quinta-feira, 11 de maio de 2017

Do Fundo do Baú (Aliens: O Resgate)

Uma reinterpretação anabolizada do clássico primeiro longa, Aliens: O Resgate é uma continuação exemplar. Sob a batuta do midas James Cameron (O Exterminador do Futuro, Titanic, Avatar), o segundo filme da franquia trouxe um novo ar para a série, substituindo o terror Sci-Fi pelo suspense de ação sem descaracterizar o conteúdo original. Mais do que ampliar o escopo da trama, o talentoso realizador mostrou o seu reconhecido virtuosismo ao resgatar alguns dos principais ingredientes de Alien: O Oitavo Passageiro (1978), entre eles a atmosfera claustrofóbica, o imersivo cenário espacial, a diversidade de personagens e a crítica envolvendo os interesses escusos das grandes corporações, os inserindo num contexto mais frenético e escapista. Uma roupagem tipicamente oitentista. O resultado é uma sequência com aura original, um filme explosivo que transformou a 'bad-ass' Ellen Ripley numa das personagens femininas mais influentes da cultura pop. 



Sem medo de trazer a sua assinatura para a franquia, Cameron mostra inspiração ao trazer ainda mais adrenalina para a sequência, potencializando o teor bélico ao arquitetar a explosiva batalha entre humanos e xenomorfos. Sim, no plural. Como se não bastasse o cuidado na composição das naves e dos novos dispositivos tecnológicos, ele investe pesado na utilização de armas e artefatos 'hi-tech', tornando o confronto mais plausível aos olhos do público. Num trabalho à frente do seu tempo, Cameron dá uma verdadeira aula na composição das ágeis e empolgantes sequências de ação, que, indiscutivelmente, se tornaram referência não em Hollywood, como também no universo dos games. 



Reparem, por exemplo, como ele utiliza elementos como o contador de balas, a "barra de vida" e os múltiplos pontos de vistas, recursos hoje presentes nos populares FPS, os First Person Shooter. Embora menos violento que o original, Cameron é igualmente habilidoso ao extrair a tensão em torno da trama, respeitando o clima de suspense proposto por Ridley Scott ao apostar também na ameaça invisível, nas angustiantes cenas de perseguição e numa vigorosa fotografia espacial. Ainda que os Aliens sejam mais "visíveis" na continuação, o realizador é inventivo ao construir os momentos mais nervosos, fazendo um primoroso uso do silêncio e dos insinuantes efeitos sonoros ao incrementar os engenhosos "contatos" inter espécies.



O grande diferencial deste segundo filme, entretanto, reside no instigante argumento. Embora o fator sobrevivência siga no centro da ação, o roteiro assinado pelo trio James Cameron, David Giler e Walter Hill é prático ao não só se conectar com o filme anterior, como também ao ampliar a sua mitologia, pontuando a trama com interessantes questões maternas envolvendo o passado de Ripley. Por falar nela, a heroína surge ainda mais 'bad-ass', uma mulher indomável que não reluta em assumir o controle da situação. Na verdade, Cameron é cuidadoso ao adicionar nuances mais humanas a protagonista, dando a determinada Sigourney Weaver a possibilidade de ampliar o mito em torno da sobrevivente. 


Aqui, porém, ela ganha uma parceira de peso, a pequena Newt (Carrie Henn), uma criança inteligente e corajosa que adiciona um interessante tempero a autêntica mistura proposta por James Cameron. Num todo, aliás, o elenco cumpre a sua missão no que diz respeito à composição dos funcionais personagens, permitindo que o público crie uma sincera conexão e torça por eles ao longo da película. Enquanto Weaver atrai os holofotes, nomes como os de Bill Paxton, Michael Biehn, Lance Henriksen e Jenette Goldstein preenchem a trama com enorme desenvoltura, repetindo, diga-se de passagem, um dos principais predicados do seu antecessor. 



Em suma, impulsionado pela estilosa fotografia de Adrian Biddle e pela imersiva trilha sonora de James Horner, Aliens: O Resgate é uma obra impactante, uma continuação vigorosa e tecnicamente irretocável que ainda hoje é um modelo quando o assunto são os tão perigosos capítulos dois. A cereja no bolo, porém, fica para o primoroso clímax, uma verdadeira aula de cinema que só nomes com a ousadia de James Cameron poderiam tirar do papel. Sem medo de errar, um último ato memorável capaz de causar inveja a qualquer grande blockbuster da atualidade. 

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