quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

O Menino e o Mundo

Um alarmante relato sobre a nossa sociedade

Poucos gêneros tem nos surpreendido tanto na atualidade como o cinema de animação. Encontrando nos traços cartunescos a possibilidade de construir alegorias sobre temas essencialmente humanos, alguns realizadores optaram por se distanciar dos interesses comerciais e das fórmulas fáceis ao nos presentear com preciosas pérolas em formato fílmico. Hora e vez somos apresentados a títulos do quilate de Wall-E (2008), Mary e Max: Uma Amizade Diferente (2009), Toy Story 3 (2010), O Conto da Princesa Kaguya (2013), Uma Aventura Lego (2014), Shaun, O Carneiro (2015) e o fenomenal Divertida Mente (2015). Em meio a estes gigantes, surge do Brasil mais um postulante a uma vaga nesta seleta e felizmente crescente lista. Genuinamente tupiniquim, O Menino e o Mundo enche de orgulho os cinéfilos brasileiros ao promover um relato alarmante sobre a nossa sociedade. Indicado ao Oscar de Melhor Animação, o longa dirigido por Alê Abreu é contundente ao investigar a voracidade por trás do modo de vida urbano, transformando a lúdica aventura de um jovem em uma obra crítica, desconcertante e absolutamente atual.



Dialogando com assuntos sérios e espinhosos, O Menino e o Mundo é profundo ao abordar - dentre outras coisas - as consequências do êxodo rural na rotina de uma pacata família do interior. Apesar da aparência simples, potencializada pelos traços surreais e infantis, o argumento assinado pelo próprio Alê Abreu passeia com sutileza por alguns dos mais nocivos problemas enfrentados pela sociedade brasileira. Através de um ponto de vista doce e inocente, o argumento levanta uma poderosa bandeira contra a industrialização, a desigualdade social e a opressão do governo, escancarando temas como a violência, a poluição, o desemprego, a solidão e até mesmo a morte. Abrindo mão dos diálogos, o longa acompanha a jornada de um curioso menino, um jovem esperto que tinha uma infância feliz em uma bucólica aldeia. Numa destas inesperadas viradas da vida, no entanto, ele vê a sua rotina mudar quando o seu pai é obrigado a buscar emprego na cidade grande. Atormentado por pesadelos e pela saudade, o jovem decide partir em busca do seu adorado pai, sem saber que estaria prestes a conhecer uma realidade nova e extremamente perigosa. 


Disposto a dar um verdadeiro "soco no estômago" do espectador, O Menino e o Mundo se revela uma obra narrativamente impecável. Como se não bastasse o engajado tom crítico, o roteiro abraça os simbolismos com inegável maestria, preparando o terreno para um clímax contundente, inteligente e absolutamente comovente. De maneira sutil, Alê Abreu faz um primoroso uso da trilha sonora, a transformando num elemento decisivo dentro do surpreendente 'plot twist' proposto pelo longa. Muito mais do que um guia do menino, a música parece resgatar a memória afetiva do protagonista, o mantendo esperançoso diante de um cenário hostil e pessimista. Ponto para os compositores Ruben Feffer e Gustavo Kurlat, que, num trabalho extremamente singelo, ditam o tom desta lúdica aventura. Além disso, numa opção perspicaz, Abreu opta pela bem vinda ausência de diálogos. Ainda que em alguns momentos os adultos balbuciem algumas incompreensíveis palavras num estranho idioma, as emoções e os sentimentos dos personagens são brilhantemente traduzidos através das suas respectivas expressões, ampliando o alcance e a mensagem da história. Até porque, apesar do contexto tipicamente brasileiro, o alerta proposto pelo longa é universal e extremamente atual, principalmente no ambiente latino-americano.


Merecedor dos melhores elogios no que diz respeito a esperta narrativa, O Menino e o Mundo encanta ao introduzir o mundo de cores desbravado pelo jovem protagonista. Num trabalho incrivelmente autoral, Alê Abreu aposta num artesanal traço infantil, principalmente na concepção das paisagens e do cativante personagem principal. Desde a fantástica primeira sequência, quando a bucólica aldeia é gradativamente desenhada diante do espectador, somos convidados a assistir um trabalho original e naturalmente expressivo. Para compor algumas das cenas, por exemplo, Abreu e a equipe de animadores resolveu utilizar recortes de revistas e jornais, incrementando elementos simples com as casas, os carros e os edifícios. À medida que o menino entra em contato com a cidade grande, chama a atenção também a maneira criativa com que o realizador reproduz os perigos do modo de vida urbano, atribuindo uma aura sinistra às máquinas e a figuras como os militares e os patrões. Sem querer revelar muito, as manifestações populares presenciadas nos últimos anos são reproduzidas com absurda genialidade, evidenciando a opressão do Estado numa inventiva mistura de cores e música. Além disso, Alê Abreu é habilidoso ao explorar os contrastes promovidos pelo longa. Inicialmente lúdico e alegre, ao poucos o detalhista cenário ganha uma aura triste e sombria, culminando num clímax inesperadamente realista e contundente. Quando necessário, inclusive, o realizador se rende a imagens reais, ressaltando num tom ameaçador o impacto do desmatamento e da poluição nas metrópoles.


Ainda que o ritmo do longa possa causar um estranhamento inicial no espectador mais desavisado, O Menino e o Mundo eleva o patamar da animação brasileira ao conseguir uma inesperada e absolutamente merecida indicação ao Oscar 2016. Independente dos prêmios e do reconhecimento da crítica, esta pequena pérola do cinema nacional se coloca entre "gigantes" ao dividir uma categoria com produções de estúdios do porte da Pixar, da Aardman e do cultuado Ghibli. Uma produção que nos enche de orgulho ao propor, sob um ponto de vista sensível e curioso, um relato contemporâneo sobre a degradação do cada vez mais acelerado modo de vida urbano.

2 comentários:

Carissa Vieira disse...

Estou louca pra assistir. Só críticas positivas.
Parece realmente uma excelente animação.

http://www.carissinha.com.br

thicarvalho disse...

Demorei para assistir, mas valeu a pena. Um belo trabalho. Valeu pela visita. Abs.

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