quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Cinemaniac Indica (Inside Llewyn Davis - Balada do Homem Comum)


Esnobado das principais categorias do Oscar 2014, Inside Llewyn Davis: A Balada de um Homem Comum é um trabalho com a típica assinatura dos criativos Joel e Ethan Coen. Sem a preocupação de contar uma história com início, meio e fim, a dupla responsável por sucessos como Onde os Fracos Não tem Vez, Fargo: Uma Comédia de Erros e Bravura Indômita encontra no concorrido cenário da música folk na década de 1960 o pano de fundo perfeito para nos apresentar a uma trama recheada de humor negro e melancolia. Contando com a estupenda atuação de Oscar Isaac, que empresta brilhantemente a sua voz para as profundas e entristecidas canções, o longa comove ao narrar as desventuras de um obstinado "vira lata" da música à procura da sua improvável incrível jornada.



Embalado pela pálida fotografia de Bruno Delbonnel (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain), impecável ao construir o decadente ambiente em torno de Llewyn, Joel e Ethan Coen aliam sutileza à uma ligeira dose de acidez ao narrar esta imprevisível e bem humorada fábula sobre o fracasso. Trazendo no elenco nomes como os de John Goodman, uma desbocada Carey Mulligan, Justin Timberlake, Garrett Hedlund e a revelação Adam Driver, o longa narra as idas e vindas do sonhador Llewyn Davis (Isaacs), um músico virtuoso que lutava para conseguir o seu lugar ao sol. Após a traumática perda do seu antigo parceiro e o fracasso dos seus últimos trabalhos em Nova Iorque, o cantor passa a viver de pequenos shows e dos favores de amigos como a dupla de cantores Jim e Jean (Timbarlake e Mulligan). Sem ter sequer um lugar para dormir, a sua situação só piora quando ele descobre que Jean está esperando um filho seu. Mesmo cansado de lutar por sua carreira, Llewyn resolve não desistir e parte para Chicago atrás do seu sonho. Contando com a inestimável companhia de um gato de rua, o cantor aposta as suas últimas fichas na esperança de finalmente ter o seu talento reconhecido e não precisar voltar a trabalhar para a marinha mercantil.


Explorando os pequenos simbolismos do afiado e envolvente argumento, os irmãos Coen tornam a jornada de Llewyn algo, ao mesmo tempo, adorável e desoladora. No embalo das intimistas canções produzidas por T Bone Burnett e Marcus Mumford, a dupla de realizadores mostra a sua reconhecida perspicácia ao revelar através de pequenas passagens e participações pontuais os verdadeiros motivos que levaram o talentoso músico a esta situação. Como se não bastasse o magnético desempenho de Oscar Isaac, impecável tanto por sua entrega vocal, quanto pela habilidade ao compor este personagem intenso, instável e naturalmente inconformado, os realizadores fazem de tudo para que Llewyn se distancie das expectativas dos espectadores. Entre sequências inspiradas, como a arrebatadora apresentação a um dono de bar em Chicago, e momentos completamente inesperados, como o incompatível desfecho dado a uma singela cena envolvendo Llewyn e o catatônico pai, Ethan e Joel Coen encontram nesta alternância de sentimentos a forma ideal para mostrar o turbilhão de emoções em torno deste incorrigível representante da música folk. Prova disso é a surpreendente ligação emocional entre Llewyn e o seu gato de rua, uma espécie de auto-identificação explorada com sagacidade pelo roteiro.


Recheado de humor negro e de singelas apresentações musicais, que preenchem até mesmo algumas sequências mais lentas, Inside Llewyn Davis - Balada de um Homem Comum foge dos clichês ao nos contar a excêntrica odisseia de um cantor que recusava a domesticação. Um dos muitos sonhadores que, por não abrir mão de sua integridade musical, esbarrou no acaso de estar sempre na hora e no lugar errado. Vide o espirituoso desfecho, em que, numa sagaz homenagem à um dos maiores ícones da música norte-americana, Ethan e Joel Coen evidenciam que o caminho para o estrelato nunca esteve tão perto. 

2 comentários:

Hugo disse...

É um belíssimo filme.

Os irmãos Cohen devem adorar o clássico "A Odisseia", que serviu de premissa para o divertido "E Aí Meu Irmão, Cadê Você?”, sendo citado novamente aqui, até mesmo no nome do gato.

Abraço

thicarvalho disse...

Bem lembrado Hugo. Uma baita citação a este clássico. Abs.

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