sexta-feira, 7 de abril de 2017

O Dia do Jornalista e os Grandes Filmes sobre esta Desvalorizada Profissão


Esta é uma data que eu não poderia deixar passar em branco. Neste dia 7 de abril é celebrado no Brasil o Dia do Jornalista, uma profissão na qual sou formado e que sempre me motivou a tocar o barco aqui no Cinemaniac. Numa carreira de muito trabalho, e geralmente pouca remuneração, os jornalistas logicamente viraram grandes personagens dentro da sétima arte, se tornando pivô de alguns dos maiores clássicos do cinema moderno. Neste Dia do Jornalista confira alguns dos filmes indispensáveis sobre os bastidores desta profissão.

- Cidadão Kane (1941)



E começamos com um dos maiores clássicos da história do cinema. Eleito pelo American Film Institute (AFI) como o maior filme de todos os tempos, Cidadão Kane mostra o jornalismo sob vários pontos de vistas. Dirigido e estrelado por Orson Welles, o longa narra a jornada de Charles Foster Kane, um menino pobre que acaba se tornando um dos homens mais ricos do mundo ao controlar um dos maiores impérios da comunicação. Inspirado pela morte desta figura, um jornalista decide se aprofundar na vida deste magnata da informação, nos apresentando toda a jornada de Kane. Um daqueles filmes indispensáveis não só para os fãs de cinema, mas também para aqueles que estão inclinados a seguir esta complicada profissão.

- A Montanha dos Sete Abutres (1951)




Outro clássico do gênero, A Montanha dos Sete Abutres mostra o jornalismo sob o brilhante ponto de vista de Billy Wilder (O Pecado Mora ao Lado). Estrelado por Kirk Douglas, o longa narra a jornada de Charles Tatum, um profissional problemático que foi despedido de 11 jornais, por 11 razões diversas. Sem ter a quem recorrer, Tatum vai parar num jornal do interior, com a intenção de ficar pouco tempo até conseguir uma vaga num veículo maior. A sua chance, no entanto, acaba aparecendo quando num dia corriqueiro ele se depara com um homem (Richard Benedict) preso em uma mina. Disposto a fazer desta tragédia uma notícia de repercussão nacional, Tatum deixa as questões morais em segundo plano para ter a sua chance de voltar a brilhar. Em meio ao sensacionalismo atual da TV Aberta, A Montanha dos Sete Abutres mostra os perigos por trás deste caminho. 

- Todos os Homens do Presidente (1976)


Levando um dos maiores furos jornalísticos para o cinema, Todos os Homens do Presidente narra os bastidores envolvendo o caso Watergate, o escândalo que acabou ocasionando a queda do Presidente Richard Nixon. Estrelado por Dustin Hoffman e Robert Redford, o longa mostra com um esmero único o esforço dos jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, dois obstinados profissionais que passaram por cima dos principais obstáculos para descobrirem os fatos por trás da invasão da sede do partido Democrata. Dirigido por Alan J. Pakula (A Escolha de Sofia), Todos os Homens do Presidente é um daqueles filmes de cartilha, um relato definitivo sobre o 'modus operandi' do jornalismo investigativo. 

- Rede de Intrigas (1976)


O ano de 1976, aliás, nos revelou outro grande trabalho sobre os bastidores do jornalismo. Em Rede de Intrigas, o experiente Sidney Lumet promove uma ácida sátira sobre o jornalismo como entretenimento. Se antecipando ao criticar o sensacionalismo e a busca incessante pelo IBOPE, o longa estrelado por Faye Dunaway, William Holden, Peter Finch e Robert Duvall narra a história de um renomado âncora (Finch) que perde o seu emprego em função dos baixos índices de audiência. Abalado com a notícia, ele anuncia o seu suicídio em pleno horário nobre, conseguindo alcançar números espetaculares. Contando com o apoio de uma determinada produtora (Dunaway), o mentalmente instável âncora vira uma espécie de guru da televisão, conquistando a audiência ao falar a verdade para o público. Este "prestígio", no entanto, logo vira um problema quando ele volta a sua metralhadora de críticas para a indústria da comunicação. Com atuações espetaculares, o longa levou quatro estatuetas do Oscar, Rede de Intrigas é uma das obras mais atuais desta lista. 

- Sob Fogo Cerrado (1983)


Questionado os limites da interferência de um jornalista dentro de uma reportagem, Sob Fogo Cerrado mostra a árdua missão dos repórteres de guerra. Montando uma espécie de triângulo amoroso, o longa estrelado por Nick Nolte, Gene Hackman e Joanna Cassidy nos apresenta as questões éticas por trás do trabalho destes profissionais na guerra entre o governo da Nicarágua e os rebeldes sandinistas. Na trama, um corajoso fotojornalista (Nolte) se apaixona por uma jornalista (Cassidy), esposa de um amigo de profissão (Hackman). Sempre próximo dos principais episódios deste conflito, o jornalista acaba se conectando demais com a guerra, ficando em dúvida sobre a sua imparcialidade. Evidenciando a complexidade desta profissão, Sob Fogo Cerrado é um dos trabalhos menos conhecidos desta lista, mas igualmente importantes. Nesse mesmo caminho, aliás, vale destacar o recente Repórteres de Guerra (2011), um longa que também mostra as nuances dos fotojornalistas em meio a um grande conflito. 

- Bom dia Vietnã (1987)


Num dos papéis mais icônicos do saudoso Robin Williams, Bom Dia Vietnã mostra o jornalismo sob o ponto de vista institucional. Popular radialista nos EUA, Adrian Cronauer é recrutado para comandar o programa de rádio das forças armadas americanas no Vietnã. Com seu estilo nada peculiar, o comunicador logo conquista a atenção das tropas, através de piadas e críticas. Esta personalidade mais ácida, no entanto, se torna um problema para um segundo tenente, que entra em rota de colisão com Adrian. Cada vez mais tragado pela trágica realidade do Vietnã, Adrian resolve então adotar um discurso mais engajado, se tornando um sopro de esperança para os soldados norte-americanos. 

O Informante (1999)




Dirigido pelo renomado Michael Mann, O Informante é mais um dos longas que se aprofunda nos bastidores do jornalismo investigativo. Estrelado por Al Pacino e Russel Crowe, o longa narra a história de um ex-executivo da indústria do cigarro (Crowe) que resolve abrir o jogo numa bombástica entrevista ao canal CBS. Após colocar a sua própria vida em risco, no entanto, os executivos do canal decidem não transmitir esta entrevista, temendo processos por parte das empresas. Pivô deste contato, um experiente produtor (Pacino) precisará não só proteger a sua fonte, mas também fazer de tudo para levar a público essas informações tão importantes. Com duas grandes atuações e uma direção absolutamente fantástica, O Informante envolve o espectador através da tensão desta relação envolvendo uma fonte e um jornalista. 

- Quase Famosos (2000)


Numa daquelas impressionantes histórias reais, Cameron Crowe leva as suas memórias para as telonas em Quase Famosos, um relato cativante sobre os bastidores do jornalismo musical. Estrelado por Patrick Fugit, Billy Cudrup e Kate Hudson, o longa narra a história de um jovem aspirante à jornalista que decide se passar por alguém mais velho para escrever na revista Rolling Stone. Decidido a fazer uma entrevista exclusiva com a banda Stillwater, que estava de passagem por sua cidade, o jovem é convidado pela banda a fazer uma turnê com eles. Procurando se manter imparcial, logo ele cria um vínculo com os músicos, o que acaba a se tornando um problema para ele. Nos conduzido por esse espetacular episódio de sua vida, na realidade ele acompanhou a banda Led Zeppelin, Quase Famosos mostra um dos lados mais legais do jornalismo: o de poder ter algum contato com grandes personalidades. O filme, porém, deixa bem claro que o glamour nestas situações é praticamente inexistente.

O Preço de uma Verdade (2003)



Mostrando os perigos por trás da manipulação jornalística, O Preço de uma Verdade é envolvente ao narrar a ascensão e queda de um jornalista inescrupuloso. Estrelado por Hayden Christensen, o longa conta a história de Stephen Glass, um obstinado jornalista que ultrapassa os limites da ética ao tentar uma vaga na equipe principal do jornal The Republic. Disposto a qualquer coisa para atingir este objetivo, ele decide criar artigos completamente falsos com o intuito de atrair a atenção dos seus chefes. O rápido sucesso conseguido pelo jovem, no entanto, logo vira um grande fiasco, principalmente quando pouco a pouco suas matérias vão se revelando grandes mentiras. Contando a dissimulada atuação de Christensen, O Preço de uma Verdade deixa claro que nem sempre o caminho mais cômodo é o mais correto.

- Boa Noite e Boa Sorte (2005)



Dirigido e estrelado por George Clooney, Boa Noite e Boa Sorte se tornou um dos mais aclamados filmes sobre o jornalismo. Abordando o contexto político por trás das grandes empresas de telecomunicação, o longa acompanha o posicionamento público de Edward R. Morrow (David Strathairn), um âncora de TV que, em plena era do macarthismo, luta para mostrar em seu jornal os dois lados da questão. Para isso ele revela as táticas e mentiras usadas pelo senador Joseph McCarthy, iniciando assim uma rivalidade que traria consequências diretas a então recém-consolidada TV norte-americana. Empurrado pela atuação de David Strathairn e pela brilhante fotografia em preto e branco, Boa Noite e Boa Sorte é um daqueles projetos cada vez mais raros no cinema atual.

- Frost\Nixon (2008)



Narrando os bastidores de uma das entrevistas mais assistidas da história dos EUA, Frost\Nixon é um daqueles relatos contundentes sobre a essência do jornalismo: a busca pela informação. Colocando frente a frente o presidente deposto Richard Nixon, com o jornalista britânico Dave Frost, esta entrevista até hoje se tornou um símbolo do bom jornalismo. Dirigida pelo afiado Ron Howard (Rush), e estrelado por Frank Langella e Michael Sheen, o longa é inspirado ao acompanhar o processo de preparação do jornalista britânico para esta importante entrevista, que ganharia repercussão nos quatros cantos do mundo. Ainda que muitos historiadores norte-americanos questionem alguns dos fatos mostrados no longa, Frost\Nixon é impecável ao ressaltar os detalhes por trás de uma grande entrevista.

- Intrigas do Estado (2009)




Dirigido pelo competente Kevin Macdonald, do ótimo O Último Rei da Escócia, Intrigas do Estado é habilidoso ao mostrar as muitas nuances em torno do jornalismo investigativo. Estrelado por Ben Affleck, Russell Crowe e Rachel McAdams, o longa narra o esforço de dois jornalistas na investigação do assassinato da amante de um promissor congressista. Explorando muito bem esta atmosfera de conspiração política, o longa é eficiente ao apresentar as ameaças e perigos em torno destas investigações mais impactantes. 

- Uma Manhã Gloriosa (2010)



Trazendo novamente a bela Rachel McAdams no elenco, Uma Manhã Gloriosa é de longe o trabalho mais despretensioso desta lista. Trazendo no elenco uma ranzinza atuação de Harrison Ford, o longa narra a história de uma determinada produtora de TV que decide apostar as suas fichas num programa matinal de péssima audiência. Disposta a mudar a rotina do telejornal, ela terá que conviver não só com as crises de um respeitado âncora, como também com as consequências de suas principais escolhas dentro do programa. Divertido e descompromissado, o longa é habilidoso ao mostrar como funcionam os bastidores dos populares programas de variedade.

- O Mensageiro (2014)



Muito mais do que um thriller político, O Mensageiro se revela uma obra contundente ao criticar o código de ética por trás do jornalismo. Inspirado na história real de Gary Webb, numa fantástica atuação de Jeremy Renner (Guerra ao Terror), o longa dirigido por Michael Cuesta (Homeland) vai a fundo ao reproduzir os bastidores de um grande furo de reportagem envolvendo a CIA e o 'boom' do crack nos EUA. Embalado por um talentoso elenco de apoio, recheado de nomes como os de Andy Garcia, Ray Liotta, Michael Sheen e Rosemarie DeWitt, este drama com toques de suspense instiga ao se apoiar no tom conspiratório sem esquecer da questão humana

- Spotlight: Segredos Revelados (2015)



Com um tema dificílimo em mãos, o diretor Tom McCarthy cumpre a sua missão ao narrar o esforço de reportagem da equipe do jornal Boston Globe para denunciar a pedofilia dentro do alto escalão da Arquidiocese. Embora narrativamente protocolar, o longa é contundente ao revelar os bastidores desta reportagem, encontrando nas excelentes atuações do talentoso elenco a força necessária para dar voz a uma história naturalmente incomoda. Impulsionado pelas presenças de Mark Rufallo, Rachel McAdams e Michael Keaton, o drama jornalístico é cuidadoso ao desvendar as consequências por trás de uma denúncia deste porte, mostrando não só as barreiras sociais enfrentadas pela equipe de reportagem, como também o jogo político e o poder de influência dos acusados. Em suma, um relato denso sobre uma matéria que chocou a sociedade norte-americana.

- Conspiração e Poder (2016)


Inspirado numa densa história real, Conspiração e Poder se revela um relato humano sobre os bastidores de uma polêmica reportagem do respeitado telejornal 60 Minutos. Ainda que peque pela falta de ousadia enquanto instrumento de crítica, o longa dirigido e roteirizado por James Vanderbilt (Zodíaco) é imparcial ao investigar os detalhes por trás da realização de uma matéria contra o então candidato a reeleição George W. Bush, escancarando as agruras do jornalismo investigativo ao expor o quão espinhoso poder ser o campo de ação destes abnegados repórteres. Através de uma premissa naturalmente instigante, o realizador esbanja categoria ao acompanhar não só o 'modus operandi' dos jornalistas, como também o escuso processo de descaracterização da denúncia apresentada, se esquivando das respostas fáceis ao introduzir este complexo caso sob um ponto de vista íntimo, ambíguo e universal.

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