terça-feira, 4 de novembro de 2014

Tim Maia

Cinebiografia é impecável ao mostrar o lado mais radical deste gênio da música brasileira

Inspirado no livro Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia, do respeitado jornalista, compositor e escritor Nelson Motta, a cinebiografia Tim Maia se mostra contundente ao capturar justamente o lado mais extremo da personalidade deste ícone da música brasileira. Conduzido com competência por Mauro Lima, que já havia demonstrado habilidade ao adaptar histórias reais no elogiado Meu Nome Não é Johnny, o longa não se faz de rogado ao mostrar o melhor e o pior por trás das atitudes do popular Tião da Tijuca. Apostando numa impecável direção de arte, que promove um magnético passeio pelo cenário da música nacional das décadas de 1960 e 1970, o drama musical encontra no talento dos protagonistas e na malandragem carioca típica do cantor o vigor para promover um relato intenso, respeitoso e nada condescendente sobre a genialidade e o radicalismo deste fenômeno da MPB. 




Se equilibrando entre a vida pessoal e a profissional, o roteiro assinado pelo próprio Mauro Lima, ao lado de Antonia Pellegrino, opta por focar na intimidade deste icônico do cantor. Fugindo completamente do tom caricatural, os expressivos protagonistas Babu Santana e Robson Rodrigues reproduzem com grande inspiração o reconhecido temperamento de Tim Maia, incluindo o seu nítido bom humor, a sua conduta explosiva e, obviamente, a sua notória falta de limites. Narrado a partir dos relatos de Fábio, um dos maiores e mais fieis parceiros do cantor, numa competente atuação de Cauã Reymond, o longa é primoroso ao mostrar as várias fases da vida do "síndico do Brasil". Com uma trama realmente envolvente, conhecemos então a infância pobre do "Tião da Marmita" na Tijuca, o início musical ao lado de Roberto Carlos (George Sauma) e da banda os The Sputiniks, a primeira tentativa de sucesso na TV Tupi no "Clube do Rock" e a frustrada viagem aos EUA. Vemos também a sua retomada no Brasil através da Jovem Guarda, a explosão na década de 1970 com o soul music, o amor por Janaína (Alinne Moraes numa versão realmente apaixonante), as frustrações religiosas, a degradação através da fase "sexo, drogas e mais drogas", enfim, os muitos altos e baixos não só da virtuosa carreira, como principalmente da sua inusitada vida pessoal. 


Embalado pela vastidão de histórias envolvendo Tim Maia, Mauro Lima consegue dar um invejável ritmo às envolventes 2 h e 20 min de projeção. Reproduzindo com fidelidade a intensidade por trás das atitudes do músico, cuja vida parecia não ter meio termo, o longa passa com a mesma energia pelas diversas fases da biografia de Tim. Se concentrando na relação dele com Fábio, o que tem gerado muitas criticas dos parceiros "esquecidos" pelo longa, e no amor quase platônico por Janaína, uma personagem ficcional que representa todas as mulheres de Tim, o roteiro mostra com contundência as nuances da carreira do cantor, evidenciando a sua capacidade em se autodestruir. Desde os seus pitis mais reconhecidos, como as suas repentinas ausências em shows, passando pelas atitudes mais inusitadas, incluindo ai os problemas com a construção de sua casa, e chegando aos problemas mais sérios, como o desenfreado uso das mais variadas drogas, a trama permite que o espectador tenha acesso a um lado que muitos fãs já sabiam existir, mas que nunca tinham sido expostos de forma tão gráfica.

Em meio as tiradas sempre bem humoradas, que se tornam ainda mais enfáticas nas mãos de Babu Santana, o argumento ganha em densidade ao se aprofundar nos conflitos emocionais mais íntimos do músico. Apresentando estes episódios de forma nua e crua, o longa ganha uma atmosfera triste ao mostrar como este carismático ícone da música soul, que levava milhares de fãs aos seus shows, conseguia afastar os poucos amigos que suportavam a sua personalidade extrema e as suas atitudes nada convencionais. Dilemas que, diga-se de passagem, são retratados de forma extremamente madura e pouco romanceada pelo roteiro, se aproveitando de maneira impecável das revelações de Nelson Motta, um destes resistentes amigo pessoais de Tim Maia. Maturidade que, inclusive, se repete no contido clímax, que emociona ao se distanciar completamente do tom melodramático, reproduzindo com sensibilidade os últimos momentos de Tim Maia. Um desfecho sóbrio que ameniza - até mesmo - alguns deslizes do longa, incluindo o pouco espaço dado a fase áurea do cantor na década de 1990 e o excessivo uso do recurso da narração.


Outro mérito da cinebiografia, diga-se de passagem, fica pela empolgante apresentação do eclético cenário musical da época, que contextualiza cronologicamente o espectador durante a jornada de Tim Maia. Em meio ao rock da jovem guarda, a explosão da Bossa Nova e o vigor da black music, Mauro reproduz com destreza um cativante panorama deste período, dando destaque a nomes como os de Erasmo Carlos, Nara Leão, Rita Lee, Carlos Imperial, e, logicamente, Roberto Carlos. Este último, aliás, é um dos pontos altos da cinebiografia, ganhando uma impagável e caricata versão "estrelinha" nas mãos de George Sauma. Elogios que, merecidamente, precisam ser divididos com a impecável direção de arte, os maquiadores e os figurinistas, que possibilitam esta viagem através de cenários completamente distintos, incluindo ai a vizinhança humilde da Tijuca, o glamour do fenômeno da Jovem Guarda, o movimento afro norte-americano e as cores psicodélicas da fase Hippie. Uma ambientação estupenda, que só aumenta a conexão do espectador com a história do cantor. A cereja no bolo, porém, fica pela eclética trilha sonora, que explora não só o vasto repertório de Tim Maia, como também abre espaço para uma série de hits das décadas de 1960 e 1970, embalando as idas e vindas do "síndico" com uma pegada particular.


Ainda que peque ao não apostar mais nas apresentações do cantor, principalmente pelo bom desempenho vocal dos dois protagonistas, Tim Maia é muito mais do que uma obra sobre um dos maiores gênios da música soul brasileira. Na verdade, o longa dirigido por Mauro Lima desponta como um retrato precioso envolvendo um dos cenários mais vastos e virtuosos da música brasileira. Méritos para as entusiasmadas interpretações de Babu Santana e Robson Rodrigues que, mesmo sem grande experiência no cinema, conseguem reproduzir toda a complexidade, a inquietação e a inconsequência por trás do temperamento desta força da natureza chamada Sebastião Rodrigues Maia.

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