terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Jackie

O trágico fim de um conto de fadas americano


Redundante enquanto recorte histórico, Jackie garante a sua relevância ao tentar entender o impacto da morte do presidente John F. Kennedy sob o intimista ponto de vista da sua primeira dama, a popular Jacqueline Kennedy. Conduzido com extrema elegância por Pablo Larraín (No), o longa utiliza o luto como o ponto de partida para um estudo de personagem mais amplo e complexo, um relato sobre a imensurável dor da perda, mas também sobre o valor da memória e a preocupação de uma esposa em manter vivo o legado do seu querido marido. Sem um pingo de condescendência, o realizador chileno é sutil ao transitar pelos temas mais espinhosos em torno da protagonista, entre eles o seu forte midiatismo, as suas frustrações matrimoniais e a sua fragilidade emocional diante deste caótico cenário, uma série de reflexivas questões habilmente costuradas dentro envolvente argumento. No momento em que decide encontrar um sentido para as atitudes da personagem, porém, o roteiro expõe a sua faceta mais frágil, se escorando em respostas fáceis ao entregar um clímax solene e impessoal. Um desfecho aquém da poderosa atuação de Natalie Portman, magnífica ao descortinar o turbilhão de emoções da sua personagem, uma mulher determinada a defender o símbolo que ela ajudou a erguer mesmo perante o trágico fim do seu tão estimado conto de fadas.


Impecável ao desvendar o lado mais frágil desta resiliente figura, o argumento assinado por Noah Oppenheim é sagaz ao utilizar a primeira entrevista dada por Jackie Kennedy como o ponto de partida para o desenvolvimento de um relato íntimo e particular. Além de seguir o protocolo no que diz respeito ao fatídico episódio em si, um tema explorado com o peso necessário ao longo dos dois primeiros atos, Pablo Larraín mostra categoria ao introduzir a faceta mais midiática da personagem, realçando o apreço de Jackie pela Casa Branca e pela imagem que ela construiu ao lado do seu marido. Fazendo um desprendido uso da narrativa não linear, o realizador utiliza o sincero jornalista interpretado Billy Crudup, afiado em cena, como o elemento provocador, um homem imparcial disposto a extrair a verdade por trás das atitudes desta personagem. Através de diálogos honestos, reveladores flashbacks e abruptas mudanças de cena, a conflitante interação entre entrevistador e entrevistada joga uma luz não só sobre a desoladora situação de Jackie nas horas seguintes após a morte do seu marido, como também descortina os seus medos pessoais enquanto ex-primeira dama. Sem querer contar muito, a cena em que ela narra os detalhes em torno da sua reação ao fatídico tiro é profunda e desconcertante, uma ode ao simples poder das palavras e da interpretação.


Após estabelecer o impacto daquela bala na rotina de Jackie, Pablo Larraín foge do lugar comum ao mostrar a sua preocupação com o legado do marido, com a imagem que ela deveria passar para a nação neste momento de luto. Um pensamento aparentemente fútil, mas que se torna compreensível quando percebemos a sua conexão com o status de primeira dama e a sua completa dedicação à construção deste "conto de fadas" em forma de matrimônio. Sem nunca julga-la, o realizador chileno esbanja delicadeza ao traduzir o sentimento de inércia que tomou conta da sua rotina, a sensação de isolamento da protagonista perante a iminente perda de poder, expondo a falta de rumo de uma mulher que devotou parte da sua vida a uma causa repentinamente perdida. Entre breves discussões envolvendo os preparativos para o funeral e poucas palavras realmente afetuosas, chama a atenção a solidão de Jackie, o seu "abandono" diante das preocupações de cunho politico, um elemento potencializado pela maneira formal com que Larraín retrata a opulência da Casa Branca. Com planos abertos\médios e uma câmera móvel que parece persegui-la pelos corredores da mansão, ele coloca a personagem no centro das cenas, no olho do furacão, contrastando a sua aparência deteriorada com o luxo da sede da presidência. Numa solução inventiva, inclusive, o diretor capricha nas cores no que diz respeito aos figurinos da viúva, realçando a sua presença dentro deste cenário. Uma opção que, diga-se passagem, é incrementada pela pálida e imersiva fotografia de Stéphane Fontaine (Capitão Fantástico), impecável ao reproduzir o vazio experimentado por ela.


O longa sobe de patamar, no entanto, no momento em que o realizador decide se debruçar sobre os conflitos de Jackie enquanto mulher. Mesmo limitado pela fragilidade de alguns dos diálogos, Pablo Lerraín investe numa abordagem mais pessoal ao desconstruir o mito do casamento perfeito, ao falar sobre as desilusões amorosas da ex-primeira-dama. Dentro de um contexto quase confidencial, o diretor chileno é habilidoso ao realçar a frustração presente nesta relação, o distanciamento entre ela e o seu "popular" marido e a postura errática da protagonista quanto o futuro da sua vida afetiva. A curta aparição do padre liberal interpretado com maestria pelo saudoso John Hurt, por exemplo, traz um tempero especial para a trama, justamente por abrir espaço para os desabafos mais reprimidos de Jackie. Somado a isso, Lerraín é virtuoso ao enfatizar a sensação de intimismo presente nestes encontros, investindo em planos fechados e enquadramentos que só se preocupam em valorizar a expressão do elenco. O que, verdade seja dita, se revela um grande trunfo, principalmente quando levamos em consideração a brilhante atuação de Natalie Portman.


Magnífica ao traduzir todas as fases do luto, a atriz israelense demonstra pleno domínio cênico ao absorver o turbilhão de emoções enfrentado por uma desolada Jackie Kennedy. Com uma fala doce e uma postura sempre elegante, Portman se impõe em cena com absurda naturalidade, indo da resiliente à fragilizada sem nunca perder o controle. Por trás desta preocupação com a sua imagem, porém, existe uma mulher disposta a reprimir os seus próprios sentimentos em prol de um bem maior, da manutenção de um símbolo, um fator altruísta capturado com humanidade pela atriz. Nos momentos mais desesperadores, inclusive, ela nos brinda com uma performance única, um trabalho comovente potencializado pelo excelente senso de reconstrução histórica do diretor e da equipe de direção de arte. Outro que merece destaque, aliás, é o intenso Peter Sarsgaard, fantástico na pele do irmão Bobby Kennedy. Com feições abaladas e uma forte voz de comando, é através dele que o filme transita pelas questões mais políticas, culminando numa cena realmente marcante. Por fim, mesmo subaproveitada, a excelente Greta Gerwig esbanja sensibilidade ao interpretar a assistente Nancy Tuckerman, a figura mais amistosa na rotina da protagonista.


Em meio a tantos predicados, no entanto, Jackie patina no seu ato final. Não contente em expor os dilemas mais íntimos da ex-primeira-dama, Pablo Lerraín se perde ao tentar encontrar as respostas para todas as perguntas em torno da personagem. Por mais que a sequência do funeral seja bem arquitetada, incrementada pelos compassos marcantes da austera e incomoda trilha sonora da violoncelista Mica Levi (Sob a Pele), o diretor se rende a uma abordagem exageradamente solene. Após dois atos genuinamente comedidos, Lerraín abraça algumas soluções mais redundantes, flertando com o melodrama ao trazer à tona temas que já pareciam ter sido esgotados. Embora visceral, a sequência do assassinato de John Kennedy soa dispensável, principalmente quando a comparamos com a magnífica cena em que a viúva descreve este mesmo episódio com emocionadas palavras. Além disso, por mais que a simbólica última sequência seja inteligente e coerente com os sentimentos da protagonista, o longa se esforça para dar um desfecho cinematográfico para a jornada desta marcante personagem, culminando num clímax acelerado, convencional e que se estende além do necessário.


Em suma, indiscutível enquanto estudo de personagem, Jackie se revela um relato humano e denso sobre uma mulher que se viu "obrigada" a encarar a realidade de maneira trágica e repentina. E numa época em que a palavra legado anda tão desvalorizada, o esforço midiático da ex-primeira-dama se torna relevante quando percebemos que, cinco décadas depois, a moderna figura de John Kennedy segue causando grande fascínio e rendendo importantes obras cinematográficas.

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