quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Até o Último Homem

Mel Gibson encontra o "perdão" num drama que se sustenta na sua poderosa mensagem antibélica

Após dar uma série de polêmicas declarações antissemitas em 2006, Mel Gibson viu o seu prestígio despencar dentro da indústria de Hollywood. Por mais que o realizador tenha se mantido ativo na última década, entregando, inclusive, alguns competentes trabalhos, entre eles o thriller O Fim da Escuridão (2010) e o drama Um Novo Despertar (2011), o fato é que a estrela de Coração Valente precisava de um filme do porte de Até o Último Homem para receber um merecido "perdão". Embora seja o trabalho mais irregular do realizador por trás das câmeras, o longa estrelado pelo sensível Andrew Garfield cumpre a sua missão no momento em que decide propor uma visceral mensagem antibélica. Inspirado numa extraordinária história real, o astro australiano pesa a mão ao tentar transformar um altruísta herói de guerra numa figura messiânica, reduzindo o peso de algumas questões mais complexas ao se prender exageradamente ao pano de fundo religioso. Quando o filme invade as trincheiras, no entanto, Mel Gibson mostra porque a sua ausência foi tão sentida, nos brindando com um drama de guerra cru e pacifista que faz jus a títulos do porte de Sem Novidade no Front (1930) e Glória Feita de Sangue (1957). 



Num primeiro momento, porém, Até o Último Homem patina ao adotar uma dose de ingenuidade incompatível com a força da sua premissa. Com base nos incríveis feitos do soldado Desmond Doss, um jovem religioso e obstinado que, sem precisar pegar em uma arma, salvou 75 vidas durante a batalha de Okinawa, o oscilante roteiro da dupla Robert Schenkkan e Andrew Knight é falho ao desvendar os motivos por trás da postura idealista do protagonista. Logo nos primeiros minutos de projeção, o longa peca pelo reducionismo ao introduzir a origem da vocação antibélica do personagem, esvaziando um tema promissor ao aparentemente limita-lo a um sentimento de culpa. Por mais que a cena seja realmente impactante, o argumento pesa a mão ao trazer o contexto religioso para o centro da trama, se desviando dos dilemas mais íntimos do jovem. Na verdade, o problema não está na maneira com que a película apresenta a fé inabalável de Desmond e a sua aversão ao uso de armas, mas no descuido dos roteiristas ao revelar os traumas do jovem e os motivos que ajudaram a determinar esta postura. A complexa relação entre o determinado soldado e o seu agressivo pai, por exemplo, merecia um maior tempo de tela, principalmente por expor o impacto da violência na rotina do protagonista.


De longe o elemento mais humano da película, o veterano da Primeira Guerra Mundial surge como um indivíduo moldado pelo conflito, uma figura atormentada e multidimensional que se torna um dos grandes trunfos dentro do datado primeiro ato. Em alguns momentos, inclusive, o roteiro até aponta para as questões mais pessoais envolvendo este complicado relacionamento, mas as eventuais respostas sobre a personalidade do protagonista são diluídas diante das pretensões religiosas de Mel Gibson. Uma opção que, diga-se de passagem, nos leva ao segundo grande equívoco do longa. Embora Andrew Garfield convença ao traduzir a crença do seu personagem, Até o Último Homem perde força no momento em que decide atribuir a ele uma aura quase superior. Indo de encontro do próprio discurso de Desmond Doss, que, por diversas vezes, exige um tratamento igual aos demais soldados, o diretor força a barra ao ressaltar o altruísmo, a resiliência e a pureza do jovem militar, criando um herói unidimensional que em nenhum momento se vê obrigado a expor as suas fragilidades e inseguranças. Além disso, Gibson flerta perigosamente com o exagero ao pontuar o acelerado clímax, exibindo o seu particular ponto de vista ao transformar Desmond numa figura quase messiânica. O que, aliás, talvez explique alguns dos excessos do roteiro, a maioria deles envolvendo a onipresença do protagonista dentro do campo de batalha e sua capacidade de fugir do "radar" dos japoneses.


Menos mal que, mesmo diante de algumas duvidosas opções narrativas, Mel Gibson mostra a sua velha forma quando o assunto é a construção da mensagem pacifista. Dentro de um contexto inicialmente inocente, que, à sua maneira, me fez lembrar o clássico Full Metal Jack (1987), o longa ganha substância ao reproduzir as barreiras enfrentadas pelo jovem militar dentro do quartel. Ainda que a relação do protagonista com os seus companheiros de farda seja conduzida com uma ligeira dose de conveniência, o diretor transita por temas mais maduros ao revelar o impacto da crença de Desmond na rotina da tropa e dos seus superiores. Entre brigas superficiais e um interessante debate jurídico, o argumento aqui é mais cuidadoso ao tratar o personagem como um soldado comum, um aspirante a médico disposto a servir o seu país sem pegar em uma arma. Até o Último Homem, porém, se torna um novo filme no momento em que invade as trincheiras nipônicas. Numa sacada perspicaz, após uma primeira hora ensolarada e otimista, Gibson esmurra o estômago do espectador ao apresentar a trágica realidade de uma guerra. Como de costume em sua carreira, o australiano é visceral ao traduzir a violência do campo de batalha, a sensação de caos e vulnerabilidade, adotando uma pegada propositalmente 'gore' ao traduzir horror do confronto. Fazendo um primoroso uso do refinado desenho de som e da pálida fotografia de Simon Duggan (Eu, Robô), o diretor mostra pleno domínio cênico ao colocar o público no centro da ação, realçando o fator humano ao traduzir a deterioração imposta em um ambiente tão hostil. Embora o foco sempre esteja nos personagens principais, Gibson acerta ao não escolher lados e nem vítimas, ao não exaltar a batalha em si, o que só potencializa a sua crítica envolvendo a ignorância da guerra.


E como se não bastasse o seu rigor técnico ao compor as implacáveis sequências de batalha, que, apesar da proposta caótica, em nenhum momento soam confusas aos olhos do espectador, o diretor é igualmente impecável ao acompanhar os inestimáveis feitos de Desmond Doss. Indo de encontro ao teor superficial do primeiro ato, Mel Gibson equilibra religião e altruísmo ao revelar o esforço hercúleo do protagonista, nos brindando com sequências humanas, realísticas e coerentes com os fatos. Sem querer revelar muito, a cena em que ele resgata um militar que acreditava estar cego é de emocionar, principalmente quando nos deparamos com o arrepiante depoimento dado pelo verdadeiro Desmond durante as cenas pré-credito. Um mérito que, diga-se de passagem, precisa ser dividido com Andrew Garfield. Apesar das exageradas intenções de Mel Gibson atrapalharem, o talentoso ator inglês é sutil ao tornar crível a vocação antibélica do seu personagem. Em alguns momentos, inclusive, o ator compensa a falta de qualidade do roteiro quanto às questões mais íntimas, adicionando peso a alguns dos protocolares diálogos. Além disso, Garfield exibe uma ótima química com a magnética Theresa Palmer, dando vida a uma singela história de amor que funciona dentro da sua proposta. O mesmo, aliás, acontece com o restante do elenco, que, mesmo sem brilhar, cumpre a sua função sem maiores dificuldades. Na verdade, o único que acompanha o desempenho de Andrew Garfield é o talentoso Hugo Weaving, magnífico ao capturar o misto de instabilidade e degradação do seu marcante personagem. Numa escalação no mínimo original, aliás, o carismático Vince Vaughn também merece elogios, se revelando um pontual alívio cômico ao interpretar um verborrágico sargento.


Ora burocrático, ora contundente, Até o Último Homem é um drama recheado de contrastes que marca a redentora (e bem-vinda) volta de Mel Gibson aos holofotes de Hollywood. Usando a violência para questionar a violência, o realizador australiano realmente pesa a mão ao tentar transformar o protagonista numa figura quase "messiânica", mas compensa no momento em que decide abraçar a relevante mensagem antibélica por trás dos incríveis feitos de Desmond Doss. O resultado é uma obra que, após uma primeira metade formulaica, ganha uma hora final realmente impactante, uma explosão de dor e caos que só um realizador com a coragem de Gibson poderia tirar do papel. 

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