sexta-feira, 25 de maio de 2018

Do Fundo do Baú (O Assalto ao Trem Pagador)

Na última semana o cinema brasileiro perdeu uma das suas vozes mais singulares, o crítico cineasta Roberto Farias (Pra Frente Brasil, Os Trapalhões e o Auto da Compadecida). Numa época em que os movimentos do Cinema Novo e do Cinema Marginal surgiam como um contraponto as desgastadas chanchadas, o saudoso realizador se posicionou entre os grandes sem escolher lados, transitando das obras mais questionadoras aos títulos mais populares numa carreira recheada de títulos de sucessos. O que fica bem claro no seu primeiro grande trabalho, o poderoso O Assalto ao Trem Pagador (1962). Lançado num momento de reafirmação do cinema nacional, O Pagador de Promessas (1962), por exemplo, neste mesmo período ganhava o mundo ao levar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, o longa conquistou o público e a crítica graças a sagacidade de Farias ao entregar uma obra universal que não parecia interessada em pertencer a uma única corrente cinematográfica. Aliando o vanguardismo estético do Cinema Novo ao forte (e franco) viés social do Cinema Marginal, o realizador “esmurra” o estômago do espectador ao mostrar, a partir de uma história real, o impacto da desigualdade social sob um prisma íntimo e assustadoramente atual. Falando a “língua” do povo, Farias nos brinda com uma crônica sobre a vida dos marginalizados na década de 1960, refletindo sobre questões raciais e políticas num thriller de assalto que – infelizmente – insiste em não envelhecer. 



Com roteiro assinado pelo versátil Luiz Carlos Barreto, ao lado de Alinor Azevedo, O Assalto ao Trem Pagador é incisivo ao escancarar a raiz de alguns dos maiores problemas do nosso país: a desigualdade social. Embora inspirado em fatos, o argumento é sagaz ao ampliar o escopo da trama, colocando os dois pés na ficção ao usar o fato em si como o ponto de partida para um retrato íntimo sobre a desamparada posição do indivíduo negro dentro da sociedade brasileira. Num inspirado “duelo de classes”, Roberto Farias é habilidoso ao usar elementos dos filmes de assalto e do cinema ‘noir’ ao construir a rixa entre os criminosos, ao expor as diferentes realidades entre os personagens e ao (re)afirmar o faro seletivo do Estado durante uma investigação policial. Sem grandes invenções narrativas, o roteiro vai direto ao ponto ao narrar a história de Tião (Eliezer Gomes), um assaltante respeitado no morro que, ao lado dos seus parceiros, o fiel Tonho (Átila Iório), o pacato Edgar (Miguel Rosenberg) e o falastrão Cachaça (Grande Otelo), é recrutado por um inteligente criminoso, o boa pinta Grilo (Reginaldo Faria), para executar um audacioso roubo. Após o sucesso da empreitada, o grupo resolve dividir a bolada igualmente, cerca de C$ 30 milhões, com a promessa que ninguém iria gastar mais do que 10% do dinheiro imediatamente para não chamar a atenção da polícia. Não demora muito, porém, para os problemas começarem a surgir, reforçando a desconfiança entre os membros do grupo à medida que os gastos começam a chamar a atenção de um obstinado delegado (Jorge Dória).


Sem nunca abdicar do fator entretenimento, Roberto Farias é astuto ao, a partir de arquétipos bem populares, construir um poderoso thriller dramático. Apesar da sua forte carga de realismo, o realizador é cuidadoso ao desenvolver os seus personagens, ao permitir que criemos um honesto vínculo\repulsa para com eles. Neste sentido, o altruísta Tião surge como uma espécie de Robin Hood tupiniquim, um homem afetuoso e paternal que, andando no fio da navalha, se esforça para ajudar os seus pares sem perder o “respeito” na região. Do outro lado da moeda temos o ambicioso Grillo, um ‘playboy’ com mania de grandeza que, apesar “do seu olho azul e do cabelo loiro”, ostentava um estilo de vida que não era capaz de sustentar. Embora nunca recorra ao puro maniqueísmo, os personagens, em especial, são falhos e suscetíveis ao “vício” da ambição, Farias brilha ao usar esta rixa como o estopim para a construção de uma crônica feroz sobre o choque de realidade entre a vida no asfalto e a vida no morro. Enquanto Tião rouba para ter dignidade, Grillo rouba para ter luxo. Enquanto o dinheiro de Tião era suspeito, o dinheiro de Grillo era cobiçado. Através de diálogos brilhantes, Farias é contundente ao escancarar o preconceito racial, ao mostrar que o enriquecimento puro e simplesmente não era um “fator” igualitário. As regras que valiam para um, não valiam para os outros. Sem querer revelar muito, o dilacerante embate final entre Tião e Grillo escancara com agressividade uma triste realidade, um panorama que, apesar dos nítidos avanços sócio-políticos, segue muito reconhecível aos olhos do público de hoje. O foco de Farias, porém, não está somente neste duelo de classes. Sempre que possível, o realizador flerta com o viés documental ao expor a rotina do marginalizado nos morros, ao mostrar a falta de oportunidades, de saneamento básico, os dilemas morais e a ausência do Estado naquela região. Na verdade, numa realidade que não parece ter mudado muito, a manifestação “governamental” só é sentida com a seletiva ação policial, uma presença invasiva e desumana que pontua a trama com uma frieza desoladora. Farias, entretanto, não parece interessado em chocar. Com um verossímil olhar humano, ele faz um primoroso uso dos símbolos ao estreitar o elo entre asfalto e favela, dando voz a um grupo de pessoas “esquecidas” em pelo menos três sequências poderosas. Na melhor delas, o diretor esbanja delicadeza ao, sob um viés lúdico, sintetizar a perspectiva de prosperidade de uma criança negra numa enfática metáfora envolvendo dois simbólicos objetos.


É aqui, aliás, que O Assalto ao Trem Pagador parece flertar com o virtuosismo estético que viria a definir o Cinema Novo. A realidade, neste sentido, ganha forma da maneira mais cinematográfica possível. Impulsionado pela elegante fotografia em preto e branco de Amleto Daissé, Roberto Farias investe em planos memoráveis, realçando as expressões dos seus comandados em enquadramentos dignos de molduras. Num primeiro momento, por exemplo, o realizador enche a tela de tensão ao construir a realística sequência do assalto. Apostando em estilosos planos detalhes\fechados, a maioria deles de ordem bélica, Farias nos brinda com um ‘mise em scene’ digno dos melhores filmes de western, uma montagem crescente e instigante que fisga o espectador quase que instantaneamente. Com o avançar da trama, no entanto, é interessante ver o esmero do realizador em traduzir a realidade dos moradores de uma favela sob uma perspectiva refinada e mais ampla. Fazendo um revelador uso dos planos abertos, Farias se esforça para imprimir em tela a condição de miséria enfrentada por eles. Num recorte precioso, ele passa a valorizar o segundo plano, indo além dos seus personagens ao mostrar a sujeira, a precariedade das moradias e a situação de abandono dos moradores. O que fica bem claro, em especial, na marcante sequência do monólogo do bebum interpretado pelo gigante Grande Othelo. Somado a isso, é interessante ver a criatividade de Farias ao evidenciar a força de Tião sobre os demais, o colocando, literalmente, como o rei do pedaço ao “rebaixar” a sua câmera perante o protagonista. Um predicado, diga-se de passagem, valorizado pela visceral performance de Eliezer Gomes, que, no seu primeiro trabalho como ator, se impõe facilmente em cena ao criar uma figura terna e ao mesmo tempo ameaçadora.


Contando ainda com os marcantes trabalhos de Reginaldo Faria, Jorge Dória e Luiza Maranhão, esta última magnífica dentro do revoltante clímax, O Assalto ao Trem Pagador se tornou justificadamente uma das maiores pérolas do cinema nacional. Sem a intenção de contemporizar, Roberto Farias causa um inegável desconforto ao escancarar o preconceito racial em solo brasileiro, refletindo sobre a realidade de uma família Negra carioca ao mostrar o quão tênue pode ser a linha entre o ato de ter dinheiro e a conquista da dignidade. O verdadeiro precursor dos ‘hits’ Cidade de Deus e Tropa de Elite.

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