segunda-feira, 13 de março de 2017

Com o sucesso de Logan, Fox se coloca novamente na vanguarda dos filmes de super-heróis


Um dos pilares da retomada dos filmes de super-herói, a 20th Century Fox volta a atestar a sua veia vanguardista com o magnífico Logan. Embora a dobradinha Marvel\Disney "domine" o gênero com produções rentáveis, qualificadas e um universo engenhosamente arquitetado, a o estúdio segue se mantendo a frente da concorrência quando o assunto é a ousadia. Enquanto a poderosa parceria Warner\DC segue patinando na tentativa de reencontrar a sua voz própria, a Fox parece ter aprendido com os seus erros recentes, entenda Quarteto Fantástico (2015), e tem se livrado cada vez mais das amarras criativas. Por mais que o universo regular dos X-Men siga enfrentando os seus altos e baixos, o fato é que a Fox voltou a se tornar relevante com os arriscados Deadpool (2016) e Logan (2017), duas obras autorais que resgataram a vocação pioneira do estúdio. 



Na verdade, se hoje temos uma vasta gama de produções inspiradas em histórias em quadrinhos, isso se deve basicamente ao vanguardismo da Fox. Embora a Warner\DC tenha enxergado o potencial por trás do até então subaproveitado segmento com títulos do quilate de Superman (1978), Superman II (1981), Batman (1989) e Batman: O Retorno (1992), a "casa" do Universo Mutante da Marvel nos cinemas foi a única que soube tirar o gênero do fundo do posso após o questionável Batman Eternamente (1994) e o desastroso Batman e Robin (1997). Num cenário em que o subestimado Blade (1998) surgia como a única fonte de dignidade quando o assunto eram as adaptações das HQ'S, os produtores Lauren Shuler Donner, Ralph Winter e Avi Arad resolveram resgatar a credibilidade do gênero com o realista X-Men (2000). Indo de encontro ao tom cartunesco das últimas produções da Warner, a Fox resolveu apostar numa refrescante veia realística, respeitando a essência questionadora da obra da dupla Stan Lee e Jack Kirby ao dialogar com temas como o preconceito, a crise de identidade e o respeito às diferenças. Com Hugh Jackman como Wolverine, uniformes discretos e personagens habilmente adaptados, X-Men conquistou rapidamente o coração dos carentes fãs do gênero, se tornando um indiscutível sucesso de público e crítica. Impulsionado pelos US$ 296 milhões faturados ao redor do mundo, o longa dirigido por Bryan Singer rendeu duas continuações e se tornou a mola mestra para a reafirmação do segmento. Tanto que, paralelamente ao lançamento do excelente X-Men 2 (2003) e do exagerado X-Men: O Confronto Final (2005), surgiram outros importantes representantes do gênero, entre eles os elogiados Homem-Aranha (2002), Homem-Aranha 2 (2004), Batman Begins (2005) e Homem de Ferro (2008).


Os anos se passaram e, numa realidade diferente, a Fox se viu obrigada a renovar. Após o genérico Quarteto Fantástico (2005), o "apenas" eficiente Quarteto Fantástico e O Surfista Prateado (2007) e o injustificável X-Men: Origens - Wolverine (2009), os executivos do estúdio se viram obrigados a repensar a sua estratégia. Pressionada pelo retumbante sucesso de Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) e pela crescente presença da então Marvel Studios, a Fox resolveu "resetar" a sua própria franquia com o enigmático X-Men: Primeira Classe (2011). Um fato novo dentro do gênero, o processo de produção do longa foi cercado de perguntas. Enquanto a maioria dos fãs do gênero parecia ter as atenções voltadas para os aguardados Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012) e Os Vingadores (2012), os produtores Bryan Singer, Lauren Shuler Donner, Simon Kinberg e Gregory Goodma tiravam do papel um projeto igualmente ousado. Inicialmente, porém, o filme se viu esquecido em meio ao hype em torno dos dois blockbusters citados cima. Os primeiros trailers não empolgaram, a campanha de marketing foi questionada e o reboot não parecia fazer muito sentido para os fãs da trilogia original. Que engano! Sob a batuta do criativo Mathew Vaughn, Primeira Classe causou uma enorme surpresa ao serevelar o melhor filme do Universo Mutante da Marvel nos Cinemas. Com um poderoso elenco, empolgantes sequências de ação e um inédito tom contextualizado, o filme estrelado por Michael Fassbender, Jennifer Lawrence e James McAvoy dialogou com importantes questões histórias ao narrar o inicio deste popular supergrupo. O resultado, obviamente, não poderia ser outro. Embora não tenha alcançado o sucesso comercial dos seus concorrentes, a produção foi recebida com entusiasmo pela crítica, rendeu duas empolgantes continuações (X-Men: Dias de um Futuro Esquecido e X-Men: Apocalipse) e comprovou que a Fox tinha a ousadia necessária para se reinventar. Fica a lição Warner.


A vocação vanguardista da Fox, entretanto, seria novamente atestada no arriscadíssimo Deadpool. No projeto "da vida" do astro Ryan Reynolds, o mercenário desbocado surgiu num momento (novamente) complicado para o estúdio. Uma das principais apostas da Fox, o reboot de O Quarteto Fantástico foi um fracasso retumbante, muito em função da pesada influência dos executivos sobre o trabalho do diretor Josh Trank. Detonado por público e crítica, o longa ligou o sinal de alerta e tornou a missão de Reynolds bem mais difícil. Disposto a apagar da nossa memória a imagem do personagem no bombardeado X-Men: Origens (2009), o ator\produtor peitou os executivos da companhia, lutou pela liberdade criativa e ousou ao exigir classificação etária elevada. Envolvidos na confusa pós-produção do novo quarteto, os executivos deram o aval, mas com restrições orçamentárias. Com um orçamento modesto para as produções do gênero, cerca de US$ 58 milhões, Reynolds tirou do papel então o cínico Deadpool, uma comédia violenta sobre a jornada de vingança de um verborrágico anti-herói. Por mais que o uso de humor no segmento não seja uma novidade, vide Guardiões da Galáxia (2014), o longa dirigido por Tim Miller subverteu a estrutura do gênero ao investir numa narrativa não linear, num sagaz senso cômico e em brutais sequências de ação. Além da constante quebra da quarta parede, Reynolds apontou a sua mira para o universo super-heróico, rindo das suas próprias falhas ao zoar, dentre outras coisas, a sua primeira aparição como o mercenário tagarela e ao desastroso Lanterna Verde (2011). Impulsionado por uma inventiva campanha de marketing, Deadpool se tornou a maior bilheteria da história do Universo Mutante da Marvel, comprovando que as produções com classificação etária elevada poderiam fazer sucesso dentro do segmento. 


Após resgatar o status do gênero em X-Men (2000), se reinventar em X-Men: Primeira Classe (2011) e apostar alto no cômico Deadpool (2016), a Fox elevou o patamar dos filmes de super-heróis com o intimista LoganMais do que investir num filme de ação voltado para o público adulto, o diretor James Mangold finalmente deu a Hugh Jackman o filme que ele e o anti-herói Wolverine mereciam. Numa proposta completamente inédita dentro do gênero, os produtores Hutch Parker, Lauren Schuler Donner e Simon Kinberg investiram num produto novo, uma releitura pessoal e corajosa. Um dos principais pilares do Universo Mutante da Fox, o astro australiano surgiu frágil e desgastado, uma sombra do herói construído ao longo da franquia. Com uma pegada faroeste, Mangold extraiu a realidade por trás dos episódios apresentados na saga, as consequências de uma vida devotada aos superpoderes, se encantando pelo homem escondido no mito. Além de apostar num cenário desesperançoso, o realizador investiu numa linha narrativa mais particular, quase 'indie', equilibrando drama, violência e humor ao traduzir a deterioração física do mutante e a sua profunda relação com a feroz X-23. Com a força necessária para transpor as barreiras deste escapista gênero, Logan comprovou que é possível construir uma obra densa sem abdicar do potencial do entretenimento. Prova disso é que, em apenas dez dias, o filme já faturou mais de US$ 438 milhões ao redor do mundo, números expressivos para uma produção "direcionada" para um público específico. Dito isso, embora a dobradinha Marvel\Disney, atualmente, dite as "regras do jogo" com o seu rico e bem sucedido universo cinematográfico, a Fox segue dando a sua decisiva colaboração quanto aos filmes de super-heróis, se consolidando como o estúdio que, nos momentos de maior adversidade, foge da mesmice e segue arriscando dentro deste concorrido segmento.

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