sexta-feira, 21 de abril de 2017

The Discovery

Uma instigante premissa desperdiçada num filme raso e sentimentalista

Sem medo de transitar por temas polêmicos, vide as controvérsias em torno das séries 13 Reasons Why e Dear White People, a Netflix tem se arriscado cada vez mais também no formato longa metragem. Após conquistar a atenção do público com o crítico Beasts of No Nation (2015) e entregar um copilado de comédias estúpidas estrelada por Adam Sandler, a empresa tem investido pesado em filmes originais, tem dado voz a novos realizadores, mas o padrão de qualidade ainda parece distante das suas melhores séries e produções documentais. Como podemos perceber, por exemplo, no recém-lançado The Discovery, um Sci-Fi promissor que se perde diante das suas próprias intenções. Mesmo com uma instigante premissa em mãos, o longa dirigido e roteirizado por Charlie McDowell (Complicações do Amor) segue um rumo genérico ao falar sobre a vida após a morte, se esquivando das promissoras questões existenciais ao se render a um romance raso e sentimentalista. 

O primeiro grande problema de The Discovery, entretanto, fica pela falta de capacidade do roteiro ao fundamentar as suas teorias. Por mais que algumas das questões discutidas sejam até pertinentes, a maioria delas envolvendo os mistérios por trás da experiência de quase-morte, o argumento falha ao não expor o processo científico em torno da tão comentada descoberta. Na verdade, a premissa se sustenta basicamente na palavra do especialista, no "trabalho de uma vida" como afirma o próprio autor da tese, o que enfraquece a construção do cenário proposto por Charlie McDowell. Ou seja, o êxito da película depende exageradamente da boa vontade do público, já que fica difícil acreditar que um simples anuncio iria desencadear uma onda de suicídio em massa. 


Na trama, responsável por revelar a existência de vida após a morte, o veterano Dr. Thomas (Robert Redford) passou a conviver com o peso de uma série de suicídios. Alheio as críticas e aos trágicos relatos, ele seguiu aprimorando o seu estudo nos dois anos seguintes, procurando finalmente descobrir qual era o destino dos humanos após o "fim". Isolado numa mansão numa pacata ilha, Thomas é pego de surpresa com a visita do seu filho, o introspectivo Will (Jason Segel), um neurologista apático e nitidamente atordoado. Reticente quanto aos estudos do pai, ele vê a sua rotina mudar no momento que salva a vida da complexa Isla (Rooney Mara), uma jovem independente atormentada por uma tragédia no seu passado. Atraído por ela e pelos novos estudos de Thomas, Will resolve participar mais ativamente das pesquisas, sem saber que as respostas poderiam mudar a sua percepção de uma vez por todas. 


Apesar da fragilidade em torno da lógica defendida pelo argumento, The Discovery instiga ao estabelecer um cenário melancólico e indiscutivelmente plausível. Embora não se aprofunde no tema em si, a questão do suicídio é explorada com o peso necessário, dando ao longa uma atmosfera tensa e naturalmente devastadora. Já na impactante sequência de abertura, Charlie McDowell mostra categoria ao expor a faceta mais perigosa desta descoberta, realçando com objetividade os motivos por trás da onda de mortes. Infelizmente, ao invés de se debruçar com afinco sobre os conflitos morais e as questões existenciais em torno da revelação, o roteiro segue um caminho preguiçoso ao trazer o fator humano para o centro da trama, subaproveitando o aspecto reflexivo da película ao se render à um previsível romance. Por mais que a química entre Jason Seigel e Rooney Mara seja interessante, McDowell falha ao não encontrar um meio termo entre a razão e a emoção, pendendo perigosamente para o sentimentalismo à medida que investiga o passado dos personagens. Inicialmente promissoras, as discussões acerca do pós-morte, por exemplo, se tornam vazias e inconclusivas, culminando numa evidente queda de ritmo a partir do segundo ato. Pra piorar, o roteiro dá um "show" de conveniência ao arquitetar a relação entre Will e Isla, indo além dos clichês amorosos ao permitir que a jovem ganhe repentinamente a confiança do recluso Dr. Thomas e logo faça parte das suas pesquisas mais secretas. Uma solução que em nenhum momento soa crível ou natural. 


É na transição do segundo para o último ato, no entanto, que The Discovery se perde por completo. Após estabelecer os conflitos mais íntimos dos personagens, o argumento peca pelo exagero ao construir uma reviravolta genérica e pretensiosa. Sem mais nem menos, o roteiro subverte a temática inicial ao flertar com temas geralmente presentes nos filmes de viagem no tempo, criando um clímax apressado, didático e desastradamente rocambolesco. Um 'plot twist' raso que não surpreende e nem emociona. Dito isso, apesar dos inegáveis predicados técnicos, da marcante trilha sonora e da competente direção Charlie McDowell, The Discovery é uma película que fica na promessa. Sem a ousadia necessária para abordar um tema tão espinhoso, o realizador parece se encantar pelo aspecto mais frágil da sua premissa, entregando uma película que faz pose de inteligente, mas que se revela óbvia e pouco inovadora. 

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