quinta-feira, 5 de março de 2015

Um Santo Vizinho

Como é bom ver Bill Murray sendo Bill Murray

Existem várias formas de se contar uma mesma história. Isso é um fato. E Hollywood sabe muito bem disso. Outro fato. Até por isso, numa época em que notoriamente pouca coisa realmente original vem chegando às telonas, e que as fórmulas mais rentáveis parecem exploradas a exaustão, é bom perceber que alguns realizadores ao menos se esforçam para entregar um produto de qualidade dentro desta "reciclagem" de ideias. Este é o caso de Theodore Melfi (Winding Roads), um dos responsáveis por esta adorável comedia chamada Um Santo de Vizinho. Procurando fugir dos clichês ao nos apresentar mais um "bom e velho" encontro de gerações, o diretor acha no impressionante carisma do jovem Jaeden Lieberher e na reconhecida acidez de Bill Murray uma maneira segura para nos apresentar a deliciosa relação de amizade entre um garoto precoce e um velho ranzinza.

Apesar de marcar a volta de Bill Murray aos grandes personagens, o que não acontecia (me arrisco a dizer) desde Zumbilândia, Um Santo de Vizinho nem de longe se resume ao talento deste monstro da comédia atual. Ainda que a premissa sugira que iremos assistir a mais um filme "Sessão da Tarde", o diretor, escritor e produtor Theodore Melfi se mostra zeloso com a sua obra, fazendo de tudo para que esta "dramédia" não se reduza as soluções genéricas e as fórmulas que consagraram o gênero. Através de uma narrativa vigorosa, que se distancia dos descartáveis dramalhões e das jornadas de redenção, conhecemos então o pequeno Oliver (Lieberher). Maduro e extremamente precoce, o jovem chega a uma nova vizinhança após a sua mãe (Melissa McCarthy) descobrir que o marido estava a traindo com a assistente. Isolado e alvo de bullying no novo colégio, Oliver encontra abrigo na casa do ranzinza Vincent (Murray), um veterano de guerra beberrão e desbocado que se oferece como uma espécie improvável de babá para o jovem. Ciente que a ideia não era a das melhores, a atarefada mãe resolve dar uma chance para ele, que acaba se tornando uma espécie de mentor para Oliver. Em meio a uma série de péssimos exemplos, no entanto, o garoto acaba enxergando em Vincent algo que a maioria não vê, construindo assim uma genuína amizade entre duas pessoas que se aceitam como são.


Ainda que no papel o argumento não seja tão ousado, Theodore Melfi demonstra inspiração ao quebrar alguns paradigmas do gênero. Apostando num humor refinado, em diálogos acima da média, e no ótimo tempo de comédia do elenco, o realizador comove ao construir uma trama extremamente natural, evitando forçadas reviravoltas e\ou mudanças comportamentais. Através de personagens complexos, que não se resumem aos rótulos do gênero, Melfi mostra que por trás de uma mãe ausente, pode existir uma mulher ávida para colocar a sua vida nos trilhos, que por trás de um ácido apostador, pode existir um atencioso homem capaz dos mais surpreendentes atos, e que por trás de uma prostituta russa grávida, pode existir existe uma mulher independente que não se abate com a sua situação "ruim para os negócios". Em meio a tipos tão vibrantes, que enchem a tela de energia ao longo das velozes 1h e 40 min de projeção, a cereja no bolo acaba realmente sendo a tocante amizade entre Vincent e Oliver. Ainda que esta amizade se prenda inicialmente às fórmulas mais genéricas, com o veterano de guerra ensinando ao frágil garoto a se defender dos valentões, pouco a pouco os clichês vão se diluindo em meio as interessantes nuances dos dois personagens, rendendo não só sequências hilárias, como situações genuinamente singelas.


Méritos que, logicamente, precisam ser divididos com todo o elenco. A começar pelo jovem Jaeden Lieberher, que impressiona ao exibir não só um impecável tempo de comédia, mas também habilidade nos momentos mais dramáticos. Esbanjando carisma ao longo do filme, Lieberher não se intimida ao contracenar com atores mais experientes, surpreendendo ao construir um Oliver maduro, gentil e extremamente agradável. No outro extremo desta relação está Bill Murray, que dá um show de atuação ao construir o ranzinza e politicamente incorreto Vincent. Se em longas mais questionáveis o ator já apronta das suas, vide o recente Caçadores de Obras Primas, num projeto mais qualificado Murray empolga ao destilar o seu reconhecido (mau) humor em cena, flutuando entre o drama e a comédia com primor. Com direito a uma interessante reviravolta, que só enfatiza o talento deste ator. Enquanto Murray vive um tipo recorrente em sua carreira, Melfi ousa realmente ao escalar duas atrizes em personagens distantes de sua zona de conforto. Acostumada a papéis cômicos mais escrachados, Melissa McCarthy (Missão Madrinha de Casamento) vai muito bem como a personagem mais séria da trama, demonstrando uma invejável química com o jovem Lieberher. Por outro lado, a inglesa Naomi Watts (King-Kong) mais uma vez não se leva a sério na pele da prostituta russa Daka. Assim como em Birdman, a atriz empolga como uma hilária personagem, roubando a cena ao construir uma russa bronzeada, com um sotaque absurdamente engraçado e que não perde a pose nem ao dançar um pole dance com um barrigão de grávida.


Utilizando a Igreja Católica como um interessante pano de fundo, vide a presença de Chris O'Dowd (Missão Madrinha de Casamento) como um padre alto astral, Um Santo de Vizinho é uma daquelas comédias que conquistam pela sua leveza. Ainda que cometa um equivoco ali ou aqui, como na descartável presença do agiota vivida por Terence Howard (Homem de Ferro), Theodore Melfi se apoia numa premissa quase despretensiosa, em personagens humanos e nas atuações de Bill Murray e do surpreendente Jaeden Lieberher para dar um contorno magnético à velha fórmula do "quem vê cara não vê coração".

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