sábado, 8 de abril de 2017

Cinemaniac Indica (Uma Repórter em Apuros)

Uma mistura de Bom Dia Vietnã (1987) com Guerra ao Terror (2009), Uma Repórter em Apuros oferece um ponto de vista curioso sobre a função do correspondente de guerra. Indo de encontro aos relatos mais sérios, a comédia dirigida pela dupla John Requa e Glenn Ficarra flerta com o humor satírico ao investigar as desventuras de uma repórter em solo afegão, expondo o lado mais absurdo por trás da rotina destes corajosos profissionais. Embora inserido dentro de um contexto quase inofensivo, o longa envolve ao desvendar o 'modus operandi' dos jornalistas em solo estrangeiro, incluindo os excessos e excentricidades, encontrando na afiada performance de Tina Fey o misto de cinismo e realismo necessário para dar credibilidade a esta irreverente película. 

Inspirado no livro "The Taliban Shuffle: Strange Days in Afghanistan and Pakistan", 'best-seller' escrito pela correspondente de guerra Kim Barker, Uma Repórter em Apuros (que péssima adaptação) é certeiro ao capturar a essência feminina da obra. Com argumento assinado por Robert Carlock, o longa é habilidoso ao acompanhar o processo de adaptação de uma mulher comum dentro deste cenário hostil, realçando o aspecto mais desbravador e audacioso da protagonista. Por mais que o filme dialogue brevemente com alguns clichês das comédias românticas, Requa e Ficarra os utiliza com particularidade, brincando com o turbilhão de emoções dos jornalistas, o isolamento e as rígidas regras impostas pelo Islamismo. Com diálogos irônicos e um inteligente senso de humor, o longa revela os passos de Kim, uma produtora acomodada que, por ser solteira e não ter filhos, é selecionada para se tornar a correspondente de uma importante emissora americana. Apesar da pouca experiência, ela decide abraçar o projeto, colocando os seus limites em cheque ao pisar numa instável zona de guerra.


Impecável ao explorar os contrastes em torno da presença feminina dentro deste ambiente hostil e majoritariamente masculino, John Requa e Glenn Ficarra são igualmente habilidosos ao jogar uma luz sobre a faceta mais absurda da rotina dos correspondentes de guerra. Através do olhar dos interessantes personagens de apoio, entre eles a espevitada repórter australiana Tanya (Margot Robbie, reluzente), o experiente fotógrafo Iann (Martin Freeman, carismático) e o zeloso guia afegão Fahim (Christopher Abbott, ótimo em cena), os realizadores esbanjam irreverência ao revelar aquilo que os telejornais não costumam mostrar. Embora o aspecto jornalístico esteja no centro da trama, principalmente quando o assunto é a crescente busca pelo furo da reportagem e o jogo de influência por trás das grandes entrevistas, o longa foge do lugar comum ao expor os anseios mais "mundanos" dos correspondentes, os exóticos momentos de diversão e as variadas relações dentro deste seleto grupo. Sem querer revelar muito, enquanto a bela Tanya surge como uma espécie de 'host' dentro deste exótico cenário, o leal Fahim protagoniza o arco mais sincero do longa, justamente por se tornar o único capaz de enxergar os perigos em torno das atitudes de Kim na zona de guerra. Além disso, com naturalidade e energia, o argumento é preciso ao traduzir o realístico processo de transformação da protagonista, a sua completa adaptação ao ambiente afegão, uma mudança moldada pela forte adrenalina experimentada durante o período em solo estrangeiro.


Por mais que os problemas narrativos sejam evidentes, a maioria deles envolvendo a queda de ritmo no segundo ato e o estereotipado ministro afegão interpretado por Alfred Molina, o longa se sustenta também na condução invectiva de John Requa e Glenn Ficarra. Responsáveis pelo excelente Amor a Toda Prova (2011), os realizadores investem numa abordagem singular, um trabalho marcado pelo positivamente inoportuno setlist, pelos expressivos planos abertos e pelo realista trabalho da direção de arte, principalmente na construção do deteriorado cenário afegão. Detalhe: o filme foi rodado no Novo México, nos EUA. Em suma, com um sagaz senso de humor, uma cativante gama de personagens e um importante cuidado quanto ao contexto político do conflito, Uma Repórter em Apuros se torna relevante no momento em que decide mostrar a tão explorada Guerra do Afeganistão sob um ponto de vista irônico, feminino, por vezes ingênuo, mas inegavelmente autoral.

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