sexta-feira, 12 de maio de 2017

Alien: Covenant

Até tu, Brutus?

Responsável por nos apresentar a uma das mais icônicas heroínas do cinema de ação, a bad-ass Ellen Ripley, a franquia Alien se tornou uma colcha de retalhos com o passar dos anos. Nas mãos do "papai" Ridley Scott, Alien: O Oitavo Passageiro (1978) se revelou uma obra prima do Sci-Fi, um filme tenso, imersivo e tecnicamente primoroso capaz de explorar o medo do desconhecido em sua máxima potência. Nas mãos do virtuoso James Cameron, o espetacular Aliens: O Resgate (1986) manteve o nível da "brincadeira" lá em cima, se rendendo ao melhor do cinema de ação numa continuação envolvente, empolgante e inegavelmente autêntica. No momento em que a série se viu presa aos interesses dos produtores, no entanto, o popular xenomorfo sofreu a sua mutação mais perigosa. Vendo a sua criação reduzida ao problemático Aliens 3 (1992), ao genérico Alien: A Ressurreição (1997) e ao desmoralizante Alien Vs Predador (2004), Scott resolveu reassumir as rédeas da sua obra.


Disposto a recuperar a credibilidade da série, o diretor dividiu o púbico e a crítica com o ambicioso Prometheus (2012), se aprofundando na origem do universo alien numa prequel ousada e existencialista. Mesmo diante de um roteiro falho, ele conseguiu resgatar a seriedade da franquia ao nos brindar com um Sci-Fi instigante e esteticamente imponente. O mesmo, porém, não podemos dizer de Alien: Covenant. Novamente preso às questões acerca da origem dos xenomorfos, Ridley Scott peca ao replicar o pior do longa anterior, anulando os inegáveis pontos altos da película ao investir numa vasta gama de personagens estúpidos, num argumento repleto soluções convenientes e num desfecho carregado de pretensões comerciais. Na verdade, embora o veterano realizador siga como um mestre na arte da construção de mundos cinematográficos, Alien: Covenant marca um novo retrocesso da saga, uma obra oca que se sustenta basicamente num audacioso plot twist, no exuberante aspecto visual e no tão aguardado retorno ao cinema de horror.




Com roteiro assinado pela dupla John Logan e Dante Harper, Alien: Covenant é o que menos parece fazer parte desta popular franquia. E esse nem de longe é o problema desta continuação. Por mais que a presença dos xenomorfos seja recorrente, Ridley Scott ousa ao distanciar a ação dos claustrofóbicos cenários espaciais, revigorando a sua criação ao investir numa ambientação bucólica, imersiva e inventivamente primitiva. Indo de encontro ao teor retórico\existencial de Prometheus, o realizador aposta, aqui, num viés biológico, uma solução inteligente não só por casar perfeitamente com a proposta "desbravadora" da tripulação, como também por finalmente preencher as brechas acerca da origem dos xenormorfos. Sem querer revelar muito, o pano de fundo criacionista defendido pelo primeiro filme ganha um perspicaz novo contexto nesta continuação, um sopro de originalidade dentro de um argumento que basicamente repete a estrutura dos mais frágeis filmes da saga. Na trama, a caminho de uma missão de colonização, os tripulantes da nave Covenant são pegos de surpresa ao receberem um misterioso sinal de um remoto planeta. Liderados pelo relutante Oram (Billy Crudup) e pela astuta Daniels (Katherine Waterston), eles resolvem mudar os seus planos no momento em que percebem que a mensagem levava a um local perfeitamente habitável. Convencida pelas informações, a equipe resolve pousar nesta isolada região para estudos mais aprofundados. Não demora muito, porém, para o paradisíaco local expor a sua faceta hostil, principalmente quando eles se deparam com uma predatória ameaça alienígena.


Embora o envolvente ato inicial deixe uma sensação de otimismo quanto ao desenrolar da trama, Alien: Covenant decepciona ao se sustentar num roteiro repleto de furos e exageradamente conveniente. Por mais que as boas ideias sejam evidentes, principalmente quando o assunto é o retorno de David (Michael Fassbender) e a construção do revelador segundo ato, os roteiristas se escoram em soluções injustificáveis, como se a trama só pudesse andar com o auxílio "luxuoso" da estupidez humana. É impossível acreditar, por exemplo, que uma treinada equipe de colonizadores simplesmente mude os seus engenhosos planos ao receber o sinal de um misterioso planeta desconhecido. E que ao desembarcar neste lugar remoto iria confiar cegamente nos dados e nem sequer utilizar os trajes espaciais. Na verdade, a cada dez, quinze minutos um dos viajantes toma uma decisão estapafúrdia, o que só atesta a fragilidade do argumento. Vide a impactante cena do chuveiro, uma sequência importante dentro do clímax, mas que nasce de uma destas atitudes totalmente fora de tom. Outro ponto que incomoda, e muito, é o pífio desenvolvimento dos personagens. Preguiçoso ao estabelecer os casais de tripulantes, Ridley Scott em nenhum momento consegue tornar crível a conexão entre eles, os laços de amizade, amor e companheirismo introduzidos com superficialidade nos primeiros minutos de projeção, tornando os takes dramáticos completamente vazios e arrastados. Pra piorar, Covenant é inexplicavelmente descuidado ao explorar a consequências das mortes dentro deste ambiente familiar. Apesar da abordagem sóbria, o realizador falha ao traduzir a dor dos personagens, ao estabelecer as suas nuances mais íntimas, os tornando em sua maioria irrelevantes aos olhos do público.


Nem só de críticas negativas, porém, vive o novo Alien. Um dos pontos altos da série, o elemento androide é utilizado com inspiração nesta continuação, dando ao talentoso Michael Fassbender a possibilidade de construir duas figuras instigantes e realmente singulares. Embora o desfecho envolvendo o anárquico David seja um tanto quanto previsível, o robô humanoide ganha o arco mais corajoso da película, um desenvolvimento coerente com o passado do personagem e com a sua "programação". Somado a isso, o devotado Walter, o David da nave Covenant, surge como um bem vindo contraponto e rende alguns dos melhores diálogos desta continuação. Graças ao virtuosismo estético de Ridley Scott, aliás, o minucioso Fassbender se "duplica" num mesmo quadro com enorme naturalidade, culminando num par de sequências elegantes e inesperadamente intimistas. No mesmo nível da dupla de androides, a inteligente Daniels consegue manter o popular legado feminino da saga. Embora passe longe de ter o peso de Ellen Ripley, a subtenente se revela uma heroína "pés no chão", uma figura consciente que nunca é ouvida pela tripulação. Interpretada com afinco pela carismática Katherine Waterston, Daniels, inclusive, me pareceu não ter sido explorada em sua máxima potência, já que nitidamente ela tem mais a oferecer do que foi mostrado em cena. A sua frieza dentro do expressivo clímax, por exemplo, não me deixa mentir. Quem realmente rouba a cena, entretanto, é o comediante Danny McBride. Muito mais do que um mero alívio cômico, o astuto Tennessee é o único coadjuvante humano capaz de reagir de acordo com os fatos e protagonizar momentos verdadeiramente relevantes.


O que realmente eleva o nível de Alien: Covenant, no entanto, é o competente visual do longa. Um grande artesão de Hollywood, Ridley Scott mostra a sua eloquente assinatura ao realçar o aspecto primitivo por trás do bucólico cenário florestal. Impulsionado pela soturna fotografia fria de Dariusz Wolski (Perdido em Marte), marcante, principalmente, nas sequências internas, o realizador de 79 anos é virtuoso ao transportar a trama para um ambiente selvagem e úmido, com direito a montanhas, cachoeiras e enormes esculturas, permitindo que a continuação ganhe (ao menos) uma aparência mais autêntica. Não se engane, porém, com a atmosfera terrestre proposta neste sexto filme. Como de costume na franquia, Ridley Scott é cuidadoso ao se voltar para o cenário espacial, mais precisamente para os corredores da minimalista Covenant, presando pelos detalhes ao revelar o funcionamento da nave e os inúmeros dispositivos tecnológicos. No melhor estilo Gravidade, inclusive, o diretor surpreende ao investir até mesmo em pontuais cenas externas, um fato raro dentro da saga.


De volta ao universo do terror, Ridley Scott é igualmente habilidoso ao arquitetar as sequências mais violentas, fazendo um excelente uso da furtividade e do poder da sugestão ao potencializar o clima de tensão em torno dos brutais ataques do xenomorfos. Com um design levemente modificado, os esguios aliens ganham uma versão ágil e atualizada em CGI, dando ao realizador a possibilidade utiliza-los tanto nas sorrateiras cenas noturnas, quanto nos planos mais grandiosos. Neste ponto, aliás, Scott cumpre rigorosamente o que promete e entrega um filme bem mais agressivo que os seus antecessores. O único senão, na verdade, fica pelo visual digitalizado dos xenomorfos "albinos", um aspecto artificial que destoa do restante da película. Por falar neles, os "cabeçudos", aqui, não estão "sozinhos" e ganham uma função mais ampla dentro da trama. Sem querer revelar muito, o inventivo contexto evolutivo defendido pelo roteiro é um dos pontos altos do longa e justifica a presença das variadas espécies de alien. Me arrisco a dizer, inclusive, que os antagonistas "salvam" o dia e impedem que o longa seja o ponto mais fraco de uma franquia que segue se sustentando na mitologia criada nos extraordinários dois primeiros filmes.


Apesar dos inúmeros problemas narrativos, no entanto, o grande pecado de Alien: Covenant mora no seu covarde desfecho. Numa opção estritamente comercial, Ridley Scott frustra ao tentar prolongar esta supervalorizada história de origem, culminando numa sequência final pretensiosa, previsível e inexplicavelmente vazia. Na verdade, ainda que acerte ao buscar um fato realmente novo para franquia, o veterano realizador subestima os fãs da quadrilogia ao se preocupar excessivamente com o "futuro", esnobando o passado em prol da construção de respostas para questionamentos filosóficos que já não parecem tão interessantes assim. Em suma, Alien: Covenant pode até divertir mais do que o seu antecessor, mas, quando analisado com frieza, se mostra uma sequência rasa, estruturalmente requentada e que reduz a sua ousadia a um único (e ótimo) personagem.

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