sábado, 14 de outubro de 2017

A Morte te dá Parabéns

O assassino da ressaca


Um dos principais responsáveis pelo reaquecimento do saturado gênero Terror, a Blumhouse Productions se sobressaiu entre as gigantes ao encontrar a fórmula do sucesso num mercado sedento pelo lucro. Reconhecida pelas suas produções de baixo orçamento, a empresa fundada pelo produtor Jason Blum entendeu que boas ideias podem valer mais do que um elenco de peso e os caros efeitos visuais. Dando voz a novos realizadores, a companhia se tornou referência dentro do segmento ao prezar pela originalidade, pela qualidade técnica e pela construção da atmosfera, resgatando o viés mais democrático do Cinema ao comprovar que é possível tirar do papel um grande filme sem depender das estrondosas cifras de Hollywood. Logo no seu primeiro projeto, o instigante Atividade Paranormal (2009), a Blumhouse causou um enorme frisson ao produzir uma das películas mais rentáveis da história, uma obra de apenas US$ 15 mil que faturou inesperados US$ 193 milhões ao redor do mundo. Impulsionado pelo triunfo comercial da franquia, que, nos quatro primeiros filmes, conseguiu mais de US$ 720 milhões nas bilheterias, Jason Blum solidificou o elogiável status da sua produtora nos anos seguintes com títulos como os populares Sobrenatural (2011), Uma Noite de Crime (2013), O Presente (2015) e A Visita (2015). Em 2017, porém, o salto de qualidade da companhia se tornou realmente evidente. Após entregar dois dos filmes mais surpreendentes do ano, o intrigante Fragmentado e o ácido Corra!, a Blumhouse volta aos holofotes com o divertidíssimo A Morte Te da Parabéns, uma obra descolada que sintetiza o conceito defendido pela empresa. Numa mistura de O Feitiço do Tempo (1993), com Pânico (1996) e Meninas Malvadas (2003), o longa dirigido por Christopher Landon (Como Sobreviver a um Ataque Zumbi) empolga ao reciclar velhas ideias dentro de um contexto extremamente criativo, substituindo a violência 'gore' pelo humor afiado num 'slasher movie' tenso e escapista (e barato!).


Com roteiro assinado por Scott Lodbell, da séria animada X-Men (1992-1997), A Morte te Dá Parabéns acerta ao fazer do descompromisso o seu primeiro grande aliado. Apesar da engenhosa narrativa cíclica chamar a atenção, Chritopher London é perspicaz ao não tentar encontrar uma lógica por trás do "fenômeno" presente no argumento, tornando a desventurada situação da protagonista ainda mais inquietante e imprevisível. Sem a intenção de buscar explicações supérfluas e motivações complexas, o realizador opta por se concentrar no simples duelo entre a vítima e o assassino, na inusitada busca dela pela identidade do seu perseguidor, se insurgindo contra o clichê da donzela indefesa ao tornar este embate cada vez mais íntimo e igualitário. Neste sentido, inclusive, a postura da personagem principal combina bem mais com a destemida Laurie (Jamie Lee Curtis) de Halloween (1978) do que com a reativa Sidney (Neve Campbell) de Pânico. E isso só potencializa o fator entretenimento. Na trama, seguimos os passos da aniversariante Tree (Jessica Rothe), uma universitária fútil e popular que levava uma rotina de farra numa fraternidade feminina. Após uma noite de bebedeira, ela acorda no quarto do deslocado Carter (Israel Broussard), um garoto simples que, em condições normais, nunca teria a conhecido. Com uma "reputação" a zelar, a jovem logo se livra do rapaz, iniciando um novo e atribulado dia. No caminho para o que iria ser a sua festa de aniversário, entretanto, Tree é atacada por um misterioso homem e morre. Só que, num acaso do destino, ela ganha a oportunidade de reviver este trágico dia de novo, e de novo, e de novo, percebendo que a fuga, aqui, não seria uma opção.


Assim como no clássico O Feitiço do Tempo, A Morte te dá Parabéns esbanja astúcia ao não tornar a jornada da protagonista repetitiva aos olhos do público. Sem tempo a perder, Christopher Landon preenche a película com um 'mise en scene' ágil marcado pelas inteligentes pistas falsas, pelos diálogos irônicos e pelas sequências naturalmente tensas. Num primeiro momento, por exemplo, o realizador é sagaz ao utilizar os ciclos de vida de Tree para introduzir as possíveis identidades do assassino, para estabelecer a relação dela com aqueles que a cercavam, permitindo que o público tenha uma participação mais ativa na trama. Com o avançar do longa, inclusive, é interessante ver o esmero de Landon ao respeitar a lógica dos assassinatos anteriores, se esquivando do teor manipulativo ao reduzir gradativamente o número de acusados. Apesar do constante vai e vem, o roteiro se encaixa perfeitamente quando o assunto é a identificação do criminoso, oferecendo uma resolução satisfatória e completamente plausível. O espectador em nenhum momento é enganado. Outro ponto que agrada, e muito, é o cuidado do argumento ao adicionar novas informações acerca dos coadjuvantes. Após os dois, três primeiros ciclos, Landon é inventivo ao acelerar o processo, ao introduzir novos elementos sem necessariamente reiniciar um outro dia. No embalo da afiada montagem, ele torna as mortes de Tree cada vez mais práticas, flertando constantemente com o humor ao revelar o exótico processo de investigação da heroína. A cada nova ação dela, novas possibilidades surgem, dando ao diretor a liberdade necessária para a construção do mistério em torno da identidade do vilão e para o desenvolvimento narrativo da própria protagonista.


É aqui, aliás, que A Morte te Dá Parabéns realmente se destaca. No melhor estilo Meninas Malvadas, Christopher London é ácido ao expor a faceta mais fútil dos jovens norte-americanos, investindo pesado em personagens propositalmente vazios e estereotipados. Neste cenário, Tree surge como uma espécie mais humana de Regina George (Rachel McAdams), uma 'bitch' imatura e egocêntrica que aceita passivamente a superioridade atribuída ao seu nicho. Numa sacada realmente criativa, ao aproximar a sua heroína do que seria o arquétipo de uma vilã, o diretor não só valida o seu comportamento mais raivoso, como também encontra as brechas necessárias para a construção de um arco moral reconhecível aos olhos do público 'teen', permitindo que a personagem amadureça harmoniosamente ao longo da trama. Uma opção, diga-se de passagem, valorizada pela magnética performance de Jessica Rothe, radiante ao compor um tipo ora odioso, ora desesperado, ora indomável. No centro da tela durante os fluídos 95 minutos de projeção, a promissora atriz consegue mostrar o melhor e o pior da sua Tree sem nunca soar antipática, traduzindo a absurda situação dela com energia e expressividade.


As suas reações, inclusive, são sempre muito convincentes, capturadas com extrema convicção pelos nervosos (e centralizados) primeiríssimos planos do diretor de fotografia Toby Oliver (Corra!). Após os empolgantes dois primeiros atos, entretanto, Landon derrapa ao tentar transformar o último ato em algo maior do que precisaria ser. Apesar do esforço em se aprofundar nos dilemas mais íntimos da protagonista, o realizador flerta com o sentimentalismo ao resolvê-los de maneira descuidada, rompendo brevemente com a aura descompromissada do longa sem grande necessidade. Além disso, embora funcione a contento, o clímax tenta soar mais esperto do que é, resultando num desfecho que, bem, não deve parecer tão surpreendente aos olhos dos fãs mais experimentados dentro do gênero. Em contrapartida, Landon é genial ao associar os golpes do assassino aos sintomas da ressaca (queimação no estômago, dor de cabeça, garganta seca, enjoo), uma analogia inspirada que se torna evidente a cada novo despertar de Tree e que faz todo o sentido dentro do contexto defendido pelo roteiro. Na verdade, tal qual o assassino da película, a ressaca pode não matar, mas faz um estrago danado no corpo da sua "vítima". 


Indo além dos predicados narrativos, A Morte te Dá Parabéns é também um filme visualmente estiloso. Para amenizar a classificação indicativa do longa, Christopher London é habilidoso ao explorar o poder da sugestão no que diz respeito às sequências mais violentas, investindo em inventivos efeitos de transição ao interligar as mortes de Tree ao seu pronto despertar. Além disso, o realizador norte-americano surpreende ao exibir também um vasto repertório técnico, incrementando o jogo de gato e rato da protagonista ao apostar em engenhosos planos conjuntos e espertos movimentos de câmera. As cenas de perseguição, em especial, são tensas e empolgantes, potencializadas pela capacidade do realizador em reunir toda a ação num mesmo quadro. E isso, pasme você, com modestos US$ 4,8 milhões de orçamento. Em suma, embora vacile no seu terço final, A Morte te Dá Parabéns revigora um combalido segmento do cinema de Terror ao propor uma perspicaz mistura de gêneros. Um filme com uma identidade própria, moderna e indiscutivelmente jovem que acerta ao buscar um honesto diálogo com o seu público alvo.

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