quarta-feira, 8 de junho de 2016

Do Fundo do Baú (Serpico)

Uma viatura em alta velocidade. Um policial baleado lutando pela vida. A informação se espalha causando reações diversas. A partir desta instigante combinação de cenas, o aclamado diretor Sidney Lumet (Rede de Intrigas) prepara o terreno para narrar as desventuras de um oficial incorruptível. Inspirado em uma história real, Serpico (1973) coloca o dedo na ferida ao escancarar o corrompido 'modus operandi' de um departamento de policia norte-americano. Contando com a primorosa atuação de Al Pacino, magnífico ao absorver o misto de emoções enfrentado pelo seu idealista personagem, o longa se revela um relato intenso, corajoso e absolutamente atual. Um thriller policial cujo antagonista é a própria policia.

Inspirado na biografia assinada pelo jornalista Peter Maas, o argumento assinado por Waldo Salt e Norman Wexler é cuidadoso ao reproduzir o funcionamento deste corrompido sistema. Através de uma abordagem extremamente humana, o roteiro faz questão de ressaltar não só o quão enraizada era a corrupção, como também a reação dos oficiais dentro esta nociva engrenagem. Desta forma, enquanto uns se viam obrigados a participar do esquema, temendo as consequências de uma recusa, outros encabeçavam esta "organização" clandestina sem qualquer tipo de pudor. Neste cenário ameaçador, conhecemos o correto Frank Serpico (Pacino), um oficial recém-formado que acreditava na sua vocação. Disposto a fazer a diferença, ele é pego de surpresa no momento em que se depara com a sujeira do seu departamento. Indignado, Serpico resolve bater de frente com esta estrutura criminosa, enfrentando a resistência dos seus "parceiros" ao iniciar uma arriscada jornada contra a corrupção policial.


Maduro e contundente, Serpico envolve ao mostrar de maneira realística a luta deste indomável detetive. Através de uma narrativa intensa e comedida, Sidney Lumet constrói um thriller político e questionador, escancarando este nefasto esquema com absoluta propriedade. Numa opção ousada, o realizador resolve abrir o filme já mostrando o destino do personagem, ampliando a atmosfera de tensão ao realçar o quão devastadoras seriam as consequências dos seus atos. Não espere, porém, sufocantes sequências de ação. As ameaças surgem quase sempre de maneira velada, nas palavras não ditas, evidenciando a dificuldade dos bons oficiais em confrontar este sistema corrupto. Melhor ainda, no entanto, é a maneira gradativa com que o argumento acompanha a desconstrução emocional do protagonista.


Impulsionado pela soberba atuação de Al Pacino, Lumet é cuidadoso ao acompanhar a desilusão do policial diante deste cenário altamente nocivo. Contrariando as expectativas, Serpico se mostra inicialmente um tipo refinado e alto astral, um homem carismático que não enxergava na força bruta a melhor maneira de lidar com a criminalidade na região. No entanto, à medida que a corrupção surge no seu radar, o personagem passa a absorver sentimentos mais hostis, mais obsessivos, se isolando numa missão frustrante e altamente perigosa. Com uma figura realmente fértil em mãos, Al Pacino esbanja talento ao traduzir os contrastes em torno do detetive. Apesar do forte idealismo do protagonismo, o ator se esquiva por completo da unidimensionalidade ao criar um tipo humano e resiliente. Um personagem nitidamente influenciado pela voracidade do meio em que escolheu viver. Nesse sentido, aliás, da relação amorosa entre Serpico e a gentil Laurie (Barbara Eda-Young, impecável) nasce uma subtrama sensível e reveladora, um arco onde Pacino expõe o desmoronamento do seu personagem com honestidade e intensidade.



Conduzido com estilo por Sidney Lumet, com direito a enquadramentos milimetricamente calculados, Sérpico é um thriler ousado que investiga com contundência a criminalidade dentro da própria policia. Um relato universal que escancara um problema frequentemente enfrentado em algumas das maiores metrópoles mundiais. 

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