sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Victor Frankenstein

Tecnicamente bem resolvido, longa esbarra nos nítidos problemas de tom e na sua desajeitada veia blockbuster

Oferecendo uma interpretação própria para o clássico conto de Mary Shelley, Victor Frankenstein entra para a genérica lista de adaptações recentes envolvendo alguns dos mais icônicos Monstros da Universal. Seguindo o rastro deixado por títulos como o desastroso Frankenstein - Entre Anjos e Demônios (2013) e o assistível Drácula - A História Nunca Contada (2014), o longa dirigido por Paul McGuigan (Heróis) decide adotar uma desajeitada veia blockbuster ao investigar o lado humano por trás da relação entre o personagem título e o seu fiel assistente Igor. Desperdiçando uma excelente oportunidade de se aprofundar nos mais interessantes temas propostos pelo argumento, principalmente no embate entre a religião e a ciência, o realizador até entrega uma película tecnicamente eficaz, mas que esbarra nos evidentes problemas de tom e na falta de algo propriamente novo para contar. Ao menos os carismáticos James McAvoy e Daniel Radcliffe abraçam com afinco os seus respectivos personagens, trazendo alguma validez para a misturada gótica que se revela esta oscilante versão.


Na verdade, o roteirista Max Landis, filho do criativo John Landis (Os Irmãos Cara de Pau, Um Lobisomem Americano em Londres), segue a lógica do Dr. Frankenstein ao criar a sua própria e desengonçada criatura. Flertando ora com o suspense, ora com o romance, ora com o horror, ora com a ação, Landis (o filho) não se mostra maduro o bastante para equilibrar gêneros tão contrastantes e constrói um "monstro" realmente difícil de ser domado. A exceção do personagem que dá título ao longa, o argumento não se mostra interessado em explorar os reflexivos dilemas morais esculpidos por Mary Shelley, dialogando basicamente com o imaginário que Hollywood ajudou a construir ao longo das últimas décadas. Prova disso é o foco na figura do popular assistente Igor, um tipo que sequer existe na obra da escritora inglesa, mas que aqui se transforma no verdadeiro protagonista da trama. Victor Frankenstein acompanha a jornada de um corcunda sem nome (Radclife), um jovem inteligente que em função da sua condição física foi criado em um circo em condições desumanas. Após salvar a vida da bela Lorelei (Jessica Brown Findlay, magnética), ele chama a atenção do excêntrico Dr. Frankenstein (McAvoy), um médico pouco ortodoxo que enxerga no talento daquele jovem a peça que faltava para o seu grande plano. Disposto a tudo para tê-lo ao seu lado, Victor acaba libertando o jovem corcunda, dando roupas, casa e um nome para ele: Igor. Perseguidos pelo rígido inspetor Turpin (Andrew Scott, apático), um religioso convicto que já vinha seguindo o rastro de bizarrices deixado por Frankenstein, os dois resolvem contrariar as leis da natureza ao tentar criar vida após a morte. 


Certeiro ao construir uma suja e sombria atmosfera de época, Paul McGuigan não mostra a mesma habilidade ao encontrar o tom do longa. Por mais que os quinze primeiros minutos de projeção deixem uma impressão positiva, potencializados pelas visualmente criativas sequências circenses, o diretor se perde diante desta exótica mistura. Indo da comédia ao horror sem precisão, a impressão que fica é que o longa funciona muito mais quando embarca no suspense gótico, do que propriamente quando se rende as genéricas cenas de ação, escancarando os evidentes problemas de ritmo em torno da trama. Pra piorar, em meio as interessantes questões morais acerca da premissa, o argumento é burocrático ao explorar o dualismo entre a religião e a ciência. Esvaziadas ao longo da trama, as discussões entre o médico e o unidimensional inspetor Turpin soam rasas e improdutivas, não contribuindo em nada com o arco dos dois protagonistas. Nenhum destes problemas, no entanto, supera o pífio rumo dado a criatura de Frankenstein. Apesar do visual "bombado" do monstro merecer elogios, se mantendo fiel às características mais icônicas consagradas por Boris Karloff no clássico Frankenstein (1931), o personagem é sacrificado de maneira quase irresponsável pelo roteiro, se tornando uma espécie vazia de antagonista dentro do acelerado último ato.


Por outro lado, apesar de intitulada Victor Frankenstein, a película é bem melhor resolvida ao desenvolver a jornada de Igor. A partir da elogiável entrega física de Daniel Radcliffe, convincente ao reproduzir a postura atrofiada do seu personagem, McGuigan e Landis são cuidadosos ao torna-lo um tipo humano e naturalmente sensato. A inocente voz da razão diante do misto de genialidade e loucura do seu libertador. No melhor estilo Sherlock e Watson, com direito a criativas inserções gráficas sobre a anatomia humana, a fiel parceria entre Igor e Victor é - de longe - o ponto alto da película, principalmente pela cumplicidade existente entre os dois. Enquanto Radcliffe rouba a cena com a sua afetuosa presença, James McAvoy segue um caminho arriscado ao dar contornos exagerados ao brilhante médico. No limite da caricatura, o ator consegue tornar crível a obstinação insana do protagonista, mesmo limitado pela falta de tato do longa ao explorar as suas nuances. Na ânsia de humanizar a figura do Dr. Frankenstein, inclusive, o roteiro falha ao tentar introduzir os motivos que o levaram a tamanha obsessão, apelando para uma explicação clichê e praticamente sem sentido envolvendo uma tragédia familiar.


Ainda que os efeitos digitais sejam atraentes, vide a tensa sequência envolvendo uma espécie de macaco zumbi e a soturna ambientação londrina, Victor Frankenstein se revela uma reinterpretação previsível e inegavelmente oscilante envolvendo o clássico de Mary Shelley. Esvaziando algumas importantes questões dentro do último ato, incluindo as consequências da criação de Victor no explosivo clímax, Paul McGuigan parece se contentar em assumir uma genérica veia blockbuster, desperdiçando o carisma da dupla de protagonistas e um punhado de boas discussões num longa marcado por inúmeros altos e baixos. O resultado é uma película que carece de alma, tal qual a criatura de Frankenstein.

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