segunda-feira, 9 de março de 2015

Dois Lados do Amor

Vidas sem rumo

Uma tragédia familiar. Um casamento rompido. Duas vidas aparentemente despedaçadas. Demonstrando uma impressionante maturidade ao ressaltar as curvas que só a vida é capaz de promover, Dois Lados do Amor é um daqueles trabalhos que impressionam pela arte de dominar sentimentos contrastantes. Dirigido com sobriedade pelo estreante em longas-metragens Ned Benson, o longa opta pelo caminho mais complicado ao narrar as desventuras de um cativante casal, vivido com intensidade pelo sempre competente James McAvoy e por uma apaixonante Jessica Chastain. Deixando de fora os clichês e os típicos melodramas do gênero, Benson alimenta uma dose de melancolia ao revelar as idas e vindas deste par, evitando entregar facilmente as verdadeiras emoções por trás dos seus personagens. 

Com um argumento recheado de expressivos diálogos, que guiam o rumo dos protagonistas de forma singela e nada condescendente, o roteiro assinado pelo próprio Benson não admite a possibilidade de mastigar as informações sobre o passado de Connor (McAvoy) e Eleanor (Chastain). Optando por uma sequência inicial contrastante, bastam duas cenas - impecavelmente distintas - para entendermos o quão grave foram os motivos da separação. Apresentando pouco a pouco essa conturbada relação, com muitos fatos importantes sendo revelados nas entrelinhas, Benson suga a atenção do espectador ao mostrar o que foi, e o que se tornou, a vida deste cativante casal. Indo do carinho extremo ao choque contundente, o realizador prepara o terreno para uma carregada, mas sensível história de amor.


Tentando se adaptar a esta nova rotina, enquanto Eleanor vai morar com os apaixonados pais (William Hurt e Isabelle Huppert), Connor volta a residir na casa do seu solitário e bem sucedido pai (Ciarán Hinds). Sem tolerar a forma objetiva com que o marido encarou os problemas, Eleanor decide voltar a estudar, construindo uma grande amizade com a descontraída professora Friedman (Viola Davis). Connor, por outro lado, parece disposto a recuperar o tempo perdido, lutando não só para reatar com a esposa, mas também para manter o funcionamento do seu restaurante. Percebendo, no entanto, que os fantasmas do passado sempre reaparecem, independente de quanto eles fujam, os dois terão que encontrar um novo rumo para as suas respectivas vidas, nem que para isso nunca mais se vejam.


Embalados pelas intensas atuações dos protagonistas, principalmente pela latente química entre Chastain e McAvoy, Ned Benson se destaca pelo cuidado estético de suas cenas, marcadas por uma fotografia vibrante, que parece acompanhar o estado de espirito dos dois, e pela preocupação em ressaltar a expressividade dos atores. Sem se prender a soluções mirabolantes, o realizador opta por dar um toque estiloso, tanto no aspecto textual, como também no visual, a uma trama recheada de situações corriqueiras. Evitando parecer pretensioso ou excessivamente sugestivo, o roteiro aposta em diálogos repletos de simbolismos, potencializados pela relação entre pais e filhos. Contando com um impecável time de coadjuvantes, essa troca de experiências é primorosamente explorada, abrindo um merecido espaço para as figuras paternas vividas por William Hurt e Ciarán Hinds. Personagens que, apesar de também sofrerem com as consequências desta assombrosa crise, tentam dar uma mensagem de conforto e confiança para os filhos. Muito em função, é verdade, dos tocantes diálogos, que arrancam sinceras lágrimas e compensam alguns dos momentos mais lentos da trama.


Nesse sentido, aliás, vale destacar a capacidade de Benson em conduzir essas humanas e contrastantes emoções. Por mais que a atmosfera melancólica seja nítida em parte da película, crescendo a cada nova revelação sobre o passado dos dois, o longa verdadeiramente encanta por não se prender as obviedades. Sabendo conter os excessos, o argumento passeia com a mesma facilidade não só pelos momentos mais acalentadores, como também pelos confrontos mais densos envolvendo esta conturbada, mas contida relação. Até o humor ganha um bem vindo espaço em cena, numa espécie de alívio cômico, enfatizado pelos divertidos personagens vividos por Viola Davis e Bill Hader. Nuances emocionais que, diga-se de passagem, são capturadas com destreza pelos dois atores, com destaque para a magnética Jessica Chastain. Indo da radiante à abatida de forma impecável, o desempenho da atriz dá uma aura irresistível à fragilizada Eleanor.


Evitando simplificar as questões por trás das motivações do casal, Dois Lados do Amor é sutil ao conduzir não só os embates, mas também os momentos mais afetuosos da dupla. Destacando com naturalidade o complexo momento da vida dos dois, Ned Benson encontra no tom intimista uma alternativa louvável para nos convidar a viver um pouco dos anseios, das frustrações e das incertezas que cercam esta conturbada jornada em busca de um novo rumo. Apostando em sequências verdadeiramente memoráveis, incluindo o poético e metafórico desfecho, este comovente drama evidencia quais seriam os limites do amor perante as feridas da vida.


*Esse filme foi assistido durante o Festival do Rio 2014

2 comentários:

Hugo disse...

Além da boa premissa, o filme chama atenção pelo ótimo casal principal.

Abraço

thicarvalho disse...

Sem duvidas Hugo, McVoy e Chastain formam um impecável casal. Valeu pela visita.

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