quarta-feira, 4 de novembro de 2015

45 Anos

As descobertas de uma relação

Abalada por uma inesperada carta, uma relação de quatro décadas é colocada em cheque no elegante 45 Anos. Conduzido com extrema maturidade por Andrew Haigh (Weekend), este gélido drama é categórico ao esmiuçar o impacto de uma revelação na rotina de um experiente casal, expondo sob um ponto de vista completamente honesto uma discussão de relacionamento marcada pela melancolia, pelo desgaste e pela inevitável sensação de tempo perdido. Ainda que o ritmo lento e a narrativa nada condescendente possam incomodar o espectador mais desavisado, o longa encontra a sua verdadeira força nas poderosas atuações, em especial para o desempenho humano e absolutamente expressivo da veterana Charlotte Rampling.


Se concentrando propositalmente no ponto de vista feminino, o argumento assinado pelo próprio Haigh, adaptando o conto de David Constantine, é cuidadoso ao evidenciar os segredos por trás deste longínquo casamento. Inspiradamente contido, o roteiro passeia pelas emoções dos protagonistas com enorme perícia, explorando pouco a pouco as consequências de uma notícia inesperada na rotina do casal Kate (Charlotte Rampling) e Geoff (Tom Courtenay). Prestes a completarem 45 anos de casados, os dois aposentados levavam uma vida tranquila numa pacata cidade do interior da Inglaterra. Cinco dias antes da grande data, no entanto, Geoff recebe uma carta indicando que o corpo do seu grande amor da juventude foi encontrado nos Alpes Suíços. Incomodada com o nítido choque do seu marido, Kate resolve investigar à fundo esta relação, se deparando com respostas não só sobre o passado de Geoff, mas também acerca do seu próprio casamento.


Intimista, 45 Anos faz da DR do casal de protagonistas a sua verdadeira força motora. Através de diálogos objetivos e de sequências simples, Andrew Haigh costura passado e presente com rara intensidade, revelando paciência ao expor os segredos por trás de um relacionamento aparentemente estável. Numa relação de causa e consequência, à medida que Kate vai se aprofundando no primeiro caso de amor do seu marido, ela acaba também fazendo um melancólico balanço sobre o seu próprio casamento, vendo a sua rotina ser alterada às vésperas da celebração do seu aniversário de matrimônio. Um cenário complexo que mais parece um tapete vermelho para a talentosa Charlotte Rampling, brilhante ao reproduzir o turbilhão de emoções da sua personagem. Tirando um baita proveito da atmosfera visualmente desconfortável, potencializada pela nebulosa fotografia de Lol Crawley (Um Final de Semana em Hyde Park), a veterana atriz inglesa traduz de maneira minimalista as nuances de Kate, indo da compreensiva à egoísta com absoluta elegância. Sem querer revelar muito, chama a atenção a forma como Rampling conduz a madura crise de ciúmes da protagonista, culminando numa sequência final forte e naturalmente desconcertante.


E por mais que a reação de Kate se torne o centro das atenções dentro da trama, Tom Courtenay (do comovente O Quarteto) também merece elogios pelo seu Geoff. Mesmo em segundo plano, o experiente ator inglês não precisa de muito para evidenciar o sofrimento incompreendido do seu personagem, criando uma relação ora afetuosa, ora distante com Rampling. Desta forma, ainda que lento em alguns momentos, 45 anos revela uma bem vinda sobriedade ao abordar de forma universal os dilemas de um veterano casal em crise. Contando com as preciosas atuações da dupla de protagonistas, vencedores do Urso de Prata no Festival de Berlim, Andrew Haigh é extremamente franco ao desconstruir uma relação de quatro décadas, mostrando que até a voz da experiência pode gaguejar diante de uma grande revelação. 


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