terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Resident Evil: Do Melhor ao Pior


Um dos poucos a entender a complexa missão que é adaptar um game para os cinemas, o diretor Paul W.S. Anderson pode ser considerado uma referência dentro do gênero. Após entregar o primeiro grande sucesso deste segmento, o divertido Mortal Kombat (1995), o realizador se viu numa situação mais delicada no momento em que recebeu a missão de levar para as telas grandes o cultuado Resident Evil. Com um universo vasto e particular em mãos, Anderson decidiu reinterpretar a estrutura do jogo. Convicto que um filme de zumbis sobre um grupo de sobreviventes dentro de uma mansão isolada poderia ser pouco atraente junto ao grande público, o realizador resolveu adotar uma atmosfera mais pop e 'hi-tech'. Além de criar uma nova protagonista, a indomável Alice (Milla Jovovich), Anderson optou acertadamente por se concentrar nas escusas intenções da Umbrella, criando uma corporação vilanesca que se tornou um dos grandes trunfos do acelerado primeiro longa.


Com o avanço da saga, aliás, Paul W.S Anderson foi igualmente perspicaz ao introduzir não só os principais personagens do jogo, entre eles os populares Leon, Jill Valentine, Chris e Claire Redfield, como também algumas das criaturas mais icônicas da saga, permitindo que o público identificasse os paralelos entre os games e os filmes. Por mais que os fãs tenham razão em reclamar que a versão cinematográfica de Resident Evil falhe ao traduzir o clima de horror presente no game, o fato é que as mudanças surtiram efeito, tanto que a série chegou ao seu sexto e último filme como a única franquia de games que realmente deu certo no cinema. Dito isto, nesta matéria especial, confira o nosso ranking com os melhores e os piores filmes da franquia e a uma breve análise sobre os erros e os acertos em torno da versão cinematográfica do universo Resident Evil. 

6º Resident Evil 3: A Extinção (2007)


O longa mais distante do universo dos games da franquia Resident Evil, A Extinção é também o mais arriscado da franquia. E merece elogios por isso.  Inserido num cenário totalmente diferente, uma desértica e pós-apocalíptica Las Vegas, o longa dirigido pelo experiente Russell Mulcahy (Highlander: O Guerreiro Imortal) esbarra no seu fraquíssimo roteiro. Embora o aspecto narrativo não seja o forte da franquia, nesta continuação a fragilidade do argumento subaproveita não só potencial visual da película, como também alguns dos novos personagens. Trazendo o vilão mais cerebral da série cinematográfica, o obcecado Dr. Isaacs (Iain Glen), o terceiro longa falha ao multiplicar os excessos do final do seu antecessor, reduzindo o impacto da trama ao introduzir uma Alice fria e superpoderosa. Por mais que a questão da clonagem em si seja até bem explicada, o roteirista Paul W.S Anderson se distancia perigosamente da história base ao tornar a sua protagonista praticamente invulnerável, reduzindo a sensação de perigo que geralmente acompanha os filmes do gênero.


Somado a isso, a motivação em torno da tão comentada viagem para o Alaska, um possível refúgio para a epidemia zumbi, é ridícula, assim como o repentino interesse romântico entre Alice e Carlos (Oded Fehr). Em contrapartida, Resident Evil: A Extinção é certeiro, por exemplo, ao introduzir a importante Claire (Ali Larter). Longe de ser uma coadjuvante, a personagem ganha uma roupagem 'bad-ass' e se torna mais uma protagonista feminina forte dentro da saga. Além disso, Mulcahy esbanja ferocidade ao construir as agressivas sequências de ação. Com um visual digno dos melhores filmes do gênero, principalmente quando o assunto é a concepção dos assustadores zumbis, o realizador entrega três grandiosas sequências de ação, com destaque para a cena envolvendo o ataque em Las Vegas. O único senão fica para o artificial uso do CGI, um problema que se torna evidente tanto no ataque dos corvos mutantes, quanto nas sequências envolvendo os elementos mais poderosos desta continuação. Em suma, enquanto filme de terror\sobrevivência, Resident Evil: Extinção poderia figurar entre os melhores desta franquia. Como uma peça do quebra-cabeça montado por Paul W.S Anderson, porém, o longa deixa a desejar e não consegue explicar os exageros em torno do desfecho de Apocalypse.

5º Resident Evil: O Hóspede Maldito (2002)


Responsável por introduzir o universo do game no cinema, Resident Evil: O Hóspede Maldito reinventa esta popular franquia japonesa. Inserido num contexto mais pop e direcionado ao cinema de ação, o longa dirigido por Paul W.S Anderson se distanciou por completo do imersivo primeiro jogo da série. Esqueça a mansão misteriosa, os policiais sobreviventes e o clima "Romeriano". Disposto a tornar o seu produto mais comercial possível, o roteiro assinado pelo próprio diretor avançou na franquia, acertando ao dar uma ênfase maior aos interesses escusos da Umbrella Corporation. Além dos agressivos zumbis, o longa apresenta a perigosa Red Queen, uma inteligência artificial disposta à tudo para que a contaminação com o T-Vírus não deixe a Colmeia, o QG da Umbrella. Inegavelmente, uma criativa antagonista. Num momento em que o CGI explodia em Hollywood, Anderson faz um interessante uso dos recursos digitais na construção das sequências de ação, resgatando alguns elementos da série de games, entre ele os cães mutantes dentro de um cenário mais 'hi-tech'. Embora o roteiro siga uma estrutura narrativa bem previsível, é legal ver o cuidado do realizador ao arquitetar a personalidade da sua protagonista, a indomável Alice, uma das poucas personagens femininas à assumir as rédeas de uma franquia deste porte. Somado a isso, O Hospede Maldito mostra inspiração ao preparar o terreno para a sua sequência, nos brindando com uma sequência final que se conecta diretamente com a cena de abertura de Resident Evil 3: Nêmeses. 

4º Resident Evil 4: O Recomeço (2010)


Fazendo um criativo uso do 3-D, Resident Evil 4: O Recomeço marcou a volta de Paul W.S Anderson à franquia. Competente ao resgatar o clima de tensão presente no game, o longa se revela um entretenimento seguro, principalmente quando explora o clima de desconfiança entre os personagens dentro de um enclausurado cenário, uma prisão cercada por zumbis. Além de introduzir um dos personagens mais queridos do jogo, o popular Chris Redfield (Wentworth Miller), o quarto filme da franquia soube explorar a dinâmica entre os protagonistas, a presença vilanesca do detestável Bennett (Kim Coates) e a ameaça silenciosa do imponente Axeman. Apesar de trazer algumas das mais memoráveis sequências de ação da série, a luta no banheiro é espetacular, Anderson se perde no momento em que a trama deixa a prisão. Por mais que a presença de Albert Wesker (Shawn Roberts, canastrão) soe interessante, o inconclusivo último ato se revela um problema, principalmente no aspecto estético, culminando num clímax datado e previsível. Ainda assim, Resident Evil 4: O Recomeço funciona enquanto filme de ação\suspense, o que talvez explique os US$ 296 milhões conseguidos pela película nas bilheterias ao redor do mundo. Além disso, o longa se preocupa em corrigir os excessos do longa anterior, resolvendo em uma virtuosa e empolgante sequência de abertura todo o exagero em torno dos superpoderes de Alice e as suas múltiplas clonagens.

3º Resident Evil: O Capítulo Final (2017)


Embora se escore em algumas soluções frágeis, Resident Evil: O Capítulo Final é perspicaz ao preparar o terreno para o tão esperado embate entre Alice e a Umbrella Corporation. Assim como no subestimado longa anterior, o realizador faz um inventivo uso do artifício da clonagem, aqui explicado com maior propriedade, adicionando um tempero especial ao longa ao resgatar o melhor antagonista da saga, o obstinado Dr. Isaacs. Além disso, Anderson é igualmente habilidoso ao introduzir a origem de peças chaves da franquia, entre eles o T-Vírus e a perigosa Rainha Vermelha (Ever Anderson, filha de Paul e Milla), os costurando a trama com agilidade e poder de síntese. Num todo, aliás, o sexto filme é o que melhor equilibra a ação com o desenvolvimento narrativo, conseguindo pontuar a jornada de Alice com vigor e boas ideias. 


No que diz respeito ao aspecto visual, O Capítulo Final fica atrás dois dos últimos longas da franquia. Inicialmente, Paul W.S Anderson mostra categoria ao revelar a destruição global em um avermelhado cenário desértico. Disposto a realçar o caos em torno de Alice, o realizador coloca o espectador no centro da ação ao investir em takes nervosos, sequências frenéticas marcadas pelos cortes rápidos, elaboradas coreografias e pela fisicalidade. Nas cenas noturnas, porém, os problemas são evidentes. Indo de encontro ao luminoso quinto longa, o diretor se rende a um escurecido ambiente pós-apocalíptico, talvez com a intenção de mascarar a artificialidade quanto ao CGI. Menos mal que, no momento em que a trama retorna para a sede da Umbrella, o diretor é virtuoso ao explorar a vastidão da colmeia, investindo numa ambientação suja e sombria. Além disso, Anderson acerta ao ressaltar a vulnerabilidade da protagonista, ampliando a atmosfera de tensão em torno deste sexto longa. Em suma, com um clímax engenhoso e tecnicamente bem executado, Resident Evil: O Capítulo Final oferece um desfecho digno para a jornada de Alice. (Leia a nossa opinião completa aqui)

2º Resident Evil 2: Apocalypse (2004)


Sob a batuta de Alexander Witt, Resident Evil 2: Apocalypse é o filme que melhor soube traduzir o clima de insegurança presente no jogo. Responsável por introduzir a policial Jill Valentine (Sienna Guillory), que, inadvertidamente, surge como uma espécie de coadjuvante de luxo, o longa abraça a atmosfera de sobrevivência ao narrar a jornada de vingança de Alice e a sua busca pelos responsáveis pelos episódios do primeiro filme. Por mais que o filme tenha uma mais premissa mais rasa do que o seu antecessor, a questão corporativa é menos explorada nesta continuação, Apocalypse é sagaz ao introduzir o vilanesco Nêmeses, um antagonista imponente que ganha uma interessante roupagem mais humana. Além disso, a sequência ganha um cenário condizente com o universo do game, uma pegada urbana que remete diretamente à Raccon City. Num todo, aliás, os takes de ação são ágeis, caóticos e bem orquestrados, vide a cena da Igreja, o que faz de Resident Evil: Apocalypse um dos filmes mais "familiares" para os fãs da franquia de games. Aos 45 minutos do segundo tempo, porém, Anderson peca pelo exagero ao introduzir a metamorfose superpoderosa de Alice, reduzindo esta significativa mudança a um pequeno gancho para o terceiro longa. Esta mudança no 'status quo' da franquia, aliás, se tornou o grande calcanhar de Aquiles da série, tornando compreensível a reclamação dos 'gamers' mais intransigentes.

1º Resident Evil 5: Retribuição (2012)


Sem medo de errar, Resident Evil: Retribuição é o filme mais subestimado da saga. Com um visual marcante e um refinado desenho de produção, Paul W.S Anderson elevou o patamar técnico da franquia ao entregar um longa empolgante do início ao fim. Como se não bastassem as incessantes e virtuosas sequências de ação, o realizador traz o universo 'gamer' para o centro desta continuação, investindo em cenários variados que remetem diretamente a dinâmica de fases dos populares arcades. Inspirado em títulos cult como O Sobrevivente (1987) e Cubo (1997), Anderson renovou a estrutura narrativa da franquia ao investir numa trama simples e objetiva, colocando Alice numa divertidíssima jornada pela sobrevivência. Já na estilosa sequência de abertura, que se conecta criativamente com o antecessor, o realizador introduz a nova ameaça da Umbrella Corporation e o destino de Alice após o ataque ao navio no Alasca. Com um roteiro sucinto e sutilmente didático, o longa é habilidoso ao não só apresenta o QG de testes da corporação, uma base superprotegida comandada pela temida Rainha Vermelha, como também ao amarrar algumas das pontas soltas deixadas nos longas anteriores. E isso sem nunca abdicar da ação, que dita o frenético tom deste quinto título da série.


Por mais que o argumento requente algumas soluções já utilizadas na franquia, principalmente quando o assunto é a pequena Becky (Aryana Engineer), Retribuição se revela o filme mais estável da franquia. No embalo de uma premissa mais instigante, Paul W.S Anderson aproveita as possibilidades permitida pelo roteiro ao entregar uma obra esteticamente impecável. Cuidadoso ao compor a 'clean' e 'hi-tech' base de testes da Umbrella, que chama a atenção dentro do envolvente primeiro ato, Anderson é igualmente inventivo ao arquitetar as "fases" impostas pela Rainha Vermelha, investindo em cenários distintos e visualmente particulares. Sem querer revelar muito, a sequência em que Alice precisa enfrentar uma horda de zumbis em Tóquio é espetacular, assim como o sufocante ataque em um ambiente tipicamente suburbano. Num todo, aliás, o quinto filme da série entrega as melhores cenas de ação da franquia. Sem apelar para os superpoderes de Alice, o longa investe em coreografias mais críveis, takes ágeis capturados com nitidez pelas lentes de Paul W.S Anderson. E como se não bastasse a divertida dinâmica 'gamer', o roteiro é perspicaz ao introduzir alguns novos e velhos personagens, criando uma interessante sinergia entre a franquia cinematográfica e a de videogames. Com destaque para a (tardia) presença do 'bad-ass' Leon e o retorno da feroz Rain (Michelle Rodriguez). Por fim, embora tenha inegáveis problemas, a maioria deles envolvendo a inexplicável mudança de lado do Wesker e a ausência de um vilão mais presente, Resident Evil: Retribuição justifica a pegada pop idealizada por Anderson lá no longínquo ano de 2002. 

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