quarta-feira, 19 de abril de 2017

O Mestre dos Gênios

Um drama de cartilha sobre alguns dos maiores nomes da literatura norte-americana

Com um elenco de fazer inveja a qualquer grande postulante ao Oscar, O Mestre dos Gênios é um drama biográfico convencional que flerta com a genialidade dos retratados ao reproduzir a relevante parceria entre o editor Max Perkins e o escritor Thomas Wolfe. Enquanto se concentra nesta complexa relação de amizade, o longa dirigido pelo estreante Michael Grandage é intimista ao realçar não só o árduo processo de trabalho dos dois, como também ao traduzir a sincera conexão entre eles e ao desvendar as suas respectivas personalidades. No momento em que decide ampliar o alcance da obra, no entanto, o longa não encontra tempo hábil para se aprofundar em algumas promissoras subtramas, subaproveitando a presença de figuras e elementos históricos em prol de uma abordagem mais convencional. Ainda assim, mesmo diante dos inegáveis problemas narrativos, O Mestre dos Gênios se revela uma película importante, principalmente por ressaltar a inquietude e o virtuosismo de um grupo de homens que dedicou a sua vida à literatura moderna.




Inspirado no livro Max Perkins: Editor of Genius, do biógrafo americano A. Scott Berg, o roteiro assinado por John Logan (Gladiador) merece elogios pela forma com que joga uma luz sobre um dos períodos mais férteis da literatura norte-americana. Além das inúmeras referências à livros do quilate de O Grande Gatsby, This Side Of Paradise e O Sol Nasce Sempre, o argumento é habilidoso ao revelar o 'modus operandi' de um editor, a conexão do autor com a sua obra, imprimindo em tela a paixão dos protagonistas pelo poder das palavras na literatura. Apesar do descuido narrativo\estético quanto a transição temporal, os atores simplesmente não envelhecem em cena, o longa ganha merecidos pontos extras ao jogar uma inédita luz sobre o engenhoso processo de confecção dos dois grandes clássicos de Thomas Wolfe, os livros Look Homeward, Angel (1929) e Of Time in The River (1935). Uma solução realmente eficaz, principalmente por permitir que o público conheça a intimidade dos dois personagens em meio a diálogos sobre o exagerado uso de adjetivos numa frase ou o apego do escritor por sua criação.



É quando se volta para esta relação, inclusive, que O Mestre dos Gênios realmente encontra o seu motivo para existir. Mesmo montado numa estrutura inegavelmente formulaica, o roteiro mostra inspiração ao reproduzir tanto a crescente amizade entre Max Perkins e Thomas Wolfe, quanto ao investigar as suas respectivas personalidades. Indo além da esfera profissional, Michael Grandage é perspicaz ao revelar a troca de experiência dos dois, a maneira como a energia do escritor preenchia a gélida rotina do editor ou a serenidade de Perkins se tornava uma espécie de porto seguro para a inquietude de Wolfe. Além disso, o realizador é igualmente habilidoso ao expor a fragilidade dos dois, as suas facetas mais humanas, expondo com inegável categoria as diferentes formas com que mentor e pupilo encaravam as suas vidas. Na transição para o último ato, porém, o roteiro deixa a naturalidade de lado ao explorar temas como a vaidade e o temperamento indomável do escritor. Com mais pressa que o necessário, Grandage é superficial ao traduzir os conflitos por trás desta amizade, reduzindo o peso em torno dos assuntos mais complexos, entre eles o possível papel "castrador" de Perkins e o comportamento obsessivo\autodestrutivo de Wolfe.



Num todo, aliás, o longa subaproveita alguns arcos realmente promissores. Além de não explorar o impacto da crise de 1929 na rotina dos envolvidos, o roteiro peca ao não dar a devida atenção a personagens como a instável Alice (Nicole Kidman) e a reprimida Louise Perkins (Laura Linney). Esta última, inclusive, surge como um dos tipos mais promissores da trama, uma esposa devotada que sonhava em publicar a sua peça teatral, mas a relação entre ela e o editor é sumariamente esquecida a partir do segundo ato. Uma pena, já que a talentosa Laura Linney poderia adicionar elementos ainda mais interessantes ao filme. Por falar no afinado elenco, como de costume em sua carreira, o excelente Colin Firth transborda humanidade em cena na pele do editor Max Perkins. Com um personagem sóbrio e cerebral em mãos, o ator inglês comove ao realçar a simplicidade do editor, um homem devotado ao mundo da literatura. Desta personalidade contida, aliás, nasce um interessante contraste com a presença enérgica de Thomas Wolfe, um escritor inquieto interpretado com afinco pelo carismático Jude Law. Embora num primeiro momento o ator flerte perigosamente com o tom caricatural, à medida que a trama avança ele interioriza as nuances do autor, nos fazendo acreditar no misto de obsessão, entusiasmo e o histrionismo do protagonista. Juntos, Firth e Law exibem uma excelente química em cena, principalmente nas sequências mais explosivas. Além deles, enquanto Nicole Kidman retorna ao caminho das boas atuações ao reproduzir o temperamento ferino da sua Alice, o ótimo Guy Pearce injeta peso ao seu F. Scott Fitzgerald.



Conduzido com elegância por Michael Grandage, que, potencializado pela pálida e expressiva fotografia de Ben Davis (Doutor Estranho), realça o intimismo por trás desta sincera relação, O Mestre dos Gênios é um drama biográfico convencional que se sustenta basicamente no talento do seu elenco e na força destes personagens. Mesmo diante de alguns evidentes predicados estéticos, a maioria deles envolvendo a cuidadosa direção de arte e a preciosa fotografia, o longa parece não aproveitar o potencial desta premissa, o que fica evidente quando percebemos que nomes como F.Scott Fitzegerald e Ernest Hemingway são tratados apenas como figuras secundárias. Ainda assim, é uma obra sobre os bastidores da literatura norte-americana, um tema frequentemente esnobado por Hollywood que aqui ganha uma abordagem cuidadosa e relevante.

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