sexta-feira, 6 de junho de 2014

A Culpa é das Estrelas

Uma granada de emoções.

Adaptação de um dos maiores best-sellers de 2012, ainda hoje líder de vendas aqui no Brasil, a versão cinematográfica de A Culpa é das Estrelas é certeira ao capturar a essência básica da obra assinada por John Green. Evitando se acomodar diante a legião de fãs, o que vem se tornando recorrente em meio à invasão de filmes baseados em livros teen's, o diretor Josh Boone mostra sensibilidade e inocência ao narrar uma história de amor em meio ao "Mal do Século XXI". Fugindo dos melodramas descartáveis e dos clichês que cercam o gênero, o longa é um relato otimista, quase mágico, que não deixa de fora o viés realístico presente na obra original. Isso, claro, sem esquecer das concessões às fãs mais histéricas, que prometem inundar as salas de cinema por todo mundo*. 

Narrando a já conhecida história dos adolescentes Gus (Ansel Elgort) e Hanzel (Shailene Woodley), o roteiro assinado pela dupla Scott Neustadter e Michael H. Weber se mostra mais profundo do que aparentava ser. Após um início extremamente leve, quase despretensioso, o roteiro vai se revelando pouco a pouco. Apesar da linha narrativa simples, que explora em alguns momentos a figura do narrador, a trama vai quebrando barreiras ao longo das quase duas horas de projeção. Na verdade, o que começa como um descartável romance-dramático, se mostra uma densa e reflexiva história sobre a influência do câncer na personalidade e no modo de vida dos adolescentes. Ainda que a postura inicial dos dois personagens não remeta às suas respectivas idades, toda a inocência presente na construção desta relação é muito bem explicada pela competente trama.


Convivendo com a doença desde a infância, Gus e Hazel se conhecem em situações completamente opostas. Enquanto Hazel sofre de uma grave doença pulmonar, Gus se mostra praticamente curado de um câncer que o obrigou a amputar uma das pernas. Incomodados com o abatimento da filha, os pais (Laura Dern e Sam Trammell) decidem que ela precisa frequentar um grupo de apoio a adolescentes com câncer. Lá, Hazel conhece Gus e, inicialmente, se incomoda com o otimismo do rapaz. Após as muitas investidas dele, no entanto, a jovem decide dar uma chance para essa amizade, iniciando assim uma relação que iria mudar a sua vida. Na tentativa de conquista-la, Gus resolve entrar em contato com o autor da obra preferida de Hazel e planeja uma romântica viagem para Amsterdã.


Com base nessa expressiva premissa, o diretor Josh Boone (do elogiado Ligados Pelo Amor) se apoia no carisma dos jovens protagonistas para conceber toda esta impactante história de amor. Aproveitando a latente química do casal Ansel Elgort e Shailene Woodley, que juntos estrelaram a aventura teen Divergente, Boone demonstra eficiência ao equilibrar a inocência do amor juvenil com a realidade por trás dos verdadeiros problemas dos personagens. Tirando o máximo desses dois jovens atores, o diretor desenvolve o romance de forma gradativa e cativante, conquistando o espectador sem muito esforço. Evitando os clichês em torno das crises do casal, Boone é sutil ao concentrar o drama nos dilemas envolvendo o futuro dos dois e a forma como eles lidam com o risco de morte. Ainda que alguns diálogos pareçam retirados de um livro de autoajuda, principalmente no discurso otimista apresentado por Gus, é interessante ver que o roteiro não se prende exclusivamente aos dois. Mesmo que brevemente, a relação de Hazel com os seus pais ganha contornos emocionantes, assim como a presença do divertido Isaac (Nat Wolff). Esse inusitado amigo, aliás, é responsável pelos melhores alívios cômicos, deixando a impressão que deveria ter sido mais aproveitado.


O verdadeiro choque de realidade, porém, só acontece com a entrada do personagem Peter Van Houten. Vivido com expressividade por Willem Dafoe (Homem-Aranha), Van Houten é o autor do livro que tanto motivou a jovem Hazel. Lidando com toda a expectativa de uma fã, cheia de perguntas a serem respondidas e dúvidas sobre os seus personagens favoritos, o roteiro tem uma precisa quebra de ritmo a partir deste momento. Sem querer estragar qualquer tipo de surpresa, Van Houten se torna a figura responsável por nos alertar para as complexidades da vida. Uma choque de verdade desenvolvido com primor pelos realizadores, voltado muito mais para os próprios espectadores, do que para os personagens em questão. Muito bem explorado pelos roteiristas, o escritor se torna a ponte perfeita para o desenvolvimento do lado mais crível e sério da trama. A partir daí, inclusive, o longa passa a ter uma série de excelentes debates, buscando referências pertinentes à vida dos dois jovens. Com destaque para a passagem sobre a trágica história de Anne Frank, e o consequente paralelo criado com Hazel. Nem as já citadas concessões do roteiro, que talvez funcionassem melhor nos livros, conseguem diluir o impacto desses momentos.


Fazendo chorar e rir na hora certa, A Culpa é das Estrelas desponta como uma daqueles romances infanto-juvenis que não subestimam o seu público alvo. Com a premissa de nos apresentar uma mágica e envolvente história de amor, potencializada pela romântica fotografia assinada por Ben Richardson, o jovem diretor Josh Boone é habilidoso ao mostrar o aspecto realístico da trama a uma geração preparada para finais felizes. Se preocupando em refletir sobre o antes, o durante e o depois desta trágica doença, o romance dos dois carismáticos jovens comprova que - inevitavelmente - a vida é um livro com o final em aberto. E nós, independente das circunstâncias, precisamos lidar com isso.


*Traduzido para 46 idiomas, A Culpa é Das Estrelas já vendeu mais de 10,7 milhões de cópias em todo mundo. Campeã de vendas no Brasil, essa publicação lidera a lista com 17.944 exemplares negociados. 

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