quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Festival do Rio (Only Lovers Left Alive)


Jim Jarmusch cria curiosa fábula vampiresca para questionar a nossa conduta dentro da sociedade.

Em meio a banalização dos filmes envolvendo os personagens vampirescos, sobrou para o cultuado diretor Jim Jarmusch (Flores Partidas, Dead Man) a surpreendente missão de tentar novamente dar "sangue novo" para as obras do gênero. Fugindo completamente de uma estética comercial, o longa Only Lovers Left Alive aposta num tom sombrio, e no interessante clima nostálgico, para tecer uma ácida crítica ao comportamento do ser-humano, principalmente, com relação a falta de cultura dentro da nossa sociedade. Aqui - felizmente - os vampiros voltam a se comportar como as tais "criaturas da noite", e apesar do visual moderno, não tem qualquer ligação com essa triste nova "roupagem" que os personagens ganharam nos últimos anos. 

E antes de escrever sobre a trama propriamente dita, vale destacar aqui a construção dos dois personagens principais do longa, os vampiros enamorados Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton). Mesmo sem ser um filme propriamente de terror, os protagonistas criados por Jarmusch são extremamente dignos de toda a mitologia envolvendo os vampiros no cinema. Em hipótese alguma andam no escuro, se alimentam do mais puro sangue - quando possível  - e evitam entrar em casas sem serem convidados. Os dois, inclusive, lamentam o fato de não viverem mais no século XV, onde facilmente poderiam matar suas vítimas sem deixar vestígios. Apesar disso, os dois são gentis e cultos, buscando sempre uma mínima interação com os humanos. Com brilhantes atuações de Hiddleston e Swinton, os personagens carregam toda a nostalgia e o ar "blasé" que só duas criaturas imortais poderiam ter. Afinal, após séculos e séculos de existência, e de convivência com grandes realizadores, nada parece muito novo para os dois. É nesse ponto que Jarmusch, também responsável pelo roteiro, tem a acertada opção de questionar o comportamento humano, com destaque ao empobrecimento cultural. 


Na verdade, Adam tem todo o perfil dos mais excêntricos astros do rock. Vive recluso compondo suas músicas instrumentais, melancolicamente escutando seus clássicos em vinil e colecionando instrumentos históricos. Apesar de toda a paixão pela música, Adam é um ranzinza quando o assunto é fama, impedindo assim que a sua música chegue ao mainstream. A impressão que fica é que, na visão de Adam, os seres-humanos não estariam a altura de sua música. Um personagem questionador, que classifica os humanos com "zumbis" - em nítida metáfora a autodestruição - e demonstra certa tendência suicida. Já Eve é uma culta mulher, com mais ânimo para a vida, que ao longo dos séculos se dedicou a literatura. Ao lado de seu mentor Marlowe (John Hurt), ela aproveitou para acompanhar diversas fazes de grandes escritores e utilizar a sua imortalidade para ganhar conhecimento. Apesar de algumas diferenças básicas, em comum, o casal demonstra um grande pessimismo em relação aos humanos e ao mundo que essa nova geração acabou construindo. Em clima nostálgico, os dois deixam se levar pelo saudosismo em relação a outros períodos históricos e, principalmente, à alguns dos seus mais célebres personagens, como Galileu, Isaac Newton e Darwin. Em cima dessa contextualizada fábula vampiresca, com direito a brincadeiras com William Shakespeare, Jarmusch nos apresenta uma interessante crítica social, que além de destacar essas questões culturais, ressalta ainda - com interessante bom humor - a escassez nos recursos naturais, uma fraca evolução tecnológica e a péssima qualidade de vida atual. 


Apesar de todo esse interessante questionamento ao nosso modo de vida, cheio de referências à cultura pop, o grande problema de Only Lovers Left Live é essa tentativa de se mostrar um trabalho "naturalista". Ou seja, quem está esperando uma narrativa óbvia, um blockbuster, pode passar longe das salas de exibição. Conduzida de forma realmente lenta por Jarmusch, a trama narra o estilo de vida do casal de vampiros Eve e Adam. Mesmo casados, Adam opta por uma vida reclusa em Detroit, enquanto Eve busca sua vida em Tânger, no Marrocos, ao lado de seu mentor Marlowe. O estilo de vida pessimista de Adam, porém, acaba preocupando Eve, que volta para os EUA para confortar o seu grande amor. Finalmente juntos, após algumas décadas, a dupla resolve seguir a sua rotina nostálgica, mas a inesperada chegada de Ava (Mia Wasikowska), irmã de Eve, acaba alterando o modo de vida dos dois. Principalmente por ela representar o que eles menos gostam: a juventude empobrecida culturalmente. Em cima desse argumento, aparentemente básico, a narrativa acaba optando por se apoiar muito mais nessas discussões filosóficas, do que propriamente, no desenvolvimento trama. Toda a abordagem pop é interessante, e a chegada da personagem Ava acrescenta um pouco mais de ritmo, mas o andamento do filme é realmente vagaroso. Felizmente, no entanto, a fotografia sombria, os cenários extremamente bem construídos, e o ótimo trabalho de Jarmusch na condução do elenco, conseguem amenizar esse possível lado "anticomercial" do roteiro. 


Por falar na direção, vale destacar o grande trabalho da dupla Tilda Swinton e Tom Hiddleston. Conseguindo recriar o que de melhor os vampiros tem, que é o clima de sedução, as duas interpretações só aumentam essa percepção de nobreza que sempre envolveu o mitológico personagem. Enquanto Swinton parece uma personagem mais viva, mais vibrante, Hiddleston está brilhantemente melancólico. A química entre eles é ótima e os parecem se completar em cena. Além da dupla, o outro grande destaque do longa é a jovem Mia Wasikowska, que apesar do pouco tempo em cena, dá uma roupagem mais atual para os vampiros e também mais vida ao longa. Os três aproveitam os ótimos e reflexivos diálogos, para nos brindarem com uma interpretação verdadeiramente digna dos filmes do gênero. Além deles, o longa conta ainda com boas atuações de John Hurt, Anton Yelchin e Jeffrey Wrigth.


Apesar da ácida crítica e de toda a interessante abordagem vampiresca, Only Lovers Left Alive é acima de tudo uma obra romântica, o que fica muito bem caracterizado durante a autoexplicativa cena final. Aqui, porém, essa concepção de romance é muito mais conectada a abordagem literária, do que propriamente, à linguagem cinematográfica. Ao optar por se preocupar com o cotidiano do casal e valorizar as suas experiências, Jim Jarmusch escolhe um caminho ousado para questionar a nossa realidade. Um caminho que o grande público pode não aceitar muito bem, principalmente, por não dialogar tanto com o considerado cinema pipoca.

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