segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Novo filme, novas ideias! A evolução das discussões filosóficas no universo Blade Runner


Escrever uma crítica sobre um filme como Blade Runner 2049 é uma missão realmente difícil. Embora não dependa dos seus "segredos", o corajoso longa dirigido por Denis Villeneuve resolveu avançar as discussões filosóficas presentes no clássico de 1982, rompendo com alguns conceitos ao oferecer novas interpretações sobre as questões existenciais num mundo tecnológico. Como de costume aqui no Cinemaniac, porém, as nossas opiniões são livres de spoilers, o que limitou uma análise mais reveladora acerca das "evolutivas" mudanças pensadas pelo realizador canadense para a continuação. Neste artigo, portanto, irei me aprofundar em alguns destes novos conceitos, expondo um pouco mais da minha percepção sobre o filme e a minha interpretação sobre as ideias defendidas no memorável Blade Runner 2049. Desde já, aviso de spoilers !!!!!!! 

- Mudança no 'status quo' dos replicantes


Logo no primeiro parágrafo da crítica eu escrevi sobre as novidades "no 'status quo' da trama". Na verdade, refletindo sobre a mudança da nossa percepção no que diz respeito às novas tecnologias após três décadas, o roteiro assinado por Hampton Fancher e Michael Green é sagaz ao desenhar o novo 'status quo' dos replicantes. No 'hit' cult de 1982, Ridley Scott sugeriu um futuro pessimista, uma distopia em que a tecnologia (entenda replicantes) não convivia harmoniosamente com os humanos. Apesar da nossa pretensa superioridade, os "androides" lutavam contra a sua condição inferior, se insurgindo contra os humanos ao entender que não eram diferentes dos seus criadores. Eles evoluíram, passaram a ter pensamentos próprios e a buscarem o prolongamento da sua vida. Já em Blade Runner 2049, os replicantes são seres completamente integrados ao dia a dia de Los Angeles. Ao contrário de Roy Batty e sua turma, a nova geração de "androides" foi criada com uma espécie de "trava de segurança", cientes da sua inferioridade perante os humanos.


Os replicantes sabem que são replicantes, seguem a risca a sua programação e sequer cogitam a possibilidade de se rebelarem. Por mais que a crítica envolvendo a nossa "frágil" relação com as novas tecnologias seja relativamente semelhante nos dois filmes, uma abordagem atual que fica bem clara quando percebemos a (perigosa) influência de algoritmos, aplicativos e dispositivos eletrônicos na nossa rotina, a mudança no 'status quo' revela o cuidado de Villeneuve ao criar uma ambientação mais reconhecível aos olhos do público. Afinal de contas, apesar dos escândalos em torno do vazamento de informações sigilosas, o ciberterrorismo e os constantes crimes na "rede", a nossa relação com o virtual é, atualmente, rotineira. Além disso, ao fazer de K um replicante resignado com a sua situação, o longa prepara o terreno para outra importante ruptura envolvendo a estrutura narrativa do 'hit' cult oitentista: a mudança de perspectiva no papel do protagonista.

- Sai Deckard, entra replicante


No quarto parágrafo da minha crítica eu comentei sobre a mudança de perspectiva dentro da trama. Enquanto no primeiro filme "desbravamos" o universo Blade Runner sob o ponto de vista humano (será?) do caçador Rick Deckard (Harrison Ford), em 2049 Dennis Villeneuve brilha ao colocar no centro da trama este novo modelo de replicante. Ao seguir os passos do introspectivo K (Ryan Gosling), a continuação expõe o que não foi mostrado no original, o processo de "humanização" de um "androide" a luz das suas descobertas. Impulsionado pelas mudanças no 'status quo' dissecadas acima, o realizador canadense é sensível ao se debruçar sobre os crescentes conflitos mais íntimos do personagem, revelando a sua raiva, confusão e esperança à medida que ele passa a cogitar a possibilidade de ter nascido "naturalmente" e não ter sido criado. Mais do que enfrentar um humano, K luta contra a sua própria programação, contra os paradigmas idealizados por Wallace (Jared Leto) e o seu "destino".


Por mais que as discussões filosóficas envolvendo a existência humana não sejam tão metafísicas quanto no original, é interessante ver também como Denis Villeneuve reaproveita a teoria do "penso, logo existo" de René Descartes. Embora o subtexto religioso seja bem mais presente nesta sequência, o roteiro dialoga com o dualismo cartesiano proposto pelo filósofo francês ao tratar o termo alma no seu sentido mais amplo. Numa leitura bem básica da sua teoria, a alma representaria a mente, que, por guiar o nosso corpo, definiria a nossa existência. Ou seja, seguindo essa lógica, no momento em que os rebeldes defendem a tese que o replicante nascido detém uma alma, podemos entender que o filme remete a capacidade dele ter pensamentos próprios e memórias reais. Neste cenário, a alma\mente justificaria a existência humana dos replicantes e seria o bastante para uma rebelião na luta pelo fim da pretensa superioridade dos criadores. É neste ponto, aliás, que chegamos ao terceiro tópico que comprova a evolução de Blade Runner 2049 em relação ao original.

- Mudança nos paradigmas envolvendo a definição da existência humana


E aqui chegamos ao ponto em que a evolução da mitologia Blade Runner se torna mais evidente. Numa sacada audaciosa, Denis Villeneuve arrisca ao mudar os paradigmas envolvendo o debate existencial em torno dos replicantes. No clássico de 1982, Roy Batty defendia uma tese mais metafísica, acreditando que os seus pensamentos, sentimentos e as suas memórias já definiriam a sua humanidade. Neste cenário, os replicantes queriam primeiro a sobrevivência, já que o seu tempo de vida era curto, e depois a fuga e o isolamento. A busca pelo reconhecimento da sua existência era algo estritamente individual. É interessante ver como o filme se concentra simbolicamente nos olhos dos personagens e os tratam como a verdadeira "janela da alma". Além de expor as diferenças entre replicantes e humanos, o olhar surge como a representação da porta de entrada para as experiências humanas. No seu discurso final, Roy atrela a sua existência às memórias, à sua percepção visual. "Eu vi coisas que vocês homens nunca acreditariam...", diz o poético personagem refletindo sobre a sua humanidade num cenário em que os "androides" eram caçados quando não seguiam a sua programação. Segundo a teoria citada acima de Descartes, os olhos\sentidos fariam então parte da ponte entre o corpo e alma (entenda mente), o que explica o uso simbólico deste órgão ao longo do primeiro filme. Nas entrelinhas, inclusive, Ridley Scott mostra inspiração ao questionar a nossa cegueira neste mundo tecnológica, o que fica bem claro com o doloroso destino do grande antagonistas da trama, o "criador" Eldon Tyrell (Joe Turkel).



Já em Blade Runner 2049, trinta anos após os episódios do primeiro filme, Denis Villeneuve troca a metafísica por uma abordagem bem mais material ao discutir a existência replicante diante de uma nova perspectiva. Por mais que o argumento siga usando a memória como o estopim para a discussão envolvendo a humanidade de K, o realizador canadense é sagaz ao jogar novas peças na mesa, proporcionando um inquietante debate ao abraçar conceitos mais biológicos. Na verdade, a ruptura entre os dois filmes nesse sentido já começa a ficar claro com a figura de Niander Wallace (Jared Leto), o novo criador de replicantes, um homem cego com uma visão de futuro bem sólida, prática e "empreendedora". Em outras palavras, os olhos, aqui, se tornaram supérfluos. O velho "penso, logo existo", entretanto, soa ainda mais "datado" no momento em que descobrimos o plot da trama, o nascimento de uma criança gerada por um replicante, no caso a apaixonante Rachel (Sean Young). Numa inspirada mudança de paradigmas, enquanto em Blade Runner os "androides" associavam a sua existência aos pensamentos\memórias, em 2049 o longa avança a discussão ao usar o "milagre" da vida como uma prova material da sua humanidade. As criaturas passaram a ser criadores. Os "peles falsas" se veem capazes de gerar um ser naturalmente, colocando um aparente fim na pretensa superioridade humana e nas barreiras que os "separavam" dos seus criadores. Com esta reveladora descoberta, a reação dos replicantes muda drasticamente. A fuga e o isolamento deixam de ser o seu destino. A rebelião se torna coletiva. A busca não é mais pelo reconhecimento da sua existência, mas pela igualdade, pelo fim da opressão\programação, pela construção de uma identidade própria. O que nos leva a questões ainda mais atuais.

- Real x Virtual: o "novo" debate filosófico proposto por Denis Villeneuve


Além de se aprofundar no debate filosófico envolvendo a existência humana dos replicantes, Blade Runner 2049 se volta para a sua própria origem ao discutir a diluição das barreiras entre o real e virtual numa sociedade regida pela tecnologia. Tema central do conto Androides Sonham com Ovelhas?, obra de Philip K. Dick que inspirou o filme Blade Runner (1982), a presença dos elementos virtuais casa perfeitamente com a proposta contextualizada defendida por Denis Villeneuve. Após três décadas do lançamento do longa original, a visão de mundo 'hi-tech' mudou bastante. Enquanto nos anos 1980 o conceito futurista era frequentemente associado a carros voadores, robôs humanizados e cidades verticais, nas décadas seguintes a tecnologia ganhou uma forma cada vez mais 'clean' e virtual. Internet, redes sociais, algoritmos, aplicativos, inteligência artificial passaram a fazer parte da nossa rotina, guiando os nossos passos, ampliando os nossos horizontes e nos conectando a um mundo integrado. Sob este ponto de vista, Villeneuve brilha ao dialogar com temas bem mais atuais, principalmente quando o assunto é a relação entre K e a devotada Joi (Ana de Armas).


Buscando referência em títulos como o recente Ela (2013), Blade Runner 2049 fascina ao discorrer sobre a nossa relação com este universo virtualizado. Além de se insurgir contra o sexisimo e a idealização do rótulo da mulher submissa, Denis Villeneuve instiga ao debater a existência de uma inteligência artificial, criando um inteligente paralelo entre o código binário e o DNA. Através desta singela história de amor, o canadense amplia o escopo da trama ao falar sobre a virtualização dos sentimentos e sobre a crescente gama de experiências artificiais. A partir da desmotivada figura de K, Villeneuve tece um crítico comentário acerca da conduta humana neste cenário, expondo a nossa apatia social, a solidão e a inércia diante destas novas tecnologias. Nas entrelinhas, inclusive, o argumento é bem mais cínico ao mostrar que por trás dos sinceros (e evolutivos) sentimentos da virtualizada Joi existia uma programação artificial, um elemento dúbio que reforça a nossa vulnerabilidade num ambiente, volto a frisar, regido por algoritmos, aplicativos e dispositivos eletrônicos. No final das contas, mais do que discutir a existência física\humana, o novo Blade Runner aprofunda os questionamentos ao debater também sobre o que é real e o que é virtual neste contexto 'hi-tech', tornando a relação entre K e Joi um dos arcos mais reflexivos desta excelente continuação.

- A realidade influenciando a ficção


Por fim, em meio a tantos debates filosóficos\existenciais, Blade Runner 2049 buscou inspiração na vida real ao construir o seu principal plot. Após um pequeno mistério envolvendo o destino de Rachel, Denis Villeneuve revela que a replicante teve dois filhos e morreu no parto. Um deles também não sobreviveu. O outro, dono de uma rara doença genética, teve que ser criado em confinamento, caso contrário não resistiria as bactérias presentes na atmosfera. Um arco genuinamente íntimo que, para a minha surpresa, dialoga com episódios da vida de Philip K. Dick, o escritor por trás de Blade Runner. Na verdade, além de também perder a sua irmã gêmea algumas semanas após o parto, ele nasceu com a saúde frágil, tanto que seus pais não esperavam que ele fosse sobreviver. Reza a lenda, inclusive, que eles chegaram a separar um espaço para que o seu filho fosse enterrado ao lado da irmã, mas o escritor resistiu e viveu até os 50 anos. Este precoce contato com a morte, aliás, explica o pano de fundo presente no clássico de 1982, principalmente quando o assunto é a constante luta dos replicantes por novas "atualizações" e pela sobrevivência. Em Blade Runner 2049, porém, esta referência surge como uma emblemática homenagem ao escritor que, numa infeliz peça do destino, faleceu poucos meses antes do lançamento de Blade Runner (1982) e não pode ver a sua obra se tornar referência dentro da ficção-científica.

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