quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Cinemaniac Indica (Arremesso de Ouro)

Inspirado numa incrível história real, Arremesso de Ouro cativa ao narrar a trajetória dos dois primeiros atletas indianos da MLB, a Liga de Beisebol Norte-Americano. No seu primeiro grande trabalho pós-Mad Men, o excelente Jon Hamm brilha ao capturar a tridimensionalidade do seu personagem, um homem de negócios desesperado em busca de uma nova chance, impedindo que o longa se torne uma daquelas genéricas jornadas de superação. Conduzido com extrema energia pelo diretor Craig Gillespie (Horas Decisivas), o bem humorado drama biográfico envolve ao tratar o esporte como um dos últimos instrumentos realmente democráticos de ascensão social, se esquivando dos clichês do gênero ao realçar as verdadeiras barreiras em torno deste processo. Além de tirar o máximo do seu talentoso (e diversificado) elenco, o realizador norte-americano é igualmente cuidadoso ao não só abraçar a rica cultura indiana, como também ao expor os contrastes entre os dois países, tornando a complexa relação entre agente e jogadores naturalmente interessante aos olhos do público. 



Numa mistura de Jerry Maguire: A Grande Virada com Quem quer ser um Milionário?, o roteiro assinado pelo vencedor do Oscar Tom McCarthy (Spotlight: Segredos Revelados) é criativo ao utilizar o mundo dos negócios esportivos como o ponto de partida para uma premissa genuinamente familiar. Dividido em duas metades bem distintas, na primeira hora de projeção acompanhamos a audaciosa ideia do empresário JB (Jon Hamm), um representante de atletas que vê a sua empresa ficar em sérios problemas quando a sua principal aposta escolhe ir para a concorrência. Desolado, ele resolve se voltar para um mercado inexplorado, a superpopulosa Índia, na busca por um atleta que pudesse revolucionar a sua combalida firma. Com o apoio de um influente empresário, JB decide tirar do papel o Arremesso de Ouro, um reality show esportivo que iria levar dois jogadores de críquete para os EUA e torna-los atletas de Beisebol. Impecável ao mostrar o caótico estilo de vida em solo indiano, Craig Gillespe se distancia dos estereótipos ao investigar a dura condição social neste país marcado pela desigualdade e pela elevada densidade demográfica.


Sem a intenção de expor somente as mazelas e as dificuldades, o realizador norte-americano é habilidoso ao revelar também a vasta cultura indiana, ao reproduzir alegria, o forte elo familiar e o respeito às tradições, uma abordagem humana que se torna um dos pontos altos do magnético primeiro ato. Impulsionado pela contrastante fotografia colorida de Gyula Pados, inventiva ao extrair a beleza em um cenário nem sempre belo, Gillespe consegue introduzir os jovens jogadores Dinesh (Madhur Mittal) e Rinku (Suraj Sharma) com enorme agilidade, permitindo que o público crie uma sincera identificação com os dois durante a realização do divertido reality show. Antes de deixar o "núcleo indiano", inclusive, o diretor esbanja delicadeza ao realçar a forte conexão da dupla com as suas raízes, ao expor a dura realidade de ambos em solo indiano, preparando o terreno para a segunda metade da trama ao realçar a responsabilidade de JB envolvendo o destino dos dedicados garotos.


Quando o assunto é a hora final, aliás, é interessante ver o esmero de Craig Gillespe ao construir os conflitos entre JB e os indianos. Embora se escore alguns clichês do tipo "homem de negócios que não dá bola para àqueles que o cerca", o roteiro consegue trazer o pano de fundo familiar para o centro da trama sem recorrer a tipos\soluções unidimensionais. Após viver o multifacetado Don Draper na série Mad Men, Jon Hamm criar um empresário astuto, audacioso e ambicioso, um protagonista falho com um arco repleto de nuances. A jornada de JB não vai do ponto a ao ponto b com conveniência. Ele erra, acerta, volta a errar. Existe um meio termo entre os negócios e amizade, uma zona cinzenta explorada com sensibilidade por Tom McCarthy e Jon Hamm. Somado a isso, o roteiro diverte ao mostrar também o choque cultural de Dinesh e Rinku em solo norte-americano. E isso sem precisar apelar para uma visão estereotipada e\ou preconceituosa. Outro ponto que agrada, e muito, é o arco amoroso envolvendo a cativante inquilina Brenda. Interpretada com energia pela carismática (e subestimada) Lake Bell, a vizinha surge como uma interessante voz da razão, uma personagem retilínea - é verdade - mas que em nenhum momento soa rasa ou dispensável.



Por fim, o grande diferencial de Arremesso de Ouro é a maneira realística com que o longa trata o esporte como um democrático instrumento de ascensão social. Sob um prisma universal, Craig Gillespe é delicado ao mostrar a pressão sobre os jovens, ao revelar o sonho destes garotos criados num ambiente pobre e desigual, um panorama crível que se assemelha a trajetória da maioria de jovens que dedica parte da sua vida a uma modalidade esportiva com a esperança de se tornar um atleta profissional. Em suma, com personagens adoráveis (Alan Arkin, o saudoso Bill Paxton e o indiano Pitobash estão ótimos), uma direção segura e momentos genuinamente comoventes, Arremesso de Ouro é um 'feel good movie' leve e narrativamente consistente que acerta ao se encantar pela natureza humana dos protagonistas desta revigorante história real. 

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