quinta-feira, 6 de abril de 2017

Precisamos falar sobre Greta Gerwig


Uma das grandes representantes do cinema 'indie' norte-americano, a carismática Greta Gerwig é uma realizadora rara. Avessa aos holofotes dos grandes blockbusters, a talentosa atriz californiana construiu o seu nome em produções de pequeno\médio porte, imprimindo sempre a sua personalidade ao construir personagens independentes e frequentemente marcantes. Dona de uma filmografia enxuta, mas recheada de sucessos de crítica, ela é uma daquelas atrizes que merece o reconhecimento do grande público, principalmente pela sua capacidade de escolher projetos capazes de levantar preciosas questões femininas sem nunca parecer pedagógico e\ou panfletário. Como podemos perceber, por exemplo, no seu último grande trabalho, o recém-lançado Mulheres do Século 20 (leia a nossa opinião aqui), um recorte delicado e revigorante sobre os anseios mais íntimos de três gerações de mulheres. Magnética, extrovertida e com um faro apurado para papéis descolados, Greta Gerwig é uma das minhas atrizes favoritas, uma figura proeminente que não se contentou em seguir o caminho mais fácil. 



Indo de encontro a maioria das atrizes com o seu "status" em Hollywood, Greta Gerwig não se viu obrigada a seguir o caminho 'mainstream'. Reconhecida pelo cuidado na composição das suas personagens, a atriz não parece disposta a abrir mão da liberdade do cinema 'indie', o que vem se refletindo nos seus últimos trabalhos. Em entrevista recente a revista Bilboard, ela revelou o seu entusiasmo pelo feminino e pela preocupação com o fator humano nos seus projetos. "Quando escrevo filmes, só escrevo sobre mulheres. Existem papeis masculinos, mas eu estou mais interessado em mulheres. Eu estou interessado em filmes sobre pessoas, não estereótipos, então eu tendo a gravitar em direção a filmes que têm personagens complexos para homens e mulheres", afirmou a atriz durante a divulgação de Mulheres do Século 20. Atualmente casada com Noah Baumbach (Frances Ha), um dos grandes expoentes da comédia independente americana, Greta Gerwig estreou em 2006 com um papel pequeno na comédia dramática LOL. Dirigida por Joe Swanberg (Um Novo Começo), o longa acompanha as relações de três homens, os examinando através da sua conexão com a tecnologia.


Inserida no movimento Mumblecore, uma corrente cinematográfica conhecida pelo improviso, pela simplicidade narrativa e pelo uso de atores desconhecidos, Greta Gerwig ganhou o seu primeiro papel de protagonista na comédia Hannah Sobe as Escadas (2007). Também responsável pelo roteiro, ela interpreta um recém-formada (foto acima) que consegue um emprego numa produtora de Chicago. Lá, Hannah se envolve com os seus dois parceiros de escritório, colocando em risco a amizade entre eles. Recebido de maneira amistosa pela crítica, o longa alavancou a carreira de Gerwig, que, até então, ainda estava em dúvidas sobre o seu futuro como atriz, já que antes de estrear LOL o seu sonho era se tornar uma dramaturga. Em entrevista para o Tonight Show, no ano de 2010, Gerwig recordou esta fase e expôs as dificuldades em torno deste início. "Eu estava realmente depressiva. Eu tinha 25 anos (em 2008) e pensava. Essa era para ser a melhor época e eu me sentia miserável, mas eu sentia que a atuação estava acontecendo para mim e resolvi voltar as aulas de teatro", afirmou a atriz já numa fase mais auréa de sua carreira. Antes disso, porém, ela teve que seguir se dedicando a alguns trabalhos pequenos, entre eles os modestos Baghead (2008) e Nights and Weekends (2008).


O ponto de virada na sua carreira, no entanto, aconteceu com o lançamento de O Solteirão (2010). No seu primeiro trabalho com o seu então namorado Noah Baumbach, Greta Gerwig ganhou um papel de destaque na 'dramédia' independente estrelada pelo popular Ben Stiller. Na pele de uma solitária assistente (foto acima) que se envolve com fracassado músico, a atriz roubou a cena num filme coestrelado por nomes como Jennifer Jason Leigh, Rhys Ifans e June Temple. Impulsionado por este trabalho, Gerwig chegou ao cinema blockbuster nas comédias românticas Sexo sem Compromisso (2011) e Arthur, O Milionário Sedutor (2011). Mesmo limitada pelas amarras do gênero, a atriz adicionou uma ‘vibe’ particular aos dois filmes, principalmente no criticado remake estrelado por Russell Brand, revelando um magnético ar 'cool' que viria a marcar as suas produções seguintes. De volta ao circuito 'indie', ele estrelou o exótico Descobrindo o Amor (2011), uma comédia estrambólica sobre uma universitária que resolve fazer um grupo de ajuda para animar os alunos depressivos. Recheado de boas intenções, o ingênuo filme se distanciou perigosamente da realidade ao tratar um tema tão importante, se tornando um dos trabalhos mais frágeis da sua carreira. Ainda assim, Gerwig está muito bem na pele de uma exótica figura incapaz de colocar a sua vocação altruísta em prática.


Após trabalhar com Woody Allen no insosso Para Roma, Com Amor (2012), Greta Gerwig voltou a interpretar uma personagem com a sua cara no divertido Lola Versus o Mundo (2012). Recebido de maneira morna pela crítica, o cativante longa dirigido por Daryl Wein colocou a atriz como uma jovem frustrada que, após levar um fora do seu noivo, resolve "sair a caça" e encontrar um novo amor antes de completar trinta anos. O seu grande trabalho, porém, viria no seu próximo filme, o aclamado Frances Ha (2012). Sob a batuta de Noah Baumbach, Gerwig se tornou a alma deste estiloso e bem humorado romance. Também responsável pelo roteiro, ela encarna a jovem Frances, um dançarina desengonçada que vê a sua rotina mudar no momento em que a sua colega de quarto resolve se casar. Com marcantes diálogos, carismáticos personagens e uma fantástica trilha sonora, o filme se revela um sincero relato sobre a difícil missão que é amadurecer, uma obra definitiva sobre a difícil transição da juventude para a fase adulta. Na verdade, Frances surge como o símbolo de uma geração reticente quanto ao seu futuro, um papel marcante que iniciou a atualmente excelente fase da atriz.


Um das suas personagens mais complexas, entretanto, surgiria no subestimado O Último Ato (2014). Dirigida pelo veterano Barry Levinson (Mera Coincidência), Greta Gerwig fugiu da sua zona de conforto ao interpretar uma jovem dúbia, uma mulher ora companheira e apaixonante, ora possessiva e gananciosa. Dividindo a cena com o lendário Al Pacino, a atriz mostrou o seu reconhecido charme ao protagonizar um instável relacionamento, uma inusitada história de amor potencializada pela química do casal de atores e pelo afiado senso de humor do roteiro. Um relato interessante sobre a decadência e os métodos encontrados por um velho astro (Pacino) para retornar ao caminho das boas atuações. Após contracenar com um verdadeiro ícone do cinema norte-americano, Gerwig voltou a trabalhar com o seu marido no excelente Mistress America (2014). Dando vida a uma espécie de super-heroína da geração do desapego (foto acima), a atriz arrancou elogios da crítica ao encarar uma jovem independente que não se deixava levar pelos tabus sociais impostos pelo mundo adulto. Assim como em Frances Ha, Greta Gerwig cria uma figura moderna e encantadora, uma figura humana repleta de dúvidas e certezas. Ela, aliás, foi também responsável pelo ótimo roteiro, comprovando o seu faro na construção de memoráveis personagens femininas.


Consolidada como uma estrela do circuito independente, Greta Gerwig voltou a interpretar uma figura autêntica no cômico O Plano de Maggie (2016). Conduzido pela talentosa Rebecca Miller, o longa brinca ao discorrer sobre os relacionamentos atuais dentro de um contexto irônico e levemente surreal. Na pele de uma jovem independente que resolve ter um filho sem precisar de um marido e um casamento, a atriz enche a tela de energia ao absorver o misto de excentricidade e independência da sua Maggie. Após dividir a tela com os excelentes Ethan Hawke e Juliane Moore, Gerwig ganhou um importante papel feminino no comovente Jackie (2017). Dando vida a assistente pessoal da ex-primeira dama Jackeline Kennedy (Natalie Portman), a atriz imprimiu humanidade a sua pacata personagem e deixou a sua marca no elogiado longa dirigido por Pablo Larraín. Um fato que, aliás, se repetiu no seu último grande trabalho, o extraordinário Mulheres do Século 20. Num filme essencialmente feminino, Gerwig encara a fotógrafa Abbie, um jovem rebelde e independente que escondia num comportamento punk a sua face mais frágil. Sob a batuta do sensível Mike Mills, ela brilha ao reproduzir os anseios da sua geração no auge da transformadora década de 1970. Uma personagem autêntica e marcante que diz muito sobre a personalidade de Greta Gerwig. Uma jovem talentosa que, contrariando as expectativas mais comerciais, trilhou seu próprio caminho no cinema independente ao encontrar neste segmento a liberdade necessária para dar voz as suas cativantes personagens.

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