sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O Quarto de Jack

Dor, Amor e Esperança

Inspirado no best-seller 'Room', da escritora Emma Donoghue, O Quarto de Jack se esquiva por completo dos melodramas ao adaptar uma premissa ao mesmo tempo dolorosa e reconfortante. Conduzida com sensibilidade pelo talentoso Lenny Abrahamson, do estranho e autoral Frank (2014), a película adota uma abordagem intimista ao traduzir o impacto de um sequestro na vida de uma mulher e do seu amado filho. A partir de um comovente ponto de vista infantil, o realizador é sutil ao se aprofundar nos traumas enfrentados pelos dois durante o período em cárcere privado, encontrando nas arrebatadoras atuações de Brie Larson e do pequeno Jacob Tremblay o misto de emoções necessárias para construir uma poderosa mensagem de amor e esperança. Um relato surpreendente e desconfortavelmente encantador sobre uma mãe que, na tentativa de impedir que o seu filho experimentasse os horrores deste episódio, transformou o seu cativeiro num lugar mágico e único no mundo.



E esta mistura de sentimentos, inegavelmente, se torna um dos principais trunfos de O Quarto de Jack. Amparado pelo excelente roteiro, adaptado pela própria Emma Donoghue, Lenny Abrahamson investe num inspirado tom lúdico ao reproduzir uma história por si só devastadora. Mesmo narrado sob o fantasioso ponto de vista do pequeno Jack, o argumento não parece disposto a fugir dos temas e das situações mais pesadas, traduzindo com sutileza a degradação física e emocional imposta a esta zelosa mãe. Na maioria das vezes, inclusive, a violência surge fora de quadro, subentendida, contrastando com a inocência do menino em sequências incomodas e naturalmente angustiantes. Na trama, mantida em cativeiro ao longo de sete anos, Joy (Larson) procurou fazer de tudo para que o seu filho pudesse ter uma infância feliz. Nascido e criado dentro de um minúsculo quarto, o jovem cresceu ouvindo as histórias da mãe, acreditando que eles eram únicos e que não existia vida fora daquele lugar. Temendo pela vida do esperto Jack (Tremblay), Joy resolve colocar em prática um elaborado plano de fuga, buscando devolve-lo a realidade que lhe foi abruptamente tomada.


Dividido em duas partes bem definidas, o Quarto de Jack abre mão dos clichês ao se concentrar nas consequências deste chocante episódio nas vidas de mãe e filho. Sem maiores preocupações com relação ao suspense, esvaziado pelas reveladoras prévias, Abrahamson brilha ao encontrar a magia por trás de uma história tão devastadora, indo a fundo ao desenvolver as nuances por trás desta afetuosa relação. Incrementado pelo pontual recurso da narração em off, o argumento é ágil ao introduzir tanto a realidade alternativa criada por Joy, quanto os dilemas enfrentados pelos dois, expondo de maneira gradativa os seus maiores medos e desilusões. Fazendo um primoroso uso do claustrofóbico cenário inicial, o diretor é minucioso ao explorar por todos os ângulos o minúsculo quarto, traduzindo com sensibilidade e intimismo a ação do confinamento sobre eles. Afinal de contas, enquanto para Joy o galpão era um local sufocante, para o seu carismático filho o lugar sempre pareceu especial, um fantástico mundo criado por sua generosa mãe. Deste choque de percepções, aliás, nasce algumas das melhores e mais intensas sequências do longa, principalmente quando ela tenta apresentar a Jack a realidade que tanto lutou para esconder. Méritos para a versátil fotografia de Danny Cohen, que, de maneira inesperada, evidencia este contraste ao tornar o obscuro cativeiro um lugar estranhamente acolhedor aos olhos de Jack. 


À medida que a película deixa a clausura, no entanto, o ritmo do longa parece mudar. E propositalmente. Numa quebra inesperadamente bem conduzida, O Quarto de Jack abre mão do clima fantasioso ao analisar com contundência o impacto do sequestro na árdua ressocialização dos dois protagonistas. Valorizando o silêncio e a expressividade dos seus comandados, Lenny Abrahamson se distancia dos melodramas ao expor os traumas dos personagens, não se contentando com um apressado e genérico final feliz. Além de acompanhar o primeiro contato de Jack com o mundo real, que, ao contrário do quarto, ganha uma aura fria e desconfortavelmente iluminada, o argumento é particularmente habilidoso ao traduzir o misto emoções experimentadas por Joy nesta volta para casa. Por mais que o garoto siga no centro das atenções ao longo da parte final da trama, Abrahamson comove ao revelar a faceta mais vulnerável da jovem mãe, invertendo o 'status quo' desta singela relação. Até porque, assim como no cativeiro, mãe e filho reagem de maneira distintas ao se deparar com esta "espaçosa" nova realidade. Sem querer revelar muito, o processo de readaptação dos dois é desenvolvido com maestria ao longo dos dois últimos atos, culminando numa cena final terna e absolutamente memorável. O único senão fica pela subaproveitada figura paterna interpretada pelo talentoso William H. Macy, um tipo de aparência interessante, mas que acaba esquecido dentro do intenso último ato. Em contrapartida, a expressiva Joan Allen adiciona um inestimável peso à película como a mãe de Joy, encarando esta dolorosa reaproximação com uma sobriedade impressionante.


Independente dos méritos narrativos, a força de O Quarto de Jack reside nas fantásticas atuações. Indicada ao Oscar de Melhor Atriz, Brie Larson captura com rara inspiração a aura sofrida da sua personagem, escondendo no seu traumatizado olhar uma gama de sentimentos difícil de se resumir em palavras. Sem medo de errar, poucas vezes vi o arquétipo do "amor materno" ser tão bem traduzido em cena. Indo da esperançosa à devastada com suavidade, a jovem atriz esbanja elegância ao expor as nuances da complexa Joy, principalmente na dócil relação com o seu "filho", entregando um desempenho sincero e emocionante. Por falar nele, com apenas nove anos e pouquíssima experiência em Hollywood, o prodígio Jacob Tremblay brinda o espectador com uma performance impressionante. Numa trabalho singelo e expressivo, o pequeno ator canadense fascina ao dialogar com temas espinhosos, dando vida ao esperto Jack com total convicção. Exibindo uma comovente química com a sua "mãe" Brie Larson, Tremblay apresenta um misto de inocência e carisma ao reproduzir a faceta mais inusitada do seu personagem, um garoto curioso que nunca havia deixado o seu cativeiro. É fora do quarto, aliás, que ele alcança um nível de atuação assombroso, indo do acuado ao comunicativo com uma precoce maturidade. Méritos para o precioso texto e para a intimista condução de Lenny Abrahamson, que, cuidadosamente, consegue tirar o máximo de sentimentos deste jovem ator sem desrespeitar a sua essência infantil.


Poético e desconcertante, O Quarto de Jack encanta ao reproduzir com espantosa delicadeza os bastidores de um traumático sequestro. Ainda que a primeira metade da trama possa parecer mais atraente aos olhos do público, principalmente pela maneira mágica com que o longa desvenda a rotina no cativeiro, é na desacelerada parte final que o diretor Lenny Abrahamson foge do lugar comum ao acompanhar a árdua readaptação de Joy. Uma mãe que, no auge do desespero, encontrou no seu cativante filho a esperança para lutar e deixar o opressivo quarto finalmente para trás. 

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