O primeiro diálogo até deixa uma impressão errada. Nele, o paulista Caio Blat tenta mostrar a qualquer custo a "carioquês" do seu personagem, repetindo de maneira forçada uma série de populares expressões do linguajar carioca. Apesar do susto inicial, no entanto, Ponte Aérea nem de longe se resume a este jogo de estereótipos, indo além das previsibilidades ao construir uma relação densa e extremamente particular entre um carioca despojado e uma paulista viciada em trabalho. Conduzido com estilo pela diretora Júlia Rezende, que demonstra um impressionante amadurecimento artístico após o divertido Meu Passado me Condena, este bem humorado romance conquista não só pela invejável química do casal Caio Blat (Entre Nós) e Letícia Colin (Não Pare na Pista), mas também pela caprichada direção de arte e pelo qualificado argumento.
terça-feira, 31 de março de 2015
domingo, 29 de março de 2015
Cinderela
Visualmente encantador, longa se esforça para resgatar a magia dos clássicos Disney
Enquanto os recentes 'Malévola' e 'Caminhos da Floresta' se arriscaram a tentar algo novo dentro do gênero, buscando dar uma roupagem diferente à alguns dos maiores clássicos da literatura infantil, a nova versão de Cinderela chega aos cinemas disposta a nadar contra esta corrente. Demonstrando um enorme zelo pela icônica animação de 1950, o longa dirigido por Kenneth Branagh (Thor e Frankenstein de Mary Shelley) parece se encantar verdadeiramente com a possibilidade de explorar a exuberância visual desta história, apresentando a magia deste clássico Disney a uma nova geração acostumada as salas em IMAX e as projeções digitais. Reproduzindo com maestria a aura inocente da versão animada, Branagh faz o seu "Bibbidi Bobbidi Boo" ao transformar um roteiro "apenas" eficiente num espetáculo colorido e esteticamente encantador. Uma atualização extremamente justificável, que encontra o seu vigor não só no esmero artístico de Branagh, mas também nas expressivas atuações da impecável Cate Blanchett e da carismática Lily James.
Procurando se manter fiel à premissa da fábula infantil, o argumento assinado por Chris Weitz segue um caminho mais conservador ao adaptar este popular conto de fadas. Optando por não explorar os famosos números musicais da animação, nem tão pouco a excentricidade narrativa da versão dos irmãos Grimm, o roteiro parece se contentar em promover uma modesta e bem trabalhada tradução literal, o que neste caso não se mostra um grande problema. Na verdade, por mais que a trama até se arrisque ao flertar com um coerente jogo de interesses entre a nobreza no último ato, o longa realmente convence pela forma verdadeira com que captura a essência desta obra, encarando com honestidade os sentimentos por trás deste romance pueril. Se apoiando com habilidade em inofensivas e certeiras pitadas de humor, que amenizam (até mesmo) a unidimensionalidade dos personagens, Cinderela narra a história de Ella (Lily James), uma jovem integra que vê a sua vida mudar com a morte dos pais. Levando a bondade e a gentileza como um mantra, a sonhadora mulher passa a sofrer nas mãos da rancorosa madrasta (Cate Blanchett) e das suas duas intragáveis filhas. Como a maioria já deve saber, Ella então se apaixona pelo príncipe encantado (Richard Madden) e contará com a ajuda de sua fada madrinha (Helena Bonham Carter) para dar uma chance a este amor.
Trazendo no currículo uma série de longas envolvendo a realeza, incluindo o seu reconhecido passado Shakespeariano, Kenneth Branagh comprova toda a sua categoria ao construir sequências requintadas e de extremo bom gosto. Numa época em que boa parte dos realizadores se rende exclusivamente aos efeitos digitais, o diretor faz questão de explorar o melhor dos "dois mundos", encontrando o equilibro perfeito ao trabalhar não só com os grandiosos e tradicionais sets de filmagens, cada um mais rico em detalhes que o outro, mas também com a ilimitação criativa possibilitada pelo advento do CGI. Contando com o luxuoso apoio da figurinista Sandy Powell (O Aviador), cujo trabalho salta os olhos através dos fascinantes trajes, e com a magnífica direção de arte do aclamado Dante Ferretti (A Invenção de Hugo Cabret), que só contribui para a imersão do público neste mundo de inocência e magia, Branagh empolga ao conceber um espetáculo esteticamente autoral e inevitavelmente encantador. Com destaque para a forma como ele usa as cores e os originais cenários para traduzir o próprio estado de espirito da donzela, demonstrando um misto de respeito e comedimento ao passear pelas oscilações emocionais do otimista casal de protagonistas.
Além do inspirado apuro visual, Branagh é também habilidoso ao explorar o competente elenco, que nem de longe se resume a impecável apresentação de Cate Blanchett. Arrasadora como a maquiavélica madrasta, a atriz consegue exprimir através do olhar o seu rancor e maldade, compondo uma antagonista linear, mas nada previsível. Do mesmo nível, aliás, é a atuação da carismática Lily James, completamente adorável como a radiante Ella. Por mais que o argumento não tente repaginar a sua personagem, a jovem atriz inglesa foge dos clichês ao construir uma donzela em perigo, mas não tão indefesa. Com uma dose a mais de coragem e personalidade, Lily James se entrega de corpo e alma a integridade de Cinderela, dando credibilidade a uma personagem repleta de utópicos anseios. Ela, inclusive, desenvolve uma invejável química com o competente Richard Madden, o Robb Stark da série Game of Thrones. Preciso como o respeitável príncipe encantado, Madden não tem um grande personagem em mãos, mas nitidamente faz o possível para aquecer o clima de faz de conta. A lamentar somente a breve presença da criativa Helena Bohan Carter, absolutamente impagável como a magistral fada madrinha.
Contando também com as presenças das "irmãs" Sophie McShera e Holliday Grainger (Downtown Abbey e Os Bórgias), caricatas na medida certa, Cinderela conquista ao não renegar as suas origens, se aceitando como um singelo conto de fadas em meio a uma horda voraz de explosivos blockbusters. Apostando suas fichas na delicadeza narrativa e no primor visual, Kenneth Branagh parece verdadeiramente se encantar com a possibilidade de resgatar a magia por trás das fábulas infantis, apresentando uma refilmagem pura, romântica e bem humorada. Ainda que em muitos momentos a sensação de "já vi isso antes" possa incomodar os mais experientes, sequências como a dança no castelo ou a transformação da carruagem em abóbora mostram o esmero do experiente diretor britânico ao reproduzir a atmosfera fantástica presente nas releituras das clássicas animações dos estúdios Disney.
Procurando se manter fiel à premissa da fábula infantil, o argumento assinado por Chris Weitz segue um caminho mais conservador ao adaptar este popular conto de fadas. Optando por não explorar os famosos números musicais da animação, nem tão pouco a excentricidade narrativa da versão dos irmãos Grimm, o roteiro parece se contentar em promover uma modesta e bem trabalhada tradução literal, o que neste caso não se mostra um grande problema. Na verdade, por mais que a trama até se arrisque ao flertar com um coerente jogo de interesses entre a nobreza no último ato, o longa realmente convence pela forma verdadeira com que captura a essência desta obra, encarando com honestidade os sentimentos por trás deste romance pueril. Se apoiando com habilidade em inofensivas e certeiras pitadas de humor, que amenizam (até mesmo) a unidimensionalidade dos personagens, Cinderela narra a história de Ella (Lily James), uma jovem integra que vê a sua vida mudar com a morte dos pais. Levando a bondade e a gentileza como um mantra, a sonhadora mulher passa a sofrer nas mãos da rancorosa madrasta (Cate Blanchett) e das suas duas intragáveis filhas. Como a maioria já deve saber, Ella então se apaixona pelo príncipe encantado (Richard Madden) e contará com a ajuda de sua fada madrinha (Helena Bonham Carter) para dar uma chance a este amor.
Trazendo no currículo uma série de longas envolvendo a realeza, incluindo o seu reconhecido passado Shakespeariano, Kenneth Branagh comprova toda a sua categoria ao construir sequências requintadas e de extremo bom gosto. Numa época em que boa parte dos realizadores se rende exclusivamente aos efeitos digitais, o diretor faz questão de explorar o melhor dos "dois mundos", encontrando o equilibro perfeito ao trabalhar não só com os grandiosos e tradicionais sets de filmagens, cada um mais rico em detalhes que o outro, mas também com a ilimitação criativa possibilitada pelo advento do CGI. Contando com o luxuoso apoio da figurinista Sandy Powell (O Aviador), cujo trabalho salta os olhos através dos fascinantes trajes, e com a magnífica direção de arte do aclamado Dante Ferretti (A Invenção de Hugo Cabret), que só contribui para a imersão do público neste mundo de inocência e magia, Branagh empolga ao conceber um espetáculo esteticamente autoral e inevitavelmente encantador. Com destaque para a forma como ele usa as cores e os originais cenários para traduzir o próprio estado de espirito da donzela, demonstrando um misto de respeito e comedimento ao passear pelas oscilações emocionais do otimista casal de protagonistas.
Além do inspirado apuro visual, Branagh é também habilidoso ao explorar o competente elenco, que nem de longe se resume a impecável apresentação de Cate Blanchett. Arrasadora como a maquiavélica madrasta, a atriz consegue exprimir através do olhar o seu rancor e maldade, compondo uma antagonista linear, mas nada previsível. Do mesmo nível, aliás, é a atuação da carismática Lily James, completamente adorável como a radiante Ella. Por mais que o argumento não tente repaginar a sua personagem, a jovem atriz inglesa foge dos clichês ao construir uma donzela em perigo, mas não tão indefesa. Com uma dose a mais de coragem e personalidade, Lily James se entrega de corpo e alma a integridade de Cinderela, dando credibilidade a uma personagem repleta de utópicos anseios. Ela, inclusive, desenvolve uma invejável química com o competente Richard Madden, o Robb Stark da série Game of Thrones. Preciso como o respeitável príncipe encantado, Madden não tem um grande personagem em mãos, mas nitidamente faz o possível para aquecer o clima de faz de conta. A lamentar somente a breve presença da criativa Helena Bohan Carter, absolutamente impagável como a magistral fada madrinha.
Contando também com as presenças das "irmãs" Sophie McShera e Holliday Grainger (Downtown Abbey e Os Bórgias), caricatas na medida certa, Cinderela conquista ao não renegar as suas origens, se aceitando como um singelo conto de fadas em meio a uma horda voraz de explosivos blockbusters. Apostando suas fichas na delicadeza narrativa e no primor visual, Kenneth Branagh parece verdadeiramente se encantar com a possibilidade de resgatar a magia por trás das fábulas infantis, apresentando uma refilmagem pura, romântica e bem humorada. Ainda que em muitos momentos a sensação de "já vi isso antes" possa incomodar os mais experientes, sequências como a dança no castelo ou a transformação da carruagem em abóbora mostram o esmero do experiente diretor britânico ao reproduzir a atmosfera fantástica presente nas releituras das clássicas animações dos estúdios Disney.
quinta-feira, 26 de março de 2015
Cinemaniac Indica (Vidas ao Vento)
Tecer elogios sobre Hayao Miyazaki é uma missão praticamente desnecessária. Seus trabalhos, ou melhor, as suas obras de arte animadas falam mais do que qualquer palavra, evidenciando a originalidade e a expressividade por trás das criações do "pai" do estúdio Ghibli. Responsável por nos apresentar a uma série de mágicas e exuberantes viagens, com destaque para os fantásticos A Princesa Mononoke (1997), A Viagem de Chiriro (2001) e Ponyo (2008), Miyazaki opta por seguir um caminho bem mais realista em Vidas ao Vento. Acompanhando o crescimento do genial projetista Jiro Horikoshi, que durante a 2ª Guerra Mundial surpreendeu o mundo ao desenvolver o mais avançado e letal avião de combate, o experiente realizador encontra na história deste engenheiro uma forma de passar uma mensagem humana e extremamente pacifista envolvendo os devastadores ecos de um conflito.
quarta-feira, 25 de março de 2015
Confira o curta-metragem que inspirou o longa Whiplash - Em Busca da Perfeição
Dirigido pelo promissor Damien Chazelle, o drama musical Whiplash - Em Busca da Perfeição se tornou uma das grandes sensações do último ano por onde passou. Destaque no Festival de Sundance 2014, onde faturou o prêmio do juri, o longa sobre um baterista de jazz (Milles Teller) e a sua obsessiva luta pela perfeição chamou - definitivamente - a atenção de todo o mundo cinéfilo durante o Oscar 2015, quando saiu da cerimônia com três estatuetas. O longa, no entanto, teve a sua trama inspirada num curta-metragem homônimo dirigido pelo próprio Chazelle. Com cerca de 18 minutos de duração e a presença do ator Johnny Simmons no papel que acabou sendo de Milles Teller, confira abaixo (em inglês) o curta-metragem que se tornou o grande responsável pelo surpreendente Whiplash - Em Busca da Perfeição.
terça-feira, 24 de março de 2015
Selma - Uma Luta pela Igualdade
Um relato ora contundente, ora politico, sobre os bastidores de um dos episódios mais importantes na luta pela igualdade racial nos EUA
Pivô de uma das principais polêmicas do Oscar 2015, quando foi completamente esnobado nas principais categorias individuais, Selma é um daqueles relatos preciosos sobre uma decisiva batalha na luta pela igualdade racial em solo norte-americano. Indicado ao Oscar nas categorias Melhor Filme e Melhor Canção Original, com a vencedora 'Glory', o longa dirigido por Ava DuVernay é contundente ao mostrar a marcha liderada por Martin Luther King Jr. da cidade de Selma a Montgomery. Se esforçando para destacar todos os detalhes em torno deste episódio marcante, a realizadora britânica aposta numa estética "nua e crua" ao evidenciar a violência e o preconceito racial imposto pelo Sul dos EUA. Por mais que o argumento peque em alguns momentos, principalmente por não encontrar o equilíbrio ideal entre as questões políticas e as mais humanas, DuVernay é habilidosa ao pintar um retrato intimista sobre um reticente Dr. King.
segunda-feira, 23 de março de 2015
Tom Cruise volta a viver o agente Ethan Hunt em Missão Impossível - Nação Secreta
Foi divulgado hoje o empolgante primeiro trailer completo de Missão Impossível - Nação Secreta, novo longa estrelado pelo astro Tom Cruise. Apostando no escapismo que consagrou a série, com direito a um "voo" nada convencional do agente Ethan Hunt, o longa dirigido por Christopher McQuarrie colocará o protagonista contra o Sindicato, uma habilidosa organização criminosa internacional comprometida em destruir a IMF. Trazendo no elenco nomes como Ving Rhames (Madrugada dos Mortos), Jeremy Renner (Guerra ao Terror), Simon Pegg (Todo Mundo Quase Morto), Rebecca Ferguson (Hércules) e Alec Baldwin (Para Sempre Alice), Missão Impossível 5 tem estreia prevista para o dia 13 de agosto no Brasil. Confira abaixo a prévia.
domingo, 22 de março de 2015
Top 10 (Filmes sobre a escassez de água)
Neste domingo (22) é celebrado o Dia Mundial da Água. Numa época em que os recursos naturais estão cada vez mais escassos, e que os grandes centros comerciais brasileiros já começam a sofrer com a falta d'água, esta data nos faz lembrar da nossa responsabilidade perante a saúde do nosso planeta. Ciente desta necessidade, o cinema já vem se antecipando e através de uma série de engajados trabalhos tenta mostrar o quão catastrófico é o impacto da falta deste recurso natural. Aproveitando o alerta promovido por esta data, neste Top 10 Cinemaniac vamos apresentar alguns dos bons filmes que levantaram questões sobre a escassez de água.
sábado, 21 de março de 2015
Cinemaniac Indica (Os Desconectados)
Indo além do discurso alarmista apresentado no recente Homens, Mulheres e Filhos, o drama Os Desconectados é extremamente maduro ao propor um relato profundo sobre o impacto das relações virtuais nos dias de hoje. Conduzido com sutileza por Henry Alex Rubin (Muderball - Paixão e Glória), o longa não se resume a evidenciar os perigos envolvendo as redes sociais e a internet, mostrando através de um recorte de histórias a responsabilidade do indivíduo diante deste mundo digital. Se apoiando num elenco afinado e numa abordagem extremamente realista, Rubin é habilidoso ao questionar a insensatez humana por trás de casos envolvendo crimes virtuais e o cyberbullying.
quinta-feira, 19 de março de 2015
Confira o primeiro trailer de Cidades de Papel, novo longa baseado na obra do autor de A Culpa é das Estrelas
Foi divulgado agora a pouco a primeira prévia de Cidades de Papel, novo longa inspirado nos livros do escritor John Green. Estrelado por Cara Delevingne (Anna Karenina) e Nat Wolff (A Culpa é das Estrelas), o longa dirigido por Jake Schreier (Frank e o Robô) seguirá o caminho dos vizinhos e colegas de classe Quentin e Margo. Nitidamente apaixonado pela enigmática garota, Quentin não pensa duas vezes quando Margo invade seu quarto à noite vestida de ninja, propondo que ele participe de um engenhoso plano de vingança. Mas, depois da noite de aventura, Margo desaparece e acaba deixando algumas pistas sobre o seu paradeiro. Cidades de Papel tem estreia prevista para o dia 24 de Julho nos EUA.
quarta-feira, 18 de março de 2015
Al Pacino vive astro do rock em Não Olhe para Trás
Foi divulgado hoje o mais novo trailer de Não Olhe para Trás, novo longa do astro Al Pacino. Dirigido por Dan Fogelman (Amor a Toda Prova), o longa narra a história de Danny Collins (Pacino), um ex-roqueiro que vive muito bem com os sucessos do passado. A sua rotina muda drasticamente, no entanto, quando ele recebe um carta esquecida escrita por John Lenon para ele. Quando recebe a carta de presente do seu empresário (Christopher Plummer), o astro decide mudar os rumos da carreira e se reconciliar com o filho. Trazendo no elenco nomes como Jennifer Garner (Elektra), Michael Caine (Batman – O Cavaleiro das Trevas), Josh Peck (Amanhecer Violento), Annete Bening (Minhas Mães e Meus Pais) e Bobby Cannavale (Blue Jasmine), Não Olhe para Trás chega aos cinemas brasileiros no dia 16 de abril. Confira abaixo o novo trailer.
terça-feira, 17 de março de 2015
Para Sempre Alice
Sobriedade da trama e Julianne Moore dão o tom a este impecável drama
Evidenciando toda a condição cruel imposta pelo Mal de Alzheimer, Para Sempre Alice opta pelo caminho mais difícil ao mostrar de forma dilacerante as mazelas desta condição. Dirigido pelo saudoso Richard Glatzer, que faleceu na última semana vítima das complicações impostas por uma doença igualmente degenerativa, o longa se distancia da atmosfera agridoce ao narrar o esforço de uma renomada professora para manter as suas memórias. Explorando com rara inspiração a paradoxal situação desta mulher, que pouco a pouco é forçada a abrir mão dos seus bens mais preciosos, Glatzer, ao lado do parceiro de direção Wash Westmoreland, encontra na estupenda atuação de Julianne Moore a intensidade necessária para compor esta complexa personagem.
Impulsionado pela (merecida) vitória de Moore no Oscar 2015, Para Sempre Alice nem de longe se resume a impressionante performance desta talentosa atriz. Ainda que ela demonstre enorme maturidade ao construir esta radiante personagem, se tornando a força motora do drama pela forma digna com que reproduz as sequelas desta mazela, os dois diretores têm também grande participação dentro do comovente resultado final. Apostando numa sobriedade cada vez mais rara dentro do gênero, Glatzer e Westmoreland fogem do clima lacrimoso ao evidenciar através de uma desconcertante dose de sensibilidade o impacto desta doença na rotina da independente Dr. Alice Howland (Moore). Sempre dedicada aos estudos linguísticos, a respeitada acadêmica vê a sua vida ruir quando descobre ser portadora de um raro caso de Alzheimer. Contando com o apoio incondicional do marido John (Alec Baldwin), Alice inicia assim uma ingrata batalha para não só se manter em atividade, mas também para não perder as memórias de um bem sucedido passado e o tão cultivado conhecimento adquirido nos seus cinquenta anos de vida.
Inspirado no livro homônimo de Lisa Genova, o argumento assinado pelos dois diretores é certeiro ao explorar as nuances em torno da condição de Alice. Empurrado pela avassaladora entrega de Julianne Moore, que em muitos momentos expressa a angústia somente com o olhar, o argumento se aprofunda não só na influência da doença na relação dela com a família, como também nos conflitos internos da personagem ao conviver com a inevitável corrosão intelectual. A partir de uma narrativa extremamente ágil, o roteiro acompanha bem de perto o agravamento da situação de Alice, encontrando em gradativos saltos temporais uma forma esperta de enfatizar os lapsos ocasionados pelo Mal de Alzheimer. Na verdade, é interessante ver como Glatzer e Westmoreland deixam para a primeira metade do longa as discussões mais densas e existenciais, já que à medida que as falhas de memória vão se acentuando, Alice passa a se ver presa à questões mais rasas e inerentes a sua condição. Utilizando a própria rotina familiar como um guia temporal para o espectador, o roteiro é igualmente sutil ao desenvolver o esfacelamento intelectual da professora, se equilibrando com energia em sequências ora desoladoras, ora comoventes. Com destaque para a desesperadora cena em que Alice sente os efeitos da doença durante uma caminhada, num daqueles takes potencializados pela originalidade técnica da dupla de diretores.
Somado a isso, a trama é igualmente habilidosa ao construir a relação de Alice com o marido e os filhos. Por mais que o roteiro peque ao não se aprofundar em algumas questões interessantes, como os dilemas envolvendo a hereditariedade genética do Alzheimer, a trama é precisa ao abrir espaço para o reflexo da patologia no dia a dia desta família. A começar pela presença do sempre competente Alec Baldwin, genuinamente contido e abalado como John, o marido de Alice. Num personagem de nítida força, Baldwin é preciso ao construir este homem contido dividido entre o trabalho e os cuidados da esposa. Desenvolvendo uma ótima química com Moore, o ator mostra o seu talento nas sequências em que se entrega às fragilidades de John, rendendo momentos realmente emocionantes. Quem acaba roubando muitas das cenas, no entanto, é Kristen Stewart (Acima das Nuvens). Dando vida à Lydia, a filha atriz de Alice, Stewart se sai muito bem como a "ovelha negra" da família, neste bem vindo novo rumo à sua carreira. Numa das personagens mais complexas do longa, com direito a uma pequena dose de metalinguagem, Stewart impressiona ao interpretar a única que parece encarar de frente as sequelas da mãe, deixando para trás a nítida incompatibilidade de pensamentos entre as duas. Em meio a tocantes diálogos, a jovem atriz não se intimida com o desempenho de Julianne Moore, demonstrando grande naturalidade em cena. Um desempenho que, verdade seja dita, praticamente ofusca as atuações de Kate Bosworth (Quebrando a Banca) e Hunter Parrish (17 outra Vez), apenas corretos como os dois outros irmãos de Lydia.
Optando por não se render aos melodramas baratos, Para Sempre Alice emociona pela forma comedida com que narra a batalha de uma mulher independente para manter a sua própria identidade. Procurando se distanciar da maioria dos clichês do gênero, a exceção fica pelo desnecessário uso dos flashbacks, os diretores Richard Glatzer e Wash Westmoreland não se escondem atrás da atmosfera de aparente amenidade sugerida pela iluminada fotografia, chocando o espectador ao mostrar a implacável decadência mental imposta pelo Mal de Alzheimer. Uma lição de vida que - logicamente - acaba potencializada pela brilhante e laureada interpretação de Julianne Moore, num daqueles desempenhos que dificilmente serão esquecidos.
sábado, 14 de março de 2015
Golpe Duplo
Elegante e charmoso, longa peca pela fragilidade dos seus golpes
Dirigido pela dupla Glenn Ficarra e John Requa, responsáveis pelo interessante O Golpista do Ano (2009) e pelo impecável Amor a Toda Prova (2011), Golpe Duplo tem quase tudo o que um bom filme sobre trapaceiros poderia ter. Quase tudo... Enquanto chama a atenção por seu visual elegante, pelo preciso senso de humor, pela trama ágil e pelo inegável charme da dupla Will Smith (Independence Day) e Margot Robbie (O Lobo de Wall Street), o longa peca pela falta de criatividade no desenvolvimento de seus golpes. Contando com o brasileiro Rodrigo Santoro como uma espécie de coadjuvante de luxo, Ficarra e Requa parecem, na verdade, se contentar em explorar as nuances envolvendo a relação amorosa dos dois picaretas, deixando toda a trapaça em segundo plano. Em meio a truques baratos e personagens convincentemente dúbios, o longa inegavelmente funciona como entretenimento, mas perde parte de sua força ao não conseguir encontrar o coelho em sua cartola.
Disposto a apresentar o submundo dos pequenos furtos, com direito a um esperto primeiro ato, onde o 'modus operandi' dos trapaceiros é esmiuçado com louvor, o roteiro assinado pela dupla é eficiente ao esconder as verdadeiras intenções por trás dos seus protagonistas. Apostando em bem sucedidas doses de humor, potencializadas pelo retorno de Will Smith ao gênero que o consagrou, o longa narra a história de Nick (Smith), um experiente trapaceiro que se torna alvo de uma frustrada tentativa de golpe. Nele, Nick conhece a bela Jess (Robbie), uma golpista novata que logo de cara chama a atenção do criminoso. Enxergando nela o talento para os pequenos golpes, o criminoso decide dar uma chance para a jovem, iniciando assim um treinamento para que ela possa entrar no seu grupo. Visivelmente encantado pela beleza de Jess, Nick deixa a frieza de sua "profissão" em segundo plano e logo se envolve amorosamente com a novata. Esta relação, no entanto, acaba se tornando uma espécie de "calcanhar de Aquiles" para ele, principalmente quando Nick decide aceitar um trabalho para um milionário do automobilismo (Santoro).
Explorando a invejável química entre Will Smith e Margot Robbie, que formam um magnético casal, os diretores são eficazes ao aproveitar as idas e vindas desta relação. Em meio a personagens moralmente corrompidos, o argumento é preciso ao alimentar a incerteza sobre os sentimentos dos dois, mostrando originalidade ao evidenciar a forma como um utiliza o outro dentro dos seus golpes. Enquanto Smith impressiona ao compor um humano golpista, se destacando não só pelo impecável tempo de comédia, mas também ao construir um tipo complexo, Robbie comprova que esta longe de ser só mais um "rostinho bonito" em Hollywood. Símbolo sexual do longa, daquelas que chama a atenção enquanto o roubo é cometido, a estonteante australiana encanta ao capturar as nuances de sua personagem, indo da frágil à cínica com uma hipnotizante habilidade. Uma relação extremamente agradável, que rende momentos ora afetuosos, ora perspicazes. Com destaque para a cena em que Nick ensina à Jess as suas artimanhas. Por outro lado, o roteiro é um dos pontos mais frágeis do longa. Além de não atingir as expectativas em torno do grande golpe, o argumento tem uma gigantesca quebra de ritmo do primeiro para o segundo ato, quando uma trama praticamente nova se inicia. Pior para Rodrigo Santoro, que se torna um antagonista de luxo nesta metade final. Na verdade, por mais que o talentoso brasileiro não precise de muito para se destacar, chega a ser frustrante o pouco espaço dado a um personagem de aparente importância para a trama.
Demonstrando estilo ao construir esta trama, que passeia com elegância por cidades como Las Vegas, Nova Orleans e Buenos Aires, Glenn Ficarra e John Requa fazem de Golpe Duplo uma espécie de grande truque. Um filme que prometia surpreender, mas que se revela "apenas" uma descompromissada e divertida história de amor entre dois trapaceiros. Ainda que a reviravolta final seja realmente interessante, principalmente pela qualidade dos diretores ao desenvolverem a tensão, e que o afiado senso de humor seja um trunfo valioso, com destaque para a hilária atuação de Adrian Martinez (A Vida Secreta de Walter Mitty), a impressão deixada é que a esperada carta na manga dos realizadores não era a das mais altas.
quinta-feira, 12 de março de 2015
O Amor é Estranho
A vida e as suas aparências
Quase quatro décadas. Esse foi tempo que o casal Ben e George esperou para sacramentar a sua união. O que era para ser o momento mais feliz de suas respectivas vidas, no entanto, ganha contornos inesperados em O Amor é Estranho. Dirigido com sensibilidade por Ira Sachs (Vida de Casado), o longa é preciso ao mostrar que as aparências muitas vezes podem enganar. Discutindo nas entrelinhas a - ainda hoje - nítida discriminação sexual, o bem humorado drama encontra no talento do casal vivido por John Lithgow e Alfred Molina uma ferramenta sutil para falar sobre o amor, o companheirismo e a decadência.
Quase quatro décadas. Esse foi tempo que o casal Ben e George esperou para sacramentar a sua união. O que era para ser o momento mais feliz de suas respectivas vidas, no entanto, ganha contornos inesperados em O Amor é Estranho. Dirigido com sensibilidade por Ira Sachs (Vida de Casado), o longa é preciso ao mostrar que as aparências muitas vezes podem enganar. Discutindo nas entrelinhas a - ainda hoje - nítida discriminação sexual, o bem humorado drama encontra no talento do casal vivido por John Lithgow e Alfred Molina uma ferramenta sutil para falar sobre o amor, o companheirismo e a decadência.
Conduzindo com cuidado essa singela relação entre os dois experientes homossexuais, com cenas simples, mas extremamente afetuosas, a trama assinada pelo próprio Sachs, ao lado do brasileiro Maurício Zacharias, desenvolve uma daquelas peças que só a vida é capaz de pregar. Evitando se prender aos motivos que adiaram o casamento deste carismático casal, o que se revela um tanto quanto frustrante, o argumento narra a história dos apaixonados Bob, um pintor aposentado que vive de pensão, e George, um professor de música que se mostra o pilar financeiro desta relação. Em meio à celebração pela oficialização deste vínculo, o casal vê a sua rotina mudar quando o preconceito faz George perder o emprego. Sem fontes de renda, e com a idade já avançada, os dois decidem vender o apartamento. Na busca por um imóvel mais barato, enquanto George vai morar com um festeiro vizinho, Ben recebe abrigo do seu sobrinho Elliot (Darren E. Burrows), que mora com a esposa Kate (Marisa Tomei) e o filho único Joey (Charlie Tahan). Apesar de se mostrarem gratos e inspirados pelo amor do casal, a presença de Ben passa a ser vista como um estorvo pela família, rendendo uma série de problemas não só com o problemático adolescente, mas também com a antes afetuosa Kate.
Ainda que as desventuras do casal ganhe contornos inicialmente divertidos, o processo de decadência de Ben e George é conduzido de forma bem honesta por Ira Sachs. Apostando em algumas interessantes sequências, que exploram com o humor os contrastes da nova rotina dos dois, o argumento é habilidoso ao ressaltar como eles passaram de amados parentes a intrusos indesejados. Impulsionados pelas contidas atuações de Molina e Lithgow, impecavelmente abatidos em função deste desfecho melancólico para uma vida gloriosa, o longa é preciso ao alimentar a sensação de abandono e mal estar gerado por esta situação. Se concentrando na relação cheia de aparências entre Ben e Kate, o roteiro abre um interessante espaço para as nuances da escritora, indo naturalmente da carinhosa a desagradável nas mãos de Marisa Tomei. O problema é que no meio deste maduro dilema, Sachs perde a mão na oscilante segunda metade. Deixando as dificuldades da dupla em segundo plano, com direito a um desfecho abrupto e excessivamente metafórico, a trama passa a sugerir certa dúvida sobre a sexualidade de Joey. Uma solução nitidamente bem intencionada, mas que se distancia da proposta inicial do longa, apelando para uma crítica velada envolvendo as dificuldades em assumir a verdadeira identidade sexual. Deslizes que não apagam alguns momentos memoráveis, como o emocionante desabafo de George ao som de Chopin.
Procurando destacar as consequências desta corajosa, mas tardia decisão, Ira Sachs tenta mostrar em O Amor é Estranho o porquê de muitos casais homossexuais não oficializarem as suas verdadeiras relações. Por mais que aborde de maneira superficial a questão da intolerância sexual, e que algumas soluções se mostrem pouco inspiradas, as tocantes atuações de Alfred Molina e John Lithgow elevam consideravelmente o nível deste eficiente drama. Na verdade, a impressão que fica é que o desempenho dos dois merecia um cuidado maior por parte do roteiro, principalmente em função do esvaziado clímax, que peca pela falta de contundência ao concluir o que tentou começar.
*Filme assistido durante o Festival do Rio 2014.
quarta-feira, 11 de março de 2015
Kingsman: Serviço Secreto
Violento, surtado e bem humorado, longa se diverte com os clássicos filmes de espionagem
Responsável pelas elogiadas adaptações de Kick-Ass e X-Men: Primeira Classe, o diretor Matthew Vaughn mostra novamente a sua habilidade ao levar histórias em quadrinhos para as telonas no insano e violento Kingsman: Serviço Secreto. Promovendo uma empolgante e divertida sátira envolvendo os clássicos filmes de espionagem, com direito a uma série de referências que só um verdadeiro fã poderia se apropriar, o realizador esbanja categoria ao nos conduzir por um daqueles trabalhos que felizmente não se levam a sério. Contrapondo a elegância britânica do impoluto agente vivido por Colin Firth (O Discurso do Rei), com a informalidade do excêntrico vilão vivido por Samuel L.Jackson (Os Vingadores), Vaughn se esforça para ir além das "brincadeiras" com os clichês do gênero, recheando a trama não só com um humor afiado e impressionantes sequências de ação, mas também com interessantes críticas e um (sútil) tom anárquico tipicamente inglês.
Um dos responsáveis pela criação do personagem principal da HQ assinada por Mark Millar e David Gibbons, Mathew Vaughn é extremamente cuidadoso na adaptação desta inusitada trama. Idealizador desta homenagem à ícones como James Bond (007) e Maxwell Smart (Agente 86), o realizador abre mão da seriedade presente na nova safra dos filmes de espionagem, demonstrando inspiração ao dialogar com as fórmulas que construíram este escapista gênero. Em meio a agentes charmosos, esconderijos secretos e armas mirabolantes, conhecemos então o letal Galahad (Firth), um espião classudo que acaba salvo por um jovem recruta durante uma missão. Carregando o peso da morte do rapaz, o agente resolve ajudar a viúva e o seu filho, o pequeno Eggsy, mas ela recusa qualquer apoio. O tempo passa e 15 anos depois a vida do garoto virou uma bagunça. Entre pequenos delitos e a falta de comprometimento com a sua vida, Eggsy (Egerton) resolve recorrer a Galahad após ser preso por roubo de carro. Enxergando nele o talento necessário para se tornar um recruta da Kingsman, uma organização secreta não governamental que se dedicou a zelar pela paz mundial, o espião decide aponta-lo como o seu candidato a uma das vagas na agência secreta. Durante o treinamento, no entanto, Galahad terá de desvendar os nefastos planos de Valentine (Jackson), um bilionário da informática disposto a exterminar parte da população para "livrar" a Terra da falta de recursos naturais.
Demonstrando um preciso senso de humor ao brincar com o absurdo desta premissa, Vaughn é brilhante ao encontrar certo frescor em meio à fórmulas tão utilizadas. Enquanto a nova geração dos filmes de espionagem está cada vez mais realistas, até o novo James Bond se rendeu ao tom sério, o realizador nada contra a corrente ao nos apresentar um universo repleto de traquinagens modernas, de sequências de ação completamente inverossímeis e de personagens visualmente caricatos. Explorando este tom satírico ao rir dos clichês do gênero, num determinado momento os próprios personagens brincam com as nossas expectativas dentro do longa, o roteiro assinado por Vaugh e Jane Goldman ganha contornos surpreendentes ao se aproveitar desta descontraída aparência para destilar o seu veneno em questionamentos ora escrachados, como na "explosiva" sequência com figurões da política, ora sutis, como na potente crítica ao próprio governo britânico. Na verdade, se num primeiro momento a magnética jornada de treinamento de Eggsy parece tipicamente teen, com direito a dilemas leves e a rivalidade entre os jovens, o roteiro pouco a pouco vai crescendo rumo a uma chocante, ultra violenta e desconcertante sequência envolvendo Galahad e um grupo de extremistas religiosos. Sem querer revelar muito, esta cena representa uma quebra de ritmo impactante para a trama, que a partir daí passa a promover um anárquico e estiloso duelo entre classes.
Mesmo sem perder a veia cômica, presente em todo o envolvente roteiro, Vaughn é especialmente habilidoso ao dar um pouco mais de seriedade às maléficas intensões do exótico Valentine. Avesso a violência e ao contato com sangue, este bilionário das telecomunicações decide, por mais contraditório que pareça, colocar fim a maior parte da população para "salvar" o mundo. Para isso, o megalomaníaco cria um chip para libertar o lado mais primitivo dos seres humanos, iniciando assim uma onda de mortes e violência gratuita com o aval dos mais ricos. Através desta surtada premissa, o realizador é brilhante ao direcionar a sua mira para os grandes governos, questionando com contundência a inércia (ou porque não a participação) dos poderosos diante das agruras sofridas pelas classes mais baixas. Méritos que, necessariamente, precisam ser divididos com Samuel L. Jackson, irreverente ao extremo na construção do afetado Valetine. Empurrado pelo excêntrico desempenho de Jackson, o realizador constrói um daqueles loucos antagonistas dignos dos grandes filmes da franquia 007, se tornando o pivô dos momentos mais surpreendentes do longa. O mesmo, aliás, podemos dizer do fantástico desempenho de Colin Firth. Por mais que o seu Galahad flerte com alguns elementos dos seus últimos trabalhos, carregando uma postura nobre e uma nítida frieza, o letal espião se mostra um personagem completamente fora da sua zona de conforto, obrigando o ator a ter um invejável desempenho físico.
Demonstrando ótima química com o estreante em blockbusters Taron Egerton, Firth impressiona não só pelas alucinantes sequências de ação, com direito a um plano sequência realmente avassalador, como também pelo impecável tempo de humor. Assim como o experiente ator britânico, Egerton entrega um desempenho extremamente digno. Exalando carisma ao construir uma espécie de James Bond adolescente, o jovem se destaca tanto nas sequências de ação, como na construção deste tipo rebelde e autoconfiante que reluta em seguir as regras de etiqueta dos nobres espiões. O mais legal, no entanto, é que em meio a tantos papéis masculinos importantes, o roteiro abre um justificado espaço para personagens femininas. Se na franquia 007 a maioria das mulheres era subaproveitada pela trama, vide as sexistas "Bond Girl", Vaughn decide destacar a força feminina através de duas personagens interessantes. Do lado dos mocinhos temos a competente e culta Roxy (Sophie Cookson), uma determinada recruta que parece ser a única a aceitar Eggsy como igual. Já do lado vilanesco temos a assassina Gazzelle (Sofia Boutella), o "homem de confiança" de Valentine com suas afiadas próteses de perna e a sua agilidade como assassina profissional. Duas mulheres que, merecidamente, roubam a cena de nomes como Michael Caine, correto como o chefe da Kingsman, Mark Hammil e Mark Strong, impecável no elétrico clímax.
Dando uma verdadeira aula na criação das empolgantes sequências de ação, coreografadas com rara categoria e rodadas com precisão cirúrgica, Mathew Vaughn mostra em Kingsman: Serviço Secreto toda a sua perícia técnica ao trabalhar com a velocidade das cenas, indo da câmera lenta aos takes mais acelerados com extrema habilidade. Ainda que acabe pecando pelo excesso, a violência estilizada flerta exageradamente com o bizarro em poucos momentos, Vaughn se sai muito bem nesta arriscada tentativa de rir dos filmes de espionagem, abraçando sem pudor alguns dos principais clichês deste clássico gênero. Apostando numa atmosfera extremamente pop, com direito à trilha sonora oitentista, edição acelerada, visual colorido e nas referências a filmes e séries, o realizador é certeiro ao não só conseguir se manter fiel ao descompromisso insano do seu argumento, mas também ao ir muito além do mero clima de paródia que muitos acreditavam encontrar. E numa época em que os estúdios parecem ávidos por consolidar suas franquias, como é bom ver um longa com início, meio e fim.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Dois Lados do Amor
Vidas sem rumo
Uma tragédia familiar. Um casamento rompido. Duas vidas aparentemente despedaçadas. Demonstrando uma impressionante maturidade ao ressaltar as curvas que só a vida é capaz de promover, Dois Lados do Amor é um daqueles trabalhos que impressionam pela arte de dominar sentimentos contrastantes. Dirigido com sobriedade pelo estreante em longas-metragens Ned Benson, o longa opta pelo caminho mais complicado ao narrar as desventuras de um cativante casal, vivido com intensidade pelo sempre competente James McAvoy e por uma apaixonante Jessica Chastain. Deixando de fora os clichês e os típicos melodramas do gênero, Benson alimenta uma dose de melancolia ao revelar as idas e vindas deste par, evitando entregar facilmente as verdadeiras emoções por trás dos seus personagens.
Com um argumento recheado de expressivos diálogos, que guiam o rumo dos protagonistas de forma singela e nada condescendente, o roteiro assinado pelo próprio Benson não admite a possibilidade de mastigar as informações sobre o passado de Connor (McAvoy) e Eleanor (Chastain). Optando por uma sequência inicial contrastante, bastam duas cenas - impecavelmente distintas - para entendermos o quão grave foram os motivos da separação. Apresentando pouco a pouco essa conturbada relação, com muitos fatos importantes sendo revelados nas entrelinhas, Benson suga a atenção do espectador ao mostrar o que foi, e o que se tornou, a vida deste cativante casal. Indo do carinho extremo ao choque contundente, o realizador prepara o terreno para uma carregada, mas sensível história de amor.
Tentando se adaptar a esta nova rotina, enquanto Eleanor vai morar com os apaixonados pais (William Hurt e Isabelle Huppert), Connor volta a residir na casa do seu solitário e bem sucedido pai (Ciarán Hinds). Sem tolerar a forma objetiva com que o marido encarou os problemas, Eleanor decide voltar a estudar, construindo uma grande amizade com a descontraída professora Friedman (Viola Davis). Connor, por outro lado, parece disposto a recuperar o tempo perdido, lutando não só para reatar com a esposa, mas também para manter o funcionamento do seu restaurante. Percebendo, no entanto, que os fantasmas do passado sempre reaparecem, independente de quanto eles fujam, os dois terão que encontrar um novo rumo para as suas respectivas vidas, nem que para isso nunca mais se vejam.
Tentando se adaptar a esta nova rotina, enquanto Eleanor vai morar com os apaixonados pais (William Hurt e Isabelle Huppert), Connor volta a residir na casa do seu solitário e bem sucedido pai (Ciarán Hinds). Sem tolerar a forma objetiva com que o marido encarou os problemas, Eleanor decide voltar a estudar, construindo uma grande amizade com a descontraída professora Friedman (Viola Davis). Connor, por outro lado, parece disposto a recuperar o tempo perdido, lutando não só para reatar com a esposa, mas também para manter o funcionamento do seu restaurante. Percebendo, no entanto, que os fantasmas do passado sempre reaparecem, independente de quanto eles fujam, os dois terão que encontrar um novo rumo para as suas respectivas vidas, nem que para isso nunca mais se vejam.
Embalados pelas intensas atuações dos protagonistas, principalmente pela latente química entre Chastain e McAvoy, Ned Benson se destaca pelo cuidado estético de suas cenas, marcadas por uma fotografia vibrante, que parece acompanhar o estado de espirito dos dois, e pela preocupação em ressaltar a expressividade dos atores. Sem se prender a soluções mirabolantes, o realizador opta por dar um toque estiloso, tanto no aspecto textual, como também no visual, a uma trama recheada de situações corriqueiras. Evitando parecer pretensioso ou excessivamente sugestivo, o roteiro aposta em diálogos repletos de simbolismos, potencializados pela relação entre pais e filhos. Contando com um impecável time de coadjuvantes, essa troca de experiências é primorosamente explorada, abrindo um merecido espaço para as figuras paternas vividas por William Hurt e Ciarán Hinds. Personagens que, apesar de também sofrerem com as consequências desta assombrosa crise, tentam dar uma mensagem de conforto e confiança para os filhos. Muito em função, é verdade, dos tocantes diálogos, que arrancam sinceras lágrimas e compensam alguns dos momentos mais lentos da trama.
Nesse sentido, aliás, vale destacar a capacidade de Benson em conduzir essas humanas e contrastantes emoções. Por mais que a atmosfera melancólica seja nítida em parte da película, crescendo a cada nova revelação sobre o passado dos dois, o longa verdadeiramente encanta por não se prender as obviedades. Sabendo conter os excessos, o argumento passeia com a mesma facilidade não só pelos momentos mais acalentadores, como também pelos confrontos mais densos envolvendo esta conturbada, mas contida relação. Até o humor ganha um bem vindo espaço em cena, numa espécie de alívio cômico, enfatizado pelos divertidos personagens vividos por Viola Davis e Bill Hader. Nuances emocionais que, diga-se de passagem, são capturadas com destreza pelos dois atores, com destaque para a magnética Jessica Chastain. Indo da radiante à abatida de forma impecável, o desempenho da atriz dá uma aura irresistível à fragilizada Eleanor.
Nesse sentido, aliás, vale destacar a capacidade de Benson em conduzir essas humanas e contrastantes emoções. Por mais que a atmosfera melancólica seja nítida em parte da película, crescendo a cada nova revelação sobre o passado dos dois, o longa verdadeiramente encanta por não se prender as obviedades. Sabendo conter os excessos, o argumento passeia com a mesma facilidade não só pelos momentos mais acalentadores, como também pelos confrontos mais densos envolvendo esta conturbada, mas contida relação. Até o humor ganha um bem vindo espaço em cena, numa espécie de alívio cômico, enfatizado pelos divertidos personagens vividos por Viola Davis e Bill Hader. Nuances emocionais que, diga-se de passagem, são capturadas com destreza pelos dois atores, com destaque para a magnética Jessica Chastain. Indo da radiante à abatida de forma impecável, o desempenho da atriz dá uma aura irresistível à fragilizada Eleanor.
Evitando simplificar as questões por trás das motivações do casal, Dois Lados do Amor é sutil ao conduzir não só os embates, mas também os momentos mais afetuosos da dupla. Destacando com naturalidade o complexo momento da vida dos dois, Ned Benson encontra no tom intimista uma alternativa louvável para nos convidar a viver um pouco dos anseios, das frustrações e das incertezas que cercam esta conturbada jornada em busca de um novo rumo. Apostando em sequências verdadeiramente memoráveis, incluindo o poético e metafórico desfecho, este comovente drama evidencia quais seriam os limites do amor perante as feridas da vida.
*Esse filme foi assistido durante o Festival do Rio 2014
domingo, 8 de março de 2015
Top 10 (Dia Internacional da Mulher)
E neste dia oito de março o mundo celebra mais um Dia Internacional da Mulher. Um data extremamente simbólica, que marca a luta feminina pelos direitos iguais. Para comemorar mais uma vez este dia, vamos a mais um Top 10 Cinemaniac. Depois de listarmos as mais belas do cinema atual, as realizadoras que se destacaram no desenvolvimento da sétima arte e também as personagens mais "bad-ass" do cinema, neste especial sobre o Dia Internacional da Mulher resolvi escalar as minhas dez personagens favoritas do cinema atual. Uma lista, confesso, muito complicada, já que notoriamente sobram nomes de real importância. Deixando de fora os personagens inspirados em histórias reais, neste Top 10 confira uma lista com dez dos personagens femininos que mais me agradaram nas últimas duas décadas. E começamos com...
sábado, 7 de março de 2015
Cinemaniac Indica (A Gaiola Dourada)
Uma ode aos portugueses e as tradições lusitanas, A Gaiola Dourada é um daqueles raros trabalhos que conseguem capturar a essência cultural de um povo. Através de uma premissa simples, recheada de hilárias idas e vindas tipicamente latinas, o inspirado longa dirigido por Ruben Alves é refinado ao questionar a situação dos imigrantes portugueses em terras francesas. Demonstrando habilidade para fugir dos clichês e do tom caricatural, Alves constrói um saboroso "feel good movie" que é preciso ao arrancar sinceras risadas a partir de temas populares e de dilemas dignos de uma "casa portuguesa".
quinta-feira, 5 de março de 2015
Um Santo Vizinho
Como é bom ver Bill Murray sendo Bill Murray
Existem várias formas de se contar uma mesma história. Isso é um fato. E Hollywood sabe
muito bem disso. Outro fato. Até por isso, numa época em que notoriamente pouca coisa realmente
original vem chegando às telonas, e que as fórmulas mais rentáveis
parecem exploradas a exaustão, é bom perceber que alguns realizadores ao
menos se esforçam para entregar um produto de qualidade dentro desta "reciclagem" de ideias. Este é o caso de Theodore Melfi (Winding Roads), um dos responsáveis por
esta adorável comedia chamada Um Santo de Vizinho. Procurando fugir dos clichês ao nos apresentar mais um "bom e velho" encontro de gerações, o diretor acha no impressionante carisma do jovem Jaeden Lieberher e na reconhecida acidez
de Bill Murray uma maneira segura para nos apresentar a deliciosa relação de amizade entre um garoto precoce e um velho ranzinza.
Apesar de marcar a volta de Bill Murray aos grandes personagens, o que não acontecia (me arrisco a dizer) desde Zumbilândia, Um Santo de Vizinho nem de longe se resume ao talento deste monstro da comédia atual. Ainda que a premissa sugira que iremos assistir a mais um filme "Sessão da Tarde", o diretor, escritor e produtor Theodore Melfi se mostra zeloso com a sua obra, fazendo de tudo para que esta "dramédia" não se reduza as soluções genéricas e as fórmulas que consagraram o gênero. Através de uma narrativa vigorosa, que se distancia dos descartáveis dramalhões e das jornadas de redenção, conhecemos então o pequeno Oliver (Lieberher). Maduro e extremamente precoce, o jovem chega a uma nova vizinhança após a sua mãe (Melissa McCarthy) descobrir que o marido estava a traindo com a assistente. Isolado e alvo de bullying no novo colégio, Oliver encontra abrigo na casa do ranzinza Vincent (Murray), um veterano de guerra beberrão e desbocado que se oferece como uma espécie improvável de babá para o jovem. Ciente que a ideia não era a das melhores, a atarefada mãe resolve dar uma chance para ele, que acaba se tornando uma espécie de mentor para Oliver. Em meio a uma série de péssimos exemplos, no entanto, o garoto acaba enxergando em Vincent algo que a maioria não vê, construindo assim uma genuína amizade entre duas pessoas que se aceitam como são.
Ainda que no papel o argumento não seja tão ousado, Theodore Melfi demonstra inspiração ao quebrar alguns paradigmas do gênero. Apostando num humor refinado, em diálogos acima da média, e no ótimo tempo de comédia do elenco, o realizador comove ao construir uma trama extremamente natural, evitando forçadas reviravoltas e\ou mudanças comportamentais. Através de personagens complexos, que não se resumem aos rótulos do gênero, Melfi mostra que por trás de uma mãe ausente, pode existir uma mulher ávida para colocar a sua vida nos trilhos, que por trás de um ácido apostador, pode existir um atencioso homem capaz dos mais surpreendentes atos, e que por trás de uma prostituta russa grávida, pode existir existe uma mulher independente que não se abate com a sua situação "ruim para os negócios". Em meio a tipos tão vibrantes, que enchem a tela de energia ao longo das velozes 1h e 40 min de projeção, a cereja no bolo acaba realmente sendo a tocante amizade entre Vincent e Oliver. Ainda que esta amizade se prenda inicialmente às fórmulas mais genéricas, com o veterano de guerra ensinando ao frágil garoto a se defender dos valentões, pouco a pouco os clichês vão se diluindo em meio as interessantes nuances dos dois personagens, rendendo não só sequências hilárias, como situações genuinamente singelas.
Méritos que, logicamente, precisam ser divididos com todo o elenco. A começar pelo jovem Jaeden Lieberher, que impressiona ao exibir não só um impecável tempo de comédia, mas também habilidade nos momentos mais dramáticos. Esbanjando carisma ao longo do filme, Lieberher não se intimida ao contracenar com atores mais experientes, surpreendendo ao construir um Oliver maduro, gentil e extremamente agradável. No outro extremo desta relação está Bill Murray, que dá um show de atuação ao construir o ranzinza e politicamente incorreto Vincent. Se em longas mais questionáveis o ator já apronta das suas, vide o recente Caçadores de Obras Primas, num projeto mais qualificado Murray empolga ao destilar o seu reconhecido (mau) humor em cena, flutuando entre o drama e a comédia com primor. Com direito a uma interessante reviravolta, que só enfatiza o talento deste ator. Enquanto Murray vive um tipo recorrente em sua carreira, Melfi ousa realmente ao escalar duas atrizes em personagens distantes de sua zona de conforto. Acostumada a papéis cômicos mais escrachados, Melissa McCarthy (Missão Madrinha de Casamento) vai muito bem como a personagem mais séria da trama, demonstrando uma invejável química com o jovem Lieberher. Por outro lado, a inglesa Naomi Watts (King-Kong) mais uma vez não se leva a sério na pele da prostituta russa Daka. Assim como em Birdman, a atriz empolga como uma hilária personagem, roubando a cena ao construir uma russa bronzeada, com um sotaque absurdamente engraçado e que não perde a pose nem ao dançar um pole dance com um barrigão de grávida.
Utilizando a Igreja Católica como um interessante pano de fundo, vide a presença de Chris O'Dowd (Missão Madrinha de Casamento) como um padre alto astral, Um Santo de Vizinho é uma daquelas comédias que conquistam pela sua leveza. Ainda que cometa um equivoco ali ou aqui, como na descartável presença do agiota vivida por Terence Howard (Homem de Ferro), Theodore Melfi se apoia numa premissa quase despretensiosa, em personagens humanos e nas atuações de Bill Murray e do surpreendente Jaeden Lieberher para dar um contorno magnético à velha fórmula do "quem vê cara não vê coração".
quarta-feira, 4 de março de 2015
Saiu! Confira o novo trailer de Vingadores: A Era de Ultron
Um dos longas mais esperados deste primeiro semestre, Vingadores - A Era de Ultron ganhou mais um novo trailer na tarde de hoje. Após uma campanha de marketing mundial, onde os próprios fãs foram os responsáveis por desbloquear o trailer através de tuites, a nova e empolgante prévia mostra a frustração de Tony Stark (Robert Downey Jr.) ao dar vida ao poderoso Ultron, uma inteligência artificial que promete colocar em prova toda a força deste supergrupo. Dirigido novamente por Joss Whedon, Os Vingadores 2 chega aos cinemas brasileiros no dia 23 de abril. Confira abaixo o novo trailer.
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