quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Um Time Show de Bola

Um filme Show de Bola.

Primeira investida em longas de animação do diretor argentino Juan José Campanella, ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com O Segredo de Seus Olhos, Um Time Show de Bola encontra no sentimento nostálgico a forma perfeita para destacar a universal paixão pelo futebol. Para isso, ele aposta num dos mais tradicionais jogos envolvendo o esporte: o popular totó, pebolim ou Fla-Flu. Diferente do que muitos esperavam, no entanto, o longa não explora apenas tipos do futebol argentino. Essa opção aproxima ainda mais os fãs do futebol, principalmente, por brincar com várias personalidades presentes dentro da modalidade. Temos então o jogador egocêntrico, o agregador, o líder, o marqueteiro, o narcisista, no melhor estilo Cristiano Ronaldo, enfim, todos eles contribuindo diretamente para a eficiente trama, que promete agradar não só as crianças, como também aos adultos. 

Com roteiro assinado pelo próprio Campanella, ao lado Axel Kuschevatzky, Um Time Show de Bola narra a história de Amadeo, um fanático por futebol que tem grande habilidade nas partidas de totó. Funcionário de um bar, ele acaba criando grande vínculo com a mesa de totó do local e com os seus jogadores. Seus feitos no jogo acabam despertando a inveja do bom de bola Ezequiel, um garoto que não aceitava ser derrotado dentro das quatro linhas. Empurrado pelo seu amor pela jovem Laura, Amadeo aceita um "jogo contra" Ezequiel, e consegue uma estilosa vitória. Humilhado, Ezequiel jura uma vingança e acaba se tornando um astro do futebol. Agora adulto, Ezequiel retorna a cidade com um único objetivo: transforma-la em um grande parque temático sobre o futebol, incluindo ai, a destruição do bar em que Amadeo sempre trabalhou. Lutando pela cidade, Amadeo acaba desafiando Ezequiel para uma partida de futebol. O que ele não esperava é que uma ajuda mágica apareceria de forma inesperada. Seus velhos companheiros de totó ganham vida e prometem ajuda-lo nesta difícil missão.


Apesar do clima nostálgico sugerido pelo totó, o filme acaba apostando suas fichas nos carismáticos bonecos e brincando com alguns dos estereótipos que envolvem o futebol atual. Após ganharem vida, cada um dos "jogadores" ganham uma característica bem conhecida do grande público. Temos então o vaidoso Beto, que só fala o seu nome na terceira pessoa, o capitão Capi, o habilidoso que se acha melhor que os outros, o experiente Loco, que procura sempre agregar o grupo com os seus jargões populares, além do próprio Ezequiel, o grande vilão do filme, que parece destacar todo o lado negativo dentro do futebol atual. Na verdade, os grandes críticos do esporte acreditam que o excesso de marketing, a superexposição dos atletas, e as altas cifras, acabaram diminuindo toda a paixão popular pelo esporte. E essas características, justamente, acabam marcando o grande vilão do filme, Ezequiel, uma mistura negativa de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. E como se não bastassem os ótimos e bem construídos personagens, as piadas também são extremamente bem desenvolvidas, com muitas referências ao próprio futebol. A trama, no entanto, não se resume ao esporte, e acaba destacando o relacionamento entre os "jogadores". Se o desenvolvimento do roteiro não é tão surpreendente, e acaba apostando em dilemas já conhecidos, Campanella mostra toda a sua sensibilidade no tocante desfecho, com direito a uma divertida e empolgante partida de futebol. 


Estreante em longas de animação, Juan José Campanella mostra um surpreendente desempenho dentro do gênero. Diferente do que muitos esperavam, o diretor concebe um filme maior, tecnicamente perfeito, que não se prende apenas as questões esportivas. Na verdade, com ótimo domínio da ferramenta 3-D, Campanella amplia a ação do filme, apostando também nas aventuras dos bonecos de totó, em meio ao nosso mundo. Com uma trilha sonora precisa, assinada por Emilio Kauderer, o longa nos brinda com sequências empolgantes, principalmente as que envolvem o lixão. Até mesmo toda a cena dentro do laboratório, diga-se de passagem, o momento mais falho da trama, consegue um resultado eficiente graças à construção digital. Além disso, o longa apresenta uma série de referências a outros clássicos do cinema, o que aproxima - ainda mais - os adultos da diversão. (O inicio remetendo ao clássico 2001 é sensacional. Uma das grandes cenas do ano.) Entretenimento de altíssima qualidade, Um Time Show de Bola é um dos melhores longas de animação de 2013. Dirigido por um argentino, com jogadores vestindo verde e amarelo, o longa leva para as telonas toda a paixão sul-americana pelo futebol. Um esporte que ainda hoje, com uma série de outros atrativos, é uma modalidade única, empolgante e hereditária. Uma coisa quase genética...

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