Vazio do Domingo não se revela uma obra verborrágica\teatral. Apesar do elevado nível do seu texto, Ramon Salazar reforça o aspecto cinematográfico da obra ao valorizar elementos como a soberba iluminação, a fria fotografia em tons primários, o detalhista design de produção e os contrastantes cenários. Embora procure interferir pouco nas sequências, com direito a uma profusão de imersivos planos longos e o discreto uso da câmera na mão, o diretor nos presenteia com quadros dignos de moldura, realçando o potencial imagético da trama enquanto captura com rara beleza e feminilidade a expressividade das suas comandadas. E elas se entregam de corpo e alma em cena. Na pele de uma mulher forte e objetiva, Bárbara Lennie provoca ao criar uma figura com interesses nebulosos, indo da frieza à compaixão com sensibilidade e magnetismo. É difícil não se sentir instigado a tentar entender a sua verdadeira motivação. Do outro lado da moeda está Susi Sánchez e a sua elegante Anabel. Num tipo inicialmente nobre e distante, a veterana encanta ao se expor gradativamente, ao escancarar os seus conflitos, os seus anseios, as suas frustrações mais íntimas. Numa relação marcada pelos altos e baixos, Lennie e Sánchez mostram uma extraordinária química em cena, fazendo jus à qualidade do texto e a maneira pura com que Salázar trata o biológico elo entre mãe e filha.


Com DNA feminino, um visual requintado e uma abordagem humana envolvendo o abandono materno, O Vazio do Domingo se revela um drama intimista sobre os ciclos que se fecham, sobre as lacunas impostas pelo afastamento. Um filme inquietante capaz de julgar e compreender, de agredir e se compadecer. Num pesado estudo de personagens, o virtuoso Ramón Salazar reflete sobre as memórias que não puderam se concretizar, diluindo as barreiras entre o passado\começo e o presente\fim ao mostrar o quão estreitos podem ser os laços maternos. 


E para quem curte o catálogo da gigante do streaming, confira aqui uma lista com outros dez filmes originais Netflix dignos de nota.

Leia também: (Crítica) Extinção, (Crítica) Beirut, (Crítica) Tau, (Crítica) Em Busca de Justiça, (Crítica) Sua Melhor História, (Top 10) Romances de Partir o Coração.

2 comentários:

Unknown disse...

Cenas chocantes, reais, por outro lado, inimagináveis! Muito bom!

thicarvalho disse...

Um relato corajoso e imprevisível. Um baita filme. Valeu pela visita e pelo comentário.

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