sábado, 12 de setembro de 2015

Férias Frustradas

Viagem repetida + novas piadas = diversão garantida


Se mantendo fiel às fórmulas que consagraram o clássico oitentista estrelado por Chevy Chase e Beverly D'Angelo, a comédia Férias Frustradas retorna em grande estilo ao acompanhar as divertidíssimas desventuras da nova geração da família Griswold. Seguindo os passos do agora patriarca Rusty Griswold, no original interpretado pelo astro teen Anthony Michael Hall, o longa dirigido pela dupla John Francis Daley e Jonathan M. Goldstein empolga pela forma com que recicla a dinâmica desta excêntrica família americana, sem esquecer de atualizar a franquia. Alimentando uma evidente dose de nostalgia, a continuação é extremamente bem sucedida ao dialogar também com o público atual, encontrando no humor sujo e no talentoso elenco os ingredientes necessários para fazer deste retorno ao parque Wally World uma experiência nada frustrante. Quer dizer, pelo menos para nós espectadores.


Roteiristas do engraçado Quero Matar meu Chefe, Daley e Goldstein são precisos ao capturar a essência da aclamada comédia de 1983. Indo além das impagáveis citações ao primeiro filme, que ganham corpo quase sempre brincando com as expectativas dos fãs, o longa nitidamente se preocupa em manter os arquétipos que tornaram os Griswold's uma referência dentro do gênero. Valorizando a dinâmica interação entre os membros desta disfuncional família americana, o argumento acompanha as desventuras do agora adulto Rusty (Ed Helms), um piloto de aviões da companhia EconoAir (ótima piada) que levava uma vida tranquila num bairro de classe média\alta. Casado com a bela Debbie (Christina Applegate) e pai de dois filhos, o inocente James (Skyler Gisondo) e o atentado Kevin (Steele Stebbins), Rusty parecia ter a vida que sempre sonhou. Mas, após um jantar com os vizinhos, ele percebe que a sua relação com a família não era das melhores. Disposto a mudar este panorama, o patriarca resolve viajar com a mulher e os filhos para o tradicional parque Wally World, repetindo os passos do seu adorado pai. O que era pra ser uma experiência divertida, no entanto, logo se torna um grande pesadelo, já que Rusty parece ter herdado o dom de colocar a sua família em inúmeras confusões.


Tirando um baita proveito desta reconhecida estrutura familiar, novamente temos o pai sabichão, a esposa frustrada, o primogênito nerd e o esperto caçula, Férias Frustradas se distancia da previsibilidade ao introduzir os Griswold numa realidade ainda menos inocente. Como se não bastassem as brilhantes referências ao clássico oitentista, novamente o exótico carro alugado rende algumas das melhores gags, o argumento procura dialogar com as novas plateias e não se contenta em prestar apenas uma simples homenagem ao original. Por mais que requente algumas das fórmulas, os problemas entre Rusty e Debbie são semelhantes aos vividos por Clark e Ellen no passado, a dupla de realizadores é inspirada ao apostar num humor mais pesado e vulgar, explorando de maneira escrachada e levemente incorreta a disfuncionalidade desta família. Com destaque para o irônico primeiro ato e para a desastrada relação entre pai e filhos. Recheado de piadas memoráveis, o GPS Coreano, a perseguição à la 'Encurralado' e as cenas nas "águas termais" já valem o ingresso, o roteiro é igualmente preciso ao adicionar novos elementos a esta continuação. Diferente do primeiro longa, quando Clark era pai de Rusty e da jovem Audrey, aqui os herdeiros são dois garotos, de longe o grande diferencial deste reboot. Numa curiosa inversão de perspectivas, já que o travesso irmão mais novo pinta e borda com o inocente mais velho, a dupla rouba a cena numa relação marcada pelo bullying e por xingamentos.


Embalado por afiadas e bem distribuídas piadas, o grande trunfo do novo Férias Frustradas reside no talentoso elenco. A começar pelo competente Ed Helms, que cumpre a sua missão ao arrancar gargalhadas com o seu otimista Rusty. Seguindo o jargão popular "filho de peixe, peixinho é", Helms é perspicaz ao se inspirar na personalidade do velho Clark, reproduzindo com energia o misto de afetuosidade e obsessão que consagrou o patriarca original. Esbanjando química com a já experiente Christina Applegate, a relação entre marido e mulher funciona a contento, principalmente pela diferença de personalidade dos dois. Na verdade, enquanto Rusty é um homem inocente, que vacila ao explicar para o filho o que é um "beijo grego", Debbie é uma mulher "experimentada", que parece ter se acomodado com a vida de casada. Se Applegate convence como uma mãe\esposa frustrada, os jovens Skyler Gisondo e Steele Stebbins definitivamente roubam a cena como os irmãos James e Kevin. Hilária do primeiro ao último minuto, a rixa entre os dois oferece um algo a mais a esta continuação, funcionando até melhor do que a parceria entre Rusty e Audrey. Numa relação repleta de dinamismo, a pureza do mais velho contrasta espertamente com a sagacidade do mais novo, rendendo situações absolutamente naturais. Contando ainda com as nostálgicas participações de Chevy Chase e Beverly D'Angelo, a película traz também a inusitada presença de Chris Hemsworth, à vontade como o "exibido" cunhado de Rusty, e a divertida aparição de Charlie Day, numa das mais engraçadas e bem produzidas cenas do longa. Vale ressaltar, aliás, que apesar da inexperiência dos diretores, esta sequência é visualmente caprichada, com direito a takes em câmera lenta e algumas soluções criativas.


Não se levando a sério por um segundo sequer, Férias Frustradas retorna aos cinemas valorizando muito mais a jornada do que propriamente o seu destino. Deixando o parque Wally World em segundo plano, o que não impede a sua presença dentro do vibrante clímax, esta surpreendente continuação garante honestas risadas ao entregar aquilo que os fãs esperavam. Uma viagem irreverente e escrachada que, se não tem a originalidade da obra de John Hughes e Harold Hamis, ao menos se esforça para nos oferecer um entretenimento à altura do clássico de 1983. Ainda que peque pelo excesso em alguns momentos, a passagem pela irmandade de Debbie não precisava ser tão escatológica, o longa comprova que o dedo podre para as férias segue no DNA da família Griswold.

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